O Lado Azul do Novembro Negro

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Desde o ano de 2003, a lei 10.639, em seu artigo 79-B, inclui o dia 20 de novembro no calendário escolar como dia Nacional da Consciência Negra, haja vista, que foi na data de 20 de novembro de 1695 que morreu Zumbi dos Palmares. Novembro é, então, um mês dedicado a reflexões, debates e ações em torno da consciência sobre esse país ser também negro, uma realidade que costuma ser negada, muitas vezes. A vigilância comemorativa não é sem razão, porque a memória social é um aporte importante da nossa identidade enquanto nação, que foi formada a partir de três matrizes étnicas, a luta é para que negros brancos e índios sejam representados igualmente em nossa história.

 Atualmente, o mês de novembro está em franco status de disputa, uma vez que também é chamado “Novembro Azul”. Nele, o ministério da saúde faz uma  convocação nacional aos homens para que façam o exame de prevenção ao câncer de próstata.  É importante atentar para o fato de que esse tipo de câncer tem uma incidência diferenciada em termos étnicos, segundo estudo publicado na revista científica British Journal of Cancer a partir de uma pesquisa realizada na Inglaterra, foi constatado que o câncer de próstata é maior entre os homens negros. Esse dado chama atenção e aponta para um recorte importante da nossa sociedade, que deveria ter conhecimento sobre o resultado dessa pesquisa e aumentar seus cuidados preventivos. Portanto, o conteúdo dessa pesquisa deveria ser melhor explorado, somando forças ao novembro negro, afinal  a campanha de conscientização sobre o câncer de próstata e o Dia da Consciência Negra têm uma confluência de interesses e um mês em comum. Acredito, que esse é um ponto que deveria ser discutido de forma mais ampla, explorando-se a convergência das datas para um maior alcance das duas causas. A saúde da população negra também é uma questão de consciência.

Valdineia Oliveira dos Santos

Prof. Rede Pública Estadual de Ensino

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Resenha PW: Áfricas no Brasil

Oi! Tudo bem? Estamos no mês de novembro e, neste período do ano, todas as nossas publicações abordam aspectos da História e Cultura Africana. Assim, fortalecemos as ações do projeto Novembro Negro, que acontece em todo o estado.

Em 2003, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 10.639, que obriga a inclusão da temática da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da Rede de Ensino. Na instituição em que você estuda, os professores já estão implementando a Lei? E você, educador, tem encontrado bons materiais para levar a discussão para a sala de aula?

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Fig. 1: Áfricas no Brasil: linguagem simples e boas referências. Imagem: reprodução do site da editora Scipione

O livro Áfricas no Brasil, de Kelly Cristina Araujo, é um bom começo para isso. Publicada no mesmo ano de sanção da lei, a obra aborda, de forma bastante didática, “as tradições e costumes dos povos africanos que aportaram no Brasil”.

No primeiro capítulo, Onde fica a África?, a autora convida o leitor para prestar mais atenção ao continente, a fim de perceber o quão perto ele está de nós. Em seguida, no capítulo 2, As rotas para o Brasil, Kelly fala mais detidamente do tráfico de escravos, destacando a violência como isso foi feito. Religião e solidariedade: o candomblé e as irmandades dos homens pretos é o assunto do excelente capítulo 3. Nele, a autora coloca em debate os traços culturais da África que foram incorporados à cultura brasileira. Para isso, faz um recorte e fala sobre o candomblé e as irmandades católicas de negros. Kelly, obviamente, não deixa de citar a Bahia nessa parte: “O primeiro terreiro de candomblé do Brasil instalou-se em Salvador, na Bahia, conhecido hoje como Casa Branca do Engenho Velho”, p. 17.

O quarto (Um reino chamado Congo…) e o quinto (…E uma festa chamada congada) capítulos são complementares. A autora se debruça sobre o Congo e destaca as suas tradições, como as congadas. No sexto, A Capoeira, o jogo é o protagonista. Segundo Kelly, a capoeira “talvez seja a manifestação mais brasileira de todo o universo cultural afro-brasileiro”, p. 41. No capítulo, ela cita a capoeira angola e a capoeira regional e faz uma análise geral das características da manifestação. No sétimo e último capítulo, O Brasil na África, o destaque vai para as comunidades africanas com raízes brasileiras. No Benin, de acordo com a autora, os povos que se consideram “brasileiros” são chamados de agudá; na Nigéria, amarô. Nesse capítulo, Kelly fala sobre a cultura brasileira que foi levada para a África e as tradições comuns ao continente e ao país. Como exemplo, cita a festa do Nosso Senhor do Bonfim, que é comemorada no mês de janeiro, no Benin. Algo familiar à nossa cultura, não é?

O livro é voltado para crianças a partir de 11 anos, mas estudantes e educadores de todas as idades devem ler e aproveitar o que a autora coloca em discussão. É muito bom para começar.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Referência:

ARAUJO, Kelly Cristina. Áfricas no Brasil. São Paulo: Scipione, 2003. (Série Diálogo na Sala de Aula).

Com ciência Negra

Olá, galerinha do PW! No mês passado, celebramos o Dia da Consciência Negra e nada mais justo que falarmos dos afro-americanos que colaboraram no campo das ciências. Infelizmente, a escola e os próprios livros não destacam a importância e as descobertas desses pesquisadores, mas este panorama já vem mudando! Os movimentos negros vêm numa trajetória de resgate desta história e na luta por igualdade de oportunidades e direitos, e de lá pra cá, muita coisa tem mudado. Vamos conhecer um pouco mais sobre a vida e as realizações feitas por esses cientistas. Vamos Lá!

George Washington foi um filho de escravos que nasceu no Missouri. Aprendeu a ler e escrever com seus proprietários, pois as escolas da época não aceitavam negros. Mais tarde, formou-se no Iowa State Agricultural College e tornou-se mestre. George, destacou-se na área da botânica e foi responsável pelo desenvolvimento de vários métodos de colheita alternativa. Ele também criou várias invenções para tornar o trabalho no campo menos árduo, porém nunca patenteou nenhum deles.

Já século XXI, a Dra. Mae C. Jemison torna-se a primeira mulher negra a viajar para o espaço. Com notável talento para os estudos, conclui o ensino médio com apenas 16 anos de idade, entrando na Universidade de Stanford, onde graduou-se em Engenharia Química e Estudos Africanos. Impulsionada por seus ideais, frequentou a Universidade Cornell, onde formou-se em medicina e passou a trabalhar como voluntária no Peace Corps (Corpo da Paz), na África Ocidental. Mesmo diante do pessimismo de todos que afirmavam que ela não conseguiria ser astronauta, Jemison entra na NASA e cinco anos depois foi ao espaço, onde realizou experimentos com células ósseas. Hoje, Jemison montou sua própria empresa, onde realiza trabalhos na área de ciências e tecnologia.

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Dra. Mae C. Jemison: primeira mulher negra a viajar para o espaço

No campo da medicina, destacam-se Charles R. Drew, pioneiro no desenvolvimento do banco de sangue; e Patricia Era Bath, oftalmologista, que criou o primeiro tratamento a laser para cataratas. Drew destacou-se nos seus estudos a respeito do plasma e o desenvolvimento de técnicas para a sua armazenagem, o que favoreceu a criação dos primeiros bancos de sangue nos Estados Unidos. Já Bath quebrou duas grandes barreiras, a primeira por ser mulher e a segunda por ser negra. Antes dela, nenhuma mulher havia trabalhado no Instituto Oftalmológico Jules Stein, onde acabou liderando várias pesquisas, tornando-se a primeira mulher negra a receber uma patente médica.

Por fim, não poderíamos deixar de citar Neil Degrasse Tyson, famoso astrofísico e divulgador científico. Tyson nasceu em Manhattan, em Nova York, estudou Bronx High School of Science, com ênfase em astrofísica. Como cientista, se dedicou na pesquisa sobre a formação e evolução estelar, bem como cosmologia e astronomia galáctica. É autor de vários livros e artigos, dentre eles “The Perimeter of Ignorance” (), em que expõe sua opinião sobre temas polêmicos a respeito da religião e a ciência.

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Neil Degrasse Tyson: famoso astrofísico e divulgador científico

Legal, não é? Vamos conhecer mais sobre o movimento negro no mundo? Acesse agora o AEW e aprenda mais!

 

Referências:

Disponível em http://super.abril.com.br/blogs/superlistas/7-cientistas-negros-que-voce-deveria-conhecer/, acessado em 29/12/2014

Disponível em http://www.planalto.gov.br/seppir/20_novembro/apres.htm, acessado em 29/12/2014

Disponível em http://www.prela.nexus.ao/Pag/alguna_vez_un_negro.htm, acessado em 29/12/2014

Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Neil_deGrasse_Tyson, acessado em 29/12/2014

 

André Soledade

Professor da Rede Pública de Ensino da Bahia

 

 

O que comemorar. O que ensinar

O nosso calendário escolar é repleto de datas comemorativas, de caráter civil, religioso ou cultural. A escola integra um contexto social mais amplo e é fato que tais datas, ou o trabalho pedagógico em torno delas, ocupam o cotidiano escolar, influenciando definitivamente a formação dos estudantes. Em novembro, mês em que se comemora a Consciência Negra, vale reiterar as proposições feitas neste blog sobre as abordagens que realmente podem colaborar para uma formação cidadã. Nesse sentido, vale uma leitura cuidadosa da lei federal nº 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas de Ensino Fundamental e Médio, com o objetivo de promover uma educação que reconheça e valorize a diversidade, comprometida com as origens do povo brasileiro.

No início de 2003, deu-se a alteração da Lei, que determinou os seguintes artigos:

Art. 26 – A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

§ 1ª – O Conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2ª – Os Conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.

Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”.

Imagem: Josymar Alves
Imagem: Josymar Alves

Todos estes dispositivos legais encontraram nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnicos-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana as orientações para formulação de projetos comprometidos com a educação de relações étnico-raciais positivas.

No entanto, para a consolidação de uma política curricular capaz de combater o racismo e as discriminações, especialmente dos negros, cabe refletir sobre o modo de tratar os conteúdos que estão envolvidos nessa questão. Simplesmente resguardar novembro para aprofundamento desse debate, não garante as mudanças desejadas para a educação. Assim, cabe a defesa de que professores tratem deste tema de modo transversal, ou seja, num trabalho sistemático, contínuo, abrangente e integrado no decorrer de toda a escolarização. Para trabalhar estes conteúdos adequadament,e não se pode ter uma perspectiva disciplinar rígida, há que se considerar que interdisciplinaridade e transversalidade alimentam-se mutuamente.

Conteúdos que envolvem mais que conceitos, procedimentos e atitudes sugerem aprendizagem sobre a realidade, na realidade e da realidade, e devem vislumbrar intervenções na realidade para transformá-la. A Consciência Negra, por exemplo, pode ser trabalhada a partir do cotidiano dos alunos e em atividades organizadas pela escola. Essas atividades devem estar inseridas no trabalho pedagógico, e não apenas num momento isolado de reflexão.

Imagens e textos de periódicos, programas de TV e outros produtos audiovisuais, podem ser um excelente recurso para que a escola desenvolva um trabalho de qualidade! É um modo de o aluno ver além de sua escola, sem sair fisicamente dela, para uma participação mais ativa e crítica na vida social. Para diversificar as possibilidades de ação em sua escola, visite o http://ambiente.educacao.ba.gov.br.

Referências:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm.

http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2012/10/DCN-s-Educacao-das-Relacoes-Etnico-Raciais.pdf.


Lilia Rezende

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia

 

Resenha PW: Afro-Brasil em Cordel, de Nezite Alencar

‘ – O que sabemos da África?’”
boa pergunta foi feita
porque a nossa visão
sobre a África é muito estreita
ou melhor, manipulada,
distorcida e deformada,
mas até agora ‘aceita’.

A lei enfim determina
que seja a África estudada.
É justa, é necessária
e também muito acertada.
A visão colonialista,
tão injusta e elitista
tem de ser desmacarada”.

As duas estrofes acima abrem o excelente livro Afro-Brasil em Cordel, de Nezite Alencar, escritora e historiadora cearense. Publicada pela primeira vez em 2007, a obra é toda escrita em literatura de cordel e traz informações eslcarecedoras sobre a história da África e dos negros no Brasil.

Com um tom crítico na medida certa, Nezite fala sobre o preconceito que existe em relação ao continente africano, enfatizando que é um história que precisa ser recontada. Principalmente, tirando a visão de que o europeu foi o responsável por levar “luz e civilização” para lá.

Imagem: reprodução do site da editora Paulus
Imagem: reprodução do site da editora Paulus

O tráfico de escravos e o sofrimento que acontecia nos navios negreiros são abordados pela autora. Ao ler os versos, o pensamento é de revolta e reflexão: “…num porão comprimidos/Vinham entre ais e gemidos/escravos em multidão”. Será que a sociedade de hoje ainda não insiste em querer nos deixar nos porões?

Sobre a escravidão no Brasil, Nezite acerta ao falar da coisificação do negro e propõe que o 13 de maio seja rediscutido. Obviamente, não deixa de citar Zumbi dos Palmares e a sua história de resistência.

No final da obra, mais uma reflexão pertinente:

“Ter o 20 de novembro
como data oficial
é uma forma de luta
já em nível nacional,
daqueles que, com amargura,
sofrem em bela pele escura
discriminação racial.

[…]

Que as várias etnias
convivam em fraternidade,
a beleza do país
está na diversidade;
convivamos como iguais,
mas que o negro jamais
perca a sua identidade”.

Até o próximo!

Referência:

ALENCAR, Nezite. Afro-Brasil em cordel. Ilustrações Robson Araújo. São Paulo: Paulus, 2007. (Coleção Cordel).

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública de Ensino da Bahia

O Novembro Negro e a Nossa Consciência

É novembro, mês da Consciência Negra. Nessa data, algumas pessoas costumam questionar: para quê isso? O Brasil é mestiço, somos humanos, vivemos em uma democracia racial etc. Todas essas retaliações têm como fundo a intenção de diminuir a importância do dia 20 de novembro e mascarar a realidade: o Brasil é um país desigual, com uma sociedade  profundamente hierarquizada e os negros ocupam a posição mais inferior.  A verdade é que muitos gostariam que os negros continuassem na condição de subalternos e se incomodam com o fervor e a vigilância comemorativa do mês de novembro.

A consciência negra precisa ser permanentemente vivificada, a pobreza no Brasil tem cor e incide sobre a população negra, de tal forma que pobre e negro já se tornou sinônimo. Triste legado de uma população que foi transplantada de seu continente para ser escrava e que enfrenta, no cotidiano, pobreza, racismo e preconceito. O capitalismo e o racismo unem-se no propósito de manter um povo subjugado a serviço do outro a baixo preço. Não há porque se conformar, estejamos conscientes de que há uma engrenagem determinando papéis e muitos lucrando com isso.

O Brasil é um país que não lida bem com suas questões de origem, o mercado traduz bem isso. Existem aqui artimanhas discursivas, utilizadas por campanhas publicitárias, que usam eufemismos para afirmar que seu produto tem status “diferenciado”. Ora, isso quer dizer o quê? Que é produto selecionado. Resta-nos perguntar para quem  e chegar à conclusão obscena de que existem produtos para negros e para brancos na “democracia racial” brasileira.  Até quando vamos fingir tacitamente que negros estão no lugar que escolheram estar e não crescem profissionalmente porque não se esforçam? É preciso abrir os olhos e lidar com o óbvio: a maior parte da população brasileira é negra e mestiça e não aceita mais servir conformadamente aos brancos.

O acesso a educação está fazendo com que os negros ocupem cada vez mais espaço na sociedade e economia do país. Com isso, se fortalece a luta por igualdade e diretos. É preciso, portanto, que haja um chamado às consciências e uma discussão frequente para desconstruir o racismo e o preconceito.  Veja a seguir o vídeo da campanha Cidadania e Direitos Humanos (clique na imagem abaixo):

Campanha

A população branca do país tem o privilégio da boa reputação pública, enquanto negros são, frequentemente, considerados cidadãos de segunda classe. Há uma luta sendo travada pelos direitos da população negra, todos devemos apoiar. Vamos esclarecer: se você tem direitos que outros não têm, isso é um privilégio. E a questão que envolve a consciência está aí: aceitar que isso seja contestado, apoiar as lutas por igualdade é ser socialmente justo.

A positivação da identidade social dos negros, passa antes, pelo direito à memória. Por isso, é preciso ser vigilante na lembrança dos nossos heróis negros da Conjuração Baiana (clique na imagem abaixo para assistir ao vídeo):

Búzios

Professores, parem de fazer representações teatrais que rememoram o tronco e a chibata. Vamos construir conhecimentos que afirmem a não passividade dos negros diante da escravidão. Houve resistência sim, importantes revoltas como a Revolta dos Malês (clique na imagem abaixo para assistir ao vídeo):

Malês

Em novembro e sempre, tenhamos consciência sobre os direitos humanos. Saudemos nossos heróis negros!

Valdineia Oliveira

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia

Cine PW: Samba Riachão

O documentário Samba Riachão (2001), de Jorge Alfredo, é uma obra bastante significativa para quem quer saber e entender um pouco sobre a história do samba, principalmente o da Bahia. Ao colocar o sambista Riachão como protagonista, o cineasta produziu uma narrativa em que fica evidente o quanto Clementino Rodrigues, verdadeiro nome de Riachão, se confunde com o samba. E vice-versa. O nome do documentário já evidencia isso. É como se Jorge batizasse uma vertente do samba como sendo “Riachão”, para contrapor à samba-canção, samba de roda, samba-reggae e etc. Por isso, não há vírgula no título. O “Riachão”, no caso, não é vocativo; é adjetivo. Ou seja, o nome do filme não remete a um comando para que Riachão sambe (com a vírgula: “Samba, Riachão”), mas traz a ideia de que Riachão é o próprio samba. Boa sacada!

A obra

Os oitenta e nove minutos do filme trazem depoimentos de pessoas famosas do cancioneiro brasileiro, como Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Armandinho, Daniela Mercury e Tom Zé. Todos falam sobre samba e sobre Riachão. Estudiosos da área também depõem sobre o ritmo e fazem elogios ao cronista do samba baiano, como Riachão é conhecido.

A obra adentra na intimidade de Clementino, com locações na casa dele, no Pelourinho, onde Riachão sempre aparece cercado de amigos, fazendo uma roda de samba, e no bairro do Comércio. Numa das tomadas, o documentário mostra Riachão se preparando para sair de casa. Nesse sentido, todas as atenções se voltam para o emblemático e já folclórico figurino do artista, em que uma toalha está sempre no pescoço.

Um pouco mais de Riachão

Clementino Rodrigues nasceu em 14 de novembro de 1921, na Fazenda Garcia, em Salvador, onde continua morando atualmente. Ele tem mais de 500 composições criadas, sendo as mais conhecidas Cada Macaco no Seu Galho (que já foi gravada por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gang do Samba, Lampirônicos e Anastácia), Retrato da Bahia (gravada por Trio Nordestino) e Vá Morar com o Diabo (que se popularizou na gravação feita por Cássia Eller, em 2001). Riachão costuma dizer o seguinte sobre sua própria arte: “Eu sou o artista que me torno uma nota musical para levar alegria ao povo”.

Em 2009, a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia publicou o livro Riachão: o cronista do samba baiano, de autoria da jornalista Janaína Wanderley da Silva. A biografia integra a coleção Gente da Bahia, que é distribuida gratuitamente. Quem tiver interesse em adquirir o livro sobre Riachão (e os outros títulos da coleção!), basta enviar um e-mail para cerimonialba@gmail.com e solicitar. Há poucos exemplares no acervo. Então, corra!

#FicaADica: o vocativo é uma palavra ou expressão utilizada para se referir a um interlocutor. Ou seja, a alguma pessoa com a qual a gente conversa. A ideia é expressar um chamado. O vocativo é acompanhado de uma pausa e, quando vem no interior de uma oração, deve vir acompanhado de vírgula. Exemplos: “Canta aí, Riachão!”, “Senhor, que horas são?”, “Não adianta disfarçar, professora, a gente já percebeu que a senhora está chorando”.

Diversidade étnico-racial é destaque no programa Intervalo

O quadro Diversidades, que integra o programa Intervalo, produção da TV Anísio Teixeira que estreou no dia 28 de outubro, na TVE-BA, discute temas que são debatidos com frequência na sociedade. O objetivo é  ouvir a opinião da comunidade escolar sobre tais temas e fomentar a discussão. Um dos episódios do quadro abordou a temática da diversidade étnico-racial, um assunto relevante e sempre atual. No vídeo, especialistas, professores e estudantes deixaram boas reflexões sobre racismo, preconceito e discriminação. Acesse http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/3851, assista e dê a sua opinião também! O Intervalo vai ao ar, de segunda a sexta, às 18h30, na TVE-BA.

 

 

Invenções Africanas

E aí, galera! Beleza?

Como vocês devem acompanhar na mídia, muito do que se fala sobre a África é a respeito de seus problemas , mas acabam esquecendo de falar sobre suas vitórias e sobre tudo que é criativo e construtivamente produzido pelos povos deste continente. Por isso, resolvemos compartilhar alguns inventos tecnológicos africanos que quase ninguém conhece.

padO camaronês Marc Arthur Zang Adzaba criou o Cardiopad, um “tablet” capaz de realizar exames cardiológicos como o ECG (eletrocardiograma), visando atender à população rural onde tais exames não podem ser feitos devido a falta de hospitais e da distância do centro. Está disponível, inicialmente, apenas em Camarões.

 

Carregador

E que tal recarregar o celular ao andar? Pois essa foi oi a ideia do queniano Anthony Mutua, que criouum carregador que utiliza chip’s ultra-finos de cristal, que são acoplados na sola dos sapatos, para que a medida que você caminhe gere eletricidade através da pressão dos pés.

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A TAC (Tomografia Axial Computadorizada), conhecida no mundo inteiro para realização de tomografias computadorizadas, é utilizada em hospitais de todo o mundo. Foi desenvolvida no Reino Unido, na Universidade de Tufts, pelo sul-africano e físico Allan Cormack e pelo britânico Godfrey Hounsfield, que receberam o prêmio Nobel de fisiologia/medicina em 1979.

cell-phonerTem também o “Please call me service”(“Serviço de ‘me ligue por favor’”). Sabe aquela mensagem que a operadora nos oferece de graça dizendo pra retornarem a ligação após uma ligação sem sucesso por falta de crédito? Pois é, ela começou na África, não se sabe ao certo quem a inventou, mas sim que foi criada por um funcionário da Vodacom ou da MTN, na África do Sul.

5868318012_2f367c20f5_mO M-Pesa, que significa dinheiro móvel, é um serviço criado para as operadoras Safaricom e Vodacom para pagamento, transferência e levantamento de dinheiro, e também para a compra de créditos pelo celular, disponível atualmente no Quênia, Tanzânia, Índia, África do Sul, Afeganistão, Moçambique e Egito.

 

20140918155351_dbarquivosO mais recente é a impressora W.Afate, feita inteiramente de material reciclável, desenvolvida pelo togolês Kodjo Afate Gnikou. É a primeira impressora 3D feita de material reciclável do mundo, utilizando o lixo eletrônico do lixão de Lomé, feita para suprir necessidades da população, já que pode servir para a criação de utensílios domésticos, brinquedos, próteses, ferramentas, entre outros. Gnikou está recebendo doações para desenvolvimento em larga escala da W.Afate, para que mais pessoas tenham acesso ao produto.

E vocês já conheciam alguma dessas invenções? O que vocês acharam delas? Como podemos ver, há muita informação que não nos é passada referente a África, não só em questões tecnológicas como também sociais. Pesquisem e se aprofundem no assunto, conhecimento nunca é demais. Se você conhecer tecnologias não citadas na postagem, é só compartilhar pelos comentários.

Abraço!

Vídeo de apresentação da W.Afate – http://www.youtube.com/watch?v=ffXsCCo8OCw

Radiola PW: Olhos Coloridos

Osvaldo Rui da Costa, o Macau, autor da música
Osvaldo Rui da Costa, o Macau, autor da música “Olhos Coloridos”. Foto: Victor Fernandes

Oi, pessoal! Tudo bem? A música Olhos Coloridos, composta por Macau e originalmente interpretada por Sandra de Sá, é o destaque da nossa Radiola PW! Antes de começarmos a falar da canção, vamos à letra:

Olhos Coloridos

(Macau)

Os meus olhos coloridos

Me fazem refletir

Eu estou sempre na minha

E não posso mais fugir…

Meu cabelo enrolado

Todos querem imitar

Eles estão baratinados

Também querem enrolar…

Você ri da minha roupa

Você ri do meu cabelo

Você ri da minha pele

Você ri do meu sorriso…

A verdade é que você

Tem sangue crioulo

Tem cabelo duro

Sarará crioulo…

Sarará crioulo

Sarará crioulo…

A música foi gravada por Sandra de Sá, no LP homônimo, lançado pela RGE, em 1982. Composta por Macau, nome artístico de Osvaldo Rui da Costa, Olhos Coloridos é resultado de uma situação de discriminação racial sofrida pelo autor. Em entrevista para a revista Raça Brasil, em agosto deste ano, o compositor falou sobre o episódio: “Olhos Coloridos surgiu de uma repressão policial que sofri em um evento escolar realizado pelo Exército, no Estádio de Remo da Lagoa. Eu e meu amigo Jamil estávamos vendo as crianças brincarem na roda-gigante, quando um policial militar veio até a mim e me obrigou a acompanhá-lo até a coordenação do evento. Me recusei porque não entendi o motivo pelo qual tinha que me afastar de onde estávamos. Acabei acompanhando o PM, que me levou até o Sargento e, a partir daí, sofri todos os tipos de discriminação: fui chamado de ‘nego abusado’, agredido com palavras e força física, zombaram da minha cor, da minha pele, do meu cabelo e de minha roupa, riram até do meu sorriso. O impressionante é que o policial também era ‘sarará crioulo’”.

A música

Olhos Coloridos é um clássico da chamada “black music brasileira”. De acordo com informações presentes no site oficial de Macau, a música foi gravada por cantores brasileiros e por artistas oriundos de outros países, como Inglaterra e França. Em programas de TV com foco em música, produzidos no Brasil, é muito comum ver Olhos Coloridos sendo interpretada.

A canção é uma espécie de hino da negritude, uma vez que contribui para o reconhecimento de uma identidade, bem como para autoestima dos negros. Os versos “Meu cabelo enrolado/Todos querem imitar” evidenciam isso. Tocando na miscigenção do povo brasileiro e reforçando a nossa formação, Olhos Coloridos diz: “A verdade é que você/Tem sangue crioulo”.

A frase “Todo brasileiro!”, comum na veiculação ao vivo da música e colocada após o verso “A verdade é que você”, não aparece na letra da gravação original.

O compositor e a intérprete

Macau nasceu no Rio de Janeiro e deu início à carreira artística ao participar, em 1969, do Primeiro Festival de Inverno do Teatro Casa Grande, no estado onde nasceu. Além de compositor, é cantor e integrou a banda Paulo Bagunça e a Tropa Maldita. Em 2012, lançou o CD Do jeito que sua alma entende.

Sandra Christina Frederico de Sá, a Sandra de Sá, também nasceu no Rio de Janeiro e começou a carreira em 1980. Participou de festivais de música e colocou voz em várias canções de sucesso, como Bye bye, tristeza (Marcos Vale/Carlos Colla) e Sozinha (Peninha).