Feminismo: isso é coisa de quem luta por igualdade de direitos

Em 2015, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) trouxe temáticas que estão na pauta do movimento feminista em duas de suas provas: a de Redação e a de Ciências Humanas e suas Tecnologias. Obviamente, o fato de os responsáveis pelo ENEM abordarem tal assunto não foi à toa. A necessidade de discutir feminismo parte de uma demanda social urgente, que tem no seu cerne a luta por direitos iguais para todos os gêneros.

De acordo com a historiadora e cientista política Céli Regina Jardim Pinto, a chamada primeira onda do feminismo aconteceu a partir das últimas décadas do século XIX, quando as mulheres, primeiro na Inglaterra, organizaram-se para lutar por seus direitos, sendo que o primeiro deles que se popularizou foi o direito ao voto”, p. 15. No Brasil, o ponto de partida da luta feminista se deu no início do século XX, através de Bertha Lutz, também tendo o direito ao voto como principal bandeira. Contudo, ao longo do tempo, outras pautas tornaram-se necessárias para o movimento. Por isso, é possível dizer que há vários feminismos.

Fig. 1: Simone de Beauvoir: referência máxima do movimento feminista. Imagem: reprodução do site The Simone de Beauvoir Society

Nesse sentido, existem grupos feministas que reivindicam questões específicas, a exemplo das lésbicas, das mulheres negras e das mulheres trans. Obviamente, há temas que são comuns a todo mundo, como a busca pelo fim da desigualdade salarial entre homens e mulheres que exercem a mesma função, a liberdade sexual, a descriminalização do aborto, o fim da violência doméstica e da cultura do estupro, entre outras. Para as feministas, a sociedade deve entender e respeitar que as mulheres são livres para fazer as próprias escolhas. Feminismo não é o contrário de machismo, que é uma forma de dominação socialmente aceita e, ainda hoje, incentivada. Ser feminista é ter consciência de que os direitos devem, de fato, ser iguais, tanto para homens quanto para mulheres.

A prova de Ciência Humanas do ENEM 2015, na questão 42, reproduziu o seguinte trecho do livro O Segundo Sexo, da filósofa francesa Simone de Beauvoir, referência máxima quando se fala em movimento feminista: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”. O que Beauvoir quis dizer? Djamila Ribeiro, em texto publicado no site da revista Carta Capital, explica: “…ao dizer que ‘não se nasce mulher, torna-se’, a filósofa francesa distingue entre a construção do ‘gênero’ e o ‘sexo dado’ e mostra que não seria possível atribuir às mulheres certos valores e comportamentos sociais como biologicamente determinados”. Então, repetir frases como “Isso é coisa de mulher”, é um dos equívocos de que precisamos nos desfazer para assumir uma postura menos machista. Afinal, ninguém nasce machista, torna-se.

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Referências:

ENEM 2015. Exame Nacional do Ensino Médio. INEP: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Ministério da Educação. Prova de Redação e de Linguagens Códigos e suas Tecnologias, Prova de Matemática e suas Tecnologias. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/provas/2015.pdf>. Acesso em: 31 mar. 2016.

ENEM 2015. Exame Nacional do Ensino Médio. INEP: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Ministério da Educação. Prova de Ciências Humanas e suas Tecnologias, Prova de Ciências da Natureza e suas Tecnologias. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/provas/2015.pdf>. Acesso em: 31 mar. 2016.

PINTO, Céli Regina Jardim. Feminismo, História e Poder. Revista de Sociologia Política, Curitiba, v. 18, n. 36, p. 15-23, jun. 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsocp/v18n36/03.pdf>. Acesso em: 31 mar. 2016.

RIBEIRO, Djamila. Simone de Beauvoir e a imbecilidade sem limites de Feliciano e Gentili. Carta Capital, Opinião, Sociedade, 3 nov. 2015. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/sociedade/simone-de-beauvoir-e-a-imbecilidade-sem-limites-de-feliciano-e-gentili-6444.html>. Acesso em: 31 mar. 2016.

De olho no inimigo invisível

Olá, pessoal!

Quem já ouviu falar do HPV?

O Papiloma Vírus Humano (HPV) e suas variações, que são mais de 200, é um vírus oncogênico, isto é, capaz de formar tumores malignos. Essa doença é diagnosticada como neoplasia maligna.

O HPV além de causar o câncer do colo do útero muito conhecido por ser o causador desse tipo de doença, mas esquecido em relação a outros tipos que ele causa, como: câncer de pênis, de canal anal, da vulva (atual para vulva), cabeça e pescoço. Para ter uma dimensão dessa realidade, vamos analisar os números:

Segundo o Instituto Nacional do Câncer – INCA:

– Em 2011, o câncer de útero fez 5.160 óbitos no Brasil;

– Em 2014, foram diagnosticados 15.590 casos.

Praticamente o triplo de diagnósticos.

[…] ” o câncer de colo de útero é mundialmente o terceiro mais comum entre as mulheres. Já em países em desenvolvimento , ele já vai para o segundo lugar. Em regiões pobres como a nossa, no Nordeste, mais especificamente no Maranhão, o câncer de colo de útero sobe para o primeiro lugar.”

Dr. Sc. Flávia Cabral em Biologia Humana e Experimental.

No estudo “ Impactos da infecção pelo Papiloma Vírus Humano na tumorigênese dos carcinomas do colo do útero , pênis, cabeça e pescoço na população maranhese.” percebeu-se que existe uma relação entre a condição socioeconômica e o número elevado de novos casos. As causas estariam relacionadas à: diagnóstico precoce através do exame preventivo, comportamento promíscuo, falta de uso de preservativos nas relações sexuais.

Mulheres que apresentam condilomas, que são verrugas na vagina, ao darem à luz a crianças de parto normal podem transmitir o vírus para o bebê ocasionando o desenvolvimento de papilomas de laringe, causado pelos HPV,s dos tipos 6 a 11. Nesse caso, as crianças terão que ser submetidas a traqueostomia, causando muitas dores.

A vacinação contra o HPV é oferecida a meninas de 9 a 13 anos . Em 2014, para meninas de 11 a 13 anos, pelo Ministério da Saúde e também em clínicas particulares em três doses para garantir proteção efetiva. E o Ministério da Saúde já estuda a possibilidade de aplicação de vacinas nos meninos a partir de 2017.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde 2013 – Percepção do Estado de saúde, Estilos de Vida e Doenças  Crônicas, 0,6 % da População Baiana apresenta uma proporção de pessoas de 18 anos ou mais de idade  que se refere ao diagnóstico médico de câncer. (IBGE, 2013)

Então fica a dica: prevenção através de vacinação e do exame papanicolau e uso de preservativo nas relações sexuais.

Ana Cristina Rangel

Professora de Biologia da Rede Pública da Rede Estadual de Ensino

Culto a Nossa Senhora da Boa Morte, Resistência e Luta do Povo Negro Contra a Escravidão

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Foto: Rita Barreto – Festa Nossa Senhora da Boa Morte – Cachoeira Ba

 

De que forma a fé e a devoção à Nossa Senhora da Boa Morte tem a ver com a luta e resistência do povo negro contra a escravidão na Bahia oitocentista? Para sabermos mais sobre esse assunto, é preciso viajarmos pela história, atravessando o oceano Atlântico, em direção a Portugal!

As confrarias, dentre as quais situamos as irmandades e ordens terceiras, surgem em Portugal no século XIII. Tinham por objetivo primeiro assistir a seus membros e demais pessoas não associadas em tempos difíceis da vida, segundo o professor de história João José Reis. Formada por pessoas leigas, as irmandades necessariamente deveriam buscar abrigo em uma igreja, podendo também construir uma. A partir da expansão marítima, esta forma de “agremiação” se espalhou pelo Império Ultramarino. Na Bahia, as irmandades negras se constituíram a partir da segunda metade do século XVII e podem ser compreendidas enquanto um movimento de resistência e/ou negociação dos negros e negras pela liberdade.

O culto à Nossa Senhora da Boa Morte teria se iniciado em 1660, em Lisboa, na Igreja do Colégio Jesuíta de Santo Antão. O culto propagou-se a outras cidades de Portugal, como Évora (1693) e Coimbra (1723). O professor Luis Henrique Dias Tavares informa que a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte em Cachoeira teria se originado de um grupo de mulheres que se reuniam secretamente para planejar a coleta de dinheiro destinado a alforria de escravos nas imediações do bairro da Barroquinha, em Salvador, por volta de 1820. Alguns anos depois a irmandade teria migrado para a cidade de Cachoeira. A data dessa mudança é imprecisa devido a carência de documentação.

Dentre as causas que podem explicar a transferência da irmandade de Salvador para Cachoeira é possível elencar: “a urbanização das áreas centrais e governamentais, a política higienista e a modernizante” que promoveram profundas mudanças na região da Barroquinha, segundo o estudioso Armando Alexandre Castro. Este turismólogo afirma ainda que  estas mudanças objetivavam “expulsar as comunidades negras e suas práticas que ali estavam sediadas, dada a proximidade com a sede do governo. À época, as reuniões religiosas promovidas pelos negros eram consideradas “bárbaras”, “primitivas” e não condiziam com a modernidade ambicionada”[1].

Ao chegar em Cachoeira, por volta de 1850, ao contrário de outras irmandades, a Boa Morte não buscou abrigo em uma igreja, muito menos criou estatuto a ser submetido ao poder eclesiástico. As irmãs da confraria da Nossa Senhora da Boa Morte mantêm fortes laços com o povo de santo, tendo sido as fundadoras do terreiro Zoogodô Bogum Malê Seja Undê. Apesar de não estarem submetidas a Igreja Católica, como acontece com as demais irmandades, sempre mantiveram uma relação próxima com a Igreja, inclusive com a participação de padres em seus cortejos. Na década de 1980 houve uma ruptura com a igreja Católica quando esta “sequestrou” as jóias, imagens, roupas e demais pertences de Nossa Senhora da Boa Morte, só devolvidos após decisão judicial uma década depois.

Ficaram interessados na festa da Boa Morte? Para conhecer mais sobre está experiência religiosa, que acontece todos os anos em Cachoeira, no dia 13 de agosto, é preciso se preparar com antecedência, pois a maioria dos hotéis da cidade ficam com lotação esgotada. Uma outra opção é conseguir acomodação nas casas dos moradores de lá! E então? Vamos visitar Cachoeira?

[1] Castro, Armando Alexandre Costa. de A Irmandade da Boa Morte: memória, intervenção e turistização da Festa em Cachoeira, Bahia. Ilhéus (BA): UESC, 2005.

Fontes:

Castro, Armando Alexandre Costa. de A Irmandade da Boa Morte: memória, intervenção e turistização da Festa em Cachoeira, Bahia. Ilhéus (BA): UESC, 2005

 João José Reis. A Morte é uma Festa: ritos fúnebres e revolta popular no século XIX. 2ed., Companhia das Letras, 1991

Luis Cláudio Dias. Candomblé e Irmandade da Boa Morte. Cachoeira: Fundação Maria Cruz, 1998.

Luís Henrique Dias Tavares. História da Bahia. Editoras Unesp e Edufba, 11ª edição, 2008

NASCIMENTO, Luis Cláudio Dias do;  ISIDORO, Cristiana. A Boa Morte em Cachoeira – contribuição para o estudo etnológico. Cachoeira: Cepasc, 1988.

Telma Gonçalves Santos

Professora da Rede Pública Estadual da Bahia

Maria Quitéria: O Feminino nas Forças Armadas

Os ânimos em Salvador estavam exaltados no ano de 1821. O governo das armas, até então ocupado pelo brasileiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães, por ordem da Coroa Portuguesa, passou a ser exercido pelo brigadeiro português Inácio Luís Madeira de Melo. Os oficiais brasileiros do 1º regimento se recusavam a aceitar a nomeação do dito brigadeiro. O conflito estava instaurado e muitos baianos não reconheciam o novo comandante português. O sentimento de Independência da Bahia do jugo português crescia nos corações dos baianos. Diante da ocupação portuguesa em Salvador, militares e civis brasileiros organizaram no Recôncavo a resistência contra as tropas portuguesas.

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Fonte: Domenico Failutti – Maria Quitéria

 

Foi nesse contexto que um emissário do governo visitou a fazenda Rio de Peixe do senhor Gonçalves de Almeida, em busca de voluntários para lutar contra as tropas de Madeira de Melo.  Convidado para jantar com toda a família Almeida, o emissário defendeu a importância da independência do Brasil. Sem filhos homens, entretanto, Gonçalves de Almeida não via como ajudar as tropas insurgentes.

Maria Quitéria, uma das filhas de Gonçalves de Almeida, ao ouvir a defesa entusiasmada do emissário pela defesa da Independência do Brasil, sugeriu ao pai que ela ingressasse no exército. Mas, naquela época, a sociedade acreditava que guerra não era lugar de mulher, tampouco o exército permitiria uma presença feminina entre seus soldados. Contra a vontade do pai, Maria Quitéria se travestiu de homem e se apresentou em Cachoeira no regimento de artilharia, depois se transferindo para a infantaria. Seus bravos feitos durante a guerra lhe renderam o posto de alferes e a Ordem de Cristo.  Essa história ficou registrada no diário de Maria Graham, uma inglesa que visitou o Brasil entre 1821 e 1823.

O preconceito contra as mulheres nas forças armadas começou a ser derrubado apenas na década de 1980, quando as escolas militares se abriram para a entrada delas. Por essa época também surgiram as primeiras delegacias para tratar especificamente da violência contra as mulheres. Ainda assim, muito precisa ser feito para equalizar as oportunidades entre homens e mulheres nesta instituição, pois as mulheres, atualmente, ainda não podem ocupar os cargos mais altos da hierarquia militar, reservado aos homens. Esses somam quase 90% do efetivo. Esses índices precisam ser mudados, afinal somos todos iguais! Lugar da mulher é em todos os lugares que elas queiram ocupar!

Para saber mais sobre o dois de Julho e Maria Quitéria, assista o episódio Dois de Julho do Quadro Histórias da Bahia no AEW.

Referências:

Maria Celina D`Araujo Brasil. Mulheres e Questões de Gênero nas Forças Armadas Brasileiras. http://www.itamaraty.gov.br/images/ed_pazeseg/Mulheres_paz/mulheresequestoesdegenero.pdf

Maria Graham. Journal of a Voyage to Brazil and Residence There during part of the years 1821,1822, 1823. Londres, 1824. file:///C:/Users/telma.santos/Documents/bibliografia/Maria_graham_voyage_brazil_1821_1822_1823.pdf

Maria Quitéria. commons.wikimedia.org373 × 599Pesquisa por imagemFile:Domenico Failutti – Maria Quitéria.jpg

Telma Gonçalves Santos

Professora e produtora de conteúdos pedagógicos da REDE Anísio Teixeira

Envelhecimento e cultura: por que ficar velho incomoda tanto?

O envelhecimento é um processo natural por que passam todos os seres vivos. No caso dos humanos, além da natureza, envelhecer também tem impactos na cultura. As sociedades contemporâneas, sobretudo, parecem cada vez menos compreender o envelhecimento como um fenômeno que faz parte da vida tanto quanto a juventude.

A passagem do tempo está relacionada aos aspectos biológicos e interfere nas relações sociais, que constituem a história humana. A faixa etária determina posições, ações e formas de ser e viver, constituindo possibilidades e identidades coletivas e individuais. Ser adolescente, adulto e idoso significa também pertencer e transitar por espaços diferentes, atuando na vida de formas diversas.

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Fonte: pixabay.com

Um menino de dezessete anos em geral se percebe no mundo de uma forma que não é a mesma que um homem de sessenta anos. Social e culturalmente, desde as civilizações mais antigas, a idade sugere também pertencimento a espaços e a realização de atividades desiguais. Com isso, as hierarquias também podem se apresentar, determinando o que seria melhor, ser idoso ou jovem, ser rapaz, ou senhor.

Na sociedade brasileira, historicamente, a diferenciação por idade traz algumas questões que podem ser vistas de forma mais aproximada. Uma delas é o lugar da mulher no processo de envelhecimento. A outra é o “mito da juventude eterna” que muitas vezes aprisiona as pessoas numa ideia fixa de que ficar mais velho seria ruim.

A mulher brasileira – sobretudo nos períodos Colonial, Imperial e na Velha República – ocupava um lugar de subserviência aos homens sustentado pela falsa crença de superioridade masculina que foi base para a cultura brasileira durante muito tempo. Neste sentido, para satisfazer os desejos dos homens e corresponderem a este ideal, a juventude é uma característica normalmente associada para que a mulher seja reconhecida.

Atualmente, ainda que a sociedade brasileira tenha se modificado bastante, a velhice feminina ainda é tratada como um problema no imaginário coletivo. Frases assim são comuns:

– Nossa! Por que ela não pinta esse cabelo?

– Meu Deus! Como ela está cheia de rugas! Deveria fazer uma plástica!

– Você viu? Ela já fez tanta plástica que não tem mais onde mudar!

Essas indagações e afirmações revelam exatamente a dificuldade que ainda persiste em reconhecer o envelhecimento como um processo comum e inerente à vida humana. As mulheres – ainda vistas como objetos sexuais – não deveriam envelhecer (nessa forma de percepção) por não corresponderiam mais ao padrão imposto pelos homens. Quando um homem tem cabelos grisalhos é muito mais comum se ouvir que ele está “charmoso”. Quando uma mulher começa a mostrar sinais de que chega à maturidade, as cobranças estéticas muitas vezes são tão intensas que sufocam e constrangem.

Envelhecer é um direito de todos.

As mulheres – idosas e mais velhas – possuem o direito de ser.

Isso é liberdade!

Pensemos nisso, também, assistindo ao episódio sobre Diversidade Fenotípica, no Quadro Diversidades, do Programa Intervalo, da Rede Anísio Teixeira!

Segue o link:

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/3950

Carlos Barros

Professor de Rede Estadual

Radiola PW: “Não tenha medo. Denuncie!”

Oi, pessoal! A Radiola PW de hoje aborda uma temática importante e que deve sempre ser discutida: a violência contra a mulher. Os casos existem e persistem, infelizmente. Contudo, as mulheres estão mais conscientes, exigindo os próprios direitos e denunciando os seus agressores.

Fig. 1: 180 é o número da Central de Atendimento à Mulher. Imagem: captura de tela feita em 4 de julho de 2016

Fig. 1: 180 é o número da Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência para denúncias. Imagem: captura de tela feita em 4 de julho de 2016

Hoje, a cantora Aiace Félix, da banda Sertanília, tornou pública uma agressão que sofreu do taxista Antonio Ricardo Rodrigues Luz, em Salvador. “[…] Estávamos eu, minha irmã e uma amiga andando em direção ao Largo da Mariquita por volta das 05h:30 quando esse motorista, que estava parado na fila de Taxi em frente a casa, assediou minha irmã. Quando fui pedir por respeito, embora seja óbvio que ele é meu por direito, o taxista se sentiu incomodado por eu tê-lo confrontado e me respondeu de forma bem agressiva reiterando o assédio. Eu segui andando com as meninas quando ele deu uma ré super brusca tentando atropelar a mim e as meninas. Um rapaz que passava na hora me puxou e evitou que algo mais grave acontecesse. Não satisfeito, o taxista saiu do carro, veio na minha direção e me deu 3 socos no rosto, atingindo meu olho direito, minha boca e o ombro/pescoço. Como resultado, ganhei uma lesão na córnea e alguns hematomas pelo corpo[…]”, relatou a artista numa rede social da internet.

O importante, nesse e em todos os casos que insistem em figurar na nossa sociedade, é que a natural revolta que acomete as pessoas ao saber de crimes dessa natureza seja, de fato, traduzida em ações práticas. A situação é intolerável!

A igualdade de gênero é uma ânsia de movimentos feministas desde sempre. Deveria ser um anseio da sociedade. Às vezes, na tentativa de ajudar, se produz discursos que, se analisados com atenção, acabam prejudicando toda uma luta histórica. Um bom exemplo disso é a música O Defensor, lançada em 2015 pela dupla Zezé Di Camargo e Luciano, no CD e DVD Flores em Vida – Ao Vivo. A canção, dos compositores Fred Liel e Marco Aurélio, foi divulgada por Zezé e Luciano como sendo um manifesto da violência contra a mulher. Mas, analisando a letra com criticidade, percebe-se que, nas entrelinhas, a obra reforça o papel socialmente estabelecido para as mulheres. Eis a mensagem:

“Mais uma vez/Ele te feriu/E é a última vez/Que ele vai pôr a mão em você/Te machucar, fazer sangrar/Te humilhar, fazer chorar seu coração/Não tenha medo, denuncie”.

Se a letra seguisse a ideia dos versos acima, ela cumpriria uma boa função. Porém, nas linhas seguintes, fica evidente o equívoco dos compositores:

Deixa ele e vem morar comigo/Deixa ele e vem morar comigo/Estou aqui, sou seu defensor/Eu vim pra te buscar, eu vou te amar/E onde ele bateu, eu vou te beijar/Eu só quero curar suas feridas/Não tenha medo, denuncie/Deixa ele e vem morar comigo/Deixa ele e vem morar comigo”.

O que a sociedade precisa entender é que as mulheres não precisam de defensores, precisam de respeito. Sair de uma relação conturbada, em que sofre violência física, para outra aparentemente mais amena, não resolve o problema da violência contra a mulher, só a torna mais uma vítima em potencial. Vale ressaltar também que as mulheres não estão loucas atrás de relacionamentos, como se isso fosse resolver as suas questões existenciais. 

Os versos abaixo, feitos por dois homens, mostram como eles e como muitos outros se colocam em relação às mulheres:

Porque eu sou seu anjo/Seu defensor, te amo/E enquanto eu tiver vivo/Eu vou te defender, meu amor/Nunca mais ele vai te bater”.

A principal e mais importante defesa da mulher é o respeito. É disso que elas precisam e é por isso que lutam. É preciso dar um basta nos crimes que matam as mulheres, tanto social quanto fisicamente. Encerro com o melhor verso da música: “Não tenha medo. Denuncie!”.

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Mães de Outdoors

Tarefa delicada para o(a) professor(a) é olhar o mundo como um legítimo portador de conteúdos para o trabalho com seus pares e com seus estudantes. Reconhecer a relação dinâmica entre o mundo e a educação é o primeiro passo porque “toda vez que dou (damos) um passo o mundo sai do lugar”, já diz Siba, cantor pernambucano.

Vale então se perguntar o que pensam os professores sobre o fato de costumeiramente pararem suas atividades didáticas e entrarem em campanha para o Dia das Mães, em maio; ou Dia dos Pais, em agosto. Será que – para além do aspecto comercial destas datas – as escolas já problematizam o lugar da mulher no mundo atual?  E a mulher no papel de mãe? E a importância  da mãe na educação dos filhos? Há um campo vasto de questões que podem ser tematizadas nas atividades de formação de professores ou nos encontros com nossos estudantes.

Existem diversos modos de viver a maternidade, com desafios cada vez maiores em diferentes contextos e isso, por si só, é de uma riqueza indiscutível. Muito antes de maio chegar, entretanto, os outdoors de nossa cidade estampam mulheres que se relacionam “afetivamente” com perfumes, sapatos, carros e aparelhos celulares, revelando-se, portanto, apenas como mães do consumo. Onde estão as mães que se dividem entre os filhos e suas teses, entre filhos e sua vida profissional, entre os filhos e o casamento, entre os filhos e convicções políticas, entre a educação doméstica e a educação formal? São de tantos jeitos, afinal! As mulheres de outdoors certamente não representam as mães estudantes que frequentam a rede pública de ensino, nem as mães das crianças pequenas que dela fazem parte.

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E o que deste fato merece vir a um blog que se destina a professores e estudantes?  É o fato das imagens, que circulam nas ruas, chegarem às escolas e saírem delas em convites e programações especiais, fortalecendo nitidamente o estereótipo de felicidade atrelada ao consumo. Sem reflexão, as imagens de mães de outdoors seguirão reforçando conceitos e valores que já precisamos repensar.

Estamos no século XXI e não podemos desconsiderar as transformações pelas quais vem passando as mulheres e, consequentemente, as mães na sociedade contemporânea, desde conquistas como sua consolidação no mercado de trabalho e uma maior participação no sistema financeiro familiar. Em lugar do Dia das Mães, Dia do Pais ou dos Avós algumas escolas já apresentam uma mudança sutil e definem em seus planejamentos o Dia da Família, que congrega num mesmo encontro todos os seus integrantes.  Este novo festejo, aliás,  já anuncia uma outra questão que está de toda forma presente no cotidiano escolar porque também está presente no mundo atual, este provedor nato de conteúdos. Isto é assunto complexo e merece espaço em outro texto que nos faça pensar na família como uma construção histórica e social. As famílias ditas tradicionais são cada vez menos comuns e temos num movimento crescente as famílias mononucleares ou monoparentais que surgem de produções independentes, adoções ou separações; as binucleares, com o exercício desafiador da guarda compartilhada e, ainda, famílias homoparentais que esperam ser reconhecidas e respeitadas em sua principal motivação: a afetividade.

Trabalhar com as chamadas efemérides do modo como fazíamos no século passado, traz o risco de manter a escola obsoleta, inócua e improdutiva. A sociedade muda e a escola não?  Se escolhermos não problematizar a realidade, o papel da escola estará assemelhado ao papel das concessionárias, perfumarias, shoppings e suas agências de publicidade.

E Siba, aquele pernambucano de quem lhes falava, continua cantarolando “Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar / Ouço o mundo me dizendo: corra pra me acompanhar!”

Lilia Rezende

Professora da Rede Estadual de Ensino da Bahia