Resenha PW ⇨ Riachão: o cronista do samba baiano

Oi! Tudo bem? Ontem, 27 de novembro de 2016, completaram-se cem anos do registro do samba Pelo Telephone (assim mesmo, com “ph”, respeitando a grafia da época), no Departamento de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional. A obra, de autoria de Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o famoso Donga, é considerada o primeiro samba brasileiro. E, no ano em que o gênero completa cem anos de existência, que tal conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra de Riachão, um de nossos sambistas contemporâneos mais festejados?

Fig. 1: O sambista Riachão mostra vitalidade e muita alegria com seus 95 anos de vida. Foto: reprodução do site da Secretaria de Comunicação Social do Estado da Bahia
Fig. 1: O sambista Riachão mostra vitalidade e muita alegria com seus 95 anos de vida. Foto: reprodução do site da Secretaria de Comunicação Social do Estado da Bahia

Em 2009, a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia (ALBA) publicou o livro Riachão: o cronista do samba baiano, escrito pela jornalista Janaína Wanderley da Silva. A biografia integra a coleção Gente da Bahia. Com linguagem simples e deixando evidente toda a identidade do sambista, a obra, que tem 12 capítulos, envolve o leitor do início ao fim.

Clementino Rodrigues, o Riachão, completou 95 anos no último dia 14 e aos nove já cantava em aniversários. Contudo, antes de começar a viver da música, aprendeu o ofício de alfaiate. Uma das passagens mais interessantes do livro é quando Janaína narra o motivo que o levou a compor a primeira música:

Era 1936, Riachão cantava desde os 9 anos e seu repertório era recheado de sambas do Rio de Janeiro. Num certo dia, quando saiu da alfaiataria, caminhava com destino à Ladeira da Misericórdia para comprar material de trabalho e avistou um pedaço de papel no chão. Se abaixou e pegou um pedaço de revista rasgado e com letras marrons. Ao ler, um choque misturado com desalento. O escrito “Se o Rio não escrever, a Bahia não canta”, lhe travou a garganta. Aquelas palavras não saíram da cabeça do jovem por horas. Após uma dia de trabalho, chegou em casa, jantou, deitou-se para dormir e aquela frase ainda martelava sua cabeça. No dia seguinte, registrado na sua vida como o nascimento do artista, compôs: “Eu sei que sou malandro, sei/Conheço o meu proceder/Eu sei que sou malandro, sei/Conheço o meu proceder/Deixa o dia raiar, deixa o dia raiar/A nossa turma é boa, ela é boa/Somente para batucar…”.

O que quase ninguém sabe, e é uma curiosidade presente na biografia, é que Riachão começou a carreira cantando música sertaneja. No CD Humanenochum, de 2001, ele gravou a música Vida da Semana, considerada sua obra sertaneja mais importante. Muitos outros artistas gravaram e popularizaram as composições de Riachão, como Marinês (“Terra Santa”), Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gang do Samba, Lampirônicos e Anastácia (“Cada Macaco no Seu Galho”); Trio Nordestino (“Retrato da Bahia”, “Bochechuda”, “Papuda”, “Vamos Pular, Gente”), Cássia Eller (“Vá morar com o Diabo”), banda Moinho (“Baleia da Sé”) e Terra Samba (“Vá pra Casa”).

No livro, Janaína não deixa de registrar a fase em que Riachão ingressou na Rádio Sociedade da Bahia (ele ficou lá por 26 anos) e também o lançamento do 1° LP solo, O Sonho do Malandro, de 1982. A versatilidade do artista é, o tempo todo, destaque na obra. O leitor fica sabendo que, além da música, Riachão atuou no cinema e na TV. Contudo, não é só de alegria que se vive uma vida, não é? Em janeiro de 2008, um acidente de carro causou a morte de seis membros de sua família, incluindo a mulher e dois filhos.

Janaína Wanderley da Silva conseguiu captar muito bem a alma de Riachão. O livro nos faz rir muito mais do que chorar. Assim é Riachão: a “alegria em pessoa”. Uma frase que consta na biografia, atribuída a ele, mostra como Clementino Rodrigues se define: “Eu sou o artista que me torno uma nota musical para levar alegria ao povo”. Que a alegria de Riachão esteja sempre viva!

Referência:

SILVA, Janaína Wanderley da. Riachão: o cronista do samba baiano. 2.ed. Salvador: Assembleia Legislativa, 2009. (Coleção Gente da Bahia).

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

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CENTENÁRIO DO SAMBA

Olá, galera!

Entre sons e rimas, atabaques e agogôs, danças e rituais, músicas e filmes, dramaturgias e palestras, o mês de novembro vem se consolidando como o período do nosso calendário especialmente dedicado aos eventos alusivos à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. Tal fato está diretamente atrelado, também, ao Dia 20 de novembro “Dia Nacional da Consciência Negra”. A data é marcada pela luta contra o preconceito  no Brasil e foi instituída, criada e incluída no calendário escolar em 2003 , instituído em âmbito nacional mediante a Lei 12.519/11.

São de caráter iminente: enaltecer, empoderar e posicionar a população negra em seu lugar de protagonista na nossa sociedade. Mas nem tudo são “flores”!  Vivemos num país paradoxal, onde, segundo dados do IBGE, 54% da população é negra – maioria, portanto – e continua como alvo de práticas racistas.

Somos a segunda maior população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria, país da África. Para além da reflexão sobre a valoração do negro como sujeito sócio- histórico da nossa sociedade, cabe constante  discurso de fortalecimento das já existentes e de novas políticas de enfrentamento ao racismo e de promoção à igualdade racial. Mudanças significativas vêm ocorrendo no país , ocasionando debates na sociedade sobre a importância das políticas de ações afirmativas.

O discurso sobre políticas de redistribuição e políticas de reconhecimento precisa estar presente  no dia a dia nacional. Não cabe esperar o mês de novembro chegar para que os discursos sejam intensificados e materializados.

As novas diretrizes curriculares propostas na Lei 10.639/03 sugerem que, para o estudo da história e cultura afro-brasileira e africana, professores e alunos da educação básica trabalhem a temática de forma a destacar a importância da cultura afro-brasileira para formação da nossa sociedade, onde os negros são sujeitos históricos. Desta forma, devem enaltecer os grandes intelectuais negros, a cultura (música, dança e culinária), e as religiões de matrizes africanas.

Objetivando atender às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana, as professoras: Nancy Borges , Elenilda Almeida , Maria Ilza de O. Melo e a coordenadora Sueli Fernandes Moura do Colégio Estadual de Aplicação Anísio Teixeira – CEAAT, localizado na Estrada da Muriçoca – Salvador/Ba., lançaram e coordenaram o projeto CEM ANOS DE SAMBA, com o apoio dos professores das demais áreas de conhecimento.

Fig.1 : Capa do Projeto Cem Anos de Samba.Foto cedida pelo CEAAT.A escolha do tema , segundo a professora Nancy Borges(idealizadora do projeto), foi devido ao fato de 2016 ser o ano de comemoração do centenário do samba e de ele ter nascido na Bahia, evidenciando suas contribuições para a afirmação da identidade afro-brasileira por meio da resistência política e cultural que se deu desde o nascimento deste novo ritmo musical que saiu dos morros para encantar o mundo.

Os estudantes abraçaram a ideia do projeto.Foram trabalhados, especificamente: samba, compositores, instrumentos musicais, variações do samba, sambas antigos e contemporâneos.Cada turma trabalhou um tema , recebeu orientação dos professores para os trabalhos de pesquisa e  organização das apresentações.

Para a professora Vitória Santana, “os estudantes assimilaram bastante  a ideia. O objetivo era que eles conhecessem o surgimento do samba no Brasil.Eles fizeram um passeio, uma viagem dos cem anos de samba através da cultura, das dança e músicas.”

Os temas foram apresentados através de exposições de murais e de estudos de instrumentos musicais utilizados no samba, de seminários, de palestras, de músicas, de danças, de roda de samba e de  exibição de filmes(essas atividades foram realizadas ao longo do mês de outubro).

A culminância ocorreu nos dias 16 e 17 de novembro ,com apresentação de painéis, jogos, desfiles, danças e músicas.

Fig.2 : Apresentações do projeto Cem Anos de Samba. Imagens cedidas pelos professores do CEAAT.Fig. 1 : Apresentações do projeto CEM ANOS DE SAMBA. Fotos cedidas pelos professores do CEAAT.

Estudante do 3.º ano A do CEAAT,Tahiná Coelho nos falou que “esse ano o Projeto Afro comemorou cem anos de samba.Ele é  muito importante porque ensinou a todos os alunos que não existe só uma modalidade de samba. A gente aprende muito, não só na prática de estudar,mas criando também.” Para o aluno Gabriel ,do 2.º ano matutino,“o projeto foi muito interessante e interativo.Aprendi bastante com os alunos, aprendi bastante com o assunto e aprendi bastante sobre a cultura do samba.O samba ele fez parte da minha vida e faz parte da vida de muita gente.Esse projeto incentivou muita gente a saber mais sobre a cultura do samba.Cultivem a nossa cultura que é isso que vai para frente”.

Fig.3 : Professores e estudantes do CEAAT. Foto Ana Rita Medrado.Fig. 2 : Professores e alunas do CEAAT. Foto : Ana Rita Medrado.

Para o professor Roberto Fernando dos S. Cerqueira, “a força criativa dos alunos é o que nos move. Com o improviso feito com a ajuda dos professores, os alunos conseguem dar um salto qualitativo e fica tudo lindo de se ver. Parabenizo aos professores e alunos pelas apresentações”.

Até o próximo!

Ana Rita Medrado

Professora da Rede Estadual de Ensino

Referências:

http://educador.brasilescola.uol.com.br/estrategias-ensino/lei-10639-03-ensino-historia-cultura-afro-brasileira-africana.htm

http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/12/04/negros-representam-54-da-populacao-do-pais-mas-sao-so-17-dos-mais-ricos.htm

http://www.seppir.gov.br/central-de-conteudos/noticias/2016/03-marco/seppir-debate-enfrentamento-ao-racismo-e-politicas-sobre-drogas-em-reuniao-da-onu

https://pt.wikipedia.org/wiki/Racismo_no_Brasil

https://pt.wikipedia.org/wiki/A%C3%A7%C3%A3o_afirmativa

Resenha PW: Áfricas no Brasil

Oi! Tudo bem? Estamos no mês de novembro e, neste período do ano, todas as nossas publicações abordam aspectos da História e Cultura Africana. Assim, fortalecemos as ações do projeto Novembro Negro, que acontece em todo o estado.

Em 2003, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 10.639, que obriga a inclusão da temática da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da Rede de Ensino. Na instituição em que você estuda, os professores já estão implementando a Lei? E você, educador, tem encontrado bons materiais para levar a discussão para a sala de aula?

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Fig. 1: Áfricas no Brasil: linguagem simples e boas referências. Imagem: reprodução do site da editora Scipione

O livro Áfricas no Brasil, de Kelly Cristina Araujo, é um bom começo para isso. Publicada no mesmo ano de sanção da lei, a obra aborda, de forma bastante didática, “as tradições e costumes dos povos africanos que aportaram no Brasil”.

No primeiro capítulo, Onde fica a África?, a autora convida o leitor para prestar mais atenção ao continente, a fim de perceber o quão perto ele está de nós. Em seguida, no capítulo 2, As rotas para o Brasil, Kelly fala mais detidamente do tráfico de escravos, destacando a violência como isso foi feito. Religião e solidariedade: o candomblé e as irmandades dos homens pretos é o assunto do excelente capítulo 3. Nele, a autora coloca em debate os traços culturais da África que foram incorporados à cultura brasileira. Para isso, faz um recorte e fala sobre o candomblé e as irmandades católicas de negros. Kelly, obviamente, não deixa de citar a Bahia nessa parte: “O primeiro terreiro de candomblé do Brasil instalou-se em Salvador, na Bahia, conhecido hoje como Casa Branca do Engenho Velho”, p. 17.

O quarto (Um reino chamado Congo…) e o quinto (…E uma festa chamada congada) capítulos são complementares. A autora se debruça sobre o Congo e destaca as suas tradições, como as congadas. No sexto, A Capoeira, o jogo é o protagonista. Segundo Kelly, a capoeira “talvez seja a manifestação mais brasileira de todo o universo cultural afro-brasileiro”, p. 41. No capítulo, ela cita a capoeira angola e a capoeira regional e faz uma análise geral das características da manifestação. No sétimo e último capítulo, O Brasil na África, o destaque vai para as comunidades africanas com raízes brasileiras. No Benin, de acordo com a autora, os povos que se consideram “brasileiros” são chamados de agudá; na Nigéria, amarô. Nesse capítulo, Kelly fala sobre a cultura brasileira que foi levada para a África e as tradições comuns ao continente e ao país. Como exemplo, cita a festa do Nosso Senhor do Bonfim, que é comemorada no mês de janeiro, no Benin. Algo familiar à nossa cultura, não é?

O livro é voltado para crianças a partir de 11 anos, mas estudantes e educadores de todas as idades devem ler e aproveitar o que a autora coloca em discussão. É muito bom para começar.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Referência:

ARAUJO, Kelly Cristina. Áfricas no Brasil. São Paulo: Scipione, 2003. (Série Diálogo na Sala de Aula).

Radiola PW: Ilê Pérola Negra

Oi! Tudo bem? Estamos no mês de novembro e, neste período do ano, todas as nossas publicações abordam aspectos da História e Cultura Africana. Assim, fortalecemos as ações do Novembro Negro, que acontece em todo o estado e será aberto oficialmente amanhãNa Radiola PW de hoje, o destaque vai para a música Ilê Pérola Negra, dos compositores Miltão, Renê Veneno e Guiguio. A canção foi gravada pela cantora e compositora Daniela Mercury, em 2000, no CD Sol da Liberdade.

Fig. 1: Ilê Aiyê. Foto: reprodução do site oficial do bloco afro
Fig. 1: Ilê Aiyê. Foto: reprodução do site oficial do bloco afro

Ilê Pérola Negra traz no seu discurso uma forma evidente de exaltação. Exalta a cultura negra em todos os seus aspectos: sociais, artísticos e religiosos. Os versos carregam um alerta para que toda a população perceba que a cultura negra é uma das bases da cultura brasileira e, por isso, todos deveriam conhecê-la e, obviamente, respeitá-la. Isso se confirma nos seguintes trechos:

[…]

Eu quero penetrar no laço afro que é meu e seu

Vem cantar meu povo

Vem cantar você

[…]

O mote da música é o desfile do bloco afro Ilê Aiyê, durante o Carnaval. Os autores fazem reverência àquele que é considerado “o mais belos dos belos” e reafirmam, durante todo a canção, a importância do cordão para a negritude. Por isso, o Ilê é uma pérola negra:

Lá vem a negrada que faz o astral da avenida

Mas que coisa tão linda, quando ela passa me faz chorar

Tu és o mais belos dos belos, traz paz e riqueza

Tens o brilho tão forte por isso te chamo de pérola negra

Um dos objetivos da obra é negar a política de assimilação, estrategicamente construída para fazer com que os negros não tenham orgulho de seus traços e de sua cultura. De acordo com BERND (1988, p. 35), tal política diz respeito à “tendência dos povos americanos, sobretudo dos negros, de assimilar a cultura européia (processo de aculturação) e a conseqüente perda da memória das culturas de origem indígena e africana (processo de desculturação) [sic]”.

Ilê Pérola Negra é, por si só, uma política de exaltação. É importante considerar o seu discurso, principalmente para que todas as pérolas brilhem de forma igual, mas mantendo as suas características próprias.

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Referência:

BERND, Zilá. O que é negritude. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Coleção Primeiros Passos).

Carolina Maria de Jesus: da favela para o mundo

Imagem: Josymar Alves
Imagem: Josymar Alves

O ano era 1958 e o jornalista Audálio Dantas tinha ido até a favela do Canindé, em São Paulo, para fazer um registro do cotidiano dos seus moradores. Carolina de Jesus, mulher negra, catadora de papel, já há algum tempo procurava alguém que publicasse os seus escritos. Ao saber da presença do jornalista na favela, convidou-o a ler algumas linhas que escrevera nos cadernos que encontrava no lixo. O encantamento de Audálio foi imediato. Rapidamente, percebeu que ninguém melhor que Carolina para contar sobre as mazelas daquele lugar. Em 1960, quando o livro Quarto de despejo foi lançado, vendeu mais de 100.000 cópias, batendo todos os recordes editorias para a época. Traduzido em 13 línguas, o livro foi vendido em 40 países, tornando-se um best seller.

O livro é um registro categórico das dificuldades da população negra e mestiça que vivia em condições sub-humanas na periferia de São Paulo na década de 1950. Mãe solteira de três filhos, Carolina lutava diariamente para conseguir se alimentar, bem como a seus filhos. Em um trecho do livro, a autora revela:

“Ontem eu ganhei metade de uma cabeça de porco no frigorífico. Comemos a carne e guardei os ossos. E hoje puis os ossos para ferver. E com o caldo fiz as batatas. Os meus filhos estão sempre com fome. Quando eles passam muita fome eles não são exigentes no paladar”. Carolina Maria de Jesus. 10 de maio de 1958.

Carolina lia muito, sabia das coisas, acompanhava os jornais, as discussões políticas e tinha claro entendimento de que a pobreza estava ligada à falta de políticas públicas:

” …Eu não ia comer porque o pão era pouco. Será que é só eu que levo esta vida? O que posso esperar do futuro? um leito em Campos de Jordão?. Eu quando estou com fome quero matar o Jânio, quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos políticos”. Quarto de despejo de Carolina Maria de Jesus. 10 de maio de 1958.

Para ela, o fim da desigualdade social no Brasil só viria quando o governo fosse assumido por políticos que tivessem sofrido na carne as agruras do povo humilde:

“O que eu aviso aos pretendentes a política, é que o povo não tolera fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la”. Carolina Maria de Jesus. 10 de maio de 1958

Definitivamente, Carolina de Jesus é uma leitura obrigatória para qualquer pessoa que tenha pretensão de discutir os programas sociais de combate a fome no Brasil. O que Carolina de Jesus mostra em sua prosa é a condição degradantes a que milhares de crianças, homens e mulheres eram submetidos na década de 1950. Vivendo dos restos daqueles que viviam nas “casas de alvenaria”, os moradores dos barracos sofriam com a total falta de saneamento básico e atendimento médico. Seu relato é comovente e avassalador e precisa ser difundido entre os brasileiros. Para saber mais sobre Carolina, leia o livro Quarto de Despejo e assista ao documentário no YouTube sobre a vida e obra de uma das mais importantes escritoras do Brasil: Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977) – Heróis de Todo Mundo.

Telma Santos

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia

O que comemorar. O que ensinar

O nosso calendário escolar é repleto de datas comemorativas, de caráter civil, religioso ou cultural. A escola integra um contexto social mais amplo e é fato que tais datas, ou o trabalho pedagógico em torno delas, ocupam o cotidiano escolar, influenciando definitivamente a formação dos estudantes. Em novembro, mês em que se comemora a Consciência Negra, vale reiterar as proposições feitas neste blog sobre as abordagens que realmente podem colaborar para uma formação cidadã. Nesse sentido, vale uma leitura cuidadosa da lei federal nº 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas de Ensino Fundamental e Médio, com o objetivo de promover uma educação que reconheça e valorize a diversidade, comprometida com as origens do povo brasileiro.

No início de 2003, deu-se a alteração da Lei, que determinou os seguintes artigos:

Art. 26 – A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

§ 1ª – O Conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2ª – Os Conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.

Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”.

Imagem: Josymar Alves
Imagem: Josymar Alves

Todos estes dispositivos legais encontraram nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnicos-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana as orientações para formulação de projetos comprometidos com a educação de relações étnico-raciais positivas.

No entanto, para a consolidação de uma política curricular capaz de combater o racismo e as discriminações, especialmente dos negros, cabe refletir sobre o modo de tratar os conteúdos que estão envolvidos nessa questão. Simplesmente resguardar novembro para aprofundamento desse debate, não garante as mudanças desejadas para a educação. Assim, cabe a defesa de que professores tratem deste tema de modo transversal, ou seja, num trabalho sistemático, contínuo, abrangente e integrado no decorrer de toda a escolarização. Para trabalhar estes conteúdos adequadament,e não se pode ter uma perspectiva disciplinar rígida, há que se considerar que interdisciplinaridade e transversalidade alimentam-se mutuamente.

Conteúdos que envolvem mais que conceitos, procedimentos e atitudes sugerem aprendizagem sobre a realidade, na realidade e da realidade, e devem vislumbrar intervenções na realidade para transformá-la. A Consciência Negra, por exemplo, pode ser trabalhada a partir do cotidiano dos alunos e em atividades organizadas pela escola. Essas atividades devem estar inseridas no trabalho pedagógico, e não apenas num momento isolado de reflexão.

Imagens e textos de periódicos, programas de TV e outros produtos audiovisuais, podem ser um excelente recurso para que a escola desenvolva um trabalho de qualidade! É um modo de o aluno ver além de sua escola, sem sair fisicamente dela, para uma participação mais ativa e crítica na vida social. Para diversificar as possibilidades de ação em sua escola, visite o http://ambiente.educacao.ba.gov.br.

Referências:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm.

http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2012/10/DCN-s-Educacao-das-Relacoes-Etnico-Raciais.pdf.


Lilia Rezende

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia

 

Resenha PW: Afro-Brasil em Cordel, de Nezite Alencar

‘ – O que sabemos da África?’”
boa pergunta foi feita
porque a nossa visão
sobre a África é muito estreita
ou melhor, manipulada,
distorcida e deformada,
mas até agora ‘aceita’.

A lei enfim determina
que seja a África estudada.
É justa, é necessária
e também muito acertada.
A visão colonialista,
tão injusta e elitista
tem de ser desmacarada”.

As duas estrofes acima abrem o excelente livro Afro-Brasil em Cordel, de Nezite Alencar, escritora e historiadora cearense. Publicada pela primeira vez em 2007, a obra é toda escrita em literatura de cordel e traz informações eslcarecedoras sobre a história da África e dos negros no Brasil.

Com um tom crítico na medida certa, Nezite fala sobre o preconceito que existe em relação ao continente africano, enfatizando que é um história que precisa ser recontada. Principalmente, tirando a visão de que o europeu foi o responsável por levar “luz e civilização” para lá.

Imagem: reprodução do site da editora Paulus
Imagem: reprodução do site da editora Paulus

O tráfico de escravos e o sofrimento que acontecia nos navios negreiros são abordados pela autora. Ao ler os versos, o pensamento é de revolta e reflexão: “…num porão comprimidos/Vinham entre ais e gemidos/escravos em multidão”. Será que a sociedade de hoje ainda não insiste em querer nos deixar nos porões?

Sobre a escravidão no Brasil, Nezite acerta ao falar da coisificação do negro e propõe que o 13 de maio seja rediscutido. Obviamente, não deixa de citar Zumbi dos Palmares e a sua história de resistência.

No final da obra, mais uma reflexão pertinente:

“Ter o 20 de novembro
como data oficial
é uma forma de luta
já em nível nacional,
daqueles que, com amargura,
sofrem em bela pele escura
discriminação racial.

[…]

Que as várias etnias
convivam em fraternidade,
a beleza do país
está na diversidade;
convivamos como iguais,
mas que o negro jamais
perca a sua identidade”.

Até o próximo!

Referência:

ALENCAR, Nezite. Afro-Brasil em cordel. Ilustrações Robson Araújo. São Paulo: Paulus, 2007. (Coleção Cordel).

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública de Ensino da Bahia

O Novembro Negro e a Nossa Consciência

É novembro, mês da Consciência Negra. Nessa data, algumas pessoas costumam questionar: para quê isso? O Brasil é mestiço, somos humanos, vivemos em uma democracia racial etc. Todas essas retaliações têm como fundo a intenção de diminuir a importância do dia 20 de novembro e mascarar a realidade: o Brasil é um país desigual, com uma sociedade  profundamente hierarquizada e os negros ocupam a posição mais inferior.  A verdade é que muitos gostariam que os negros continuassem na condição de subalternos e se incomodam com o fervor e a vigilância comemorativa do mês de novembro.

A consciência negra precisa ser permanentemente vivificada, a pobreza no Brasil tem cor e incide sobre a população negra, de tal forma que pobre e negro já se tornou sinônimo. Triste legado de uma população que foi transplantada de seu continente para ser escrava e que enfrenta, no cotidiano, pobreza, racismo e preconceito. O capitalismo e o racismo unem-se no propósito de manter um povo subjugado a serviço do outro a baixo preço. Não há porque se conformar, estejamos conscientes de que há uma engrenagem determinando papéis e muitos lucrando com isso.

O Brasil é um país que não lida bem com suas questões de origem, o mercado traduz bem isso. Existem aqui artimanhas discursivas, utilizadas por campanhas publicitárias, que usam eufemismos para afirmar que seu produto tem status “diferenciado”. Ora, isso quer dizer o quê? Que é produto selecionado. Resta-nos perguntar para quem  e chegar à conclusão obscena de que existem produtos para negros e para brancos na “democracia racial” brasileira.  Até quando vamos fingir tacitamente que negros estão no lugar que escolheram estar e não crescem profissionalmente porque não se esforçam? É preciso abrir os olhos e lidar com o óbvio: a maior parte da população brasileira é negra e mestiça e não aceita mais servir conformadamente aos brancos.

O acesso a educação está fazendo com que os negros ocupem cada vez mais espaço na sociedade e economia do país. Com isso, se fortalece a luta por igualdade e diretos. É preciso, portanto, que haja um chamado às consciências e uma discussão frequente para desconstruir o racismo e o preconceito.  Veja a seguir o vídeo da campanha Cidadania e Direitos Humanos (clique na imagem abaixo):

Campanha

A população branca do país tem o privilégio da boa reputação pública, enquanto negros são, frequentemente, considerados cidadãos de segunda classe. Há uma luta sendo travada pelos direitos da população negra, todos devemos apoiar. Vamos esclarecer: se você tem direitos que outros não têm, isso é um privilégio. E a questão que envolve a consciência está aí: aceitar que isso seja contestado, apoiar as lutas por igualdade é ser socialmente justo.

A positivação da identidade social dos negros, passa antes, pelo direito à memória. Por isso, é preciso ser vigilante na lembrança dos nossos heróis negros da Conjuração Baiana (clique na imagem abaixo para assistir ao vídeo):

Búzios

Professores, parem de fazer representações teatrais que rememoram o tronco e a chibata. Vamos construir conhecimentos que afirmem a não passividade dos negros diante da escravidão. Houve resistência sim, importantes revoltas como a Revolta dos Malês (clique na imagem abaixo para assistir ao vídeo):

Malês

Em novembro e sempre, tenhamos consciência sobre os direitos humanos. Saudemos nossos heróis negros!

Valdineia Oliveira

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia

Racismo no Mercado de Trabalho

A 2ª edição da Mostra de Vídeo Estudantil (MOVE), promovida pela Secretaria Municipal da Educação de Camaçari, escolheu o filme Racismo no Mercado de Trabalho como o vencedor de 2015. O curta foi roteirizado e dirigido pela estudante Nadiellen Santos de Melo, 11 anos, que cursa o 6º ano na Escola Municipal Sônia Regina de Souza.

A pedido do Blog do Professor Web e da Professora Online, Nadiellen enviou um relato explicando o que motivou a escolha do tema abordado na produção:

Nadiellen Melo:
Nadiellen Melo: “Convivemos bem com isso, mas existem pessoas que são preconceituosas”.

“No processo de construção do nosso vídeo, os grupos envolvidos discutiram muitos temas interessantes. Na minha sala, falamos de violência doméstica, violência contra a mulher, racismo e preconceito. O nosso roteiro falava do preconceito no mercado de trabalho, porque muitas pessoas negras são prejudicadas e têm seus diretos negados, simplesmente por terem uma cor de pele diferente. Um absurdo. Em nossa comunidade e em nossa escola, a maioria das pessoas são negras, nós convivemos bem com isso, mas existem pessoas que são preconceituosas. Nosso vídeo é uma reflexão sobre isso. Nós, crianças, estamos dando uma lição em muitos adultos que não sabem conviver nem respeitar os outros”.

A MOVE teve início em 2014 e é coordenada pelo professor Marcus Leone, colaborador da Rede Anísio Teixeira, e por Regiane Coelho. A seguir, você pode assistir ao vídeo vencedor. Nadiellen autorizou a veiculação do curta aqui no blog, uma vez que a divulgação não tem fins lucrativos nem comerciais. Aproveite!

Amanhã é dia de branco?

Era uma vez… Veja o que ele fez. Ou melhor, o que ainda faz! Inicio aqui minha provocação: será que não vivemos o apartheid social no nosso estado, no nosso país?

Para começo de conversa, o apartheid é uma palavra oriunda do africânder apartheid, que significa “separação” em africano.

Apartheid foi um regime segregacionista e separatista da África do Sul, que deixou marcas ao longo da história. Ele negava, rigorosamente, os direitos sociais, econômicos e políticos dos negros, que eram controlados por uma minoria branca de europeus ( holandeses e ingleses). O regime vigorou até 1994. Um dos principais ícones na luta contra o apartheid foi Nelson Mandela.

No Brasil, muito se lutou e se luta pelos direitos e oportunidades para uma significativa parte da população negra, que muito contribuiu e contribui para nação. Essa luta jamais parou! Esta é a grande verdade. O 20 de Novembro homenageia o dia da morte de Zumbi, herói nacional que lutou ao lado de sua esposa, Dandara, pela resistência à escravidão. Mais conhecido como Dia da Consciência Negra . A data reacende o debate para lembrar que ações afirmativas precisam ser feitas e que, em muitos aspectos, vive-se ainda o apartheid social.

Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Zumbi_dos_Palmares
Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Zumbi_dos_Palmares

Não adianta maquiar os números ou falsear uma realidade! No Brasil, infelizmente, as políticas públicas para os negros se mostram insuficientes. A população negra enfrenta disparidades sociais, discriminação e negligência dos seus direitos e oportunidades, por apresentar baixa relevância na esfera política.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), pesquisa apresentada pelo Censo, mostra que o maior número da população negra está na região Nordeste, principalmente na Bahia. Salvador, considerada “ Roma Negra”, é a cidade brasileira como maior número de negros. Contudo, vale pontuar que não importa somente apontar dados; mas, sobretudo, revelar que é preciso, em qualquer canto desse país, fazer valer o direito de cada um deles. No Brasil, a campanha “Jovem Negro Vivo” aponta que é o país onde mais se mata no mundo e que 77% dos homicídios correspondem aos jovens negros. Assista ao vídeo e confira maiores informações sobre o tema.


Vale lembrar que muitos são os segmentos que movimentam a temática, reivindicam e lideram as lutas antirracistas, como os movimentos Black is beautiful e Black Power, que influenciaram a música. Elis Regina cantou  o negro na canção:  Black is beautiful, de autoria Sérgio e Marcos Vale. A música causou polêmica na década de 70 do século passado pois, segundo a crítica, evoca a supremacia de uma raça em detrimento da outra.

Black is beautiful, black is beautiful

Black beauty so peaceful

I wanna a black I wanna a beautiful

O Black is beautiful foi um movimento cultural iniciado nos Estados Unidos, que se espalhou por outros lugares do mundo e que evocou diferentes artistas, inclusive brasileiros, à temática do orgulho negro.

A Banda Olodum , fundada em 1979, ganhou destaque nacional e internacional por representar de forma cultural e política suas raízes africanas, além de participar de movimentos contra o racismo.

Imagem: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Olodum-drummers.jpg
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Muitos são os movimentos que buscam o fortalecimento e a promoção aos direitos raciais. Dentre eles, que tem conquistado muitas pessoas, é o “Cacheando em Salvador”,  que revela o sentido político e estético de valorização ao sentimento de pertença aos cabelos crespos.

A expressão Black Power é utilizada, erroneamente, para fazer referência tão-somente ao estilo de cabelo sem conhecer, portanto, toda finalidade política por trás. Na verdade, refere-se ao movimento negro ocorrido na parte ocidental, principalmente, nos Estados Unidos, de reafirmação aos interesses dos negros. Infinitos são os exemplos de palavras ou expressões utilizadas de forma equivocada ou com tom pejorativo que, muitas vezes, depreciam ou evidenciam o preconceito na nossa cultura.

É bem verdade que, qualquer tentativa de mudança não deve, tão-somente, está limitada à língua, mas a todo um conjunto de ações que levem a iniciativas positivas de mudança. Porque ontem, hoje e amanhã são dias de todos!

Veja e confira os estados e municípios que aderiram ao feriado.

Mônica Mota– Professora da Rede Pública de Ensino do Estado da Bahia