About Valdineia Oliveira

Sou prof. de História e trabalho com produção, compartilhamento e difusão de conteúdos audiovisuais na Rede Anísio Teixeira.

O Carnaval: da Saturnália aos Camarotes

É fevereiro, aproxima-se o carnaval, uma das festas mais populares do país. Em Salvador, a cada ano, a festa se transforma, metamorfoseando-se em duas: na avenida, o folião pipoca, se aglomera, pulando atrás do trio, numa região fronteiriça e insalubre, que insiste em existir, espremida entre a corda dos blocos e suntuosos camarotes. Ao lado dessa cena pitoresca, há outro carnaval que transcorre do alto. Ali estão os “vips”,  as pessoas que têm uma visão e situação social privilegiadas, que contemplam a avenida, instaladas com conforto e segurança. Nesses clubes sociais ambulantes, acontecem  shows de artistas de axé, funk e sertanejo, em paralelo ao circuito da folia. Como se vê na foto abaixo:

Fig 1. Fonte: Rodriga Sá. Circuito Barra Ondina

Fig 1. Fonte: Rodriga Sá. Circuito Barra Ondina

É possível ver, com bastante evidência, a suntuosa edificação instalada diante da avenida, para que as elites possam participar da festa com segurança e, sobretudo, com alguma distância, para não sofrer o absurdo desconforto de se misturar com a plebe.

Mas, nem sempre foi assim, a separação social não é a tônica dessa festa. O carnaval tem origem na antiguidade, mais precisamente, nos festivais realizados em Roma para homenagear Saturno. Durante a saturnália,  a irreverência era o ponto alto dos dias festivos, hierarquias sociais eram suspensas, escravos tomavam o lugar de seus senhores, vestiam-se como eles e com isso satirizavam seu comportamento. Senhores serviam seus escravos, comiam e bebiam juntos com eles. Nesses dias festivos o jugo da escravidão era suspenso. A inversão de papéis, aliás, é um fenômeno tipicamente carnavalesco.

No Brasil, na primeira metade do século XIX, acontecia o Entrudo, uma festa que envolvia muita espontaneidade e brincadeiras nos espaços públicos. Escravos saíam pelas ruas com os rostos pintados de branco em batalhas de  laranja, limões, farinha, água de cheiro e outros líquidos menos nobres. As famílias das elites não participavam das brincadeiras na rua, mas faziam esses jogos em casa e ficavam na janela  lançando, nos transeuntes, farinha, limões e outros. Em casa, a festa tinha limites sociais. Certas liberdades só eram permitidas entre os iguais. Veja, na foto abaixo, que os escravos, estão apenas servindo, e não participam.

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Earle, Augustus, 1793-1838. Jogos durante o carnaval do Rio de janeiro.

No século XX, o Entrudo foi considerado subversivo, violento e, por isso, criminalizado. Foram criados os bailes de carnaval em clubes sociais, onde tocavam marchinhas. Ali, o ambiente era controlado para que as famílias pudessem participar da festa com segurança e longe da balbúrdia que imperava nas ruas. Observa-se, que ao longo da história do Brasil a festa do carnaval coloca em paralelo estes dois vieses, as elites criaram um carnaval civilizado, controlado em suas pulsões mais tempestuosas: a sexualidade e a violência. Nesse ínterim, é importante pensar que o carnaval nasce da espontaneidade do povo, em seus dias livres, durante os quais podiam se expressar com irreverência, espontaneidade e criatividade. Juntavam-se  escravos e senhores sob a égide de suas pulsões mais libertárias.

O sistema escravista vigente no Brasil interferiu nas brincadeiras de rua chamadas de Entrudo, colocando em contraste festa de senhores e festa de escravos. As famílias “tradicionais” em sua avidez por controle e limites, mataram a irreverência e inversões que caracterizam a festa. Hoje, as elites assistem ao carnaval instaladas em camarotes, sob ar-condicionado, servidas de Buffet, segurança particular, um ambiente controlado no qual só entra “gente bonita”. São clubes que se ergueram ao lado da avenida, já cerceada pelas cordas dos blocos. Ao final, vemos que o carnaval espelha a desigualdade social que é vivenciada no cotidiano do Brasil.

Talvez, por isso, o carnaval de Salvador tenha perdido tanto de sua vitalidade nos últimos tempos; empresários da folia lotearam, a maioria dos espaços, o povo foi confinado entre as cordas. Com isso, reprimiu-se também toda a efervescência e liberdade que caracterizam essa festa, esvaziando seu melhor conteúdo: a junção de todos em um ambiente de irreverência e liberdade, sobretudo, o extravasar de emoções legítimas e próprias do ser humano.

É importante depreender, sobre esse texto, a riqueza do tema festa como um objeto de análise sobre a vida social apto a desvelar suas camadas, estruturas e grupos sociais excluídos. Nesse sentido, os professores e estudantes podem se apropriar dessa temática  para refletir e debater, de forma crítica, sobre diversos aspectos da sociedade. Acessem o Ambiente Educacional  Web vejam o vídeo abaixo e inspirem-se na escola de samba inclusiva Embaixadores da Alegria.

Valdineia Oliveira

Prof. de História da Rede Estadual de Ensino da Bahia

Fontes:

CUNHA, Fabiana Lopes da. Carnaval X Entrudo: formas de regrar o carnaval no Rio de Janeiro em fins do século XIX e início do século XX. Cad. Pesq. Cdhis, Uberlândia, v.24, n.2, jul./dez. 2011.

DANTAS, Marcelo Nunes. Desigualdade Social – A Exclusão Social no Carnaval de Salvador. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/1870091

O Lado Azul do Novembro Negro

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Desde o ano de 2003, a lei 10.639, em seu artigo 79-B, inclui o dia 20 de novembro no calendário escolar como dia Nacional da Consciência Negra, haja vista, que foi na data de 20 de novembro de 1695 que morreu Zumbi dos Palmares. Novembro é, então, um mês dedicado a reflexões, debates e ações em torno da consciência sobre esse país ser também negro, uma realidade que costuma ser negada, muitas vezes. A vigilância comemorativa não é sem razão, porque a memória social é um aporte importante da nossa identidade enquanto nação, que foi formada a partir de três matrizes étnicas, a luta é para que negros brancos e índios sejam representados igualmente em nossa história.

 Atualmente, o mês de novembro está em franco status de disputa, uma vez que também é chamado “Novembro Azul”. Nele, o ministério da saúde faz uma  convocação nacional aos homens para que façam o exame de prevenção ao câncer de próstata.  É importante atentar para o fato de que esse tipo de câncer tem uma incidência diferenciada em termos étnicos, segundo estudo publicado na revista científica British Journal of Cancer a partir de uma pesquisa realizada na Inglaterra, foi constatado que o câncer de próstata é maior entre os homens negros. Esse dado chama atenção e aponta para um recorte importante da nossa sociedade, que deveria ter conhecimento sobre o resultado dessa pesquisa e aumentar seus cuidados preventivos. Portanto, o conteúdo dessa pesquisa deveria ser melhor explorado, somando forças ao novembro negro, afinal  a campanha de conscientização sobre o câncer de próstata e o Dia da Consciência Negra têm uma confluência de interesses e um mês em comum. Acredito, que esse é um ponto que deveria ser discutido de forma mais ampla, explorando-se a convergência das datas para um maior alcance das duas causas. A saúde da população negra também é uma questão de consciência.

Valdineia Oliveira dos Santos

Prof. Rede Pública Estadual de Ensino

Pluralidade Cultural no Enem

Olá pessoal!

A prova do Enem está se aproximando, e nesse momento, é hora de pensar nos temas que possivelmente vão estar presentes na prova. A pluralidade cultural é um deles.

Você já deve ter ouvido pessoas que relacionam cultura e grupos sociais de modo reducionista e discriminatório: cultura de cigano, cultura de índio, nordestino é tudo igual, por exemplo. Se formos em frente, e perguntarmos, o que essas pessoas sabem sobre as raízes históricas dessas culturas, descobriremos, que sabem muito pouco, um aspecto, ou outro. Na verdade, o preconceito é fruto, exatamente, desse desconhecimento.

Devemos saber que não existe uma cultura comum para todos os povos indígenas, ciganos ou nordestinos. Pense em todos os estados do Nordeste e imagine se seria possível reduzir esse mosaico de culturas em uma única, é impossível. O Brasil é um país multicultural, formado a partir de três matrizes étnicas: o branco o negro e o índio. Mas é a cultura europeia que figura de forma mais evidente no livro didático. Isso fortalece o desconhecimento e, por conseguinte, o preconceito contra as identidades de outros grupos sociais. Muitas vezes, as escolas enfatizam as manifestações culturais apenas nas datas comemorativas, dia do índio, dia da consciência negra, dia do folclore e depois abandonam os temas. Esse conteúdo dado assim, de forma episódica, só reforça o preconceito.

Somos atravessados por diferentes identidades: de classe, gênero, etnia, religião, nacionalidade, nos deslocamos e aprendemos durante toda a vida a partir do contato com outras culturas. A identidade social não é uniforme, somos diversos e, por isso, devemos aprender a conviver com as diferenças, como base para a cidadania. A pluralidade cultural é um tema sintonizado com as demandas da sociedade contemporânea, globalizada e que incorpora povos de diferentes identidades culturais em um mesmo convívio. Atualmente, temos um exemplo claro de uma problemática relacionada à pluralidade cultural, a guerra na Síria e a migração de refugiados para a Europa, o que nos impõe pensar sobre o desafio de se conciliar direitos humanos e diferenças culturais.

A cultura é um campo heterogêneo composto por diferentes formas de expressões e que devemos, primeiro, ter o direito de conhecer. Digo direito porque a Educação deve assumir essa tarefa de ensinar cultura no plural. Com isso, vamos diminuir a incidência de atitudes racistas, homofóbicas, as perseguições religiosas e afins. Há um ganho social ao se aprender a conviver com as diferenças, na alteridade e cidadania.

Assista ao programa Diversidade Cultural no Ambiente educacional Web, pois assim você vai enriquecer o seu repertório de argumentos sobre essa temática.

 

Prof.ª Valdineia Oliveira dos Santos

Professora da Rede pública Estadual de Ensino.

Olimpíadas, competição e cooperação

 

Podium

Fig. 1 commons.wikimedia.org 

O Brasil está vivendo um momento ímpar de sua história, sediando os jogos olímpicos de 2016. É importante aproveitarmos essa oportunidade para refletirmos sobre os valores e subjetividades que participam da nossa cultura e que estão espelhados nessas competições. A sensação de vencer, ser o melhor, nos dá prazer e é, ao final, a mola mestra do nosso sistema econômico. Nildo Viana[1] afirma que “a competição é apontada como um produto social e histórico que gera uma sociabilidade e mentalidade competitivas cujo resultado é a naturalização desse fenômeno social”. Os jogos, de modo geral, são reforçadores desse processo.

A sociedade capitalista dá excessivo valor à concorrência, disputa e superação do outro e a “competição é seu elemento estrutural”[2].  Até pouco tempo atrás, era o vestibular quem definia quais os melhores estudantes do Brasil; hoje, é o Enem, mas a tônica é a mesma: preparar-se a vida inteira para competir por uma vaga nas melhores universidades, depois de formado vem a disputa por um emprego. Só existe lugar para os vencedores, no mercado de trabalho. Todo ano são divulgados hankings dos melhores alunos e universidades, muitas espalham outdoors pela cidade com fotos dos seus alunos campeões: é um pódio, quem não passa por essa seleção é taxado como perdedor. Os americanos têm um termo bem jocoso para designar essas pessoas: “loser”. A tradução é perdedor, derrotado. Não há lugar no topo para todos, logo, todos acham normal  que existam excluídos.

A semelhança com os jogos olímpicos não é mera coincidência, já que a Grécia é o país em que essas competições nasceram. A cultura grega influencia a nossa em diversos aspectos, os heróis e seus mitos de superação inspiravam os jovens a lutar e vencer seus adversários, consequentemente morriam cedo e eternizavam seu nome na história. Aos que tombavam nos campos de batalha, nenhuma glória: “losers”. O propósito desse texto é, ao final, provocar uma reflexão a respeito da ideologia que os jogos trazem. A TV mostra medalhas de ouro no peito dos vencedores, explora as características daqueles que superam seus  limites e batem recordes, quer que nossos jovens aprendam a vencer; mas o que sustenta essas vitórias é a derrota infringida ao outro, humilhar o adversário, fazê-lo tombar em campo. É, sim, a analogia de uma batalha em que, ao final, se estabelece uma hierarquia entre vencedores e vencidos  e tudo fica acomodado pelo “espírito esportivo”. Ora, saiba perder, eles  dizem.

Como professor, você já ouviu falar em jogos cooperativos? Isso mesmo! Trata-se de  uma prática esportiva que se preocupa em reforçar os valores sociais humanos, tais como reciprocidade  e solidariedade entre os membros do jogo. Conheça essa proposta e reflita sobre a necessidade de equilíbrio entre competitividade e cooperação na educação dos nossos jovens.

Assista ao GINGA, uma produção da TV Anísio Teixeira que explora a relação entre educação física, cultura corporal  e humanização.

Valdineia Oliveira

Professora da rede pública estadual de ensino

 

FONTES

[1] VIANA, Nildo. Educação Física, Competição e Sociabilidade Capitalista. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação – RESAFE. 2011.

[2] Idem 1.

BLANCO, M. R. Jogos cooperativos e educação infantil: limites e possibilidades. 181 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

CORREIA, M. M. Trabalhando com jogos cooperativos: em busca de novos paradigmas na Educação Física. Campinas: Papirus, 2006

ORLICK, T. Vencendo a competição. São Paulo: Círculo do Livro, 1989

É Possível ser Escola sem Tomar Partido?

Fig.1 Estudantes do Colégio Estadual Josias de Almeida Melo. Foto: SEC/BA 

 No mês de março de 2015, foi apresentado ao Congresso Nacional o projeto de lei nº 867/2015, que inclui, entre as diretrizes e bases da educação nacional, o “Programa Escola sem Partido” [1]. Esse é um assunto muito sério, já que a proposta incide diretamente sobre o sistema educacional brasileiro, modificando sua estrutura. As raízes para a formulação dessa proposta vêm de 2015, ano em que o país ficou marcado por uma polarização, caótica, entre esquerda e direita. Em meio aos confrontos políticos a educação foi arrastada para o campo de batalha, com os partidos de direita acusando a esquerda de se beneficiar da doutrinação ideológica feita nas escolas pelos professores.

Há que se atentar para a historicidade da sociedade brasileira que, em sua maioria, sequer sabe diferenciar direita e esquerda.  Segundo Jairo Nicolau, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro, durante as eleições presidenciais de 2010, 11% dos brasileiros se autodenominavam de esquerda e 17% de direita (outros 29% se consideravam de centro e 43% não sabiam). Vamos combinar que a Educação merecia debates bem mais consistentes em torno de sua qualidade. O movimento Escola sem Partido argumenta contra a militância dos professores, e o seu posicionamento político partidário em sala de aula.

Diante disso, é preciso questionar, junto com o professor Leandro Karnal “se é possível apresentar um fato histórico sem dizer do conteúdo político presente no processo?”. E ir além, questionando se é possível a um professor ser neutro em educação, ensinando que as coisas são como são e pronto? A neutralidade não é um campo vazio de significado, o professor apolítico também está se posicionando, se omitindo, e esvaziando no aluno a criticidade, e cidadania. Afinal, é importante, sim, pensar uma escola sem partido, quer de direta ou de esquerda, mas não há possibilidade de ensinar sem explicar o modo como as opções políticas conformaram  os fatos históricos. O bom professor oferece os diferentes pontos de vista. Concluindo, cito reflexão proposta pelo ex-ministro da educação Renato Janine Ribeiro: “O professor não pode fazer doutrinação em sala de aula, acho que isso é básico. O que ele tem de ensinar é que na ciência, no conhecimento, você tem posições conflitantes, que não há um acordo entre todos diante de determinados assuntos”.

Valdineia Oliveira

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino

 

FONTES

KARNAL, Leandro. Escola sem Partido. Disponível em: https://youtu.be/mA4ZWzF0m0s

NICOLAU, Jairo. Os Ricos são de Direita? http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1061/noticias/os-ricos-sao-de-direita

RIBEIRO, Rento Janine. Escola Sem Partido preocupa por questionar a transmissão dos saberes, afirma Janine. http://www.cartaeducacao.com.br/entrevistas/escola-sem-partido-preocupa-por-questionar-a-transmissao-dos-saberes-afirma-janine/

[1]                     Escola sem Partido. http://www.escolasempartido.org/

UFBA Comemora os Seus 70 anos!

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Fig. 1 Malu Dias.

A UFBA comemora, nesta semana, 70 anos de história. A data merece muita atenção, tendo em vista o papel central que essa instituição teve e tem na construção do desenvolvimento do estado da Bahia. A criação da Universidade remonta a 1808, quando o Príncipe Regente Dom João VI institui a Escola de Cirurgia da Bahia, primeiro curso universitário do Brasil. Segundo dados do Histórico da UFBA , também é possível, a partir dessa fonte de dados, entender o percurso formativo no qual, ao longo do século XIX, os cursos de Farmácia (1832), Odontologia (1864), a Academia de Belas Artes (1877), Direito (1891) e Politécnica (1896) foram integrados à UFBA. Esses são marcos importantes para destacar a antiguidade e as raízes históricas dessa instituição, que nasceu assim: atrelada à necessidade de formar uma elite intelectual durante o Império.

Na década de 60, a UFBA protagonizou dois dos movimentos sociais mais importantes da contemporaneidade: o Cinema Novo e o Tropicalismo. Hoje, a universidade está sintonizada com as políticas públicas de ações afirmativas e expansão de seus serviços, atendendo ao processo de dinamização do país, que requer a inclusão de grupos sociais diversos. Os números em torno das ações de pesquisa, ensino e extensão são expressivos. Até o ano de 2015, foram 105 mil alunos graduados, segundo dados da UFBA em números. Hoje é considerada melhor universidade do Nordeste, segundo o ranking mundial elaborado pelo Center for World University Rankings .

Na atualidade, a universidade tem passado por crises que culminam em greves e mobilizações frequentes. O professor Nelson Pretto, em entrevista ao jornal Tribuna da Bahia, sublinha que “a universidade vem sofrendo grandes ataques representados pelos cortes de verbas, pelos ajustes fiscais, pela precarização do trabalho docente e dos trabalhadores terceirizados”.

O destaque para a comemoração dos 70 anos da UFBA fica por conta do congresso  que acontecerá  entre os dias 14 e 17 de julho. A programação pode ser conferida nesse site: http://www.congresso.ufba.br. São múltiplas mesas e palestras discutindo o legado dessa instituição e também o seu papel na contemporaneidade. É importante que possamos estar presentes nesse momento em que a UFBA propõe uma reflexão sobre si e sobre suas ações. Então, vamos lá, confira a programação e Participe!

Valdineia Oliveira dos Santos
Professora da Rede pública de Ensino da Bahia

FONTE

Congresso UFBA. Disponível em: http://www.congresso.ufba.br
PRETTO, Nelson. Em meio à crise, UFBA tenta chegar aos 70 anos. Jornal Tribuna da Bahia. Salvador. 2015. Disponível em: http://www.tribunadabahia.com.br/2015/08/15/em-meio-crise-ufba-tenta-chegar-aos-70-anos.
Portal UFBA – Disponível em: https://www.ufba.br/historico.
UFBA em números – Disponível em: https://www.ufba.br/noticias/programa%C3%A7%C3%A3o-do-congresso-da-ufba-j%C3%A1-est%C3%A1-dispon%C3%ADvel

Culturas Sertanejas

 

Foto de: Cristiane Batista da Silva Santos

Fig 1. Meu sertão por: Cristiane Batista da Silva Santos

 

“O sertanejo é antes de tudo um forte” já dizia Euclides da Cunha em sua obra Os Sertões, que se tornou um clássico da literatura brasileira. Essa visão, compartilhada por muitas pessoas, tem como referência o determinismo geográfico, segundo o qual o meio ambiente daria as condições para o desenvolvimento da fisiologia e psicologia humana. Trata-se de um equívoco que nos convida a pensar: afinal, a interação entre o homem e a natureza, seria determinante sobre a personalidade das pessoas?

Sobre as populações sertanejas, sabe-se que, historicamente, não têm as condições favoráveis de vida. O sertão já vivenciou secas célebres, faltam chuvas regulares para viabilizar a produção agrícola, há pouco investimento econômico nessas regiões do país, e consequentemente, pouca perspectiva de trabalho para além do campo. A luta diária pela sobrevivência, em situação tão adversa, contribui para se criar um estereótipo de super homens e mulheres. Mas, em verdade, o que há são condições desfavoráveis demandando um esforço extra na lida  cotidiana.

Nesses termos, não há escolha, senão ser forte, tanto para ficar, quanto para migrar, se preciso, e muitos fogem da seca para estados como São Paulo. Chegando lá, são recebidos com essa perspectiva identitária limitada, de que são sertanejos, baianos, nordestinos, retirantes, etc. Esses estereótipos são demarcadores de diferença entre nordestinos e moradores da região sudeste rica e desenvolvida. São braços fortes para o trabalho e nada mais. Há uma visão reducionista sobre a identidade dos homens e mulheres do sertão. Aqui cabe perguntar: O sertão teria uma única cultura?

O sertão era como os portugueses chamavam, na época colonial, as regiões do interior do país. Hoje se sabe que essas regiões são muito diversas entre si, não há homogeneidade, nem mesmo no clima e na paisagem. O imaginário sobre seca, distância e aridez esconde muitos aspectos da vida dos homens e mulheres dessas localidades. É preciso tomar uma perspectiva aproximada, para saber sobre o elenco de tradições que compõem o repertório próprio das culturas sertanejas, algo muito rico e que precisa ser valorizado, sobretudo, em sua heterogeneidade.

Para compreender melhor as complexidades do cotidiano da nossa gente, o Cine PW indica um clássico da literatura brasileira, escrito por João Cabral de Melo Neto, publicado em 1955, Morte e Vida Severina, que retrata o sofrimento de um migrante do sertão nordestino em busca de melhores condições de vida no litoral.

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Fig 2 – Captura de tela da animação Morte e Vida Severina – TV Escola

 

Valdineia Oliveira.

Prof. de História da Rede Pública Estadual de Ensino.

 

Fontes:

A importância das tradições culturais do Sertão e sua relação com o ato de educar. Disponível em: http://www2.uefs.br/semic/upload/2011/2011XV-606MAY283-100.pdf

CUNHA, Euclides. Os Sertões. São Paulo:Três, 1902.