Duas faces de uma mesma prática

A leitura é muito mais

do que decifrar palavras.

Quem quiser parar pra ver

pode até se surpreender:

vai ler nas folhas do chão,

se é outono ou se é verão;

nas ondas soltas do mar,

se é hora de navegar;

e no jeito da pessoa,

se trabalha ou se é à-toa…”

O trecho acima, do poema Aula de Leitura, do escritor, ilustrador e pesquisador paulista Ricardo Azevedo, mostra como a leitura é uma prática que nos enche de possibilidades de ver o mundo. Através dela, a gente decifra tudo, até as coisas consideradas mais difíceis. Por mais clichê que pareça, para quem lê, a vida tem outra face e várias facetas. Quem lê, de fato, se torna possível e passível; porque leitura é sentimento.

Fig. 1: Família “Leitura e Escrita” (da esquerda para a direita): Rodrigo de La Rocha, Diego Santoro, Elaine Camacã, Alex Simões, Mariângela Nogueira (sentada), Larissa Kharkevitch, Anderson Shon, Nana de Carvalho e Armando Almeida. Foto/Edição: Peterson Azevedo.

A Fundação Pedro Calmon (FPC), através da Diretoria do Livro e da Leitura (DLL), levou essa afirmativa ao pé da letra e criou o projeto Memórias de Leitura, com o objetivo de estimular a leitura. Quinze vídeos foram publicados, com pessoas falando sobre as suas primeiras experiências com a prática de ler. O resultado pode ser visto na programação da TV Educativa da Bahia (TVE-Bahia), nos sites e mídias sociais do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), da Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA) e da própria FPC.

A fim de saber um pouco mais sobre o projeto e discutir o papel da escola nesse estímulo à leitura, a equipe do Blog do Professor Web e da Professora Online conversou com Mariângela Nogueira, 58 anos, diretora da DLL. Veja, no vídeo a seguir, o que ela disse:

O projeto Memórias de Leitura foi produzido, como afirmou Mariângela, durante a Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), em outubro de 2016. O poeta Alex Simões, 43 anos; o tradutor, poeta e escritor Rodrigo de La Rocha, 28 anos; e o professor e escritor Anderson Shon, de 29 anos, foram algumas das pessoas que compartilharam as memórias. A convite do nosso blog, eles falaram como foi essa experiência e opinaram sobre a importância da iniciativa:

O Memórias de Leitura foi gravado por jovens integrantes da Cipó Comunicação Interativa e a produção teve apoio da DLL. Por curiosidade, você gostaria de saber quais são as memórias de leitura de quem idealizou a iniciativa? Nós também! Por isso, perguntamos à equipe que compõe a Diretoria do Livro e da Leitura, da Fundação Pedro Calmon: quais são as memórias de leitura de vocês? Neste vídeo, você confere os depoimentos:

IV Concurso de Escritores Escolares

Outra ação da DLL (FPC) que tem a leitura como mote é o Concurso de Escritores Escolares. Isso porque todo ato de escrita pressupõe o de leitura. Na sua 4ª edição, o concurso é voltado para estudantes regularmente matriculados no Ensino Fundamental I e II e Ensino Médio, das redes pública e particular da Bahia. Cada estudante só pode se inscrever em uma das categorias (redação ou poesia), com texto inédito, ficcional ou não. O tema das produções é livre. No vídeo a seguir, Armando Almeida, 60 anos, coordenador de Leitura da DLL, fala como se deu a adesão das escolas ao concurso, durante todo esse tempo, e sobre o estímulo à escrita:

O professor Anderson Shon, que participa há dois anos do concurso, estimulando os seus alunos, diz que faz a sensibilização focando na escrita criativa: “Eu sempre trabalhei redação longe de qualquer objetivo de passar no ENEM, de passar em vestibular. Eu sempre foquei em escrita criativa. Quando eu soube do concurso, lá na 2ª edição, para mim, era a ideia de validar os meus conhecimentos e os conhecimentos deles. Porque a gente escrevia, a gente gostava, mas a gente nunca tinha passado por uma avaliação. Na primeira vez que eu participei, tive sete alunos premiados. No ano passado, tive Beatriz Vieira em primeiro lugar. A gente já trabalhava a escrita de uma forma extremamente criativa. Minha ideia de trabalhar a escrita com eles é no conceito de que a escrita é viva. Nas nossas aulas, não existe nada que esteja extremamente errado. Para mim, estimular os alunos, é sempre desafiá-los, mostrar que eles são capazes, criativos e com condições de virarem escritores no futuro”, pontua.

As inscrições para participar do IV Concurso de Escritores Escolares poderão ser feitas até 14 de junho, na sede da FPC, que fica na Avenida Sete de Setembro, Edifício Brasilgás, 4º andar, sala 01, Centro, Salvador-BA, CEP.: 40060-001. Quem não mora na capital, pode fazer a inscrição pelo correio, com Aviso de Recebimento (AR). Dezoito candidatos serão contemplados, com prêmios como notebook, tablet, e-book e kits de 50, 40 ou 30 livros. Para saber mais informações sobre o concurso, acesse o site www.fpc.ba.gov.br. Sucesso! E não esqueça: a leitura te leva para qualquer lugar. Basta você querer!

Texto/Produção: Raulino Júnior

Imagens: Peterson Azevedo

Edição/Finalização: Keops Maciel

Agradecimentos à equipe da Diretoria do Livro e da Leitura, da Fundação Pedro Calmon, e a todas as pessoas que participaram desta reportagem.

Escritores Baianos, Aqui e Acolá

Abril. Abre-se, em nosso blog, um espaço maior para a literatura. Nossa escolha é dar visibilidade à produção literária do estado da Bahia e estimular a apreciação estética das obras destes novos escritores. Ao mesmo tempo, realizaremos uma conversa entre a literatura e outras linguagens artísticas aqui produzidas, como teatro, dança, música e audiovisual.

Durante o ensino médio, nas aulas de Literatura, há a recomendação ou exigência da leitura de vários livros clássicos, de autores brasileiros ou portugueses. Para a maioria dos estudantes, essa atividade é extremamente desafiadora: ler livros que foram escritos há séculos, com uma linguagem bastante diferente da nossa, descrevendo uma realidade aparentemente muito distante.

Respeitando os direitos imprescritíveis do leitor, como sugere Daniel Penac, …

O direito de não ler;  de pular as páginas; de não terminar de ler o livro; de reler; de ler no importa o quê; o direito ao “bovarysmo”; de ler não importa onde; o direito de “colher aqui e acolá”; o direito de ler em voz alta;  de se calar.”

… em algum momento haverá o reconhecimento de que esses textos da escrita universal permitem ao leitor descobrir mais sobre a alma, o mundo e os recursos estilísticos da língua. Seus autores são verdadeiros artistas, são artistas da palavra: esculpem a língua com cuidado e estilo e põem em evidência os principais conflitos da existência humana.

Desta vez, no Blog queremos dar espaço aos novos escritores. Na última década houve uma diversificada atividade literária com produção de livros de novos autores que, infelizmente, por circunstâncias de distribuição, não chegaram às livrarias do país. Esta é uma boa ocasião para apresentar escritores que estão aqui – os que nasceram, residem e produzem em sua própria terra – bem mais perto que imaginam. Não digo apenas dos escritores de obras consagradas,  nascidas em terras nossas, digo mesmo dos contemporâneos escritores.

Entre 2015 e 2016, num projeto denominado Mapa da Palavrafoi constituída uma chamada pública para a seleção de produções artísticas e literárias realizadas em nosso estado. Resultado: duzentos e setenta e cinco artistas da palavra se cadastraram e tiveram suas obras publicadas em plataforma virtual ou em versão impressa. Teremos aqui no blog, na TV e na nossa Rádio Anísio Teixeira grandes encontros e conversas com escritores da nossa Bahia.

De abril em diante, algumas postagens estarão aqui para “degustação”. Aguardem! Enquanto isso, podem ir se deleitando com o que a Rede Anísio Teixeira produziu no quadro “Poesia de Cada Dia” com textos de poetas brasileiros. Aqui, apenas um dos muitos que vocês podem acessar no Ambiente Educacional Web.

Até mais!

Lilia Rezende

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino

 

 

O Poder da Mídia, Ontem e Hoje!

correa-martians_vs-_thunder_child

Fig.1: Ilustração de Henrique Alvim Corrêa para  o livro A Guerra dos Mundos. Marciano lutando contra o navio de guerra Thunder Child. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Fighting_machine_(TheWaroftheWorlds)#/media/File:Correa-Martins_vs._Thunder_Child.jpg

Estamos na era das mensagens instantâneas, com piadas e charges facilmente identificáveis como fictícias, mas com muitas outras mensagens de teor ficcional tomadas como verdadeiras. Mas por que levamos a sério essas mensagens? Simplesmente pelo fato de serem construídas nos moldes utilizados pelos meios de comunicação, que conferem credibilidade ao que está sendo compartilhado nas redes sociais.

E desde sempre as coisas são assim. Exemplificando e começando pelas coisas mais simples, nós mesmos recorremos ao testemunho de uma outra pessoa para confirmar alguma história que estamos contando a alguém. Não é assim? Dizemos: pergunte a fulano. E se esse fulano for uma pessoa idônea, nossa história terá o devido respaldo. Infelizmente, muitos desses fulanos tendem a confirmar nossas histórias, mesmo sem tê-las testemunhado. Isso pode se dar devido a laços de amizade ou por outros interesses. Até nos tribunais há quem jure dizer a verdade, com a mão sobre a Bíblia, mesmo ciente da mentira. Desse modo, inocentes são condenados, e culpados libertos, a depender dos homens da lei envolvidos no processo. Diante de sistemas assim, alguns preferem lavar as mãos, como fez Pilatos.

Quanto ao testemunho da imprensa escrita, radiofônica e a televisada, a “verdade” é, naturalmente, consumida pela grande maioria de seus seguidores, mesmo que as “pontinhas soltas” sinalizem questionamentos a serem feitos. Assim, dizemos: deu no rádio… li no jornal… vi na televisão e, portanto, tudo pode ser verdade. Aliás, será que é por essa razão que alguns acrescentam “só repassando”, quando reenviam certos textos cujo respaldo parece estar faltando? Isso os exime da responsabilidade sobre aquilo que passam adiante? Pois uma mentira, em formato jornalístico, por exemplo, pode destruir civilizações inteiras.

Considerando que assim é, se uma mídia utilizada para anunciar fatos verídicos vier a misturá-los com ou substituí-los por ficção, dificilmente o público perceberá a farsa, a menos que se anuncie, previamente, do que se trata. Foi o que aconteceu em 1938, nos Estados Unidos.

wotw-nyt-headline

Fig.2: Manchete do New York Times de 31/10/1938 sobre o pânico causado pelo programa ficcional de rádio levado a sério pelos ouvintes. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:WOTW-NYT-headline.jpg

Naquele ano, Orson Welles adaptou para o rádio a obra A Guerra dos Mundos de Herbert George Wells, lançado em capítulos em 1897 e, em livro, em 1898. A história trata da invasão de marcianos inteligentes à Terra. O drama radiofônico foi apresentado ao público em formato de boletim de notícias, interrompendo outro programa que estava no ar. No início da transmissão foi anunciado que se tratava de uma obra de ficção, mas os ouvintes que ligaram o rádio depois de iniciado o programa não ouviram o tal aviso. Resultado: houve pânico generalizado e colapso de todas as centrais telefônicas, devido à imensa quantidade de chamadas para a polícia, bombeiros e para a própria emissora de rádio. As ruas e estradas ficaram congestionadas, com pessoas tentando fugir da área invadida pelos marcianos e foram inúmeros os depoimentos dos que viram e ouviram as naves marcianas e seus ocupantes. Hipnose coletiva? Não duvido. Clique aqui para ver um doc sobre isso.

orson_welles_war_of_the_worlds_1938

Fig.3: Orson Welles reunido com repórteres, em uma tentativa de explicar que nenhum dos envolvidos na transmissão do drama radiofônico tinha ideia do pânico que causaria. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:Orson_Welles_War_of_the_Worlds_1938.jpg

O curioso é que, 3 décadas depois, a peça radiofônica de Orson Welles foi reescrita para o ano de 1968. Você diria: ah, mas a essa altura, todos já saberiam de que se tratava de uma obra de ficção. Errou. Aconteceu a mesma coisa, claro que numa proporção menor, já que o número de ouvintes tinha diminuído. De acordo com a Wikipedia, apesar das exaustivas chamadas anunciando a peça radiofônica de 1968, muitos acreditaram nos boletins e na cobertura jornalística (ficcional) que a todo instante interrompiam a programação musical do horário. O criador dessa versão, Jefferson Kaye, e o diretor Danny Kriegler chegaram a pensar que seriam demitidos, tal foi a confusão criada, que chegou a envolver até a força armada canadense, um jornal e vários oficiais da polícia local, além dos telefonemas de ouvintes assustados, todos crendo que a invasão alienígena era real.

800px-landingsite_statue

Fig.4: Placa comemorativa da famosa transmissão radiofônica, em West Windsor. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:Landingsite_statue.JPG

Isso ilustra muito bem a força que têm os meios de comunicação. Se nesses casos aqui descritos não havia a intenção de atingir as pessoas, imaginemos o que seria se tudo fosse intencional!  Com esse mecanismo, derrubam-se governos legítimos e sustentam-se farsas e farsantes. Não é à toa que a mídia carrega o rótulo de 4º Poder.

Que possamos usar essa força para a Paz.

Feliz 2017!

Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Ensino

REFERÊNCIAS:
https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Guerra_dos_Mundos_(livro)
https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)
https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_1968)

Gestar na Escola estimula leitura e produção de texto através da intermediação tecnológica

Estudante-repórter: Esther Silva |Redator do texto desta postagem e editor do áudio: Thiago Ferreira

Olá, gente!

Mais uma temática importante foi discutida no Inovatec: a professora Enoilma Simões conversou com a gente e falou sobre uma das ações do projeto Gestar na Escola. Confira, no depoimento dela, como o uso das tecnologias da informação e da comunicação podem estimular a leitura e a produção textual.

 

Fig. 2: Esther Silva. Foto: Carol Aguiar

Estudante: Esther Silva. Foto: Carol Aguiar

Esther Silva tem 17 anos, é estudante do Centro Estadual de Educação Profissional em Controle e Processos Industriais Newton Sucupira, que fica em Salvador, e faz parte da equipe da Cobertura Colaborativa Estudantil.

Resenha PW ⇨ Riachão: o cronista do samba baiano

Oi! Tudo bem? Ontem, 27 de novembro de 2016, completaram-se cem anos do registro do samba Pelo Telephone (assim mesmo, com “ph”, respeitando a grafia da época), no Departamento de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional. A obra, de autoria de Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o famoso Donga, é considerada o primeiro samba brasileiro. E, no ano em que o gênero completa cem anos de existência, que tal conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra de Riachão, um de nossos sambistas contemporâneos mais festejados?

Fig. 1: O sambista Riachão mostra vitalidade e muita alegria com seus 95 anos de vida. Foto: reprodução do site da Secretaria de Comunicação Social do Estado da Bahia

Fig. 1: O sambista Riachão mostra vitalidade e muita alegria com seus 95 anos de vida. Foto: reprodução do site da Secretaria de Comunicação Social do Estado da Bahia

Em 2009, a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia (ALBA) publicou o livro Riachão: o cronista do samba baiano, escrito pela jornalista Janaína Wanderley da Silva. A biografia integra a coleção Gente da Bahia. Com linguagem simples e deixando evidente toda a identidade do sambista, a obra, que tem 12 capítulos, envolve o leitor do início ao fim.

Clementino Rodrigues, o Riachão, completou 95 anos no último dia 14 e aos nove já cantava em aniversários. Contudo, antes de começar a viver da música, aprendeu o ofício de alfaiate. Uma das passagens mais interessantes do livro é quando Janaína narra o motivo que o levou a compor a primeira música:

Era 1936, Riachão cantava desde os 9 anos e seu repertório era recheado de sambas do Rio de Janeiro. Num certo dia, quando saiu da alfaiataria, caminhava com destino à Ladeira da Misericórdia para comprar material de trabalho e avistou um pedaço de papel no chão. Se abaixou e pegou um pedaço de revista rasgado e com letras marrons. Ao ler, um choque misturado com desalento. O escrito “Se o Rio não escrever, a Bahia não canta”, lhe travou a garganta. Aquelas palavras não saíram da cabeça do jovem por horas. Após uma dia de trabalho, chegou em casa, jantou, deitou-se para dormir e aquela frase ainda martelava sua cabeça. No dia seguinte, registrado na sua vida como o nascimento do artista, compôs: “Eu sei que sou malandro, sei/Conheço o meu proceder/Eu sei que sou malandro, sei/Conheço o meu proceder/Deixa o dia raiar, deixa o dia raiar/A nossa turma é boa, ela é boa/Somente para batucar…”.

O que quase ninguém sabe, e é uma curiosidade presente na biografia, é que Riachão começou a carreira cantando música sertaneja. No CD Humanenochum, de 2001, ele gravou a música Vida da Semana, considerada sua obra sertaneja mais importante. Muitos outros artistas gravaram e popularizaram as composições de Riachão, como Marinês (“Terra Santa”), Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gang do Samba, Lampirônicos e Anastácia (“Cada Macaco no Seu Galho”); Trio Nordestino (“Retrato da Bahia”, “Bochechuda”, “Papuda”, “Vamos Pular, Gente”), Cássia Eller (“Vá morar com o Diabo”), banda Moinho (“Baleia da Sé”) e Terra Samba (“Vá pra Casa”).

No livro, Janaína não deixa de registrar a fase em que Riachão ingressou na Rádio Sociedade da Bahia (ele ficou lá por 26 anos) e também o lançamento do 1° LP solo, O Sonho do Malandro, de 1982. A versatilidade do artista é, o tempo todo, destaque na obra. O leitor fica sabendo que, além da música, Riachão atuou no cinema e na TV. Contudo, não é só de alegria que se vive uma vida, não é? Em janeiro de 2008, um acidente de carro causou a morte de seis membros de sua família, incluindo a mulher e dois filhos.

Janaína Wanderley da Silva conseguiu captar muito bem a alma de Riachão. O livro nos faz rir muito mais do que chorar. Assim é Riachão: a “alegria em pessoa”. Uma frase que consta na biografia, atribuída a ele, mostra como Clementino Rodrigues se define: “Eu sou o artista que me torno uma nota musical para levar alegria ao povo”. Que a alegria de Riachão esteja sempre viva!

Referência:

SILVA, Janaína Wanderley da. Riachão: o cronista do samba baiano. 2.ed. Salvador: Assembleia Legislativa, 2009. (Coleção Gente da Bahia).

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Tecnologias Educacionais e o Antirracismo

IMG_3436.JPG

Mural no V SERNEGRA – IF Brasília – Foto: Carlos Barros

 

No mês dedicado à Consciência Negra, o Instituto Federal de Brasília (IFB) organizou a Semana de Reflexões Sobre Negritude, Gênero e Raça – SERNEGRA. Diz respeito a um evento técnico-científico, idealizado e organizado pelo Grupo de Pesquisa Estudos Culturais Sobre Classe, Gênero e Raça.

Neste ano (2016), aconteceu a quinta edição do SERNEGRA, trazendo reflexões sobre a luta antirracista no Brasil, a teoria e a práxis decolonial, abordando os eixos: a colonialidade do poder, do saber e fazer ser, debruçada sobre questões como a Geopolítica do Poder e a possibilidade de uma arte e de uma pedagogia decolonial.

A interculturalidade é o ponto forte desse Seminário, que contou com apresentações artísticas, oficinas, debates, filmes, palestra, simpósios temáticos com algumas das principais personalidades do mundo acadêmico, artístico e político que se propõem a debater o enfrentamento das questões raciais e de gênero no Brasil, Estiveram presentes: Adolfo Alban Achinte, Universidad Del Cauca – Unicauca/ ColômbiaPatricia Hill Collins, University Professor of Sociology at the University of Maryland, College Park, Nelson Fernando Inocêncio, Universidade de Brasília, Joaze Bernardino Costa, Universidade de Brasília, Vera Maria Ferrão  Candau, Universidade Católica do Rio de Janeiro, Wanderson Flor do Nascimento, Universidade de Brasília.

img_3693

Caderno de Resumos do V SERNEGRA – Foto: Carlos Barros

As tecnologias educacionais foram temas de debates, através de apresentações de projetos que trouxeram ações que difundem o antirracismo e que podem servir de exemplos para estudantes e professores, na prática pedagógica. Foram eles: Cine NEABI: educando para a diversidade (IF Roraima); Ikoloju: cibercultura e educação antirracista (UERJ); Documentários com estudantes de escolas públicas baianas (IAT – BA); Memórias e identidades: produção formativa de vídeos educacionais (IAT/UFBA); Violência no contexto escolar e racismo: um olhar a partir de um município do entorno do Distrito Federal (Universidade Nacional da Província de Buenos Aires e Faculdade Anhanguera de Valparaíso/GO – Kroton Educacional); e Programa Intervalo como tecnologia educacional na contribuição de práticas antirracistas: o caso do Quadro Histórias da Bahia (IAT- BA).

 Momentos como esse comprovam que as tecnologias aliadas ao processo educativo podem trazer benefícios tanto para a Educação, como para a compreensão da relevância do papel do cidadão em seu grupo social, estimulando a autonomia e a criticidade dos estudantes, principalmente, acerca de questões pouco presentes nos Livros Didáticos, como é o caso da Educação para as Relações Étnico-Raciais.

Radiola PW: Ilê Pérola Negra

Oi! Tudo bem? Estamos no mês de novembro e, neste período do ano, todas as nossas publicações abordam aspectos da História e Cultura Africana. Assim, fortalecemos as ações do Novembro Negro, que acontece em todo o estado e será aberto oficialmente amanhãNa Radiola PW de hoje, o destaque vai para a música Ilê Pérola Negra, dos compositores Miltão, Renê Veneno e Guiguio. A canção foi gravada pela cantora e compositora Daniela Mercury, em 2000, no CD Sol da Liberdade.

Fig. 1: Ilê Aiyê. Foto: reprodução do site oficial do bloco afro

Fig. 1: Ilê Aiyê. Foto: reprodução do site oficial do bloco afro

Ilê Pérola Negra traz no seu discurso uma forma evidente de exaltação. Exalta a cultura negra em todos os seus aspectos: sociais, artísticos e religiosos. Os versos carregam um alerta para que toda a população perceba que a cultura negra é uma das bases da cultura brasileira e, por isso, todos deveriam conhecê-la e, obviamente, respeitá-la. Isso se confirma nos seguintes trechos:

[…]

Eu quero penetrar no laço afro que é meu e seu

Vem cantar meu povo

Vem cantar você

[…]

O mote da música é o desfile do bloco afro Ilê Aiyê, durante o Carnaval. Os autores fazem reverência àquele que é considerado “o mais belos dos belos” e reafirmam, durante todo a canção, a importância do cordão para a negritude. Por isso, o Ilê é uma pérola negra:

Lá vem a negrada que faz o astral da avenida

Mas que coisa tão linda, quando ela passa me faz chorar

Tu és o mais belos dos belos, traz paz e riqueza

Tens o brilho tão forte por isso te chamo de pérola negra

Um dos objetivos da obra é negar a política de assimilação, estrategicamente construída para fazer com que os negros não tenham orgulho de seus traços e de sua cultura. De acordo com BERND (1988, p. 35), tal política diz respeito à “tendência dos povos americanos, sobretudo dos negros, de assimilar a cultura européia (processo de aculturação) e a conseqüente perda da memória das culturas de origem indígena e africana (processo de desculturação) [sic]”.

Ilê Pérola Negra é, por si só, uma política de exaltação. É importante considerar o seu discurso, principalmente para que todas as pérolas brilhem de forma igual, mas mantendo as suas características próprias.

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Referência:

BERND, Zilá. O que é negritude. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Coleção Primeiros Passos).