Resenha PW: Áfricas no Brasil

Oi! Tudo bem? Estamos no mês de novembro e, neste período do ano, todas as nossas publicações abordam aspectos da História e Cultura Africana. Assim, fortalecemos as ações do projeto Novembro Negro, que acontece em todo o estado.

Em 2003, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 10.639, que obriga a inclusão da temática da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da Rede de Ensino. Na instituição em que você estuda, os professores já estão implementando a Lei? E você, educador, tem encontrado bons materiais para levar a discussão para a sala de aula?

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Fig. 1: Áfricas no Brasil: linguagem simples e boas referências. Imagem: reprodução do site da editora Scipione

O livro Áfricas no Brasil, de Kelly Cristina Araujo, é um bom começo para isso. Publicada no mesmo ano de sanção da lei, a obra aborda, de forma bastante didática, “as tradições e costumes dos povos africanos que aportaram no Brasil”.

No primeiro capítulo, Onde fica a África?, a autora convida o leitor para prestar mais atenção ao continente, a fim de perceber o quão perto ele está de nós. Em seguida, no capítulo 2, As rotas para o Brasil, Kelly fala mais detidamente do tráfico de escravos, destacando a violência como isso foi feito. Religião e solidariedade: o candomblé e as irmandades dos homens pretos é o assunto do excelente capítulo 3. Nele, a autora coloca em debate os traços culturais da África que foram incorporados à cultura brasileira. Para isso, faz um recorte e fala sobre o candomblé e as irmandades católicas de negros. Kelly, obviamente, não deixa de citar a Bahia nessa parte: “O primeiro terreiro de candomblé do Brasil instalou-se em Salvador, na Bahia, conhecido hoje como Casa Branca do Engenho Velho”, p. 17.

O quarto (Um reino chamado Congo…) e o quinto (…E uma festa chamada congada) capítulos são complementares. A autora se debruça sobre o Congo e destaca as suas tradições, como as congadas. No sexto, A Capoeira, o jogo é o protagonista. Segundo Kelly, a capoeira “talvez seja a manifestação mais brasileira de todo o universo cultural afro-brasileiro”, p. 41. No capítulo, ela cita a capoeira angola e a capoeira regional e faz uma análise geral das características da manifestação. No sétimo e último capítulo, O Brasil na África, o destaque vai para as comunidades africanas com raízes brasileiras. No Benin, de acordo com a autora, os povos que se consideram “brasileiros” são chamados de agudá; na Nigéria, amarô. Nesse capítulo, Kelly fala sobre a cultura brasileira que foi levada para a África e as tradições comuns ao continente e ao país. Como exemplo, cita a festa do Nosso Senhor do Bonfim, que é comemorada no mês de janeiro, no Benin. Algo familiar à nossa cultura, não é?

O livro é voltado para crianças a partir de 11 anos, mas estudantes e educadores de todas as idades devem ler e aproveitar o que a autora coloca em discussão. É muito bom para começar.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Referência:

ARAUJO, Kelly Cristina. Áfricas no Brasil. São Paulo: Scipione, 2003. (Série Diálogo na Sala de Aula).

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Cemiterada: revolta popular contra a reforma higienista na Bahia oitocentista

No dia 25 de outubro de 1836, uma multidão de quase quatro mil pessoas, lideradas pelas irmandades religiosas, se reuniu para protestar contra a lei que proibia os enterros no interior das igrejas. A partir daquele ano, um local próprio deveria abrigar os mortos: o cemitério. Para atender à nova lei, foi construído o cemitério do Campo Santo, inaugurado em 1836, cabendo sua administração ao capital privado por 30 anos. Os manifestantes se encontraram no Terreiro de Jesus, no adro da igreja da Ordem Terceira de São Domingos, e de lá se dirigiram ao Campo Santo, onde promoveram um quebra-quebra.

Os médicos baianos, movidos pelas ideias higienistas que chegavam da Europa, convenceram os legisladores de Salvador da necessidade de proteger a população dos malefícios dos “miasmas mefíticos” provocados pela decomposição dos corpos. Mas a nova lei passava ao largo da cultura funerária da Bahia, em que as irmandades eram responsáveis pela organização dos enterros e alocação dos corpos no interior das igrejas. Segundo o historiador João José Reis, o enterro dos corpos dentro das igrejas decorria da crença medieval, difundida na Bahia, de que, quanto mais próximo do altar e dos santos nas igrejas, mais próximo da salvação estaria a alma do defunto[1].

Qualquer pessoa podia ser enterrada no interior das igrejas, ainda que não fossem membro das irmandades, desde que tivesse, obviamente, uma boa reserva de capital para adquirir o seu lugarzinho junto ao corpo celestial que se encontrava no entorno do altar! Aliás, esse era o lugar perfeito para que a alma do defunto aguardasse pacientemente o fim do mundo e o tão esperado juízo final. Os membros paroquiais com maior cabedal podiam solicitar – em testamento – um jazigo individual em que constasse seu nome, data de nascimento e óbito. Os demais, quando membros das irmandades, ainda que despossuídos de grandes fortunas, não ficavam desamparados na morte, pois podiam ser enterrados em sepulturas comuns pertencentes às irmandades. O pior destino pós morte era sem dúvida do povo pobre, sem recurso para pagar seu descanso eterno no interior das igrejas. Estes eram enterrados no cemitério do Campo da Pólvora, onde negros pagãos eram sepultados.

[1] Reis, João José. O lugar da morte na Revolta da Cemiterada: Bahia, 1836. Resgate da Memória. n.º 03. Nov. 2014

Telma Santos

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia

Luiz Gama, um baiano cheio de ideais

 A breve biografia de Luiz Gama, escrita por Myriam Fraga, em 2005, dentro da coleção “A luta de cada um”, da Biblioteca Afro-Brasileira, da editora Pallas, é um convite saboroso para conhecer um dos homens mais importantes da nossa história, sobretudo quando se fala da luta abolicionista. Filho da quitandeira Luiza Mahin, africana de origem nagô, e de um fidalgo português, Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu em Salvador, em 21 de junho de 1830.

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Foto: Vitor Moreira

Luiza, embora fosse livre, participava ativamente de levante de escravos na cidade e nos arredores. Dentre as rebeliões de que participou, a mais famosa foi a Revolta dos Malês. Os malês eram escravos muçulmanos que não se conformavam com o cativeiro e sempre tentavam fugir para os quilombos. Luiza foi educada na religião do profeta Maomé e não se dobrava facilmente. Contudo, dois anos depois, ao participar da Sabinada, viu-se obrigada a abandonar o filho para livrar-se da sanha dos vencedores. Sendo assim, deixou o pequeno Luiz, de apenas sete anos e meio, os cuidados de um pai que ele pouco conhecia e que não confiava.

Mas o fidalgo era irresponsável e não cuidou bem do menino. Aos dez anos, Luiz Gama caiu numa cilada arquitetada pelo próprio pai. Alegando um passeio de navio e usando o argumento de que o filho nunca tinha visto o transporte, ele atraiu o pequeno Luiz para uma viagem sem volta para o Rio de Janeiro. Na verdade, tinha vendido o menino para pagar dívidas.

Luiz viveu um curto período no Rio e depois foi pra São Paulo. Durante todo esse tempo, carregava a esperança de reencontrar a mãe. Na capital paulista, foi trabalhar na casa do alferes Antonio Pereira Cardoso. Lá, fez de tudo um pouco e viu sua perspectiva de vida mudar. Isso se deu porque conheceu o estudante de direito Antonio Rodrigues do Prado Júnior, que resolveu alfabetizar o jovem de dezessete anos. Luiz Gama tomou gosto pelos estudos e se aprimorava a cada dia. Nesse sentido, a sua criticidade também crescia, como Myriam afirma no seguinte trecho: “À medida que aumentavam seus conhecimentos, mais revoltado ficava com a injustiça da sociedade para com os negros e, consciente de que sua situação como escravo era ilegal, pois a mãe era uma africana liberta, decidiu-se a tentar outro rumo de vida”.

E Luiz, corajoso como a mãe, enfrentou o alferes Cardoso e pediu a própria liberdade. Como justificativa, usou o argumento de que era filho de uma negra livre. O alferes retrucou e Luiz rebateu. Como a conversa não deu em nada, ele resolveu fugir.

Depois de muita luta e de algumas prisões, conseguiu atuar como rábula (advogado sem formação acadêmica) e os seus ideais abolicionistas ficaram ainda mais fortes. Em 1857, estreou na literatura com o livro Primeiras trovas burlescas de Getulino e passou a ser mais aceito socialmente. Exerceu também atividade de jornalista e fundou vários periódicos, como o Diabo Coxo, primeiro jornal dedicado à sátira no Brasil. Casou-se com Claudina Fortunato Sampaio, com quem teve o filho Benedito Graco Pinto da Gama. Faleceu de diabetes, em São Paulo, no dia 24 de agosto de 1888. Depois de cinco anos e nove meses de sua morte, a princesa Isabel assinaria a Lei Áurea, que declarava a escravidão extinta no Brasil.

 Sobre a autora

Myriam Fraga é escritora, poetisa, jornalista e biógrafa. Integra a Academia de Letras da Bahia e o Conselho de Cultura do Estado. É diretora da Fundação Casa de Jorge Amado desde o ano em que foi criada, 1986.

Referência: FRAGA, Myriam. Luiz Gama. São Paulo: Pallas, 2005, 56p. (Coleção A Luta de Cada Um).