Luiz Gama, um baiano cheio de ideais

 A breve biografia de Luiz Gama, escrita por Myriam Fraga, em 2005, dentro da coleção “A luta de cada um”, da Biblioteca Afro-Brasileira, da editora Pallas, é um convite saboroso para conhecer um dos homens mais importantes da nossa história, sobretudo quando se fala da luta abolicionista. Filho da quitandeira Luiza Mahin, africana de origem nagô, e de um fidalgo português, Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu em Salvador, em 21 de junho de 1830.

LuizGama

Foto: Vitor Moreira

Luiza, embora fosse livre, participava ativamente de levante de escravos na cidade e nos arredores. Dentre as rebeliões de que participou, a mais famosa foi a Revolta dos Malês. Os malês eram escravos muçulmanos que não se conformavam com o cativeiro e sempre tentavam fugir para os quilombos. Luiza foi educada na religião do profeta Maomé e não se dobrava facilmente. Contudo, dois anos depois, ao participar da Sabinada, viu-se obrigada a abandonar o filho para livrar-se da sanha dos vencedores. Sendo assim, deixou o pequeno Luiz, de apenas sete anos e meio, os cuidados de um pai que ele pouco conhecia e que não confiava.

Mas o fidalgo era irresponsável e não cuidou bem do menino. Aos dez anos, Luiz Gama caiu numa cilada arquitetada pelo próprio pai. Alegando um passeio de navio e usando o argumento de que o filho nunca tinha visto o transporte, ele atraiu o pequeno Luiz para uma viagem sem volta para o Rio de Janeiro. Na verdade, tinha vendido o menino para pagar dívidas.

Luiz viveu um curto período no Rio e depois foi pra São Paulo. Durante todo esse tempo, carregava a esperança de reencontrar a mãe. Na capital paulista, foi trabalhar na casa do alferes Antonio Pereira Cardoso. Lá, fez de tudo um pouco e viu sua perspectiva de vida mudar. Isso se deu porque conheceu o estudante de direito Antonio Rodrigues do Prado Júnior, que resolveu alfabetizar o jovem de dezessete anos. Luiz Gama tomou gosto pelos estudos e se aprimorava a cada dia. Nesse sentido, a sua criticidade também crescia, como Myriam afirma no seguinte trecho: “À medida que aumentavam seus conhecimentos, mais revoltado ficava com a injustiça da sociedade para com os negros e, consciente de que sua situação como escravo era ilegal, pois a mãe era uma africana liberta, decidiu-se a tentar outro rumo de vida”.

E Luiz, corajoso como a mãe, enfrentou o alferes Cardoso e pediu a própria liberdade. Como justificativa, usou o argumento de que era filho de uma negra livre. O alferes retrucou e Luiz rebateu. Como a conversa não deu em nada, ele resolveu fugir.

Depois de muita luta e de algumas prisões, conseguiu atuar como rábula (advogado sem formação acadêmica) e os seus ideais abolicionistas ficaram ainda mais fortes. Em 1857, estreou na literatura com o livro Primeiras trovas burlescas de Getulino e passou a ser mais aceito socialmente. Exerceu também atividade de jornalista e fundou vários periódicos, como o Diabo Coxo, primeiro jornal dedicado à sátira no Brasil. Casou-se com Claudina Fortunato Sampaio, com quem teve o filho Benedito Graco Pinto da Gama. Faleceu de diabetes, em São Paulo, no dia 24 de agosto de 1888. Depois de cinco anos e nove meses de sua morte, a princesa Isabel assinaria a Lei Áurea, que declarava a escravidão extinta no Brasil.

 Sobre a autora

Myriam Fraga é escritora, poetisa, jornalista e biógrafa. Integra a Academia de Letras da Bahia e o Conselho de Cultura do Estado. É diretora da Fundação Casa de Jorge Amado desde o ano em que foi criada, 1986.

Referência: FRAGA, Myriam. Luiz Gama. São Paulo: Pallas, 2005, 56p. (Coleção A Luta de Cada Um).

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