(Des)Sustentabilidades ambientais

Olá, comunidade!

A cada ano, chegamos ao mês de Junho com a possibilidade de rediscutirmos mais intensamente sobre os caminhos que devemos escolher para vivermos com mais harmonia, respeitando as culturas, identidades e o meio ambiente. Ou seja, discutir a melhor estratégia de nos relacionarmos com o meio ambiente de maneira sustentável. Será que estamos conseguindo, ao menos, discutir estas questões democraticamente? Será que os rumos dessas discussões podem, efetivamente (ações de políticas públicas), transformar nosso comportamento desenvolvimentista? Será que realmente respeitamos a diversidade étnica? Uma coisa temos em mente: caminhar é preciso…

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Fig. 1: Caminhar é preciso. Imagem: Peterson Azevedo

É pensando nessas questões, que devemos refletir sobre qual Brasil queremos construir para a nossa e as futuras gerações, para que realmente possamos dialogar sobre os possíveis caminhos que consigam, de maneira equânime, planejar o desenvolvimento econômico e social, pensando em uma organização do espaço de forma sustentável. A tecnologia, a ciência e a informação devem referenciar esta conversa, mas tendo como principal objetivo o de respeitar e valorizar as culturas e a etnodiversidade do lugar. A revolução técnica-científica-informacional não pode exclusivamente estar a serviço do capital, pois esta relação fragiliza diretamente as estruturas sociais e seu pleno desenvolvimento, constituindo uma visão superficial do território, desconsiderando os valores culturais e étnico do espaço como um todo, especificamente dos valores compactuados pelo lugar.

Pensando em um caminhar propositivo, crítico, contextualizado e respeitando as territorialidades, trago a experiência do movimento indigenista e social – Articulação dos povos indígenas do Brasil, associação que representa as questões indígenas e suas etnias no país, como exemplo de mobilização, não apenas em defesa ao direito à terra, mas também como instrumento de luta, para a conservação da biogeografia do país. Devemos lembrar que, quando falamos de questões ambientais, não nos referimos apenas às questões de flora e fauna, mas dos processos urbanos, econômicos e de organização e gestão do espaço construído e historicizado. As populações tradicionais, como os povos indígenas, os quilombolas, os povos da maré e os sertanejos, mantêm uma relação de identidade e de sustentabilidade muito intensa e afetiva com a terra, para além apenas da manutenção do capital. É na terra que esses povos constroem sua história, onde se relacionam, onde transformam a paisagem por meio de suas manifestações culturais, heranças das matrizes coloniais. Neste ano, o movimento de articulação dos povos indígenas do Brasil contou com o voluntarismo de artistas e ativistas brasileiros em prol da luta pela terra e pela liberdade à etnicidade. Eles produziram uma campanha audiovisual, para alertar a população da importância ambiental de conservarmos e preservarmos as terras indígenas em sua totalidade biológica e cultural. Aprecie sem moderação:

Vídeo 1 – Demarcação Já. Letra composta por Carlos Rennó e musicada por Chico César.

Um outro exemplo de luta que quero compartilhar é o depoimento de um grande ancestral americano, que já nos alertava sobre a velocidade voraz do capital em detrimento aos recursos do planeta. Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, escreve uma carta em resposta ao avanço imperialista do presidente norte-americano Francis Pierce. Segue um trecho da carta. “O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. […]

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Fig. 2: O toré. Imagem: Peterson Azevedo

Apesar da formação cultural desses povos estar ligada à terra, é equivocado pensarmos que eles não desenvolveram suas estruturas comunicacionais. Os povos tradicionais também estão inseridos no ciberespaço e na cibercultura, mas não se distanciam das raízes, mostrando novas possibilidades do uso e da apropriação das novas tecnologias como aliadas e não apenas como sistema de consumo. Os povos tradicionais não são contrários ao desenvolvimento, mas questionam as ferramentas e os interesses desse “desenvolvimento”, que tem como objetivo principal a manutenção do poder e o controle do capital, tendo e entendendo o lugar e o território como suporte materialista dessa engrenagem. Desenvolvimento não necessariamente está relacionado à obtenção do capital, à exploração da força produtiva e do uso indiscriminado dos recursos naturais; desenvolver é dar plena liberdade de se expressar culturalmente, ter acesso aos bens materiais básicos em sua plenitude, ofertar o direito de ser em sua magnitude. O desenvolvimento não deve estar unicamente relacionado ao dinheiro, mas à plenitude sustentável do espaço e da pluralidade cultural. A revolução técnica-científica-informacional não deve estar a serviço do capital e sim do desenvolvimento sustentável acessível para todos. “Quando a ciência se deixa claramente cooptar por uma tecnologia cujos objetivos são mais econômicos que sociais, ela se torna tributária dos interesses da produção e dos produtores hegemônicos e renuncia a toda vocação de servir à sociedade. Trata-se de um saber instrumentalizado, em que a metodologia substitui o método”. (SANTOS, p.7. 1988).

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Fig. 3: Sertão-Lindo. Imagem: Peterson Azevedo

Pensemos em um desenvolvimento sustentável pleno e autônomo, sem restrições étnicas e sociais, sem amarras ao capital e pensando na hegemonia e independência do lugar, mas do lugar empoderado e não subserviente ao território e às estruturas de poder do capital perverso.

Até mais!

Peterson Azevedo
Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

REFERÊNCIAS

SANTOS, Milton. Metamorfoses do Espaço Habitado, fundamentos teórico e metodológicos da geografia. Hucitec. São Paulo. 1988

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB. Disponível em:

<https://mobilizacaonacionalindigena.wordpress.com/>. Acesso em 05 de Junho de 2017.

A carta do Cacique Seattlel, em 1855. Disponivel em:

<http://www.culturabrasil.org/seattle1.htm>. Acesso em: 05 de Junho de 2017.

REDE ANÍSIO TEIXEIRA. Ser Professor. Ecovento. Disponível em:

<http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/3929>. Acesso em: 05 de junho de 2017.

Cine PW: Eldorado dos Carajás

Salve, salve turma!

O Cine PW de hoje relembra o Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no dia 17 de abril de 1996.

Essa data amarga nos faz refletir sobre a necessidade da reforma agrária no país e questionar: até quando camponeses(as) serão perseguid@s, explorad@s e violentad@s por latifundiários interessados em tomar suas terras?

É um argumento estranho esse de justificar a proteção da propriedade privada, pois toda terra, em algum momento da história (em certos casos, uma história bem recente), foi usurpada e, uma área que era coletiva, passou a ser tratada como privada. Pelo que Rousseau diz, o surgimento da sociedade civil se deu quando uma pessoa cercou um pedaço de terra e as outras acreditaram. Essa história parece incompleta. Teriam acreditado ou apenas foram coniventes ao concordar, afinal as demais pessoas poderiam cercar os terrenos ao redor e também se autodeclararem proprietárias. Talvez ele tivesse algum poder de coerção (com uso de armas ou grupos mais fortes) sobre as outras pessoas. Detalhes que a história não revela, mas que a criação das capitanias hereditárias no Brasil acaba tardiamente por quebrar a lógica romântica desses fatos acontecerem sem lutas sociais. Porém, o que os povos locais poderiam fazer contra armas de fogo e contra uma das primeiras guerras biológicas promovidas no Brasil?

Pois é, pouco se fala disso, mas alguns relatos históricos citam o uso de roupas de pessoas contaminadas por varíola na guerra contra os povos que ocupavam o território brasileiro. As roupas eram jogadas nos locais por onde os povos do território invadido passavam e esses, sem saber o risco que corriam, acabavam levando as roupas para suas aldeias. Como era o primeiro contato com a varíola, muitos acabavam morrendo por não saber o que fazer. As missões Jesuítas também contribuíram, pois além de levar a doença para as aldeias, muitos pajés foram desprezados, afinal não conseguiam contribuir com a cura e muitos morreram da doença, enquanto Jesuítas, com maior imunidade, acabavam sendo mais resistentes e tendo mais condições de contribuir com cuidados (veja mais).

Assim, aconteceram os primeiros conflitos brasileiros de luta pela terra que foram registrados nos livros de história. Uma das consequências desse processo é a permissão para a existência de grandes latifúndios a partir da justificativa da defesa da propriedade privada e da segurança alimentar, como se os maiores responsáveis por aquilo que vai para a mesa da população fossem os grandes latifundiários. Os números mostram que a maior parte dos alimentos que vai para a mesa, vem da agricultura familiar (veja mais). Ao contrário, os latifúndios são os maiores responsáveis pelo uso de veneno e agrotóxico nas plantações, por monoculturas que exterminam a fauna e a flora, pela destruição de grandes áreas de mata para pecuária ou para sustentar essa cadeia e por expulsar trabalhadores/as de suas terras.

Essa não é uma semana comemorativa, mas um importante momento para lembrar de massacres como o de Eldorado e também das simbólicas datas que referenciam o índio e a invasão do Brasil ou, como alguns acreditam, seu descobrimento.

Vejam um depoimento de Paulo Freire a respeito dos movimentos de luta por transformações sociais:

Segue também um curta documentário sobre MST

Confiram documentário Eldorado dos Carajás 10anos

Eldorado dos Carajás 10 anos

Aproveite assista outras produções disponibilizadas pelvideoteca de luta pela terra.

Veja outros vídeos.

Fonte: Diálogos Libertários