O baianês nosso de todo dia

Colé de mermo! Tá tudo massa? Hoje, a gente vai trocar uma ideia sobre o baianês. Você tá ligado? Não precisa ficar agoniado, não. É de boa! Tá rebocado! Só não vamos entrar na molequeira, porque a coisa aqui é séria. Brincadeiras à parte, se você é baiano, já prestou atenção ao nosso modo de falar? Temos uma forma própria de nos expressar e, muitas vezes, a gente não atenta para isso. Essa forma, obviamente, não é homogênea, padronizada, mas faz parte dos nossos costumes. Repare como eu comecei este texto. Oxe! Olha o baianês aí de novo!

Fig. 1: capa da 2ª edição do Dicionário de Baianês, publicada em 1992. Foto: Raulino Júnior

O baianês é um dialeto do português brasileiro, cujo uso frequente se dá no estado da Bahia. Ele é formado por palavras e expressões que caracterizam a cultura do povo baiano. A sua composição tem influências históricas, principalmente quando se pensa nas correntes migratórias da época do Período Colonial, quando Salvador protagonizava as ações administrativas do Brasil. A então capital do país influenciou e contribuiu para consolidar essa forma peculiar de se comunicar.

Há uma vertente da Linguística, a ciência da linguagem, que estuda esse fenômeno da língua: a Sociolinguísitca. Ela se debruça, de forma científica, sobre os aspectos linguísticos e sociais que são evidenciados na relação entre língua e sociedade. É um estudo muito interessante! Porque, para a Sociolinguística, as condições de produção devem sempre ser consideradas. Uma pergunta-guia é: por que tal falante usa tal forma para se comunicar? Daí vem toda a investigação. O estudo é descritivo, voltado para o emprego linguístico concreto. Os fatos da língua são investigados pelos sociolinguistas tomando como base o uso vivo dela. Nesse sentido, noções de “certo” e “errado” não são levadas em consideração. É assim com o dialeto baiano. Expressões como “Colé, bródi!” e “Ópraisso!” se justificam devido a essa investigação científica.

Contudo, como o baianês é uma linguagem que nasce da fala, é preciso ter consciência para a adequação do seu uso, além de atentar para as diferenças existentes entre a língua falada e a língua escrita. Numa conversa com amigos, no pátio da escola, temos uma forma mais descontraída de falar, com reduções de palavras e uso de gírias, por exemplo. Entretanto, numa entrevista de emprego, a nossa fala, geralmente, se torna mais formal.

Quem investigou e registrou a nossa forma de falar foi o engenheiro Nivaldo Lariú, que é natural de Itaperuna, município do Rio de Janeiro. Ele radicou-se na Bahia há mais de 40 anos e catalogou as palavras e expressões ditas pelos baianos no Dicionário de Baianês. O livro já tem mais de 1500 verbetes e é um dos poucos registros sobre o dialeto. Vale muito a pena consultá-lo. Quer pegar o boi? Corra atrás da obra, criatura!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Anúncios

Is Brazil Sunstainable?

DeforestationinBrazil

Fig. 1: Deforestation in Brazil

Olá!

Você sabia que grande parte do vocabulário da língua inglesa tem a mesma origem que as palavras do nosso português? Pois é. Na Idade Média, a Inglaterra falava francês e, por meio desse idioma, as palavras de origem latina foram incorporadas ao inglês que veio a ser falado, mais tarde, na região. É por essa razão que compreendemos muitas palavras, principalmente se o tema estiver ligado às ciências e termos técnicos.

Por exemplo, o que o texto abaixo comunica?

Environmental issues in Brazil

Environmental issues in Brazil include deforestation in the Amazon basin, illegal wildlife trade, illegal poaching, air and water pollution, land degradation and water pollution caused by mining activities, wetland degradation and severe oil spills, among others. As the home to approximately 13% of all known species, Brazil has one of the most diverse collections of flora and fauna on the planet. Impacts from agriculture and industrialization in the country threaten this biodiversity.
As a developing or newly industrialized nation, Brazil is notable for taking a lead in environmentally friendly initiatives. In the field of biofuels, Brazil is the second-largest producer of ethanol in the world. It is also home to two sustainable cities. Nevertheless, environmental issues remain a major concern in Brazil.

In Wikipedia, the free encyclopedia

Sem muito esforço, é possível reconhecer muitas palavras, apenas passando os olhos pelo texto. Eu pus algumas em negrito, para facilitar. Assim, sem recorrer ao dicionário, dá até pra descobrir o que significa a palavra environmental. Muito bem! Ambiental! O contexto ajuda a compreender as demais palavras. Desse modo, conseguimos captar o sentido do título que está tratando das questões ambientais no Brasil. Acertou?

Com a competência que temos de falantes nativos do português, podemos transferir para outras línguas o que já sabemos do funcionamento da nossa. É assim que percebemos que as palavras deforestation, pollution, degradation, nation e industrialization têm o mesmo sufixo e que este equivale ao nosso -ção. Percebemos que o sufixo -ty da palavra biodiversity é o mesmo que está em city, necessity e sustainability, equivalendo ao nosso -dade. Já o sufixo -ly, das palavras approximately, environmentally e friendly, transforma tudo em advérbio, do mesmo modo que o nosso -mente.

Em meio a tantas notícias ruins sobre o Brasil, recentemente, pelo menos o texto em inglês da Wikipédia fala que lideramos em environmentally friendly initiatives. E aí? Você arrisca a tradução? Ou compreender já é o bastante?

Agora, se ficou muito curios@, copie e cole o texto no tradutor online de sua preferência e confira o quanto você acertou sobre essas iniciativas ambientalmente amigáveis, que ainda precisam avançar (ou serem, de fato, adotadas) no Brasil.

Abraços,

Geraldo Seara

Professor da Rede Estadual de Ensino da Bahia

A Alfabetização e as Novas Tecnologias, por Emília Ferreiro

Nos anos 80, Emília Ferreiro revolucionou as práticas de alfabetização ao valorizar o modo como as crianças aprendem, em sua pesquisa de doutorado feita à luz da Epistemologia Genética de Jean Piaget. Todos os educadores que desejavam compreender como se dá a aquisição da leitura e escrita pela criança, dedicaram-se à leitura da Psicogênese da Língua Escrita que, desde sua publicação em 1985, passou a ser uma referência internacional pois havia no país àquela época – e ainda há – grande preocupação com as altas taxas de analfabetismo ou com o analfabetismo funcional, condição daqueles que decifram textos e não os compreende e nem os utiliza socialmente para maior integração no mundo.

A pesquisadora esteve em Salvador, no Colóquio Internacional de Alfabetização promovido pelo Instituto Chapada de Educação e Pesquisa – ICEP – e na ocasião repetiu o que diz há 40 anos: “Alfabetização não é um estado, é um processo largo, longo, de início incerto e de final impossível”, para dizer que não é possível precisar o início desta aprendizagem e acrescenta que as mudanças no mundo contemporâneo nos impõem sempre novas aprendizagem sobre a leitura e a escrita. Para ela, estar alfabetizado significa transitar de modo eficiente numa vasta trama de práticas sociais ligadas à escrita.

Neste contexto, destaca a revolução tecnológica como um fato que naturalmente redefiniu todas as profissões e assim fará com o fazer docente. Os professores mudaram com os novos recursos interativos, os modos de comunicação que são criados velozmente suscitam novos tipos de textos e criam novos comportamentos leitores e escritores que precisam ser estudados, diminuindo as tensões que se estabeleceram na complexa relação entre tecnologias e escolas.

Sobre a realidade do Brasil, Ferreiro avalia que “está em curso uma mudança sensível em relação à escolarização. Muito mais crianças e jovens em idade escolar estão nas salas de aula. Agora, vem o mais importante: o desafio da qualidade da aprendizagem. Não basta ocupar todas as carteiras. É preciso ensinar.”

Para a pesquisadora, quando se propõe problemas interessantes, é possível ver as crianças fazerem buscas particularmente inteligentes na internet. Este suposto problema a ser discutido e pesquisado coloca os alunos diante de informações que devem ser confrontadas, hierarquizadas, organizadas. Afinal, o Google não lê e compara, este é um trabalho do leitor.

Estar alfabetizado no século XXI exige muito mais, “não se pode fazer mais do mesmo”, diz Emília. Deste evento participaram também Telma Weisz, Regina Scarpa e Claudia Molinari, educadoras que discutem ações possíveis para uma efetiva formação de leitores e escritores, em programas de formação continuada de professores. No Instituto Anísio Teixeira, temos diversos projetos cujo objetivo é o desenvolvimento das competências de leitura e escrita para alunos da rede estadual e, deste modo, trazemos aqui um convite aos professores para que conheçam as ideias de Emília Ferreiro e busquem articulação entre estas e as propostas educativas das escolas onde atuam. Temos novas perguntas e devemos ir construindo coletivamente nossas respostas.

Discutindo a possibilidade do avanço tecnológico gerar o desaparecimento do livro, Emília cita Umberto Eco e encerra assim sua participação no Colóquio: “O livro é perfeito, o livro não vai desaparecer”. E acrescenta como Eco, “… o livro é perfeito como a roda e a colher.”

 

Lilia Rezende

Pedagoga, Rede Anísio Teixeira

Os Índios ou Povos Indígenas?

Você usa a expressão  “os Índios” para se referir aos povos indígenas? Saiba que o uso desse termo não está correto e reflete uma visão carregada de preconceito. As culturas indígenas são múltiplas, portanto, não existem expressões culturais singulares que possam identificar todas as etnias indígenas. Dizer “os índios” significa reduzir as culturas indígenas a um bloco único, essa atitude reflete uma visão estereotipada de povos, que são caracterizados, exatamente, pela diversidade de suas culturas.

No episódio “Povos indígenas“, do programa Intervalo, vemos que cada grupo étnico indígena  apresenta características específicas, também aprendemos que eles são sujeitos contemporâneos, que vivem de acordo com as mudanças propostas pela sociedade. Assim, existem povos que vivem mais próximos ao litoral e assimilaram alguns dos costumes dos brancos e outros  que vivem em regiões mais longínquas e ainda preservam muito de sua cultura original. Não há homogeneidade cultural entre esses povos, é preciso pesquisar e ver de perto sobre qual grupo estamos falando.

Clique na imagem para assistir ao episódio

Clique na imagem para assistir ao episódio.

Portanto, quando afirmar “os índios”, lembre-se de que você estará se referindo a um sujeito genérico, inexistente, tendo em vista que você deve especificar a qual grupo cultural esse indígena pertence. É isso aí, galera, falar da cultura indígena é sempre plural.

Valdineia Oliveira

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino