Resenha PW ⇨ Riachão: o cronista do samba baiano

Oi! Tudo bem? Ontem, 27 de novembro de 2016, completaram-se cem anos do registro do samba Pelo Telephone (assim mesmo, com “ph”, respeitando a grafia da época), no Departamento de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional. A obra, de autoria de Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o famoso Donga, é considerada o primeiro samba brasileiro. E, no ano em que o gênero completa cem anos de existência, que tal conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra de Riachão, um de nossos sambistas contemporâneos mais festejados?

Fig. 1: O sambista Riachão mostra vitalidade e muita alegria com seus 95 anos de vida. Foto: reprodução do site da Secretaria de Comunicação Social do Estado da Bahia

Fig. 1: O sambista Riachão mostra vitalidade e muita alegria com seus 95 anos de vida. Foto: reprodução do site da Secretaria de Comunicação Social do Estado da Bahia

Em 2009, a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia (ALBA) publicou o livro Riachão: o cronista do samba baiano, escrito pela jornalista Janaína Wanderley da Silva. A biografia integra a coleção Gente da Bahia. Com linguagem simples e deixando evidente toda a identidade do sambista, a obra, que tem 12 capítulos, envolve o leitor do início ao fim.

Clementino Rodrigues, o Riachão, completou 95 anos no último dia 14 e aos nove já cantava em aniversários. Contudo, antes de começar a viver da música, aprendeu o ofício de alfaiate. Uma das passagens mais interessantes do livro é quando Janaína narra o motivo que o levou a compor a primeira música:

Era 1936, Riachão cantava desde os 9 anos e seu repertório era recheado de sambas do Rio de Janeiro. Num certo dia, quando saiu da alfaiataria, caminhava com destino à Ladeira da Misericórdia para comprar material de trabalho e avistou um pedaço de papel no chão. Se abaixou e pegou um pedaço de revista rasgado e com letras marrons. Ao ler, um choque misturado com desalento. O escrito “Se o Rio não escrever, a Bahia não canta”, lhe travou a garganta. Aquelas palavras não saíram da cabeça do jovem por horas. Após uma dia de trabalho, chegou em casa, jantou, deitou-se para dormir e aquela frase ainda martelava sua cabeça. No dia seguinte, registrado na sua vida como o nascimento do artista, compôs: “Eu sei que sou malandro, sei/Conheço o meu proceder/Eu sei que sou malandro, sei/Conheço o meu proceder/Deixa o dia raiar, deixa o dia raiar/A nossa turma é boa, ela é boa/Somente para batucar…”.

O que quase ninguém sabe, e é uma curiosidade presente na biografia, é que Riachão começou a carreira cantando música sertaneja. No CD Humanenochum, de 2001, ele gravou a música Vida da Semana, considerada sua obra sertaneja mais importante. Muitos outros artistas gravaram e popularizaram as composições de Riachão, como Marinês (“Terra Santa”), Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gang do Samba, Lampirônicos e Anastácia (“Cada Macaco no Seu Galho”); Trio Nordestino (“Retrato da Bahia”, “Bochechuda”, “Papuda”, “Vamos Pular, Gente”), Cássia Eller (“Vá morar com o Diabo”), banda Moinho (“Baleia da Sé”) e Terra Samba (“Vá pra Casa”).

No livro, Janaína não deixa de registrar a fase em que Riachão ingressou na Rádio Sociedade da Bahia (ele ficou lá por 26 anos) e também o lançamento do 1° LP solo, O Sonho do Malandro, de 1982. A versatilidade do artista é, o tempo todo, destaque na obra. O leitor fica sabendo que, além da música, Riachão atuou no cinema e na TV. Contudo, não é só de alegria que se vive uma vida, não é? Em janeiro de 2008, um acidente de carro causou a morte de seis membros de sua família, incluindo a mulher e dois filhos.

Janaína Wanderley da Silva conseguiu captar muito bem a alma de Riachão. O livro nos faz rir muito mais do que chorar. Assim é Riachão: a “alegria em pessoa”. Uma frase que consta na biografia, atribuída a ele, mostra como Clementino Rodrigues se define: “Eu sou o artista que me torno uma nota musical para levar alegria ao povo”. Que a alegria de Riachão esteja sempre viva!

Referência:

SILVA, Janaína Wanderley da. Riachão: o cronista do samba baiano. 2.ed. Salvador: Assembleia Legislativa, 2009. (Coleção Gente da Bahia).

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Radiola PW: Do Brasil

Oi! Tudo bem? Hoje, a dica da Radiola PW é a música Do Brasil, composta por Vander Lee, cantor e compositor mineiro. A canção foi gravada no CD Pensei Que Fosse o Céu – Ao Vivo, lançado pelo artista em 2006. Nela, Vander Lee faz uma homenagem ao nosso sertão, evidenciando as qualidades e mostrando que a raiz do Brasil está fincada lá.

Fig. 1: O sertão é, constantemente, inspiração para os artistas. Imagem: Jorge Ribas

Fig. 1: O sertão é, constantemente, inspiração para os artistas. Imagem: Jorge Ribas

Já na primeira estrofe, o autor deixa claro que é impossível fazer referência ao Brasil sem falar do sertão. Para isso, usa a comparação, uma figura de linguagem bem comum em textos de música:

Falar do Brasil sem ouvir o sertão

É como estar cego em pleno clarão

Olhar o Brasil e não ver o sertão

É como negar o queijo com a faca na mão

Em seguida, Vander Lee justifica o que tinha afirmado na estrofe anterior, mostrando por que o sertão foi e é fundamental para o país. Nos versos, fica clara a alusão que o poeta faz aos sertanejos, muitas vezes considerados os “construtores” da nossa nação. Os movimentos migratórios do Brasil explicam muito isso, não é?

Esse gigante em movimento

Movido a tijolo e cimento

Precisa de arroz com feijão

Quem tem a comida na mesa

Que agradeça sempre a grandeza

De cada pedaço de pão

Ainda falando sobre a estrofe acima, vale destacar o uso que o artista faz da personificação (prosopopeia) para se referir ao Brasil: “Esse gigante em movimento/Movido a tijolo e cimento/Precisa de arroz com feijão”.

Vander Lee não deixa de citar o povo do sertão, trabalhador por natureza:

Agradeça a Clemente

Que leva a semente

Em seu embornal

Zezé e o penoso balé

De pisar no cacau

Maria que amanhece o dia

Lá no milharal

Joana que ama na cama do canavial

João que carrega

A esperança em seu caminhão

Pra capital

O compositor continua a enaltecer o sertão nos versos da música, de forma cada vez mais incisiva:

Lembrar do Brasil sem pensar no sertão

É como negar o alicerce de uma construção

Amar o Brasil sem louvar o sertão

É dar o tiro no escuro

Errar no futuro

Da nossa nação

[…]

Agradeça a Tião

Que conduz a boiada do pasto ao grotão

Quitéria que colhe miséria

Quando não chove no chão

Pereira que grita na feira

O valor do pregão

Zé Coco, viola, rabeca, folia e canção

Zé Coco, viola, rabeca, folia e canção

No final, um arremate que sintetiza toda a ideia que a letra quer passar:

Amar o Brasil é fazer

Do sertão a capital…

Muitas vezes, o capital é fruto dos esforços de quem vem do sertão. Já parou para pensar nisso?

Dicas:

Na nossa literatura, outras obras também têm o sertão como temática. Uma das mais conhecidas é o romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

Neste vídeo, produzido pelos professores do Emitec (Ensino Médio com Intermediação Tecnológica), você complementa os seus estudos sobre figura de linguagem.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Radiola PW: Acorde, Brasil

Oi, turma! Tudo bem? A dica de hoje da Radiola PW é a música Acorde, Brasil, do cantor e compositor Julinho Marassi. Embora tenha sido composta no ano 2000, a música continua atual, principalmente quando fala da nossa realidade política e expõe práticas comuns do universo artístico do país. A obra foi gravada, pela primeira vez, em 2002, no CD Julinho Marassi e Gutemberg Ao Vivo. A dupla é oriunda de Barra Mansa, Rio de Janeiro.

Fig. 1: Julinho Marassi e Gutemberg. Imagem: captura de tela feita em 13 de setembro de 2016

Fig. 1: Julinho Marassi e Gutemberg. Imagem: captura de tela feita em 13 de setembro de 2016

Logo no início da letra, o eu lírico mostra toda a sua revolta diante das coisas que vê. As três primeiras estrofes já trazem um tom crítico e mostram que o personagem não quer continuar aceitando ser “marionete” para o “sistema”:

Resolvi abrir o jogo agora,
Sai da frente, que eu não tô brincando,
Tô entrando com o pé na porta,
Fala sério: o bicho tá pegando!


Me cansei de aguentar calado,
Não nasci pra acompanhar rebanho,
Estar na mão de quem não sabe nada,
“Prestenção” no que eu estou falando

Não adianta você ser sincero,
Ser honesto e ter bom coração,
Se você não entra no sistema
Fica fora da programação

Em seguida, Julinho fala de forma mais contundente sobre os conchavos existentes no universo artístico e cultural do Brasil, em que alguns “escolhidos” são eleitos por pura conveniência. Para introduzir o tema, cita a mídia, que contribui bastante para que tal prática seja perpetuada no país:

Quantos homens bons morreram cedo,
Que podiam ajudar você
Quantas pragas continuam vivas
No jornal, no rádio e na TV

É difícil ser o escolhido,
Sem padrinho, sem um pistolão,
Mas, amigo, o sol nasceu pra todos,
Acredite na sua canção

Nas estrofes seguintes, o compositor fala diretamente para os políticos do Brasil. Em ano de eleições municipais, é importante atentar para a conduta, o histórico de vida pública e as propostas dos candidatos, para fazer as cobranças necessárias no futuro:
[…]

Com licença, agora eu vou falar
Pra todos os políticos que vivem no Brasil
Se liga!
Cadê seu ideal,
De quando era novo?
Nada te segurava,
Você veio do povo

Você não tinha medo
Agora se calou
Entrou no ninho de cobras
Na gente, nem pensou

Se sente ameaçado?
Bota a boca no mundo
Sai limpo da história
Sai desse lixo imundo

[…]

No refrão, uma crítica forte e realista da situação brasileira. Julinho faz um retrato do país, enfatizando as diferenças sociais existentes por aqui. Ainda toca em outra questão delicada: a religiosidade. Nos versos, ele destaca como as mais variadas denominações religiosas se apropriaram da televisão para, nas suas palavras, fazerem disso um “meio de vida”:

Classe média tá desesperada,
Classe baixa tá passando fome,
Classe alta tá dando risada,
Deus me ajude a igualar os homens

Religião virou meio de vida,
Tomou conta da televisão,
Cidadão, “cê” não precisa disso,
Deus tá dentro do seu coração

Em Acorde, Brasil, Julinho Marassi faz um convite para a gente abrir os olhos (física e metaforicamente), a fim de perceber como práticas desrespeitosas se repetem no país. Muitas vezes, por comodismo, não fazemos quase nada para mudá-las. Precisamos acordar! E você: está acordado (a) ou dormindo?

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Radiola PW: Pra Que

Fig. 1: o cantor e compositor Luiz Melodia. Foto: divulgação

Fig. 1: o cantor e compositor Luiz Melodia. Foto: divulgação do site oficial do artista

Oi! Tudo bem com você? Hoje, na Radiola PW, a dica de música é Pra Que, de autoria de Luiz Melodia e Ricardo Augusto. Ela foi lançada por Luiz em 1997, no CD 14 Quilates. A letra, que fala sobre desigualdade social, traz um eu lírico bastante crítico e preocupado com as questões do lugar em que vive. No início da canção, ele indaga:

Pra que chorar?

Pra que mentir?

Pra que morgar?

Pra que fugir?”

Em seguida, explica as razões que justificam todos esses lamentos:

Só queria que todos

Tivessem comida

Tivessem oportunidade

Tivessem guarida

Não precisassem rezar pedindo melhores dias

Reclamando migalhas

Vivendo só de agonia”

Nessa estrofe, a música ganha força e nos estimula a refletir sobre a sociedade da qual fazemos parte. A discriminação e o preconceito, de toda e qualquer natureza, contribuem para que as oportunidades não sejam iguais para todos. Isso faz com que as pessoas vivam “reclamando migalhas”.

Em setembro de 2014, o programa Artigo 5º teve como temática a desigualdade social no Brasil e discutiu assuntos como saúde, educação e a política de erradicação da pobreza. Vale a pena conferir!

Na seguinte estrofe, os compositores de Pra Que tocam, principalmente se pensarmos na sociedade brasileira, numa questão ainda recorrente nos dias atuais:

Já que tão poucos põem o rei na barriga

Gritando guerras em leis

Forjando a morte da vida”

Infelizmente, essa realidade insiste em permanecer no Brasil. No desfecho, o eu lírico afirma que é importante continuar lutando para que a situação se modifique:

Já que nem eu nem o diabo tem pressa

De pouco vale a conversa

Só encarando essa briga”

#FicaADica: certamente, devido à métrica, os autores optaram por esta redação: “Já que nem eu nem o diabo tem pressa”. Pela gramática normativa da língua portuguesa, o verbo deveria ficar no plural, uma vez que o sujeito é composto e a declaração contida no predicado pode ser atribuída aos dois núcleos (eu e diabo). Portanto, a oração ficaria “Já que nem eu nem o diabo temos pressa”. Contudo, esse detalhe não tira a riqueza nem o propósito da canção. O mais importante, é a mensagem que ela traz. Que a gente reflita e contribua para uma sociedade melhor.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Lendo a TV

Para você, tudo que passa na TV é, de fato, verdadeiro? Quantas vezes nos deparamos com afirmações do tipo: “Claro que é verdade! Eu vi passando isso na TV”? Pois é. Interpretar de forma crítica aquilo que é veiculado numa emissora de TV é um passo importante para que a gente não se deixe levar por ideologias que, muitas vezes, estão implícitas num discurso sedutor.

Fonte da imagem: https://pixabay.com

Fonte da imagem: https://pixabay.com

Se hoje, quando se fala em tela, a referência das pessoas é o celular ou o computador; no Brasil, na década de 50 do século passado, a televisão foi o principal símbolo. Por aqui, a primeira transmissão de TV aconteceu em 18 de setembro de 1950. Amanhã, portanto, faz 65 anos de presença da TV na sociedade brasileira. No artigo Um olhar histórico na formação e sedimentação da TV no Brasil, o jornalista Plínio Marcos Volponi Leal traz um breve panorama sobre o assunto, destacando como o veículo se consolidou no nosso país. Vale muito a pena ler!

Público crítico

Todos os canais de TV, quando colocam a sua grade no ar, têm um propósito que vai muito além de apenas informar e entreter. Todo programa de TV é pensado para atingir um público e “vender” uma ideia, um argumento. Quem quiser, compra. O público nunca foi um simples receptor das informações passadas pela TV. Ele sempre refletiu. Hoje, mais do que antes, essa reflexão é feita de forma mais crítica, porque o poder de interferência dos telespectadores é muito maior também. Com o advento da internet, o público pôde botar o dedo na ferida com mais frequência.

Devido a essa apropriação das tecnologias da informação e da comunicação e, obviamente, com a sua própria leitura de mundo, o telespectador conheceu os meios que levam aos fins de um produto veiculado na TV. Ele está conectado a tudo e reflete com mais atenção sobre todas as informações que recebe. Ficar prostrado diante da TV, numa atitude passiva, é um comportamento cada vez mais raro. Ninguém hoje assiste a um único telejornal, por exemplo. A busca pelo que está nas entrelinhas daquilo que é oferecido pela TV contribui para formar o nosso senso crítico.

A partir do momento que as pessoas buscaram se informar, aprender, comparar e criticar, a presença da TV na sociedade foi se tornando menos manipuladora. Ou melhor: as pessoas foram percebendo as estratégias de manipulação de forma mais evidente. Isso quer dizer que a TV só existe para enganar a população? Não. Isso quer dizer que a população está mais vigilante e consciente de sua importância nesse processo.

Não existe TV que engana quando o telespectador está bem informado. Nesse sentido, ler sobre tudo, adotando uma postura crítica, é um bom caminho para não cair em armadilhas.

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública de Ensino da Bahia

Referência:

LEAL, Plínio Marcos Volponi. Um olhar histórico na formação e sedimentação da TV no Brasil. Artigo apresentado no VII Encontro Nacional de História da Mídia: mídia alternativa e alternativas midiáticas. 19 a 21 de agosto de 2009. Fortaleza, Ceará. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1>. Acesso em: 16 de setembro de 2015.

De Repente…Estudante

POW-DIA-ESTUDANTE-2015-TABLET

O PW, minha gente

Está aqui pra celebrar

Esse Dia do Estudante

E de quem gosta de estudar

 

Se você é um cabra esperto

Ou uma moça de responsa

Vai ouvir a minha dica

E me dá a sua confiança

 

Para entender o mundo

Não ficar cheio de muros

Estudar é importante

Pois nos deixa a par de tudo

 

Quem não foi, ainda vai ser

E quem sabe bem como é

Quem estuda, vai além

Pode ser o que quiser

 

Hoje é um dia bom

Dia de comemorar

Bate palmas pra essa gente

Que nasceu foi pra brilhar

 

Se você é estudante

Saiba logo, desde já

Nossa equipe se esforça

Pra poder te agradar

 

O PW, minha gente

Está aqui pra celebrar

Esse Dia do Estudante

E de quem gosta de estudar

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Raulino Júnior

Professor da Rede Pública de Ensino da Bahia

 

A Alfabetização e as Novas Tecnologias, por Emília Ferreiro

Nos anos 80, Emília Ferreiro revolucionou as práticas de alfabetização ao valorizar o modo como as crianças aprendem, em sua pesquisa de doutorado feita à luz da Epistemologia Genética de Jean Piaget. Todos os educadores que desejavam compreender como se dá a aquisição da leitura e escrita pela criança, dedicaram-se à leitura da Psicogênese da Língua Escrita que, desde sua publicação em 1985, passou a ser uma referência internacional pois havia no país àquela época – e ainda há – grande preocupação com as altas taxas de analfabetismo ou com o analfabetismo funcional, condição daqueles que decifram textos e não os compreende e nem os utiliza socialmente para maior integração no mundo.

A pesquisadora esteve em Salvador, no Colóquio Internacional de Alfabetização promovido pelo Instituto Chapada de Educação e Pesquisa – ICEP – e na ocasião repetiu o que diz há 40 anos: “Alfabetização não é um estado, é um processo largo, longo, de início incerto e de final impossível”, para dizer que não é possível precisar o início desta aprendizagem e acrescenta que as mudanças no mundo contemporâneo nos impõem sempre novas aprendizagem sobre a leitura e a escrita. Para ela, estar alfabetizado significa transitar de modo eficiente numa vasta trama de práticas sociais ligadas à escrita.

Neste contexto, destaca a revolução tecnológica como um fato que naturalmente redefiniu todas as profissões e assim fará com o fazer docente. Os professores mudaram com os novos recursos interativos, os modos de comunicação que são criados velozmente suscitam novos tipos de textos e criam novos comportamentos leitores e escritores que precisam ser estudados, diminuindo as tensões que se estabeleceram na complexa relação entre tecnologias e escolas.

Sobre a realidade do Brasil, Ferreiro avalia que “está em curso uma mudança sensível em relação à escolarização. Muito mais crianças e jovens em idade escolar estão nas salas de aula. Agora, vem o mais importante: o desafio da qualidade da aprendizagem. Não basta ocupar todas as carteiras. É preciso ensinar.”

Para a pesquisadora, quando se propõe problemas interessantes, é possível ver as crianças fazerem buscas particularmente inteligentes na internet. Este suposto problema a ser discutido e pesquisado coloca os alunos diante de informações que devem ser confrontadas, hierarquizadas, organizadas. Afinal, o Google não lê e compara, este é um trabalho do leitor.

Estar alfabetizado no século XXI exige muito mais, “não se pode fazer mais do mesmo”, diz Emília. Deste evento participaram também Telma Weisz, Regina Scarpa e Claudia Molinari, educadoras que discutem ações possíveis para uma efetiva formação de leitores e escritores, em programas de formação continuada de professores. No Instituto Anísio Teixeira, temos diversos projetos cujo objetivo é o desenvolvimento das competências de leitura e escrita para alunos da rede estadual e, deste modo, trazemos aqui um convite aos professores para que conheçam as ideias de Emília Ferreiro e busquem articulação entre estas e as propostas educativas das escolas onde atuam. Temos novas perguntas e devemos ir construindo coletivamente nossas respostas.

Discutindo a possibilidade do avanço tecnológico gerar o desaparecimento do livro, Emília cita Umberto Eco e encerra assim sua participação no Colóquio: “O livro é perfeito, o livro não vai desaparecer”. E acrescenta como Eco, “… o livro é perfeito como a roda e a colher.”

 

Lilia Rezende

Pedagoga, Rede Anísio Teixeira