Cultura Indígena Projetada

Uma sala de projeção, escura. Sinal de que uma sessão de cinema está prestes a começar. Contudo, não se trata de uma sessão comum, bem que poderia ser. Em poucos instantes, o público vai se deparar com produções audiovisuais realizadas e protagonizadas por povos indígenas. A situação narrada pode até parecer ficção, principalmente quando a gente pensa na realidade desses povos no nosso país, mas não é. A cena descrita aconteceu durante o Cine Kurumin, em Salvador, no último dia 13, quando o Palacete das Artes recebeu parte da programação do evento.

Fig. 1: cena de Caboclo Marcellino durante o Cine Kurumin. Imagem: Peterson Azevedo

Tendo a frase “Da minha aldeia vejo o mundo” como uma forma de provocar, a mostra chegou à 6ª edição com status de festival, promovendo bate-papos após as exibições dos filmes e rodas de conversa. O jornalista Sérgio Melo, 37 anos, que trabalha com produção multimídia e contribui com o Cine Kurumin desde que o projeto foi pensado, destacou aspectos importantes dessa modificação: “Não foi só conceitual, mas uma mudança mesmo de procedimentos. Até a edição passada, a gente era uma mostra. Transformando-se em festival, a gente traz, para além das exibições dos filmes, a participação maior dos realizadores. Em toda sessão, a gente tem um bate-papo e rodas de conversas, que estão acontecendo diariamente também. Além disso, tem a mostra competitiva, na qual os melhores filmes que foram exibidos serão premiados no final”.

Fig. 2: Sérgio Melo é um dos idealizadores do Cine Kurumin. Foto: Peterson Azevedo

De acordo com Sérgio, os indígenas participam de forma efetiva da organização do festival. “Existe essa preocupação para que os próprios indígenas sejam, não somente vistos no cinema, mas que também tenham a participação nesses processos autônomos de seleção dos filmes, pra que isso seja mais democrático possível”. Na verdade, foi com esse espírito que o projeto nasceu. “Surgiu com um trabalho que era desenvolvido com as aldeias indígenas, especificamente no Nordeste do Brasil, com produção audiovisual e inserção dos indígenas no mundo das novas tecnologias. Nesse trabalho, a gente fazia exibições de filmes. Essas exibições chamavam muito atenção das comunidades e a gente começou a perceber que, para além de exibir filmes, existia uma produção que estava sendo feita por essas comunidades, que também precisava ganhar esse espaço, para que fossem vistas por ouras pessoas”, analisa.

Fig. 3: Cecília Pataxó: “A iniciativa do Cine Kurumin é muito interessante”. Foto: Raulino Júnior

O espaço dado tem sido considerado relevante para os integrantes dos povos indígenas. Cecília Pataxó, 21 anos, estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia, avalia de forma positiva o Cine Kurumin. “Eu acho muito interessante, porque a gente acaba retomando esses espaços, não só na área da educação, da saúde, mas também na área da comunicação, trazendo esse protagonismo de como são as aldeias, como a gente vive, como é nossa luta. Mostra, para as pessoas que não são indígenas, a dificuldade que a gente passa”.

Rede Anísio Teixeira no Cine Kurumin

O docudrama Caboclo Marcellino é resultado da formação em Interpretação Cênica e Produção de Vídeos, realizada pela Rede Anísio Teixeira em parceria com estudantes do Colégio Estadual Indígena Tupinambá de Olivença e com a comunidade da Aldeia Tupinambá. O filme foi feito com base no livro escrito pelo professor Katu Tupinambá. No vídeo a seguir, Nildson B. Veloso, professor e diretor do curta, fala sobre como foi o processo de produção, a participação dos indígenas nisso e a importância de contar a história de Marcellino.

O professor Geraldo Seara, diretor de fotografia da obra, destaca o caráter pedagógico dela e fala sobre como os educadores podem utilizá-la na sala de aula:

Eu não conhecia muito o Caboclo Marcellino. Ouvia a história dele, assim, por alto. Diziam que era um indígena arruaceiro, que fazia, acontecia, matava muita gente lá pelos lados de Olivença. Ver essa outra versão sobre ele é esclarecedor, necessário até”, avaliou Larissa Almeida, 29 anos, professora de História. Se você quiser assistir ao docudrama, acesse este link: ambiente.educacao.ba.gov.br.

Fig. 4: Larissa Almeida: “Essa outra versão sobre o Caboclo Marcellino é necessária”. Foto: Peterson Azevedo

A segunda parte do Cine Kurumin vai acontecer de 16 a 20 de agosto, na Aldeia Tupinambá, em Olivença, distrito de Ilhéus. Para saber mais informações, entre neste site: www.cinekurumin.com. Aproveite!

Texto/Produção/Entrevista: Raulino Júnior

Imagens: Peterson Azevedo

Operadores de Áudio: Geraldo Seara e Harrison Araújo

Edição: Thiago Vinicius

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Etnomatemática

Olá pessoal! Tudo Beleza? Espero que sim! Para abrirmos as discussões do mês de maio, falaremos sobre a etnomatemática, sob o ponto de vista dos povos e da cultura indígena. Durante muito tempo, essa etnia teve sua cultura, língua, ciência e conhecimento matemático renegados pelos povos colonizadores e pelo Ocidente. No entanto, sabemos que cada etnia  possui a sua própria forma de produzir ciência e de representá-la.  Assim como ocorre nas ciências, cada etnia  também produz seu conhecimento matemático, no qual esse saber também é representado de diversas formas  e surge a partir das necessidades de cada grupo étnico.

A etnia Guarani-Kaiowá por exemplo, não atribui o valor três  quando estão diante de três folhas de uma mesma planta. Os indivíduos desse grupo concluirão  que ali existe um único objeto. No entanto, se adicionarmos às três folhas  uma pedra e uma lasca de pau, eles dirão está diante de três objetos. Estranho? Não! Bem, eu diria que é cultural! Talvez eles tenham a mesma impressão a respeito do nosso sistema de numeração!

Outro exemplo, bem curioso, sobre a forma como as etnias indígenas representam alguns polígonos, é aquela adotada pelos povos Kuikuru para representar os triângulos. Os homens desenham estes polígonos com os seus vértices pintados, enquanto que as mulheres os desenham sem nenhuma pintura. Segundo pesquisadores, esta representação está associada aos mitos de gênero indígena e às partes vitais do seu corpo.

Essa forma particular que os grupos éticos utilizam para descrever os fenômenos, representar figuras geométricas e contar objetos, sob o seu processo de leitura de mundo, foi denominada, nos meados da década de 70, por alguns teóricos, de etnomatemática. O surgimento dessa corrente   emerge num momento em que as críticas sobre a existência de um currículo comum e uma única forma de apresentação do conhecimento matemático são muito rebatidas entre alguns pesquisadores, dentre eles, D´Ambrosio. Segundo eles, a Matemática Moderna não valoriza os conhecimentos prévios dos alunos proveniente do seu meio, contrapondo, assim, a etnomatemática, cujos olhares estão voltados para a matemática presente nas contas feitas pelo feirante, nas medições de áreas efetuadas pelo pedreiro, no dimensionamento dos artesões , nas técnicas de pesca dos ribeirinhos, nas receitas das cozinheiras e na forma de contar e construir artesanato dos povos indígenas.   Esses últimos, repletos de exemplos para o ensino da Matemática e revestidos de significado, por meio da simetria de seus traçados, dos ângulos presentes no cruzamento entre uma palha e outra das suas cestas, na pintura corporal por meio dos de seus adornos simbólicos e míticos.

Ao contrário do que se pensa, o estudo da matemática e da cultura indígena  pode contribuir para a interdisciplinaridade e transdisciplinaridade e, ainda, favorecer a contextualização dos conhecimentos tradicionais do ambiente escolar, trazendo significado e a aplicação para o ensino de Matemática, além de preservar a identidade dos povos indígenas.

Vamos aprender mais um pouco sobre a etnomatemática? Acesse agora o  AEW ( Ambiente Educacional Web)!

André Soledade.

Professor da Rede Pública Estadual.

Referências:

Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível  em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Etnomatem%C3%A1tica>. Acesso em: 15 de abr. de 2016.

Socioambiental, Povos Indígenas no Brasil. Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kuikuro>. Acesso em: 15 de abr. de 2016.

Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível  em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ubiratan_D%27Ambrosio>. Acesso em: 15 de abr. de 2016.

Unicamp, Centro de Desenvolvimento de Professores. Disponível em: <http://www.ime.unicamp.br/lem/publica/e_sebast/etno.pdf>. Acesso em: 15 de abr. de 2016.

Lições Indígenas

Fig.1: Aldeia indígena – interação com a natureza. Fonte: pt.wikipedia.org

Os povos indígenas manejam os recursos naturais de maneira sustentável. Eles procuram aplicar estratégias de uso dos recursos que, mesmo transformando seu ambiente, não alteram os princípios de funcionamento e nem colocam em risco as condições de reprodução deste meio. Trocando em miúdos, eles apenas consomem para sobreviver, utilizam apenas o necessário, sem excedentes! Tomemos como exemplo a visão destes povos como homens “naturais”, defensores da natureza. Os índígenas têm consciência da sua dependência – não apenas física, mas sobretudo cosmológica – em relação ao meio ambiente. O modo como evitam a sobrecarga dos recursos ambientais ao dividir a aldeia cada vez que a população se torna excessiva “é de uma enorme sabedoria”. Desta forma, evita-se o superpovoamento. “Temos que aprender a ser indíos, antes que seja tarde”, foi essa a principal mensagem dada pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

Os Yanomami, por exemplo, utilizam a palavra urihi para se referir à “terra-floresta”: entidade viva, dotada de um “sopro vital” e de um “princípio de fertilidade” de origem mítica. Urihi é habitada e animada por espíritos diversos, entre eles os espíritos dos pajés yanomami, também seus guardiões. A sobrevivência dos homens e a manutenção da vida em sociedade, no que diz respeito, por exemplo, à obtenção dos alimentos e a proteção contra doenças, depende das relações travadas com esses espíritos da floresta. Dessa maneira, a natureza, para os Yanomami, é um cenário do qual não se separa a intervenção humana, no entanto, esta intervenção se faz de forma sustentável.

O formato de sustentabilidade – um conceito sistêmico, ou seja, correlaciona e integra de forma organizada os aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade. A palavra-chave é continuidade e como essas vertentes podem se manter em equilíbrio ao longo do tempo. Segundo Luiz Carlos Cabrera (FGV) a norueguesa Gro Brundtland, publicou um livreto chamado Our Common Future, que relacionava meio ambiente com progresso. Nele, escreveu-se pela primeira vez o conceito: “Desenvolvimento sustentável significa suprir as necessidades do presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprirem as próprias necessidades”. Os povos indígenas não só preservam o meio cuidando da natureza, como atendem as necessidades de gerações sem esgotar seus recursos. As sociedades indígenas são inspiradoras e sofisticadas!

(…) Amantes da natureza

Eles são incapazes

Com certeza

De maltratar uma fêmea

Ou de poluir o rio e o mar

Preservando o equilíbrio ecológico

Da terra,fauna e flora

Pois em sua glória,o índio

Era o exemplo puro e perfeito

Próximo da harmonia

Da fraternidade e da alegria (…)

(Letra de Jorge Ben Jor)

 

Fontes Consultadas:

http://brasileiros.com.br/2014/08/temos-que-aprender-a-ser-indios-diz-antropologo/

http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/modos-de-vida/Indios-e-o-meio-ambiente

http://www2.unifesp.br/centros/cedess/CD-Rom/ativprati2.htm

http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yanomami/581

http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/conteudo_474382.shtml

Josenir Hayne Gomes

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino

 

 

Radiola PW: História do Povo Umutina

Oi, pessoal! Tudo bem? A dica de hoje da Radiola PW é a música História do Povo Umutina, de autoria de Ademilson Umutina, cantor e compositor. De acordo com informações do site Povos Indígenas no Brasil, os Umutina possuem “um forte sentido de identidade étnica, reconhecendo-se como tradicionais moradores do alto-Paraguai, envolvidos atualmente na recuperação de suas manifestações sócio-culturais (sic) tradicionais”.

Fig.1: Ademilson Umutina em imagem do videoclipe oficial de sua música. Imagem: captura de tela

Fig.1: Ademilson Umutina em imagem do videoclipe oficial de sua música. Clique na foto para assistir. Imagem: captura de tela

Talvez, por essa razão, os 447 Umutina que vivem na Barra dos Bugres, no estado de Mato Grosso, estejam lutando para recuperar a língua Umutina, pertencente ao tronco linguístico Macro-Jê, da família Bororo. Atualmente, eles se comunicam através da língua portuguesa. A música História do Povo Umutina toca nesse ponto de preservação cultural (o refrão diz: “Somos o povo Umutina/E viemos revitalizar”) e fala de outros aspectos, como as lutas e perseguições sofridas pelo povo.

A canção é uma homenagem a todos os ancestrais que lutaram pela cultura dos Umutina. No início, o autor pede aos ouvintes que prestem atenção à história triste que ele tem para contar. Em seguida, fala dos mais de mil indígenas que viviam felizes nas margens do rio Bugres e do rio Paraguai, mas, com a chegada do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), os costumes do povo ficaram ameaçados. Isso fica evidente nos seguintes versos do lamento sertanejo: “1911/Chegou aqui nesse lugar/O tal do SPI/Que quis tudo mudar/ Suas danças, seus rituais/Vocês não irão realizar/Também o seu idioma/Vocês não irão mais falar”.

História do Povo Umutina fala de questões importantes, principalmente se a gente for refletir sobre o dia de hoje. É absurda a forma como os ditos “civilizados” tentam mostrar um outro mundo para os indígenas, visto como “ideal”. O grande equívoco se dá, principalmente, por não reconhecer que o indígena é um ser do mundo e que não precisa abdicar de sua cultura para ser considerado como tal.

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Radiola PW: Música Sem Pesquisa Brasileira (MSPB)

No mês de abril, a história e cultura dos povos indígenas fica em evidência por causa do dia 19 de abril. Na verdade, isso não passa de um agendamento frágil, que deveria ser repensado. Afinal, com clichê e querendo mesmo sair da teoria, os indígenas devem ser lembrados todos os dias, principalmente devido a todas as contribuições que deram e dão na constituição da identidade brasileira. A Lei 11645/08, que torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena, é um importante passo para que o tema não fique restrito ao mês de abril. Pelo menos, é o que se espera.

Restrição é a palavra que marca algumas tentativas de artistas da música popular brasileira em “homenagear” os povos indígenas. Quase sempre, o produto (no sentido mais comercial possível) vem cheio de arremedos, frases desconexas, estereótipos e informações descabidas.

Fig. 1: a MSPB é um gênero em ascensão na música brasileira. Imagem: captura de tela

Fig. 1: a MSPB é um gênero em ascensão na música brasileira. Imagem: captura de tela

Não faltam exemplos. Sobram. Em 1988, a apresentadora Xuxa Meneghel lançou o disco Xou da Xuxa 3 e uma das faixas de maior sucesso da obra foi a música Brincar de Índio, de autoria de Michael Sullivan e Paulo Massadas, famosa dupla de compositores. A música se tornou um clássico (infelizmente, é a verdade!), usada em escolas de todo o Brasil. Inclusive, até hoje (pois é!).

A incoerência já começa pelo título: “Brincar de Índio”. Como assim? Fantasiando-se de penas, tangas, com a pele pintada e batendo a mão na boca a fim de fazer aquele barulho esquisito? Deve ser. Pelo menos, era assim que Xuxa se apresentava quando cantava a música. A letra também dá indícios disso, um dos versos diz: “Vem pintar a pele para a dança começar”. Por falar na letra, cheia de estereótipos e visão limitada sobre os indígenas, o que dizer de trechos como “Índio fazer barulho/Índio ter seu orgulho […]/Índio querer carinho/Índio querer de volta a sua paz”, que tentam “reproduzir” a forma de falar dos indígenas? Fala sério! Um mínimo de pesquisa, mesmo naquela época, desfazia tal ignorância.

No final da canção, Xuxa dá um recado que, certamente, ela e toda a sua “tribo” acreditavam ser politicamente correto: “Baixinhos, vamos brincar de índio, ensinar as pessoas a ter respeito ao índio, que é a natureza viva”. Ela desrespeitou. Talvez, não tivesse essa intenção, mas o fez. Vestiu-se com uma roupa que não era sua e que não lhe caiu bem. Fantasiou-se. Li outro dia, numa rede social da internet, a seguinte frase: “Cultura não é fantasia”. Basta.

A baiana Mara Maravilha também caiu nessa esparrela. Em 1991, lançou a música Curumim, que integrava o disco de mesmo nome. A composição é de Robertinho de Recife e, para não fugir a regra, repleta de ideias sem lógica: “Eu sou uma índia, sou filha da lua, sou filha do sol/Meus cabelos negros a noite tingiu/ Serviu como espelho as águas do rio [sic]/Eu falo com o vento e com os animais/Eu nado com os peixes, nós somos iguais”. Além do erro de concordância verbal no verso “Serviu como espelho as águas do rio” (o sujeito da oração é “as águas do rio”, portanto, o verbo deveria estar no plural. Na ordem direta, isso fica mais evidente: “As águas do rio serviram como espelho”), o trecho reforça, de forma preconceituosa, que o indígena não avançou (Eu falo com o vento e com os animais/Eu nado com os peixes, nós somos iguais) e fica preso à ideia de que ele é um ser detentor de uma identidade fixa.

A Axé Music também produziu aberrações nesse sentido. Em Canibal (de 1999), composição de Ivete Sangalo, vê-se uma letra boba, pobre e insossa. No videoclipe, de roteiro reprovável, Ivete se “fantasia” de “índia” e o tal do canibal é interpretado pelo “índio” Fábio Assunção. Ah, tá! Entendi… No ano 2000, quando o país comemorava seus discutíveis 500 anos, o grupo É o Tchan lançou Tribotchan. A obra, escrita por Paulinho Levi e Cal Adan, falava sobre uma índia “patchanxó” (argh!) que requebrava e por quem Cabral se apaixonou. É a mulher como objeto sexual e as tradições indígenas deturpadas. O clipe é tão ruim quanto a música e fica até impossível tecer mais comentários.

Compositores e intérpretes que não fazem parte da cultura dos povos indígenas: eles não querem “homenagens”, querem RESPEITO!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Estatística Indígena

 

Olá, pessoal!

No Brasil, até a década de 80, acreditava-se que os povos indígenas estavam a caminho da extinção. Segundo o CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informação, a população indígena estimada era de, apenas, 204.000 habitantes, quando a população brasileira era de, aproximadamente, 133 milhões de habitantes. Ou seja, a população indígena brasileira era de aproximadamente 1,53% do total da população. O País tinha cerca de 662 terras indígenas. Nas décadas seguintes, no entanto, essa tendência se reverteu, houve rápido crescimento populacional verificado na maioria dos grupos, todavia, o Censo 2010 revelou algo preocupante. Acompanhe os dados.

De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2010, a população brasileira era de 190.755.799, dos quais apenas 0,47% ou 896,9 mil eram indígenas, morando tanto em terras indígenas (63,8%) quanto em cidades (36,2%). Do total, 817,9 mil se autodeclararam índios no quesito cor ou raça e 78,9 mil, embora se declarassem de outra cor ou raça, principalmente parda (67,5%), se consideraram indígenas pelas tradições e costumes. Se na década de 80 a situação era preocupante, o que dizer a de agora?

O maior contingente indígena está na região Norte: 342.836 indígenas (38,2%) e o menor, na Sul: 78.773 (8,8%). Considerando a população indígena residente fora das terras indígenas, a maior concentração está no Nordeste: 126.597 (33,4%).

“Ainda, segundo o Censo 2010, o País tem 505 terras indígenas, que representam 12,5% do território brasileiro (106,7 milhões de hectares), onde residem 517,4 mil indígenas (57,7%), dos quais 251,9 mil (48,7%) estão na região Norte. Apenas seis terras têm mais de 10 mil indígenas; 107 terras têm entre  mil e 10 mil; 291 terras têm entre 100 e 1000 e em 83 terras residem até 100 indígenas. A terra com maior população indígena é Yanomami, no Amazonas e em Roraima, com 25,7 mil indígenas.”.

Segundo a Funai “Foi observado equilíbrio entre os sexos para o total de indígenas. Para cada 100,5 homens, há 100 mulheres. Há mais mulheres nas áreas urbanas e mais homens, nas rurais. Percebe-se, porém, um declínio no predomínio masculino nas áreas rurais entre 1991 e 2010, especialmente no Sudeste (de 117,5 para 106,9), Norte (de 113,2 para 108,1) e Centro-Oeste (de 107,4 para 103,4).”.

Espero que esse texto tenha lhe dado uma dimensão dos povos indígenas do nosso país.

Os professores poderão utilizar esse texto na aula de estatística, estimativa, porcentagem, regra de três simples e muito outros assuntos de diversas disciplinas.

Um abraço.

REFERÊNCIAS

PORTAL BRASIL. Disponível em: http://www.brasil.gov.br/governo/2012/08/brasil-tem-quase-900-mil-indios-de-305-etnias-e-274-idiomas. Acesso em 06/04/2016.

IBGE. Disponível em: http://www.censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.php?dados=8. Acesso em 06/04/2010.

FUNAI – Fundação Nacional do Índio. Disponível em: http://www.funai.gov.br/index.php/educacao-escolar-indigena. Acesso em 06/04/2016.

CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informação. (1985). Considerações preliminares acerca do compromisso firmado entre o CVRD e a Comunidade Indígena Parkatêjê (Gavião do Pará): Parecer relativo à viagem de campo realizada entre 2 e 14.11.84, 1984g. In: CENTRO Ecumênico de Documentação e Informação. Povos Indígenas no Brasil? V. 8, II, São Paulo, CEDI.

OUTRAS HISTÓRIA. Disponível em: http://mekstein.blogspot.com.br/2010/02/pequeno-dicionario-de-palavras.html. Acesso em 06/04/2016.

Cine PW – Apocalypto

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Olá, cinéfilos!

O blog dedica inteiramente o mês de abril para trazer e discutir a história e cultura dos povos indígenas. Com isso, traremos produções que tratam desse universo, com intuito de enriquecer o nosso conhecimento e observar a riqueza cultural das inúmeras etnias que existiam e as que ainda existem e resistem.

Para a primeira semana de abril, o Cine PW indicará o filme “Apocalypto”, dirigido por Mel Gibson e lançado em 2006. Essa super produção retrata a história de Jaguar Paw, um caçador que vive numa aldeia na América Central com sua esposa e filho. Durante a história, o personagem encontra com outras etnias, sendo uma delas, a civilização Maia. Jaguar então é capturado pelos maias e subjugado à condição de ser ofertado aos deuses.

Para além da história de Jaguar Paw, podemos perceber a preocupação da obra fílmica em reproduzir a grandeza do império Maia. Os cenários são grandiosos e conseguem retratar mais fielmente essa complexa nação do período pré-colombiano. O dialeto maia foi preservado no filme, trazendo mais fidelidade à obra e uma sensação de maior proximidade com aquele universo de outrora.

Sobre outras óticas, podemos perceber com “Apocalypto” a enorme diversidade étnica que existia antes da invasão espanhola. Cabe também refletir sobre a relação de coexistência entre esses povos e como estes, posteriormente, se modificaram com a chegada dos europeus. Por fim, analisar e comparar o império Maia com sua sólida estrutura social e seu nítido avanço tecnológico da época com outras etnias que ainda viviam dentro de sistemas primitivos.

“Apocalypto” é um bom filme para ilustrar esse momento da história. Até para percebermos que, antes dos europeus cruzarem o atlântico com seus navios cheios de ganância e tragédias, aqui já se encontravam, também, muitos problemas.

Vitor Moreira

Colaborador da Rede Anísio Teixeira