Radiola PW: Música Sem Pesquisa Brasileira (MSPB)

No mês de abril, a história e cultura dos povos indígenas fica em evidência por causa do dia 19 de abril. Na verdade, isso não passa de um agendamento frágil, que deveria ser repensado. Afinal, com clichê e querendo mesmo sair da teoria, os indígenas devem ser lembrados todos os dias, principalmente devido a todas as contribuições que deram e dão na constituição da identidade brasileira. A Lei 11645/08, que torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena, é um importante passo para que o tema não fique restrito ao mês de abril. Pelo menos, é o que se espera.

Restrição é a palavra que marca algumas tentativas de artistas da música popular brasileira em “homenagear” os povos indígenas. Quase sempre, o produto (no sentido mais comercial possível) vem cheio de arremedos, frases desconexas, estereótipos e informações descabidas.

Fig. 1: a MSPB é um gênero em ascensão na música brasileira. Imagem: captura de tela

Fig. 1: a MSPB é um gênero em ascensão na música brasileira. Imagem: captura de tela

Não faltam exemplos. Sobram. Em 1988, a apresentadora Xuxa Meneghel lançou o disco Xou da Xuxa 3 e uma das faixas de maior sucesso da obra foi a música Brincar de Índio, de autoria de Michael Sullivan e Paulo Massadas, famosa dupla de compositores. A música se tornou um clássico (infelizmente, é a verdade!), usada em escolas de todo o Brasil. Inclusive, até hoje (pois é!).

A incoerência já começa pelo título: “Brincar de Índio”. Como assim? Fantasiando-se de penas, tangas, com a pele pintada e batendo a mão na boca a fim de fazer aquele barulho esquisito? Deve ser. Pelo menos, era assim que Xuxa se apresentava quando cantava a música. A letra também dá indícios disso, um dos versos diz: “Vem pintar a pele para a dança começar”. Por falar na letra, cheia de estereótipos e visão limitada sobre os indígenas, o que dizer de trechos como “Índio fazer barulho/Índio ter seu orgulho […]/Índio querer carinho/Índio querer de volta a sua paz”, que tentam “reproduzir” a forma de falar dos indígenas? Fala sério! Um mínimo de pesquisa, mesmo naquela época, desfazia tal ignorância.

No final da canção, Xuxa dá um recado que, certamente, ela e toda a sua “tribo” acreditavam ser politicamente correto: “Baixinhos, vamos brincar de índio, ensinar as pessoas a ter respeito ao índio, que é a natureza viva”. Ela desrespeitou. Talvez, não tivesse essa intenção, mas o fez. Vestiu-se com uma roupa que não era sua e que não lhe caiu bem. Fantasiou-se. Li outro dia, numa rede social da internet, a seguinte frase: “Cultura não é fantasia”. Basta.

A baiana Mara Maravilha também caiu nessa esparrela. Em 1991, lançou a música Curumim, que integrava o disco de mesmo nome. A composição é de Robertinho de Recife e, para não fugir a regra, repleta de ideias sem lógica: “Eu sou uma índia, sou filha da lua, sou filha do sol/Meus cabelos negros a noite tingiu/ Serviu como espelho as águas do rio [sic]/Eu falo com o vento e com os animais/Eu nado com os peixes, nós somos iguais”. Além do erro de concordância verbal no verso “Serviu como espelho as águas do rio” (o sujeito da oração é “as águas do rio”, portanto, o verbo deveria estar no plural. Na ordem direta, isso fica mais evidente: “As águas do rio serviram como espelho”), o trecho reforça, de forma preconceituosa, que o indígena não avançou (Eu falo com o vento e com os animais/Eu nado com os peixes, nós somos iguais) e fica preso à ideia de que ele é um ser detentor de uma identidade fixa.

A Axé Music também produziu aberrações nesse sentido. Em Canibal (de 1999), composição de Ivete Sangalo, vê-se uma letra boba, pobre e insossa. No videoclipe, de roteiro reprovável, Ivete se “fantasia” de “índia” e o tal do canibal é interpretado pelo “índio” Fábio Assunção. Ah, tá! Entendi… No ano 2000, quando o país comemorava seus discutíveis 500 anos, o grupo É o Tchan lançou Tribotchan. A obra, escrita por Paulinho Levi e Cal Adan, falava sobre uma índia “patchanxó” (argh!) que requebrava e por quem Cabral se apaixonou. É a mulher como objeto sexual e as tradições indígenas deturpadas. O clipe é tão ruim quanto a música e fica até impossível tecer mais comentários.

Compositores e intérpretes que não fazem parte da cultura dos povos indígenas: eles não querem “homenagens”, querem RESPEITO!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

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Cine PW – Apocalypto

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Olá, cinéfilos!

O blog dedica inteiramente o mês de abril para trazer e discutir a história e cultura dos povos indígenas. Com isso, traremos produções que tratam desse universo, com intuito de enriquecer o nosso conhecimento e observar a riqueza cultural das inúmeras etnias que existiam e as que ainda existem e resistem.

Para a primeira semana de abril, o Cine PW indicará o filme “Apocalypto”, dirigido por Mel Gibson e lançado em 2006. Essa super produção retrata a história de Jaguar Paw, um caçador que vive numa aldeia na América Central com sua esposa e filho. Durante a história, o personagem encontra com outras etnias, sendo uma delas, a civilização Maia. Jaguar então é capturado pelos maias e subjugado à condição de ser ofertado aos deuses.

Para além da história de Jaguar Paw, podemos perceber a preocupação da obra fílmica em reproduzir a grandeza do império Maia. Os cenários são grandiosos e conseguem retratar mais fielmente essa complexa nação do período pré-colombiano. O dialeto maia foi preservado no filme, trazendo mais fidelidade à obra e uma sensação de maior proximidade com aquele universo de outrora.

Sobre outras óticas, podemos perceber com “Apocalypto” a enorme diversidade étnica que existia antes da invasão espanhola. Cabe também refletir sobre a relação de coexistência entre esses povos e como estes, posteriormente, se modificaram com a chegada dos europeus. Por fim, analisar e comparar o império Maia com sua sólida estrutura social e seu nítido avanço tecnológico da época com outras etnias que ainda viviam dentro de sistemas primitivos.

“Apocalypto” é um bom filme para ilustrar esse momento da história. Até para percebermos que, antes dos europeus cruzarem o atlântico com seus navios cheios de ganância e tragédias, aqui já se encontravam, também, muitos problemas.

Vitor Moreira

Colaborador da Rede Anísio Teixeira