Consumo Consciente na “Terra dos Homens Íntegros”

Que tal viajarmos no tempo e no espaço para um país chamado Burkina Faso, localizado no Oeste Africano, para descobrirmos que o consumo consciente pode  nos levar a uma visão crítica da nossa realidade mais imediata, bem como do contexto mais amplo no qual estamos inseridos? O primeiro passo é localizarmos esse país no continente africano. No mapa abaixo, Burkina Faso está sinalizado de vermelho!

Fig. 1 Mapa da África com destaque para Bukina Faso

Africa Bukina Faso

Até 1983, Burkina Faso se chamava República do Alto Volta. Esse pequeno país, localizado no Oeste africano e sem saída para o mar, vivia com grandes dificuldades econômicas. Parte da população não tinha o que comer. Desnutridos e sem acesso a um sistema de saúde minimamente organizado, o povo do Alto Volta sucumbia facilmente às doenças. Era uma calamidade. No contexto de Guerra Fria, os países africanos tateavam um caminho para a restauração de suas economias após um longo período de colonização. Sim, em pleno século XX, a Europa ainda ostentava colônias no continente africano. Vamos lembrar que em fins do século XIX, após a Conferência de Berlim, o continente africano começava a ser repartido entre as principais potências europeias.  Alto Volta foi alvo de disputa entre a França e a Inglaterra no final do século XIX. Após a Convenção do Níger, que estipulava quais regiões da África Ocidental ficariam sob a tutela dos países europeus em questão, a França conseguiu impor seu poder sobre a quase totalidade das chefias locais, espalhando a guerra, a fome e a morte por onde os exércitos franceses passavam. Só em 1960, Alto Volta se tornaria independente. Após diversos governos corruptos, Thomas Sankara assumiu a presidência via golpe de estado liderado pela ala revolucionária do CSP (Conseil Du Salut dês Peuples). Alto Volta não tinha uma tradição política democrática, limitando as possibilidades de Sankara de ascender ao poder através de uma eleição direta e popular.

Figura 2: Foto de Tomas Sankara

Tomas Sankara

Fonte: Thomas Sankara 3/4 | La femme – YouTube www.youtube.com480 × 360

Ao assumir o governo, Sankara promoveu uma verdadeira corrida de caça aos políticos corruptos, buscando tornar mais justa a sociedade de Alto Volta. Uma das primeiras medidas foi mudar o nome do país que passou a se chamar Burkina Faso, que significa “terra de homens íntegros” nas línguas nativas de Mossi e Djulai. Olhar para a economia local e ver as possibilidades produtivas de seu país foi o caminho encontrado por Sankara para retirar da pobreza extrema o seu povo! Sim, estimular o consumo consciente era a saída, vislumbrada por Sankara para libertar o país do brutal domínio das potências europeias que só queriam explorar a população africana.

Sankara levantou o lema “Consumir o que é nacional”! Mas, para isso, era preciso aumentar a produção de alimentos e manufaturas. Em um país marcado pelos latifúndios, tomou curso uma reforma agrária com a distribuição de terras para os camponeses. Em pouco tempo, a “terra dos homens dignos” tornou-se capaz de alimentar toda a sua população sem depender de produtos importados. A indústria têxtil foi estimulada, incentivando a população a consumir apenas os tecidos produzidos por tecelões locais! Muitas outras reformas no campo da saúde e educação pública foram implementadas. Milhares de pessoas, sobretudo mulheres, foram alfabetizadas. O país dos “homens íntegros” estava no caminho certo para o desenvolvimento econômico e humano!

Em razão da pressão imposta pelas elites locais e pela política imperialista européia e norte-americana, incomodadas com a perda de privilégios e a drástica diminuição dos lucros oriundos da exploração dos mais pobres,  Sankara foi assassinado. Quinze de outubro de 1987 marca o fim da Revolução Democrática Popular em Burkina Faso. Blaisé Compaoré, um dos principais articuladores do golpe, assume o poder e conduz o país a um total retrocesso, sobretudo no campo das conquistas sociais. O capital externo voltou a ditar as regras da economia de Burkina Faso, tornando o país refém do Banco Mundial e do FMI.

Sankara deixou um enorme legado de experiências políticas para refletirmos, sendo o consumo consciente uma das mais importantes. Sankara demonstrou na prática que, ao escolhermos um produto para o consumo, podemos estar agindo em prol da mudança social! E, assim, terminamos nosso texto com uma reflexão desse grande líder africano: “(…) pode-se matar líderes revolucionários, mas as ideias permanecem”. Que tal pensarmos nas nossas práticas de consumo? Fica a dica!

Fonte: Movimento Pró-África.  Thomas Sankara (21/12/1949 – 15/10/1987): Um Percurso Revolucionário Inacabado? Desafios , nº 02, Novembro de 2014. http://www.unicv.edu.cv/images/stories/EdicoesUniCV/RevistaCT/revista_desafios2.pdf

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“A visibilidade é uma armadilha”

Salve, turma esperta!

Hoje em dia, em praticamente todas as áreas de atuação da vida humana e em quase todos os lugares e organizações sociais, os sistemas computacionais tem sido utilizados como ferramenta para registrar e tratar dados, operacionalizar atividades e facilitar o acesso à informação, comunicação e compartilhamento de conteúdos. Os ambientes digitais, que compõem o chamado ciberespaço, possibilitam a construção de novas formas de interação e sociabilidade, sobretudo através da rapidez – quase instantaneidade – com que esse fluxo se realiza. Não podemos perder de vista, contudo, que tão importante quanto a velocidade é a forma com que nos expomos e/ou somos expostos(as) a esta enorme quantidade diária de estímulos.

O surgimento da internet está historicamente ligado à Guerra Fria, localizada entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a extinção da União Soviética (atual Rússia), caracterizado como um período de tensões entre este país e os Estados Unidos na busca pela supremacia geopolítica e militar sobre os países em suas áreas de influência e sobre o planeta como um todo. Pesquisas inicialmente desenvolvidas pelo exército norte-americano no final da década de 1960 com o objetivo de criar um sistema de comunicação integrado entre suas agências militares e bases de pesquisa deram origem a ARPANet – sigla em inglês que pode ser traduzida como Rede de Agências para Projetos de Pesquisa Avançada – protótipo do que seria mais tarde a nossa conhecida internet.

Desde então, com a expansão do modelo para formas comerciais, as redes de troca de pacotes tem se disseminado e cada vez mais temos utilizado tal recurso. Um destes sistemas de conexão, talvez o mais conhecido da atualidade, é o World Wide Web, WWW ou simplesmente Web.

Plataformas comunicacionais com as mais variadas finalidades são hoje uma realidade relativamente acessível à maioria das pessoas: navegadores (browsers), serviços de correio eletrônico (webmails), fóruns de discussão, mensageiros ou comunicadores instantâneos (chats), redes sociais, etc.. A própria estrutura que nos permite escrever e compartilhar este texto com vocês, o blog, é uma destas. Facílimo, então, tornou-se produzir, difundir e trocar saberes e fazeres com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo!

Infelizmente estas facilidades não parecem ter sido acompanhadas de uma reflexão mais detida, mais profunda, por parte dos(as) “navegantes” deste mar eletrônico, fundamental para uma apropriação crítica e contextualizada destes processos tecnológicos: diante da excitante novidade que nos é apresentada, que nos atiça o desejo de ver e sermos vistos, vamos comendo este melado. E nos lambuzando…

Segurança, liberdade e privacidade na internet, assim, entraram na roda como pontos estratégicos nas discussões sobre os possíveis limites éticos do ciberespaço. Escândalos envolvendo agências de informação de empresas e governos, acusadas de espionagem e mesmo invasão de dados de usuários(as) em todo o planeta, deixaram a nu a vulnerabilidade do mundo digital e a existência de interesses obscuros por trás do monitoramento das pegadas que deixamos na web. A rastreabilidade tornou-se, escancaradamente, um negócio.

Ainda que não garantam segurança total, os softwares livres são, por exemplo, uma excelente alternativa para quem se preocupa com estas questões. Por conterem em um dos seus princípios éticos/técnicos o acesso aberto ao código fonte – a arquitetura do programa ou sistema operacional – permitem, entre outras possibilidades, que os softwares sejam estudados, que se aprenda como foram construídos e que sejam, por assim dizer, “fiscalizados” por qualquer pessoa com algum conhecimento em programação.

Mas atenção, pessoal: o aspecto mais importante para entendermos este tema talvez seja a necessidade de recuperarmos a consciência de que a internet é uma rede mundial de usuários(as) de computadores conectados entre si e não meramente uma rede mundial de computadores, recolocando o ser humano em seu lugar de protagonista, artífice original deste processo, tornando-nos a todos(as) responsáveis pelos rumos, belos ou terríveis, que o mundo virtual possa tomar.

Abaixo deixamos, para reforçar esta reflexão, um trecho da obra Vigiar e Punir: nascimento da prisão, do filósofo Michel Foucault:

O princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário, um escolar. Pelo efeito da contraluz, pode-se perceber da torre, recortando-se exatamente sobre a claridade, as pequenas silhuetas cativas nas celas da periferia. Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em que cada ator está sozinho, perfeitamente individualizado e constantemente visível. O dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. (…) A visibilidade é uma armadilha.”

Até a próxima!

REFERÊNCIAS:

Guerra Fria: acesso em <http://www.quickiwiki.com/pt/Guerra_Fria>, aos 31/07/2014;

ARPANet: acesso em <http://www.quickiwiki.com/pt/ArpaNET>, aos 31/07/2014;

World Wide web: acesso em <http://www.quickiwiki.com/pt/World_Wide_Web>, aos 31/07/2014;

Software Livre: acesso em <https://oprofessorweb.wordpress.com/2010/10/05/9%C2%AA-dica-professor-web-fala-sobre-software-livre/>, aos 31/07/2014;

Pan-óptico: acesso em <http://www.quickiwiki.com/pt/Pan-%C3%B3ptico>, aos 31/07/2014;

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Editora Vozes, 1987;

Tem boi na linha? Guia prático de combate à vigilância na internet. Acesso em <https://temboinalinha.org/>, aos 31/07/2014.

Cine PW: Yoani Sánchez x Soy Cuba

Salve, salve, turma!

Recebida em meio a vaias e aplausos, Yoani Sánchez tem dividido opiniões entre os que se dizem “esquerdistas” e “direitistas” ao relatar as relações políticas e sociais em Cuba, aliado às acusações de a blogueira ser financiada pela C.I.A. e outras instituições burguesas que visam derrubar o governo Castrista.

Em 2007 Yoani cria o blog Generación Y, onde são publicadas críticas ao governo dos irmãos Castro, mostrando uma Cuba muito diferente dos sonhos de Ernesto Che Guevara ou dos relatos de Fernando Morais no livro “A Ilha” (período em que Cuba recebia a “mesada” do governo soviético).

A realidade apresentada no Generación Y é de uma ilha subjugada a uma ditadura socialista que se estende a mais de 50 anos, no entanto a história não nos deixa esquecer a ditadura econômica do imperialismo capitalista, imposto pelos E.U.A. com a Ementa Platt, pela qual a ilha perdia sua condição jurídica soberana e concedia à nação estadunidense o direito de intervir nos assuntos da política interna cubana. No período de dominação dos E.U.A., Cuba deixou de ser uma nação para se tornar a “ilha dos prazeres” de muitos estadunidenses e outros turistas. Um dos responsáveis por essa transformação foi o ditador (ou “testa de ferro” dos E.U.A) Fulgêncio Batista, que montou uma infraestrutura voltada para os turistas oferecendo cassinos, incentivo à prostituição e uso indiscriminado de drogas, além dos altos índices de corrupção que mergulharam a sociedade cubana numa profunda crise estrutural.

Ao tomar conhecimento dos textos de Yoani Sánchez o governo cubano não demorou em tomar a decisão de cercear a sua liberdade de expressão implementando, em 2008, um bloqueio ao Generación Y .

Com apoio de parceiros Yoani Sánchez mantém o blog relatando as contradições no cotidiano dos cubanos, que apesar de possuírem um bom sistema público de saúde e educação sobrevivem com baixos salários ao passo em que o governo se beneficia em acordos com empresas privadas, criando uma espécie de capitalismo estatal. Outra problemática apontada por Yoani é o acesso precário a internet e a telecomunicação, além da crise econômica enfrentada desde o fim da U.R.S.S., que tem sido amenizada com o apoio do governo venezuelano de Hugo Chávez.

Um fato inegável é o de que a sociedade cubana vive um momento crucial na sua história e Yoani Sánchez é uma das pontas do grande e enigmático iceberg que é Cuba. Sobre esse contexto surgem inúmeras dúvidas e especulações, mas há duas interrogações unanimes: Cuba vive uma abertura político-econômica ou sofre mais uma investida do capitalismo global? Será que a “ilha” não é mais a mesma?

Yoani Sánchez e o seu blog nos colocam diante do legado da Guerra fria e do cruel modelo de Globalização que mantém e legitima sistemas de expropriação e outras contradições próprias do capitalismo. E nos fazem refletir sobre como um blog, uma rede social, um celular ou qualquer outra tecnologia de comunicação tem um papel importante na busca por transformações sociais, culturais, políticas e econômicas, seja na comunidade, na escola ou num país.

Com a palavra Yoani Sánchez 

Bloco 2, Bloco 3 e Bloco 4

Com a palavra a Revolução Cubana

Confiram o olhar do russo Mikhail Kalatozov sobre a transição do regime de Fulgêncio Batista para a Revolução Cubana.

Sinopse

Quatro histórias ambientadas na Cuba pré-revolucionária. Em Havana, Maria envergonha-se quando o homem de quem gosta descobre como ela ganha a vida. Pedro, um camponês idoso, descobre que a terra que cultiva foi vendida a uma empresa. Um universitário vê seus amigos serem atacados pela polícia quando distribuíam panfletos a favor de Fidel Castro. Por fim, uma família de camponeses é ameaçada pelas forças de Batista.

Ótima sessão!

Cine PW: “O Senhor das Armas”

Olá, galera!

Estão afim de dar aquele fôlego a mais nos estudos? Se liguem na indicação de hoje do Cine PW, “O Senhor das Armas”. O filme aborda a nova ordem mundial iniciada após a Guerra Fria e o comércio de armas na região do Leste Europeu e na África.

Ficaram interessados? Então confiram um trecho de “O Senhor das Armas”.

O filme começa com Yuri Orlov declarando, “Há mais de 550 milhões de armas de fogo em circulação no mundo. É uma arma para cada doze pessoas no planeta. A única questão é: Como armamos as outras onze?” Começam então os créditos de abertura, mostrando a viagem de uma bala de fuzil, desde a fábrica no leste europeu até a cabeça duma criança africana.

O resto do filme é contado em flashback, começando nos anos1980 e acabando na cena inicial.

Narrando ao fundo, Yuri Orlov descreve como se tornara um comerciante de armas. A família de Yuri, quando este ainda era jovem, emigrou da Ucrânia para os Estados Unidos. A família fingia ser judia para que pudesse receber benefícios migratórios, e possuía um pequeno restaurante, o que era útil, afinal, “as pessoas sempre vão ter que comer”. Depois de Yuri presenciar a morte de dois capangas por um chefe da máfia russa, decide prover uma outra necessidade humana: armas de fogo.

Ótima sessão e até a próxima!

Fonte: Wikipédia