A Geografia e seus caminhos – contribuições na era da informação

Fala, galera! Beleza?

Raso da Catarina

Fig. 1: Raso da Catarina, Glória – BA. Crédito: Peterson Azevedo

Hoje, nosso papo é sobre os caminhos trilhados pela geografia contemporânea ou como alguns autores costumam chamar: geografia crítica. O termo “geografia” é utilizado desde o período conhecido como Antiguidade Clássica, termo muito utilizado para descrever os “acidentes” geográficos, ou melhor, os aspectos fisiográficos do planeta, como: o relevo, os tipos de biomas, as funções hídricas e físicas do rio, dentre outras. Por ser filha da ciência filosófica, a observação foi o ponto de partida para essa área do conhecimento humanista. Apenas no início do século XIX, passou a ganhar pompas de uma ciência concreta e aceita nas academias da Europa. Duas escolas se destacaram nesse processo: a escola Alemã, com sua teoria do determinismo geográfico, que deu início ao processo de interpretação do espaço como forma de poder e conquista. Os principais pensadores desse período foram Humboldt, Ritter e Ratzel, que reafirmava que o território e sua expansão eram vitais para a construção de uma sociedade imperialista. Afirmava também que o ambiente(natureza) condicionava as relações sociais e poderiam dificultar ou ampliar as condições de sociabilidade, ou seja, o homem era visto apenas em seu aspecto biológico. Sendo assim, desconsiderava-se seu aspecto social. Muito dessa teoria fortaleceu o discursos expansionista da Alemanha do início do século XIX.

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Fig. 2: A luz do pensamento. Crédito: Peterson Azevedo

Outra escola muito importante para o pleno desenvolvimento do conhecimento geográfico foi a Francesa, principalmente com o geógrafo Vidal de La Blache, liberalista, grande crítico da teoria alemã do determinismo geográfico – e sugeria, como contraponto ao pensamento de Ratzel, a teoria do Possibilismo Geográfico, na qual propõe que o homem seja o principal ator condicionante e modificador do meio, ou seja, o ponto de partida do pensamento geográfico. É na escola francesa que o homem e suas transformações no meio ambiente, por meio do trabalho e de suas tecnologias, se firmam como o principal objeto de estudo da Geografia moderna. Apesar do liberalismo francês, a Geografia ainda estava muito prisioneira do “poder” e da geopolítica de expansão territorial, como afirmou o geógrafo Yves Lacoste: “isso [a geografia] serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra”(LACOSTE, 1989 p.1).

Em meados do século XX, a Geografia Crítica passa a ter um papel mais atuante nas questões de empoderamento social, propondo de forma crítica uma leitura de mundo que possibilite romper as amarras com o poder do capital, a geografia passa agir de maneira libertária, passando a atuar além dos muros da escolarização, deixando de ser apenas uma disciplina escolar e passando a configurar como instrumento de política pública. Quando a ciência geográfica passa a ter um olhar mais crítico sobre o espaço construído e suas relações sociológicas e tecnológicas, muitos geógrafos passam a expor seus pensamentos de maneira mais libertária e crítica. Os mais importantes geógrafos da época foram Pierre George e David Harvey, que passam a estabelecer diálogos mais próximos com a sociologia, filosofia e a antropologia, em especial um diálogo mais amplo com a teoria marxista, discutindo como os espaços geográficos eram dinamizados e organizados de acordo com os bens de produção e os conflitos estabelecidos pela luta de classes. Um geógrafo também entusiasta dessa linha de pensamento libertário e crítico foi o nosso baiano de Brotas de Macaúbas e um dos maiores nomes do pensamento geográfico na contemporaneidade. Estamos falando do intelectual e professor Milton Santos, ganhador do prêmio Nobel da geografia, o Vautrin Lud, em 1994, com o livro Por uma geografia nova, da crítica da geografia a uma geografia crítica (1978). O professor Milton Santos propõe que o espaço geográfico se torne o principal objeto de estudo dessa ciência, que passa cada vez mais a ver o homem e suas estruturas de trabalho como condicionantes de suas análises interpretativas. Um dos objetos mais discutidos por ele é o intenso processo da Globalização econômica, instituído e dominado pelos países detentores do capital moderno. Milton afirmava que o processo de globalização não deveria ser controlado pelas classes dominantes e, sim, deveria ser demandado e incrementado pelas bases sociais do espaço construído, o lugar deve ser mais importante que o espaço mundializado.

No início do século XXI, com a intensificação e massificação das novas tecnologias da informação e da comunicação, o pensamento geográfico, que já estava consolidado como uma ciência humana e crítica, passa a se tornar cada vez mais uma ciência do poder, ou melhor, do empoderamento popular, ao alcance de todos, se tornando possivelmente uma ciência de contraponto ao unilateralismo do pensamento. E o que a geografia pode contribuir com a sociedade da informação? Não podemos negar, na contemporaneidade, as diversas forma de leituras e da construção de novas configurações de diálogos com o mundo “globalizado”, que vão além da palavra escrita. A imagem e, em especial, a fotografia, vem se tornando um forte instrumento de leitura e interpretação do espaço geográfico. Para Sontag, “a fotografia é um fenômeno que ocupa lugar central na cultura contemporânea”.

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Fig 3: A janela: Créditos: Peterson Azevedo

A imagem pode ser uma forma mais dinâmica e um poderoso instrumento de diálogo no mundo globalizado, já que a escrita visual independe de entendimento direto, no que se refere à linguística, amplificando o modo de se expressar, por meio da interpretação imagética. A imagem deve ser compreendida como instrumento dialógico crítico no tempo e no lugar, problematizando e contextualizando as relações que se estabelecem no espaço geográfico e suas implicações. A imagem fotográfica produzida deve ser entendida e interpretada como sendo parte conceitual e de identidade do seu interlocutor. Quem produz uma imagem, conta sua própria história! Fotografar é construir uma narrativa visual própria, é compartilhar seu repertório cultural/geográfico, compartilhar sua territorialidade. Hoje, com a popularização das redes sociais, dos objetos educacionais livres, a democratização tecnológica nas produções audiovisuais e ao acesso aos aparelhos de telecomunicações, o ensino da geografia tem a possibilidade de democratizar seus discursos, desprendendo-se do chão acadêmico, que tanto os polariza. O professor e o estudante, principalmente da escola pública, passam a ser coautores de suas aprendizagens, deixando de serem meros espectadores do pensamento geográfico.

Como vimos amigos, a Geografia passou por diversas fases no desenvolvimento do pensamento humano e, por ser dinâmica e contemporânea, vem ampliando sua capacidade de ler e interpretar o espaço, livre das amarras do poder, possibilitando assim um olhar mais crítico sobre as relações sociais que se configuram e reconfiguram no “fazer” o mundo.

Deixemos as ciências humanas fazerem seus papéis: democratizar o pensamento.

Peterson Azevedo

Fotógrafo e Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

REFERÊNCIAS

MORAES, Antônio Carlos Robert. Geografia: pequena história crítica. 20° ed. São Paulo: Annablume, 2005.

YVES, Lacoste. A geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 2. ed. Campinas: Papirus, 1989.

Milton Santos. Disponível em: http://miltonsantos.com.br/site/biografia/.Acesso em 02 de março de 2017

A Geografia e as mídias e tecnologias educacionais livres

Ambiente Educacional Web. Disponível em: http://ambiente.educacao.ba.gov.br/. Acesso em 02 de março de 2017.

Geografia Visual. Disponível em: http://geografiavisual.com.br/.Acesso em 02 de março de 2017.

MApa de Iniciativas de Recursos Abertos. Disponível em: http://mira.educacaoaberta.org/. Acesso em 07 de março de 2017

Vem aí, a VI FECIBA!

Olá!Tudo bem?

Hoje, vamos falar sobre um evento que vem acontecendo anualmente, em Salvador, desde 2011, e que tem apresentado excelentes resultados , frutos do trabalho de alunos e professores da Rede Pública de Ensino . Estamos falando da Feira de Ciências e Matemática da Bahia (FECIBA), promovida pela Secretaria de Educação do Estado da Bahia. A Feira de Ciências é resultado da realização das feiras escolares de Ciências, que se constituem na culminância das atividades desenvolvidas por meio dos programas estruturantes da Secretaria de Educação – Ciência na Escola, Gestar na Escola, Pacto pelo Ensino Médio e Ensino Médio com Intermediação Tecnológica (Emitec)”.( Ascom/Secretaria da Educação do Estado da Bahia)

Veja o texto abaixo:

“O espaço escolar é um dos locais mais importantes de uma Nação. Profícuo para a formação e desenvolvimento de indivíduos cidadãos. Nele, professores talentosos constituem-se em mola propulsora da educação. Apresentam o universo escolar aos estudantes, naturalmente, entregam-se e interagem com a turma num misto de confiança, sorrisos, expertises, interesses e sentimentos. Medeiam o conhecimento, versam sobre vários conteúdos. Iniciam, firmam o alunado no mundo da ética, moral, regras e valores que estarão presentes no transcorrer de sua vida e cobrados ao longo de sua existência.” (Parte integrante da poesia ‘Dia 15 de outubro’)

 Então, é chegado o momento , vem aí a VI FECIBA, que ocorrerá nos dias 09, 10 e 11 de novembro do ano corrente, na Arena Fonte Nova, durante o 5.º Encontro Estudantil. Não dá pra ficar de fora!  Na Feira , você, seus colegas, seus  professores e sua escola apresentarão invenções ,resultantes da interação pedagógica ocorrida durante este ano letivo. Sugiro que você , aluno-cidadão,  mostre sua expertise através de projetos criativos mediados pela ética, moral, regras e valores.

O estudante da escola pública, Lucas Borges , que criou um eficiente sistema de segurança para fogões contra acidente doméstico, foi  premiado na Feira de Ciências da Bahia , em 2011, e no ano de 2012 venceu a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE), no Campus da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Sugiro que assista ao vídeo, abaixo, Sistema de Segurança Contra Acidentes Envolvendo Panelas – Lucas Borges (Rede Anísio Teixeira – TV AT ).

Lucas Borges

Fig. 1 : Lucas Borges

O ano de  2015  teve o maior número de projetos registrados. Foram submetidos à FECIBA mais de 870 projetos,de 544 escolas. De acordo com o coordenador da Feira, Rogério Lima ,a expectativa para este ano é ultrapassar a marca do ano anterior: “Elaboramos um conjunto de ações, como videoconferências, workshops e seminários colaborativos para estimular a participação dos estudantes. Nossa proposta é fazer com que eles demandem dos professores e das unidades escolares o envolvimento com proposta da educação científica”.( Ascom/Secretaria da Educação do Estado da Bahia)

Fig. 2 - Vídeoconferência -IAT .Núcleos Regionais de Educação (NRE) com as Coordenações dos Projetos Estruturantes.

Durante a videoconferência, ocorrida no dia 30/08, no IAT – Instituto Anísio Teixeira, com o objetivo de estreitar a relação dos Núcleos Regionais de Educação (NRE) com as coordenações dos projetos estruturantes, a coordenadora do Programa Ciências na Escola – PCE,  Shirley Costa, falou que “o programa empodera o estudante no seu processo educacional, promove a  educação científica dos professores e estudantes, motiva-os a mudar a realidade em seu entorno.É um orgulho para o PCE saber que mais de 100 escolas, durante o mês de agosto, vêm realizando feiras escolares de ciências”.  Rogério Lima informou:  “Até dia 01/09/2016 ,acredito que já esteja no site da FECIBA o link para inscrição na Feira de Ciências e Matemática da Bahia”.

Outro fato importante é que os projetos submetidos à FECIBA, não precisam, necessariamente, que sejam apenas da área de conhecimento de ciências da natureza.

São perceptíveis as características interdisciplinares nos projetos. Estes  podem versar sobre várias temáticas,como por exemplo: projeto que fala sobre a identidade das comunidades quilombolas, de autoria das alunas Beatriz Santana e Tainá de Almeida, estudantes da rede estadual de ensino do município de Antônio Cardoso, interior baiano. Elas foram vencedoras da FECIBA- 2014 e da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia – FEBRACE, com o trabalho sobre fortalecimento da identidade negra e quilombola na cidade. Atualmente, Tainá é estudante do curso de Direito da Universidade Federal da Bahia.

As estudantes apresentaram, também, o referido trabalho na “Intel Internacional Science and Engineering Fair”- EUA, maior feira de ciências do mundo.

Outro grande exemplo de projeto bem-sucedido é a criação de “um dispositivo que inviabiliza o acionamento de motos sem uso de capacete”, de autoria dos alunos  Poliana Mascarenhas e Marcelo Oliveira Pinto, estudantes do Colégio Estadual Polivalente , no município de Conceição do Coité, no semiárido baiano.

Então, fique atento, não perca a data para a inscrição dos trabalhos de sua escola! E boa sorte!

Ana Rita Medrado

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino.

 

Referências:

http://escolas.educacao.ba.gov.br/feciba1

http://g1.globo.com/bahia/noticia/2015/05/alunas-da-rede-publica-levam-projeto-sobre-quilombolas-para-feira-nos-eua.html

http://www.secom.ba.gov.br/galeria/15333/126333/Videoconferencia-promove-articulacao-entre-IAT-e-Nucleos-Regionais-de-Educacao.html

 

Prepare-se para o ENEM!

Inicialmente, em 1998, quando foi criado, o ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio tinha como objetivo avaliar a qualidade do ensino médio no país . Desde então, vem apresentando, nos últimos anos, um aumento expressivo no número de inscritos. Instituições superiores vêm substituindo a tradicional prova do vestibular pela prova do ENEM. A partir de 2012, todas as Universidades Federais aderiram ao Exame, sendo hoje a principal forma de acesso ao ensino superior.

Então, você está preparado? Saiba que a edição do ENEM 2016, em relação ao ano passado, registrou um aumento de 9,4% no número de inscrições. São mais de 9 milhões de inscritos, o que mostra uma concorrência acirrada !

Outra novidade, para este ano, é o lançamento da plataforma “Hora do ENEM”, programa diário, com 30 minutos de duração, produzido pelo Ministério da Educação – MEC, que disponibiliza vídeos e material online gratuito. Lá, você encontra: questões de provas anteriores, resolvidas e comentadas por professores , videoaulas , programas de TV veiculado pela TV Escola e boletim com notícias referentes ao exame. É uma boa opção de estudo, acesse   http://horadoenem.mec.gov.br. . Fique “ligado”!

Conheça , também ,  o aplicativo do ENEM , criado pelo Inep – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, juntamente com o MEC. Está sendo de grande valia para todos que estão se preparando para o exame.

As questões das provas do ENEM trazem “pegadinha interdisciplinar”, que diz respeito à interdisciplinaridade e transversalidade referentes aos conteúdos de todas as disciplinas que são estudadas no ensino médio. Há uma mescla dos assuntos presente em uma mesma questão, isso requer uma leitura e análise apurada do texto.

A interdisciplinaridade presente nas questões “cobra” do estudante um olhar mais refinado sobre a relação existente entre os temas diversos, bem como, maior atenção para responder as perguntas. Atente para o fato de que o exame busca avaliar o conhecimento geral do candidato.

São cobrados os conteúdos das disciplinas que compõem as quatro áreas de conhecimentos. Neste texto, particularmente, vamos falar sobre a área de Ciências Humanas e suas Tecnologias. Serão,no total , 45 questões das disciplinas desta área (história, geografia, filosofia e sociologia). Sugestão: leia  o edital do exame, nele há informações  sobre as habilidades que serão cobradas e os conteúdos que poderão estar presentes nas  provas.

Dica: nas provas de Ciências Humanas, você vai encontrar muita leitura de texto, comparação entre textos; relação entre imagens e textos; análise de imagens(fotos, charges e obras de arte). O que não pode ser deixado de lado : temas da atualidade, problemas do mundo contemporâneo. Há uma recorrência, nas questões dos exames, dos temas: Brasil Império e República; Era Vargas; questões indígenas; conflitos sociais; ditadura militar no Brasil; cartografia; exploração de recursos naturais, cidadania, questões de gênero , movimentos sociais, movimentos operários, História do Brasil, urbanização,impactos ambientais,direitos humanos, etc.

Para auxiliar seus estudos, fica o convite: acesse : http://ambiente.educacao.ba.gov.br/ , lá você encontrará, mais de 3.500 conteúdos digitais sobre vários formatos e conteúdos diversos; entre no canal do EMITEC, assista às aulas referentes às disciplinas da área de Ciências Humanas; veja também os programas da TV Anísio Teixeira e dê uma lida nos textos interdisciplinares postados no Blog do Professor WEB e da Professora Online.

Até o próximo!

Ana Rita Esteves Medrado

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia.

Radiola PW: Sobradinho

Oi! Como você está? Tudo bem? Hoje, a Radiola PW indica a música Sobradinho, composta por Sá e Guarabyra. A canção foi lançada pela dupla em 1977, no reconhecido disco Pirão de Peixe com Pimenta e é uma das letras mais emblemáticas do nosso cancioneiro.

A música é um protesto feito pelos autores para relatar o drama vivido pelos sertanejos durante a construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, em 1973. A obra foi capitaneada pela CHESF (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco) e durou seis anos para ser concluída. De acordo com o site da companhia, o início da operação da usina se deu em novembro de 1979.

Sá (direita) e Guarabyra (esquerda) durante apresentação no programa Viola, Minha Viola, da TV Cultura. Imagem: captura de tela feita em 12 de junho de 2016

Fig. 1: Sá (direita) e Guarabyra (esquerda) durante apresentação no programa Viola, Minha Viola, da TV Cultura. Imagem: captura de tela feita em 12 de junho de 2016

É impossível não associar o contexto de Sobradinho (música e cidade) ao da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em 2011. Certamente, o debate acerca dos impactos ambientais causados pelo projeto, bem como a reviravolta e a instabilidade que acompanharam a vida dos moradores diretamente atingidos pelo empreendimento, se repetiu. Para ampliar a discussão, vale a pena ler a cartilha Conheça a UHE Belo Monte, publicada pela Norte Energia, empresa responsável pela implantação, construção e operação da usina. Nesse sentido, é importante também acessar o site do projeto Os Impactos de Belo Monte, idealizado pelo fotojornalista Lalo de Almeida.

A canção do carioca Sá e do baiano Guarabyra conta a história sob a ótica do sertanejo que morava na região. O eu lírico diz: O homem chega e já desfaz a natureza/Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar. Esses versos revelam a forma como os moradores foram surpreendidos e tirados do seu lugar sem nenhum tipo de planejamento, com a promessa de que tudo ia mudar. O sertanejo temia a ação da natureza (O São Francisco lá pra cima da Bahia/Diz que dia menos dia/Vai subir bem devagar”) e não duvidava da profecia atribuída a Antônio Conselheiro (E passo a passo vai cumprindo a profecia/Do beato que dizia que o sertão ia alagar/O sertão vai virar mar/Dá no coração/O medo que algum dia o mar também vire sertão”).

Para deixar ainda mais evidente que os moradores foram expulsos da região onde viviam para que a barragem fosse construída, os compositores, num rico jogo semântico, expressaram: Adeus, Remanso, Casa Nova, Sento-Sé/Adeus, Pilão Arcado/Vem o rio te engolir”. O “adeus” significa tanto despedida quanto saudade. “Adeus” porque as cidades estavam indo embora, “engolidas pelo rio”; e “adeus” porque o próprio morador não poderia ficar naquelas regiões, uma vez que tinha sido convidado a se retirar. Para ele, sobrou acreditar no ditado popular que diz: O futuro a Deus pertence”. Irônico, não é? Vale ressaltar que todas as cidades citadas nos versos, assim como Sobradinho, ficam no extremo norte da Bahia.

No desfecho, um dos versos mais fortes da música: Debaixo d’água lá se vai a vida inteira”. Fica difícil até de comentar. A empatia é a responsável por isso. Nas linhas seguintes, os compositores falam de “gaiola” e “salto”. Gaiola é uma embarcação; salto, o mesmo que “queda d’água”. Assim, os versos ganham mais sentido ainda: Debaixo d’água lá se vai a vida inteira/Por cima da cachoeira o gaiola vai subir/Vai ter barragem no salto do Sobradinho/E o povo vai-se embora com medo de se afogar”. A música tem temática triste, que inunda o nosso coração, mas vale muito a pena ouvir e refletir sobre ela. Faça isso.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Ecologia, Produção e Consumo: Como Conciliar Essas Ideias?

A satisfação das necessidades humanas é o objetivo máximo do desenvolvimento… O desenvolvimento sustentável requer que as necessidades básicas de todos sejam atendidas e que sejam estendidas a todos a oportunidade de satisfazer suas aspirações por uma vida melhor.” (CMMD, 1987, p. 43-4).

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Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Desarrollo_sostenible.svg

A ideia de desenvolvimento sustentável atualmente é usada em vários sentidos. Do ponto de vista das inter-relações entre o sistema econômico e o meio ambiente, o enfoque inicial foi essencialmente biocêntrico – era a natureza que devia ser preservada. Em contraste a essa ideia, focaliza-se o funcionamento do sistema econômico. Mas a economia é vista como dependendo fundamentalmente de recursos naturais fornecidos pelo ecossistema global, bem como da capacidade deste de suportar a agressão promovida pela humanidade e de assimilar os resíduos, a poluição resultantes dos processos de produção e de consumo. A questão central é: pode se sustentar o atual padrão de funcionamento do sistema econômico?

Esse “todos”, faz referência à nós seres humanos – não só os da atual geração como também os que virão em um futuro, que deve se estender por muito tempo. O bem-estar presente e do futuro da humanidade depende de um manejo adequado da natureza. Esta é a essência da sustentabilidade.

Então, o que é, na verdade, o desenvolvimento sustentável? O que se deseja sustentar? Uma natureza intocada? Defender tal coisa seria totalmente irrealista.

Como fazer isso e ao mesmo tempo assegurar a satisfação de aspirações e desejos humanos? Até que ponto, num prazo muito longo, se pode almejar o desenvolvimento sem que se esgotem recursos naturais básicos e sem que haja mudanças drásticas na atual estabilidade longe do equilíbrio do ecossistema global?

Os economistas consideram o funcionamento do sistema econômico focalizando dois processos básicos: o processo de produção e o de consumo, tendo por base a essência entrópica do funcionamento da economia, abrindo caminho para análises construídas sobre base mais realista das inter-relações entre o sistema econômico e o meio ambiente, que são centrais para avaliações bem fundamentadas da sustentabilidade e do desenvolvimento, pois traz para a análise econômica o conceito de Entropia, como peça fundamental na formulação da estrutura conceitual da economia ecológica.

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Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Objetivos_de_Desenvolvimento_do_Mil%C3%AAnio

A discussão do desenvolvimento sustentável que pode ser derivada também acerca do processo produtivo. Isso porque análises do processo produtivo levam, não só à teoria neoclássica do capital, como ao conceito de substitutabilidade entre fatores de produção que está na essência da avaliação da sustentabilidade do desenvolvimento feitas pela corrente dominante da economia.

Referências:

Ayres, Robert U. Cowboys, cornucopians and long-run stability. Ecological Economics , v. 8, p. 189-207, 1993.

Boulding, Kenneth E. Equilibrium, entropy, development and autopoiesis: towards a disequilibrium economics. Eastern Economic Journal , v. VI, n. 3-4, p. 178- 188, ago./out. 1980.

Cohen, Avi; Harcourt, G. C. Whatever happened do the Cambridge capital theory controversies? Journal of Economic Perspectives , v. 17, n. 1, p. 199-214, Winter 2003.

Estatística Indígena

 

Olá, pessoal!

No Brasil, até a década de 80, acreditava-se que os povos indígenas estavam a caminho da extinção. Segundo o CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informação, a população indígena estimada era de, apenas, 204.000 habitantes, quando a população brasileira era de, aproximadamente, 133 milhões de habitantes. Ou seja, a população indígena brasileira era de aproximadamente 1,53% do total da população. O País tinha cerca de 662 terras indígenas. Nas décadas seguintes, no entanto, essa tendência se reverteu, houve rápido crescimento populacional verificado na maioria dos grupos, todavia, o Censo 2010 revelou algo preocupante. Acompanhe os dados.

De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2010, a população brasileira era de 190.755.799, dos quais apenas 0,47% ou 896,9 mil eram indígenas, morando tanto em terras indígenas (63,8%) quanto em cidades (36,2%). Do total, 817,9 mil se autodeclararam índios no quesito cor ou raça e 78,9 mil, embora se declarassem de outra cor ou raça, principalmente parda (67,5%), se consideraram indígenas pelas tradições e costumes. Se na década de 80 a situação era preocupante, o que dizer a de agora?

O maior contingente indígena está na região Norte: 342.836 indígenas (38,2%) e o menor, na Sul: 78.773 (8,8%). Considerando a população indígena residente fora das terras indígenas, a maior concentração está no Nordeste: 126.597 (33,4%).

“Ainda, segundo o Censo 2010, o País tem 505 terras indígenas, que representam 12,5% do território brasileiro (106,7 milhões de hectares), onde residem 517,4 mil indígenas (57,7%), dos quais 251,9 mil (48,7%) estão na região Norte. Apenas seis terras têm mais de 10 mil indígenas; 107 terras têm entre  mil e 10 mil; 291 terras têm entre 100 e 1000 e em 83 terras residem até 100 indígenas. A terra com maior população indígena é Yanomami, no Amazonas e em Roraima, com 25,7 mil indígenas.”.

Segundo a Funai “Foi observado equilíbrio entre os sexos para o total de indígenas. Para cada 100,5 homens, há 100 mulheres. Há mais mulheres nas áreas urbanas e mais homens, nas rurais. Percebe-se, porém, um declínio no predomínio masculino nas áreas rurais entre 1991 e 2010, especialmente no Sudeste (de 117,5 para 106,9), Norte (de 113,2 para 108,1) e Centro-Oeste (de 107,4 para 103,4).”.

Espero que esse texto tenha lhe dado uma dimensão dos povos indígenas do nosso país.

Os professores poderão utilizar esse texto na aula de estatística, estimativa, porcentagem, regra de três simples e muito outros assuntos de diversas disciplinas.

Um abraço.

REFERÊNCIAS

PORTAL BRASIL. Disponível em: http://www.brasil.gov.br/governo/2012/08/brasil-tem-quase-900-mil-indios-de-305-etnias-e-274-idiomas. Acesso em 06/04/2016.

IBGE. Disponível em: http://www.censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.php?dados=8. Acesso em 06/04/2010.

FUNAI – Fundação Nacional do Índio. Disponível em: http://www.funai.gov.br/index.php/educacao-escolar-indigena. Acesso em 06/04/2016.

CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informação. (1985). Considerações preliminares acerca do compromisso firmado entre o CVRD e a Comunidade Indígena Parkatêjê (Gavião do Pará): Parecer relativo à viagem de campo realizada entre 2 e 14.11.84, 1984g. In: CENTRO Ecumênico de Documentação e Informação. Povos Indígenas no Brasil? V. 8, II, São Paulo, CEDI.

OUTRAS HISTÓRIA. Disponível em: http://mekstein.blogspot.com.br/2010/02/pequeno-dicionario-de-palavras.html. Acesso em 06/04/2016.

Cine PW – Apocalypto

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Olá, cinéfilos!

O blog dedica inteiramente o mês de abril para trazer e discutir a história e cultura dos povos indígenas. Com isso, traremos produções que tratam desse universo, com intuito de enriquecer o nosso conhecimento e observar a riqueza cultural das inúmeras etnias que existiam e as que ainda existem e resistem.

Para a primeira semana de abril, o Cine PW indicará o filme “Apocalypto”, dirigido por Mel Gibson e lançado em 2006. Essa super produção retrata a história de Jaguar Paw, um caçador que vive numa aldeia na América Central com sua esposa e filho. Durante a história, o personagem encontra com outras etnias, sendo uma delas, a civilização Maia. Jaguar então é capturado pelos maias e subjugado à condição de ser ofertado aos deuses.

Para além da história de Jaguar Paw, podemos perceber a preocupação da obra fílmica em reproduzir a grandeza do império Maia. Os cenários são grandiosos e conseguem retratar mais fielmente essa complexa nação do período pré-colombiano. O dialeto maia foi preservado no filme, trazendo mais fidelidade à obra e uma sensação de maior proximidade com aquele universo de outrora.

Sobre outras óticas, podemos perceber com “Apocalypto” a enorme diversidade étnica que existia antes da invasão espanhola. Cabe também refletir sobre a relação de coexistência entre esses povos e como estes, posteriormente, se modificaram com a chegada dos europeus. Por fim, analisar e comparar o império Maia com sua sólida estrutura social e seu nítido avanço tecnológico da época com outras etnias que ainda viviam dentro de sistemas primitivos.

“Apocalypto” é um bom filme para ilustrar esse momento da história. Até para percebermos que, antes dos europeus cruzarem o atlântico com seus navios cheios de ganância e tragédias, aqui já se encontravam, também, muitos problemas.

Vitor Moreira

Colaborador da Rede Anísio Teixeira