Diversidade Ideológica e Educação Escolar

A palavra diversidade na versão dicionarizada de Abbaganano (2007), é tratada como alteridade, diferença ou dessemelhança. Ainda segundo esse autor, ideologia é entendida como um “conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais e políticos que caracterizam o pensamento de um indivíduo, grupo, movimento, época, sociedade”.

Como se pode notar, compreender a diversidade ideológica é conceber que ideias, valores e crenças que circulam na sociedade são diferentes e até radicalmente opostas. Cada uma com a sua verdade, vai construindo o corpo de valores humanos com suas contradições e conflitos.

Ao buscar despertar o interesse da comunidade escolar, este texto pretende provocar reflexões a respeito das posições políticas e ideológicas que, a priori, são denominadas de direita, de esquerda ou de centro, compreendendo o tema como relevante a ser pesquisado e debatido no referido espaço.

Para autores como Tarouco e Madeira (2013) e Arraes (2004), os termos direitistas e esquerdistas surgiram durante a Revolução Francesa, quando no parlamento, os gerundinos representantes da alta burguesia passaram a sentar à direita do presidente da assembleia, enquanto que os jacobinos, da pequena burguesia, se posicionavam à esquerda. Entre os dois extremos, havia o grupo de centro conhecido como pântanos que priorizavam os interesses financeiros. Os lugares escolhidos tinham relações estreitas com os objetivos de cada grupo.

As noções políticas de direita e esquerda não se fazem no espaço da neutralidade. Por estarem vinculadas à interesses como: religião, dinheiro, status e outras formas de obtenção e manutenção de poder, não raro, despertam defesas acaloradas e até mesmo apaixonadas. Não obstante, o embate entre diferentes grupos podem resultar em debates multiculturais em torno de questões relacionadas à diversidade de religiões, gêneros, classes sociais, orientações sexuais, condições socioeconômicas, etnicorraciais, corporais dentre outras.

Entretanto, independentemente do posicionamento de cada pessoa (de direita, de centro ou de esquerda), é imprescindível ter consciência das origens e implicações de cada escolha. A não ser que em alguma época, os humanos tenham desenvolvido pensamentos iguais, a pluralidade de ideias é uma realidade que sempre existiu. Todavia, o seu reconhecimento é por demais conflituoso, razão pela qual, dificilmente foi respeitada. Apesar dos discursos cada vez mais inflamados e, por vezes acusatórios entre esses grupos no Brasil contemporâneo, direitas e esquerdas envolvem uma multiplicidade de interesses. Esses posicionamentos são tão complexos, que não raro, fica até difícil perceber as fronteiras entre um grupo e outro.

Neste sentido, cabe situar o papel da educação escolar como um espaço organizador da cultura de cada sociedade, devendo planejar ações de pesquisas, reflexões, debates e produções de diversas atividades, visando descortinar um universo de saberes que historicamente se conservam adormecidos. Afinal, provocar questionamentos é lidar com interesses e oposições. Está longe de ocorrer harmonicamente. Quando o direito de um começa, o do outro acaba. Quem nasceu na esfera dos privilégios não precisa lutar por direitos, e claro, não aceitará perdê-los, nem mesmo dividi-los tranquilamente.

Uma das formas de provocar uma discussão na escola, seria pesquisar sobre as funções de profissionais, como vereadores, deputados federais, estaduais e dos senadores brasileiros, identificando nas bancadas político-partidárias das quais eles fazem parte: os seus principais pontos de interesses; os projetos desenvolvem; os grupos sociais que defendem; os interesses desses grupos e como foram financiadas as suas campanhas. Enfim, o que fazem e a quem de fato servem na fragilizada democracia brasileira?

Afinal, se direitistas são conservadores, quais as causas que realmente estão conservando? Se os esquerdistas são questionadores, radicais e vândalos (no sentido pejorativo do termo), o que estão vandalizando? Que questões estão radicalizando? Questionar a enorme concentração de poder por parte de poucos privilegiados é um problema social ou pode ser um dos caminhos para a redução das desigualdades sociais?

Elzeni Bahia

Professora da Rede Estadual de Ensino da Bahia

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO Nicola. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes. São Paulo, 2007.

ARRAES, Roosevelt Quais as diferenças entre a direita e a esquerda?

http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/mergulhando-na-politica/quais-as-diferencas-entre-a-direita-e-a-esquerda/

Bancada dos Partidos. Disponível em: www.camara.leg.br/Internet/Deputado/bancada.asp. Acessado em: 04/06/2017.

As bancadas da Cãmara dos Deputados. http://apublica.org/wp-content/uploads/2016/02/Bancadas.html

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa. Positivo. Curitiba, 2004.

História de Tudo. Disponível em: http://www.historiadetudo.com/revolucao-francesa. Acessado em: 05/06/2017.

IZIQUE. Cláudia. O perfil partidário brasileiro. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2002/05/01/o-perfil-partidario-brasileiro/. Acessado em: 03/06/2017.

TAROUCO, Gabriela da Silva e MADEIRA Rafael Machado. Partidos, Programas e o Debate sobre Esquerda e Direita no Brasil Revista de Sociologia e Política V. 21, Nº 45: 149-165 Mar. 2013.