Cultura Indígena Projetada

Uma sala de projeção, escura. Sinal de que uma sessão de cinema está prestes a começar. Contudo, não se trata de uma sessão comum, bem que poderia ser. Em poucos instantes, o público vai se deparar com produções audiovisuais realizadas e protagonizadas por povos indígenas. A situação narrada pode até parecer ficção, principalmente quando a gente pensa na realidade desses povos no nosso país, mas não é. A cena descrita aconteceu durante o Cine Kurumin, em Salvador, no último dia 13, quando o Palacete das Artes recebeu parte da programação do evento.

Fig. 1: cena de Caboclo Marcellino durante o Cine Kurumin. Imagem: Peterson Azevedo

Tendo a frase “Da minha aldeia vejo o mundo” como uma forma de provocar, a mostra chegou à 6ª edição com status de festival, promovendo bate-papos após as exibições dos filmes e rodas de conversa. O jornalista Sérgio Melo, 37 anos, que trabalha com produção multimídia e contribui com o Cine Kurumin desde que o projeto foi pensado, destacou aspectos importantes dessa modificação: “Não foi só conceitual, mas uma mudança mesmo de procedimentos. Até a edição passada, a gente era uma mostra. Transformando-se em festival, a gente traz, para além das exibições dos filmes, a participação maior dos realizadores. Em toda sessão, a gente tem um bate-papo e rodas de conversas, que estão acontecendo diariamente também. Além disso, tem a mostra competitiva, na qual os melhores filmes que foram exibidos serão premiados no final”.

Fig. 2: Sérgio Melo é um dos idealizadores do Cine Kurumin. Foto: Peterson Azevedo

De acordo com Sérgio, os indígenas participam de forma efetiva da organização do festival. “Existe essa preocupação para que os próprios indígenas sejam, não somente vistos no cinema, mas que também tenham a participação nesses processos autônomos de seleção dos filmes, pra que isso seja mais democrático possível”. Na verdade, foi com esse espírito que o projeto nasceu. “Surgiu com um trabalho que era desenvolvido com as aldeias indígenas, especificamente no Nordeste do Brasil, com produção audiovisual e inserção dos indígenas no mundo das novas tecnologias. Nesse trabalho, a gente fazia exibições de filmes. Essas exibições chamavam muito atenção das comunidades e a gente começou a perceber que, para além de exibir filmes, existia uma produção que estava sendo feita por essas comunidades, que também precisava ganhar esse espaço, para que fossem vistas por ouras pessoas”, analisa.

Fig. 3: Cecília Pataxó: “A iniciativa do Cine Kurumin é muito interessante”. Foto: Raulino Júnior

O espaço dado tem sido considerado relevante para os integrantes dos povos indígenas. Cecília Pataxó, 21 anos, estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia, avalia de forma positiva o Cine Kurumin. “Eu acho muito interessante, porque a gente acaba retomando esses espaços, não só na área da educação, da saúde, mas também na área da comunicação, trazendo esse protagonismo de como são as aldeias, como a gente vive, como é nossa luta. Mostra, para as pessoas que não são indígenas, a dificuldade que a gente passa”.

Rede Anísio Teixeira no Cine Kurumin

O docudrama Caboclo Marcellino é resultado da formação em Interpretação Cênica e Produção de Vídeos, realizada pela Rede Anísio Teixeira em parceria com estudantes do Colégio Estadual Indígena Tupinambá de Olivença e com a comunidade da Aldeia Tupinambá. O filme foi feito com base no livro escrito pelo professor Katu Tupinambá. No vídeo a seguir, Nildson B. Veloso, professor e diretor do curta, fala sobre como foi o processo de produção, a participação dos indígenas nisso e a importância de contar a história de Marcellino.

O professor Geraldo Seara, diretor de fotografia da obra, destaca o caráter pedagógico dela e fala sobre como os educadores podem utilizá-la na sala de aula:

Eu não conhecia muito o Caboclo Marcellino. Ouvia a história dele, assim, por alto. Diziam que era um indígena arruaceiro, que fazia, acontecia, matava muita gente lá pelos lados de Olivença. Ver essa outra versão sobre ele é esclarecedor, necessário até”, avaliou Larissa Almeida, 29 anos, professora de História. Se você quiser assistir ao docudrama, acesse este link: ambiente.educacao.ba.gov.br.

Fig. 4: Larissa Almeida: “Essa outra versão sobre o Caboclo Marcellino é necessária”. Foto: Peterson Azevedo

A segunda parte do Cine Kurumin vai acontecer de 16 a 20 de agosto, na Aldeia Tupinambá, em Olivença, distrito de Ilhéus. Para saber mais informações, entre neste site: www.cinekurumin.com. Aproveite!

Texto/Produção/Entrevista: Raulino Júnior

Imagens: Peterson Azevedo

Operadores de Áudio: Geraldo Seara e Harrison Araújo

Edição: Thiago Vinicius

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Mostra de Cinema Indígena Chega a Salvador

Fig. 1: Ilustração oficial do Cine Kurumin. Imagem: divulgação

Fig. 1: ilustração oficial do Cine Kurumin. Imagem: divulgação

A 5ª edição do Cine Kurumin chega pela primeira vez a Salvador, abrindo o calendário audiovisual de 2016 na Bahia. De hoje até 6 de março, o Palacete das Artes será palco da exibição de 32 produções de temática indígena, entre curtas, médias e longa-metragens – a maior parte inédita no circuito comercial. As tradicionais mostras a céu aberto tiveram início nas aldeias Tumbalalá, em Abaré, de 26 a 28 de fevereiro, e seguirá para Kiriri, em Banzaê, de 1º a 3 de abril. O projeto conta com apoio financeiro do Fundo de Cultura da Bahia, mecanismo de fomento gerido pelas secretarias de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) e da Fazenda (Sefaz), através do edital Agitação Cultural: Dinamização de Espaços Culturais.

Treze convidados compõem a programação de debates em Salvador. Esta edição também traz à capital baiana o grande xamã e porta-voz dos Yanomami, Davi Kopenawa. Ele lançou recentemente a obra A queda do céu, em parceria com o etnólogo Bruce Albert, que foi celebrada pelos principais intelectuais do país. Neste quinto ano da mostra, ela dá novos passos e chega à cidade, onde queremos povoar o mundo não-indígena com o olhar, os sons e imaginários da floresta, acreditando que olhar para o mundo do outro é uma forma de olhar para o nosso mundo”, afirma a curadora do projeto e antropóloga, Thaís Brito. Além de ser uma janela para as produções indígenas, segundo ela, as rodas de conversas do Cine Kurumin com os realizadores e líderes são uma abertura para o pensamento ameríndio. Um dos objetivos do projeto é o de formar público para o cinema indígena a partir da própria referência, ampliando a rede de distribuição desses conteúdos”, diz a curadora. O nome do projeto, Cine Kurumin, é, inclusive, inspirado nas crianças, que sempre encheram as sessões nas aldeias. 

Vincent Carelli, idealizador do Vídeo nas Aldeias, é um dos convidados do 5º Cine Kurumin e participa da roda de conversa Já me transformei em imagem – Perspectivas do cinema indígena, que será realizada hoje, no Palacete das Artes, às 15h30, com Takumã Kuikuro, Isael Maxacali, Patrícia Ferreira, Zezinho Yube Huni Kuin e Taquari Pataxó. Já me transformei em imagem é também o tema da mostra na capital baiana e o título do filme da etnia Huni Kuin, no Acre, que abre a programação do Cine Kurumin em Salvador. O filme é de Zezinho Yube e representou o Brasil no Berlim International Film Festival, o Berlinale, um dos festivais de cinema mais importantes do mundo, no ano passado.

A mostra no Palacete das Artes terá produções inéditas em Salvador e no Brasil. ETE Londres – Londres como uma aldeia, de Takumã Kuikuru, foi exibido apenas no Parque Indígena do Xingu, e terá sessão em Londres, no fim de fevereiro. A obra compõe a programação do sábado (5/3), que terá ainda o filme No caminho como Mário, vencedor do prêmio de Melhor Curta no Cachoeira Doc 2015, e é inédito em Salvador. Ainda no sábado também se destacam trabalhos de cineastas não-indígenas, lançados em 2015. O Retorno da Terra, de Daniela Alarcon, e Retomada, de Leon Sampaio, expõem de formas distintas os conflitos vividos pelos Tupinambás na Bahia. Já o documentário Índios no Poder, de Rodrigo Siqueira, aborda, a partir da vida de Mário Juruna, os ataques aos direitos constitucionais dos indígenas.

Confira a programação completa dos filmes, conferência, rituais e rodas de conversas.

Serviço:

5º Cine Kurumin – Mostra de Cinema Indígena

Salvador – Palacete das Artes
Salvador | 4 a 6 de março de 2016
Local: Palacete das Artes – Rodin Bahia. Rua da Graça, 289 – Graça
Abertura: 15h

Aldeia Kiriri
Banzaê | 1º a 3 de abril de 2016
Abertura: 19h

Realização: Espalha Semente
Informações: cinekurumin@gmail.com

 

Este texto foi adaptado do site da Secretaria de Cultura da Bahia.