A Ponte Imperial sobre o Rio Paraguaçu

Olá, pessoal! Tudo bem?

Hoje, nós vamos falar sobre uma importante propriedade muito utilizada na engenharia, a rigidez dos triângulos, denominada ‘treliças’. Para contextualizarmos esse assunto, vamos analisar as treliças da Ponte do Imperador sobre o Rio Paraguaçu, que liga duas importantes cidades baianas: Cachoeira e São Félix, distantes 120km e 110km de Salvador, respectivamente.

O Rio Paraguaçu, com 614 km de extensão, é totalmente baiano! Sua nascente encontra-se na Chapada Diamantina, no Morro do Ouro, na Serra do Cocal, em Barra do Estiva – Bahia e deságua na Baía de “Todos os Santos”. O nome Paraguaçu é de origem tupi e significa ‘rio grande’. Estima-se que 5 milhões de pessoas recebem suas águas. O Rio separa duas importantes cidades: Cachoeira (395km2 de área) e São Félix ( 99km2), com 35.013 e 15.091 habitantes, respectivamente, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 1º de julho de 2016.

No século 19, o governo imperial, sob o comando de Dom Pedro II, mandou construir uma ponte num estaleiro da Inglaterra, como presente de reconhecimento pela bravura do povo baiano no episódio de expulsão dos portugueses da Bahia. Com 365m de extensão, foi a mais importante ligação por terra entre as duas lindíssimas cidades e foi inaugurada em julho de 1885. É chamada de Ponte de Ferro ou Ponte Imperial Dom Pedro II e se constitui num cartão postal para o Recôncavo baiano. Pode ter sido um dos mais importantes empreendimentos no campo da engenharia, na época, com tecnologia inglesa, o que demonstra o contexto da época, da revolução industrial com uso do ferro. Ela veio desmontada da Inglaterra e foi cravejada e montada no local!

Ao observarmos objetos, construções e outras estruturas é comum verificarmos a presença de triângulos. Eles são muito utilizados na engenharia, na carpintaria, em estruturas de portões, grades, torres, etc. Como é o caso da Ponte Imperial (figura abaixo). Observe que sua estrutura é composta por vários triângulos, denominado treliças, cuja propriedade nenhum outro polígono possui e permite que a ponte fique firme, rígida e seja capaz de aguentar muito peso.

Figura 1- Ponte Cachoeira

http://olhokaolhodopombo.blogspot.com.br/2011_11_01_archive.html

A utilização dos triângulos na construção de diversas estruturas está relacionado a sua rigidez, isto é, não é possível alterar os ângulos internos de um triângulo mantendo as medidas dos seus lados fixas, o que não acontece com os demais polígonos. Uma estrutura formada por triângulos não se deforma.

Se você construir, por exemplo, um retângulo com palitos, ele se deformará facilmente, se confundindo com um losango ou paralelogramo ou até se desfazendo por completo. Porém, se colocar um palito ligando dois vértices não adjacentes, formando assim uma treliça, a estrutura ficará rígida, indeformável.

Figura 2

As estruturas flexíveis acima podem, porém, tornarem-se rígidas, para tanto, basta ligar dois vértices, não consecutivos ou não adjacentes. Veja:

Figura 3

Existem até concursos de pontes feitas de palito de picolé e os vencedores, em sua grande maioria, utilizam as treliças para a construção de seus protótipos. Veja aqui!

Além das pontes de treliças, existem pontes suspensas (ou pênsil), pontes estaiadas, pontes cantiléver, conforme mostradas nas figuras abaixo, respectivamente:

Pesquise e identifique as características de cada uma delas. Pesquise também, por estruturas na sua cidade, que utilizem os mesmos princípios físicos e propriedades matemáticas.

Um abraço e até a próxima, se assim Deus permitir.

Samuel Oliveira de Jesus

Professor de Matemática da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

REFERÊNCIAS

NEVES, Evandro Marques das. Rigidez dos triângulos. Disponível em: <http://bit.profmat-sbm.org.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/1509/2011_01319_EVANDRO_MARQUES_DAS_NEVES.pdf?sequence=1>. Acesso em 06/04/2017.

WIKIPÉDIA. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Treli%C3%A7a>. Acesso em 10/04/2017.

___________. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Cachoeira_%28Bahia%29>. Acesso em 10/04/2017.

MENDES, Sônia Regina Prado. Estudo dos Triângulos. Disponível em: <https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/31627/000783710.pdf?sequence=1>. Acesso em 10/04/2017.

GSHOW. Ponte que liga Cachoeira a São félix é cartão-postal do Recôncavo. Disponível em: <http://gshow.globo.com/Rede-Bahia/Aprovado/noticia/2016/10/ponte-que-liga-cachoeira-sao-felix-e-cartao-postal-do-reconcavo.html>. Acesso em 10/04/2017.

Imagens CC BY:

WIKIPEDIA. Acessadas em 11/04/2017. Disponíveis em:

VÍDEO. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=GELIA-eRSOw&t=1115s>. Acesso em 10/04/2017.

Culto a Nossa Senhora da Boa Morte, Resistência e Luta do Povo Negro Contra a Escravidão

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Foto: Rita Barreto – Festa Nossa Senhora da Boa Morte – Cachoeira Ba

 

De que forma a fé e a devoção à Nossa Senhora da Boa Morte tem a ver com a luta e resistência do povo negro contra a escravidão na Bahia oitocentista? Para sabermos mais sobre esse assunto, é preciso viajarmos pela história, atravessando o oceano Atlântico, em direção a Portugal!

As confrarias, dentre as quais situamos as irmandades e ordens terceiras, surgem em Portugal no século XIII. Tinham por objetivo primeiro assistir a seus membros e demais pessoas não associadas em tempos difíceis da vida, segundo o professor de história João José Reis. Formada por pessoas leigas, as irmandades necessariamente deveriam buscar abrigo em uma igreja, podendo também construir uma. A partir da expansão marítima, esta forma de “agremiação” se espalhou pelo Império Ultramarino. Na Bahia, as irmandades negras se constituíram a partir da segunda metade do século XVII e podem ser compreendidas enquanto um movimento de resistência e/ou negociação dos negros e negras pela liberdade.

O culto à Nossa Senhora da Boa Morte teria se iniciado em 1660, em Lisboa, na Igreja do Colégio Jesuíta de Santo Antão. O culto propagou-se a outras cidades de Portugal, como Évora (1693) e Coimbra (1723). O professor Luis Henrique Dias Tavares informa que a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte em Cachoeira teria se originado de um grupo de mulheres que se reuniam secretamente para planejar a coleta de dinheiro destinado a alforria de escravos nas imediações do bairro da Barroquinha, em Salvador, por volta de 1820. Alguns anos depois a irmandade teria migrado para a cidade de Cachoeira. A data dessa mudança é imprecisa devido a carência de documentação.

Dentre as causas que podem explicar a transferência da irmandade de Salvador para Cachoeira é possível elencar: “a urbanização das áreas centrais e governamentais, a política higienista e a modernizante” que promoveram profundas mudanças na região da Barroquinha, segundo o estudioso Armando Alexandre Castro. Este turismólogo afirma ainda que  estas mudanças objetivavam “expulsar as comunidades negras e suas práticas que ali estavam sediadas, dada a proximidade com a sede do governo. À época, as reuniões religiosas promovidas pelos negros eram consideradas “bárbaras”, “primitivas” e não condiziam com a modernidade ambicionada”[1].

Ao chegar em Cachoeira, por volta de 1850, ao contrário de outras irmandades, a Boa Morte não buscou abrigo em uma igreja, muito menos criou estatuto a ser submetido ao poder eclesiástico. As irmãs da confraria da Nossa Senhora da Boa Morte mantêm fortes laços com o povo de santo, tendo sido as fundadoras do terreiro Zoogodô Bogum Malê Seja Undê. Apesar de não estarem submetidas a Igreja Católica, como acontece com as demais irmandades, sempre mantiveram uma relação próxima com a Igreja, inclusive com a participação de padres em seus cortejos. Na década de 1980 houve uma ruptura com a igreja Católica quando esta “sequestrou” as jóias, imagens, roupas e demais pertences de Nossa Senhora da Boa Morte, só devolvidos após decisão judicial uma década depois.

Ficaram interessados na festa da Boa Morte? Para conhecer mais sobre está experiência religiosa, que acontece todos os anos em Cachoeira, no dia 13 de agosto, é preciso se preparar com antecedência, pois a maioria dos hotéis da cidade ficam com lotação esgotada. Uma outra opção é conseguir acomodação nas casas dos moradores de lá! E então? Vamos visitar Cachoeira?

[1] Castro, Armando Alexandre Costa. de A Irmandade da Boa Morte: memória, intervenção e turistização da Festa em Cachoeira, Bahia. Ilhéus (BA): UESC, 2005.

Fontes:

Castro, Armando Alexandre Costa. de A Irmandade da Boa Morte: memória, intervenção e turistização da Festa em Cachoeira, Bahia. Ilhéus (BA): UESC, 2005

 João José Reis. A Morte é uma Festa: ritos fúnebres e revolta popular no século XIX. 2ed., Companhia das Letras, 1991

Luis Cláudio Dias. Candomblé e Irmandade da Boa Morte. Cachoeira: Fundação Maria Cruz, 1998.

Luís Henrique Dias Tavares. História da Bahia. Editoras Unesp e Edufba, 11ª edição, 2008

NASCIMENTO, Luis Cláudio Dias do;  ISIDORO, Cristiana. A Boa Morte em Cachoeira – contribuição para o estudo etnológico. Cachoeira: Cepasc, 1988.

Telma Gonçalves Santos

Professora da Rede Pública Estadual da Bahia

População de Cachoeira recebe festival de cinema gratuito

População de Cachoeira recebe festival de cinema de 25 a 30 de outubro

Entre os dias 25 e 30 de outubro, Cachoeira será o grande centro da sétima arte no interior da Bahia. Neste período, a cidade sedia pela primeira vez o Panorama Internacional Coisa de Cinema, em sua oitava edição. Com muitos filmes inéditos na Bahia, a programação apresena 30 produções, todas exibidas gratuitamente. Alguns filmes são dirigidos por alunos da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB), onde acontece a exibição das obras, mais precisamente no Centro de Artes, Literatura e Humanidades (CAHL).

Durante o festival, o público poderá conhecer a produção de estudantes de cinema da UFRB, que têm realizado curtas-metragens continuamente, conquistando reconhecimento e premiações. É o caso de Leon Sampaio, que atualmente escreve o roteiro do seu primeiro longa-metragem. Ele é diretor de “O cadeado”, a ser exibido no dia 26 (18h30), que foi premiado no Festival Internacional de Curtas de São Paulo e exibido na Mostra de Tiradentes.  No filme, ele mostra as reações de alunos e professores diante de uma escola sempre fechada, na qual sempre há um cadeado no portão.

Na mesma sessão está “Rua dos Bobos”, de Ohana Almeida, outra prata da casa, que apresenta uma mulher em processo de desapego das convenções sobre espaço e objetos. O trio de estudantes da UFRB se completa com “Entre Passos”, curta de Elen Linth sobre as dores da infância, que será exibido no dia 27, às 18h10. Nas duas sessões com curtas baianos (seis filmes em cada), os diretores das produções exibidas estarão presentes e conversarão com o público ao final da sequência de filmes.

Para a professora da UFRB e coordenadora do CineClube Mário Gusmão (apoiador do Panorama), Cyntia Nogueira, um dos grandes ganhos desta parceria é a oportunidade de colocar realizadores e público frente a frente. Na sua avaliação, esse encontro agrega conhecimento não só para os estudantes de cinema como também ao público em geral, que pode entender melhor as obras e seus processos de produção.

Além de apresentar as produções dos cineastas em formação na UFRB, o Panorama traz também filmes já consagrados, como os longas-metragens “A febre do rato”, de Cláudio Assis, e “Histórias que Só Existem Quando Lembradas”, de Julia Murat. O primeiro é o filme brasileiro indicado ao Prêmio Goya, considerado o Oscar espanhol, e tem premiações acumuladas nos festivais de Paulínia, Triunfo e no Cine Ceará. O segundo é uma das produções brasileiras mais premiadas no exterior, tendo recebido troféus nos festivais de Cinema Brasileiro de Paris, de Cartagena (Colômbia) e de Abu Dhabi (Emirados Arábes).

A população, que já tinha recebido uma mostra itinerante do Panorama em 2011, vai poder conferir também uma iniciativa inédita na trajetória do evento: a parceria com o Animage – Festival Internacional de Animação de Pernambuco. Com isso, sete animações de diversas partes do mundo, desde o Brasil à distante Estônia. Vale ressaltar que são filmes que dificilmente entrarão em circuito exibidor em Salvador ou qualquer cidade brasileira.

Aguardando o início das atividades do recém-reformado do Cine Glória, Cachoeira atualmente tem sua programação cinematográfica garantida apenas por meio da iniciativa dos cineclubes ligados à UFRB. O CineClube Mário Gusmão promove sessões semanais na Universidade e uma sessão mensal em praça pública. Por conta do curso universitário de cinema, a cidade abriga também a revista eletrônica CineCachoeira, editada pelo professor Guilherme Sarmiento, que será júri da Competitiva de Curtas Baianos no VIII Panorama Internacional Coisa de Cinema.

Patrocinada pela Petrobras, a 8ª edição do Panorama conta com apoio da Secretaria de Cultura, por meio do Fundo de Cultura da Bahia; do Irdeb; da Diretoria de Audiovisual da Funceb (Dimas); do Centro de Artes Humanidades e Letras (CAHL) da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB) e do Cineclube Mário Gusmão (CAHL/UFRB).

SERVIÇO

O que: VIII Panorama Internacional Coisa de Cinema

Quando: 25 a 30 de novembro

Onde: Auditório da Universidade Federal do Recôncavo – UFRB (Praça Ariston Mascarenhas, s/n. Tel: 75 3425-2729)

Custo: gratuito

Programação completa: http://www.coisadecinema.com.br/VIII_Panorama

Fonte: http://www.cultura.ba.gov.br/2012/10/22/populacao-de-cachoeira-recebe-festival-de-cinema-de-25-a-30-de-outubro/

Sexto dia da Flica – Encerramento

O último dia da Festa Literária Internacional de Cachoeira não poderia ter começado melhor. A mesa da manhã, que recebeu os poetas baianos contemporâneos José Inácio Veira de Melo, João Vanderlei de Moraes Filho e Darlon Silva, prestou uma justa homenagem ao falecido poeta e cidadão de Cachoeira, Damário Dacruz. Quem mediou foi o editor da revista eletrônica Verbo21, Lima Trindade.
Recitando, sempre que possível, Dacruz, João Vanderlei refletiu sobre a  poesia. Ele disse que, quando começou, foi muito questionado quanto ao fato de ser ou não um poeta. “O jovem quando está começando quer romper barreiras, mas isso faz com que não seja acolhido dentro de uma tradição literária”, afirmou.

Silva, com seus 20 anos, foi o mais jovem participante da Flica. Para ele, não tem como dizer que a literatura baiana contemporânea é de vanguarda, só a posterioridade é quem vai definir. Silva foi o grande vencedor do TAL 2010 (Tempos de Arte Literária), festival promovido pela Secretaria da Educação da Bahia.

Sobre a produção de poetas bainos atuais, Melo declarou que não conhece poeta pronto, mas muitos estão produzindo e movimentando-se. Quanto  à sua poesia, ele falou: “Não quero poesia perfeita para mim, quero cheia de imperfeições e humanidades”.

A mesa vespertina foi a mais descontraída de todas da Flica. A irreverência dos escritores Reinaldo Moraes e Victor Mascarenhas trouxe à baila o tema Escrachos, Escárnios e Pornografia. Mascarenhas disse que a pornografia é um elemento da sua escrita, é a razão da história. Já Moraes explicou que nesse tipo de literatura: “as cenas de sexo não têm o objetivo de excitar o leitor, por isso não tem o perfil erótico”.

A literatura de Língua Portuguesa e as relações entre Portugal e suas antigas colônias foram os assuntos discutidos na última mesa da Flica 2011. Portugal, Cabo Verde e Angola foram representandos por João Pereira Coutinho – escritor e colunista, Germano Almeida – escritor, e Camilo Afonso – diretor do centro cultural Casa de Angola na Bahia, respectivamente.

Afonso informou que seu país, depois de ter vivido anos de luta armada para conquistar a independância, hoje está num processo de reconstrução: “Se não fosse o Brasil, não sei o que seria de Angola. O apoio dos países do Leste foi fundamental para que Angola fosse o que é hoje”.
Em Cabo Verde, o processo de independência foi diferenciado. Segundo Almeida, ela não surgiu como ideia de libertação, mas sim como estratégia de melhorar a qualidade de vida.
O escritor português questionou a política editorial de livros produzidos em Língua Portuguesa, defendendo o livre acesso entre os países da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
E assim, terminou a Primeira Festa da Literatura em Cachoeira. Clécia Queiroz fechou as apresentações no Palco Cachoeira. Para 2012, os organizadores garantiram mais uma edição e o Diretor da Fundação Pedro Calmon (FPC), Ubiratan Castro, anunciou a realização de um concurso literário no qual doze escritores selecionados se apresentarão na Flica do próximo ano.
O curador do evento, Aurélio Schommer, também informou que será produzido um material audiovisual com todas as mesas o qual será disponiblizado para a Secretaria da Educação da Bahia com o objetivo de ser distribuído nas escolas públicas baianas. Vida longa à Flica!

Arte Literária, Romances e Geografias – Quinto dia de Flica

O sábado na Flica começou com o debate sobre arte literária e grande literatura. Discutiram acerca desse tema os escritores e professores Jorge Araújo (UEFS) e Mayrant Gallo, além do poeta e romancista Carlos Barbosa. Por conta de imprevistos, Vagner Fernandes não pôde vir a Cachoeira, ficando a mediação dessa mesa sob a responsabilidade de Aurélio Schommer, curador da Festa.
Gallo, ao refletir sobre a arte da literatura, disse: “A arte literária existe, caso contrário tudo seria literatura. Quando penso num poema, desloco a linguagem comum do cotidiano para uma forma sensível”. Para esse autor, a distinção entre o conto e o romance está no fato de que o primeiro precisa ter um argumento bem definido para chegar ao efeito final; já o romance pode ser criado a partir de uma imagem que esteja destinada a uma estrutura romanesca.
A literatura para Barbosa é um “aprendizado para a vida e para a morte”. Ele informou que sua experiência com essa arte é de felicidade absoluta: “A literatura colocava, no meu colo, um universo de prazeres e delícias”.
O momento de criação, para Araújo, pode variar a depender do criador. A inspiração existe, porém “o processo de maturação da história é o que mais importa”.
A utilização das tecnologias, contrapondo-se ao livro em papel, foi o assunto da mesa vespertina. O especialista em publicações eletrônicas, Bob Stein, e o pesquisador da cibercultura, André Lemos, participaram desse debate, mediados pelo doutor em Comunicação e Semiótica, Fábio Fernandes.
À noite, foi a vez de discutir as literaturas produzidas no Brasil e em Portugal. Estavam presentes o poeta e cronista português, Pedro Mexia, e o escritor, jornalista e crítico literário baiano, Hélio Pólvora. O editor Rosel Soares foi o mediador.
Segundo Mexia, nas últimas décadas do século XX, os portugueses ignoraram a literatura realizada por brasileiros. Ele acredita que “a ficção brasileira é melhor que a portuguesa, mas o mesmo não ocorre com a poesia. Neste caso, os portugueses são melhores”.

Sobre a importância da Flica, Pólvora desejou que esse evento “vença o desafio de fazer com que o brasileiro leia mais”. O original som de Mikael Mutti e seu Percussivo Mundo Novo foi a atração do Palco Cachoeira, finalizando a programação do quinto dia da Festa Literária.

Negritude, História e Polêmicas – Quarto dia da Flica

A Festa Literária continua pelas ruas de Cachoeira. Estudantes de todas as idades participaram das diversas atividades promovidas pela Flica, no Conjunto do Carmo, no Centro Histórico.
A mesa matutina, mediada pelo diretor teatral e ex-Secretário da Cultura da Bahia Márcio Meirelles, foi emocionante. A juíza Luislinda Valois empolgou a plateia com seu discurso afirmativo e consciente da importância da luta por melhores condições para os afrodescendentes: “O negro já nasceu condenado.
Para que isso mude, ele precisa lutar com a força que tem para que os governantes melhorem a sua condição de vida. Vamos buscar o que é nosso. Esse é o nosso dever”.
O historiador Joel Rufino dos Santos considerou que, em nossa sociedade, existem muitas contradições, sendo a questão racial uma delas. Ele acredita que o sistema de cotas para negros é um avanço da democracia brasileira.
O comercial da Caixa Econômica, no qual um ator branco atuou como Machado de Assis, foi sinalizado pela escritora Ana Maria Guimarães como um exemplo de negação de todo passado histórico do negro no Brasil.
À tarde, o cientista social e escritor Nei Lopes contou como o samba carioca está presente em seus livros. Ele disse que decidiu escrever ficção porque ela  é “a forma, intelectualmente, espairecer, brincando com as informações e conhecimentos adquiridos.
Discussões acaloradas entre os debatedores e citações polêmicas acerca da existência do racismo no Brasil e da eficiência da política de reparação. Participaram: Nei Lopes (palestrante da tarde), Rodrigo Constantino – economista e Liv Sovik – professora doutora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O mediador foi Aurélio Schommer.
E para aliviar as tensões, o Samba de Roda do Recôncavo fechou o quarto dia da Flica, dedicado as questões étnico-raciais. O samba de roda cachoeirano de D. Dalva levou tradição e elegância para o Palco Cachoeira.

Baianidade e Histórias no terceiro dia da Flica

O sotaque baiano invadiu a Flica, na manhã dessa quinta-feira (13). Estudantes de Cachoeira e cidades vizinhas compareceram em massa. O jornalista e escritor Gustavo Falcón, a escritora e diretora teatral Adelice Souza e o comunicólogo e também escritor Márcio Matos compartilharam suas experiências literárias, mediados pelo professor universitário Sérgio Rivero.

Sobre o processo criativo, Falcón contou que o dele foi construído a partir de sua história de vida, sempre privilegiando a reflexão: “A razão é vital, já que sou um ensaísta”. Matos lembrou da importância da literatura como instrumento que oferece tanto ao leitor como ao escritor um processo de significação das coisas. Ele disse: “O fascinante da literatura é o momento em que ela deixa de ser fato e passa a ser criação e recriação”.
Já Adelice afirmou que, em seus escritos, ela, enquanto pessoa, está sempre escondida e falou ainda que seu processo de escrita é teatral, carnal e corporal, influenciado pelas técnicas do Yoga. “É uma experiência completa”, concluiu.

A cidade de Cachoeira foi a protagonista na conversa da tarde. A mineira Ana Maria Gonçalves, autora do livro Um Defeito de Cor, declarou que, ao chegar nesta cidade em 2002, para realizar as pesquisas para o livro, encontrou a Cachoeira do século XIX: “Através dos olhos da personagem, uma africana escravizada desde a infância, eu via a Cachoeira daquele período”.

Ana Maria vê a literatura como uma grande viagem interior, guardiã do passado e transformadora do presente. “Ao escrever, eu buscava resgatar minha identidade negra”, acrescentou.

À noite, foi a vez do curitibano Leandro Narloch falar de seu livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. Nele, Narloch vai na contramão da história oficial brasileira e desconstrói heróis, resgata personagens esquecidos, apresentando outras verdades.

O som de Magary, que mistura rock, reggae, funk, soul com ritmos tradicionais do Recôncavo baiano, fechou o terceiro dia da Festa Literária de Cachoeira.