Dezembro em Festa!

As festas religiosas da Bahia são um patrimônio cultural do povo baiano, que resistiu bravamente ao processo de “modernização” do Brasil, no qual a Igreja Católica e os poderes públicos tentaram, a todo custo, controlar a religiosidade popular, retirando das festas de rua tudo àquilo que chamavam de “profano”. Mas esses esforços não surtiram efeito, e os “devotos continuaram transitando sem culpa entre os rituais católicos e os afro-brasileiros”[1]. No mês de dezembro celebramos Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição da Praia e Santa Luzia.

As festas populares, em dezembro, transformam as ruas de Salvador, estas se enchem de cores e gente! O calendário festivo religioso deste mês se inicia com a festa de Santa Bárbara, no dia 4 de dezembro. O culto à “Santa do Mercado”, como também é chamada, foi introduzido pelos portugueses na Bahia no início da colonização, sendo rapidamente abraçado pelo povo negro e humilde de Salvador. Os comerciantes do Mercado de Santa Bárbara (hoje desativado, mas no século XIX funcionava na Cidade Baixa) e os bombeiros adotaram a sua figura como protetora, e desde então organizam os folguedos em sua homenagem.

Festa de Santa Bárbara

Fonte: Web TV UFBA

Os preparativos para o culto à Nossa Senhora da Conceição ocorrem quase concomitante ao de Santa Bárbara, pois é no dia 8 que a procissão, organizada pela irmandade, saem às ruas para venerar a padroeira de Portugal e, ao menos até 1930, a padroeira do Império brasileiro. O culto e a organização da festa à Nossa Senhora da Conceição acontecem na igreja que leva seu nome, pela irmandade composta por membros da elite de Salvador. A festa de Santa Luzia, ocorre na rua do Pilar, no comércio, no dia 13. Em procissão, os fiéis seguem até a Fonte do Pilar, onde acreditam que, molhando os olhos com a água da fonte, a “Padroeira dos Olhos”, como também é conhecida, pode curar problemas oculares.

Festa para Nossa Senhora da Conceição da Praia

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Fonte: Amanda Oliveira

Todas essas festas têm em comum a mistura do canto e da dança dos índios e africanos com a cultura das procissões, propriamente ibéricas. Nas palavras da pesquisadora Edilece Souza Couto, “assim formou-se uma religiosidade voltada para o fervor da devoção dos santos, a diversão e a sensualidade, na qual não se pode distinguir com precisão as fronteiras entre o profano e o sagrado.”[1]Nas ruas, o povo promove o encontro indenitário entre santos católicos e os orixás. Assim sendo, Santa Bárbara e Iansã são combinadas em uma única entidade divina, do mesmo modo que ocorre com Nossa Senhora da Conceição e Iemanjá.

Até meados do século XIX, eram sobretudo as irmandades e as associações leigas que se responsabilizavam pela organização do evento nas ruas. À igreja católica, cabia a função dos sacramentos. No final do século XIX, mas sobretudo no governo de J.J. Seabra (1912 a 1916), ideias deturpadas de civilidade, entendiam ser necessário sufocar as manifestações populares, percebidas como “imorais” pela elite local. Por isso, era preciso “evitar manifestações lúdicas, não soltar fogos, impedir a mendicância, cultos e manifestações não católicas, principalmente as manifestações de matriz africana que traziam à memória a escravidão” [2]. A igreja católica tentou, sem sucesso, reformar as irmandades, ou mesmo substituí-las, para pôr fim aos chamados “festejos profanos”.

Quer saber mais sobre as festas religiosas na Bahia? Que tal assistir o canal da TV UFBA na Web! Você pode ver vídeos sobre a festa da Conceição da Praia e a festa de Santa Bárbara.

Vale também a pena conferir a tese de doutorado da proª da UFBA Edilece Souza Couto, intitulada “Tempo de Festas: Homenagens a Santa Bárbara, N. S. da Conceição e Sant’Ana em Salvador (1860-1940).

[1]Edilece Souza Couto. Tempos de festa: Homenagens a Santa Bárbara, N. S. da Conceição  e Sant`Ana em Salvador (1860-1940). Tese de Doutorado, 2004, p. 13. http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/103165/couto_es_dr_assis.pdf?sequence=1

[2] Fabiano Moreira da Silva. Resenha do livro “Tempos de festas: homenagem a Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e Sant’Ana em Salvador (1860-1940)” de Edilece Souza Couto. http://www.revistahistoria.ufba.br/2012_2/r01.pdf

[1] Fabiano Moreira da Silva. Resenha do livro “Tempos de festas: homenagem a Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e Sant’Ana em Salvador (1860-1940)” de Edilece Souza Couto. http://www.revistahistoria.ufba.br/2012_2/r01.pdf

Vem aí, a VI FECIBA!

Olá!Tudo bem?

Hoje, vamos falar sobre um evento que vem acontecendo anualmente, em Salvador, desde 2011, e que tem apresentado excelentes resultados , frutos do trabalho de alunos e professores da Rede Pública de Ensino . Estamos falando da Feira de Ciências e Matemática da Bahia (FECIBA), promovida pela Secretaria de Educação do Estado da Bahia. A Feira de Ciências é resultado da realização das feiras escolares de Ciências, que se constituem na culminância das atividades desenvolvidas por meio dos programas estruturantes da Secretaria de Educação – Ciência na Escola, Gestar na Escola, Pacto pelo Ensino Médio e Ensino Médio com Intermediação Tecnológica (Emitec)”.( Ascom/Secretaria da Educação do Estado da Bahia)

Veja o texto abaixo:

“O espaço escolar é um dos locais mais importantes de uma Nação. Profícuo para a formação e desenvolvimento de indivíduos cidadãos. Nele, professores talentosos constituem-se em mola propulsora da educação. Apresentam o universo escolar aos estudantes, naturalmente, entregam-se e interagem com a turma num misto de confiança, sorrisos, expertises, interesses e sentimentos. Medeiam o conhecimento, versam sobre vários conteúdos. Iniciam, firmam o alunado no mundo da ética, moral, regras e valores que estarão presentes no transcorrer de sua vida e cobrados ao longo de sua existência.” (Parte integrante da poesia ‘Dia 15 de outubro’)

 Então, é chegado o momento , vem aí a VI FECIBA, que ocorrerá nos dias 09, 10 e 11 de novembro do ano corrente, na Arena Fonte Nova, durante o 5.º Encontro Estudantil. Não dá pra ficar de fora!  Na Feira , você, seus colegas, seus  professores e sua escola apresentarão invenções ,resultantes da interação pedagógica ocorrida durante este ano letivo. Sugiro que você , aluno-cidadão,  mostre sua expertise através de projetos criativos mediados pela ética, moral, regras e valores.

O estudante da escola pública, Lucas Borges , que criou um eficiente sistema de segurança para fogões contra acidente doméstico, foi  premiado na Feira de Ciências da Bahia , em 2011, e no ano de 2012 venceu a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE), no Campus da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Sugiro que assista ao vídeo, abaixo, Sistema de Segurança Contra Acidentes Envolvendo Panelas – Lucas Borges (Rede Anísio Teixeira – TV AT ).

Lucas Borges

Fig. 1 : Lucas Borges

O ano de  2015  teve o maior número de projetos registrados. Foram submetidos à FECIBA mais de 870 projetos,de 544 escolas. De acordo com o coordenador da Feira, Rogério Lima ,a expectativa para este ano é ultrapassar a marca do ano anterior: “Elaboramos um conjunto de ações, como videoconferências, workshops e seminários colaborativos para estimular a participação dos estudantes. Nossa proposta é fazer com que eles demandem dos professores e das unidades escolares o envolvimento com proposta da educação científica”.( Ascom/Secretaria da Educação do Estado da Bahia)

Fig. 2 - Vídeoconferência -IAT .Núcleos Regionais de Educação (NRE) com as Coordenações dos Projetos Estruturantes.

Durante a videoconferência, ocorrida no dia 30/08, no IAT – Instituto Anísio Teixeira, com o objetivo de estreitar a relação dos Núcleos Regionais de Educação (NRE) com as coordenações dos projetos estruturantes, a coordenadora do Programa Ciências na Escola – PCE,  Shirley Costa, falou que “o programa empodera o estudante no seu processo educacional, promove a  educação científica dos professores e estudantes, motiva-os a mudar a realidade em seu entorno.É um orgulho para o PCE saber que mais de 100 escolas, durante o mês de agosto, vêm realizando feiras escolares de ciências”.  Rogério Lima informou:  “Até dia 01/09/2016 ,acredito que já esteja no site da FECIBA o link para inscrição na Feira de Ciências e Matemática da Bahia”.

Outro fato importante é que os projetos submetidos à FECIBA, não precisam, necessariamente, que sejam apenas da área de conhecimento de ciências da natureza.

São perceptíveis as características interdisciplinares nos projetos. Estes  podem versar sobre várias temáticas,como por exemplo: projeto que fala sobre a identidade das comunidades quilombolas, de autoria das alunas Beatriz Santana e Tainá de Almeida, estudantes da rede estadual de ensino do município de Antônio Cardoso, interior baiano. Elas foram vencedoras da FECIBA- 2014 e da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia – FEBRACE, com o trabalho sobre fortalecimento da identidade negra e quilombola na cidade. Atualmente, Tainá é estudante do curso de Direito da Universidade Federal da Bahia.

As estudantes apresentaram, também, o referido trabalho na “Intel Internacional Science and Engineering Fair”- EUA, maior feira de ciências do mundo.

Outro grande exemplo de projeto bem-sucedido é a criação de “um dispositivo que inviabiliza o acionamento de motos sem uso de capacete”, de autoria dos alunos  Poliana Mascarenhas e Marcelo Oliveira Pinto, estudantes do Colégio Estadual Polivalente , no município de Conceição do Coité, no semiárido baiano.

Então, fique atento, não perca a data para a inscrição dos trabalhos de sua escola! E boa sorte!

Ana Rita Medrado

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino.

 

Referências:

http://escolas.educacao.ba.gov.br/feciba1

http://g1.globo.com/bahia/noticia/2015/05/alunas-da-rede-publica-levam-projeto-sobre-quilombolas-para-feira-nos-eua.html

http://www.secom.ba.gov.br/galeria/15333/126333/Videoconferencia-promove-articulacao-entre-IAT-e-Nucleos-Regionais-de-Educacao.html

 

Olimpíadas, competição e cooperação

 

Podium

Fig. 1 commons.wikimedia.org 

O Brasil está vivendo um momento ímpar de sua história, sediando os jogos olímpicos de 2016. É importante aproveitarmos essa oportunidade para refletirmos sobre os valores e subjetividades que participam da nossa cultura e que estão espelhados nessas competições. A sensação de vencer, ser o melhor, nos dá prazer e é, ao final, a mola mestra do nosso sistema econômico. Nildo Viana[1] afirma que “a competição é apontada como um produto social e histórico que gera uma sociabilidade e mentalidade competitivas cujo resultado é a naturalização desse fenômeno social”. Os jogos, de modo geral, são reforçadores desse processo.

A sociedade capitalista dá excessivo valor à concorrência, disputa e superação do outro e a “competição é seu elemento estrutural”[2].  Até pouco tempo atrás, era o vestibular quem definia quais os melhores estudantes do Brasil; hoje, é o Enem, mas a tônica é a mesma: preparar-se a vida inteira para competir por uma vaga nas melhores universidades, depois de formado vem a disputa por um emprego. Só existe lugar para os vencedores, no mercado de trabalho. Todo ano são divulgados hankings dos melhores alunos e universidades, muitas espalham outdoors pela cidade com fotos dos seus alunos campeões: é um pódio, quem não passa por essa seleção é taxado como perdedor. Os americanos têm um termo bem jocoso para designar essas pessoas: “loser”. A tradução é perdedor, derrotado. Não há lugar no topo para todos, logo, todos acham normal  que existam excluídos.

A semelhança com os jogos olímpicos não é mera coincidência, já que a Grécia é o país em que essas competições nasceram. A cultura grega influencia a nossa em diversos aspectos, os heróis e seus mitos de superação inspiravam os jovens a lutar e vencer seus adversários, consequentemente morriam cedo e eternizavam seu nome na história. Aos que tombavam nos campos de batalha, nenhuma glória: “losers”. O propósito desse texto é, ao final, provocar uma reflexão a respeito da ideologia que os jogos trazem. A TV mostra medalhas de ouro no peito dos vencedores, explora as características daqueles que superam seus  limites e batem recordes, quer que nossos jovens aprendam a vencer; mas o que sustenta essas vitórias é a derrota infringida ao outro, humilhar o adversário, fazê-lo tombar em campo. É, sim, a analogia de uma batalha em que, ao final, se estabelece uma hierarquia entre vencedores e vencidos  e tudo fica acomodado pelo “espírito esportivo”. Ora, saiba perder, eles  dizem.

Como professor, você já ouviu falar em jogos cooperativos? Isso mesmo! Trata-se de  uma prática esportiva que se preocupa em reforçar os valores sociais humanos, tais como reciprocidade  e solidariedade entre os membros do jogo. Conheça essa proposta e reflita sobre a necessidade de equilíbrio entre competitividade e cooperação na educação dos nossos jovens.

Assista ao GINGA, uma produção da TV Anísio Teixeira que explora a relação entre educação física, cultura corporal  e humanização.

Valdineia Oliveira

Professora da rede pública estadual de ensino

 

FONTES

[1] VIANA, Nildo. Educação Física, Competição e Sociabilidade Capitalista. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação – RESAFE. 2011.

[2] Idem 1.

BLANCO, M. R. Jogos cooperativos e educação infantil: limites e possibilidades. 181 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

CORREIA, M. M. Trabalhando com jogos cooperativos: em busca de novos paradigmas na Educação Física. Campinas: Papirus, 2006

ORLICK, T. Vencendo a competição. São Paulo: Círculo do Livro, 1989

Mães de Outdoors

Tarefa delicada para o(a) professor(a) é olhar o mundo como um legítimo portador de conteúdos para o trabalho com seus pares e com seus estudantes. Reconhecer a relação dinâmica entre o mundo e a educação é o primeiro passo porque “toda vez que dou (damos) um passo o mundo sai do lugar”, já diz Siba, cantor pernambucano.

Vale então se perguntar o que pensam os professores sobre o fato de costumeiramente pararem suas atividades didáticas e entrarem em campanha para o Dia das Mães, em maio; ou Dia dos Pais, em agosto. Será que – para além do aspecto comercial destas datas – as escolas já problematizam o lugar da mulher no mundo atual?  E a mulher no papel de mãe? E a importância  da mãe na educação dos filhos? Há um campo vasto de questões que podem ser tematizadas nas atividades de formação de professores ou nos encontros com nossos estudantes.

Existem diversos modos de viver a maternidade, com desafios cada vez maiores em diferentes contextos e isso, por si só, é de uma riqueza indiscutível. Muito antes de maio chegar, entretanto, os outdoors de nossa cidade estampam mulheres que se relacionam “afetivamente” com perfumes, sapatos, carros e aparelhos celulares, revelando-se, portanto, apenas como mães do consumo. Onde estão as mães que se dividem entre os filhos e suas teses, entre filhos e sua vida profissional, entre os filhos e o casamento, entre os filhos e convicções políticas, entre a educação doméstica e a educação formal? São de tantos jeitos, afinal! As mulheres de outdoors certamente não representam as mães estudantes que frequentam a rede pública de ensino, nem as mães das crianças pequenas que dela fazem parte.

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E o que deste fato merece vir a um blog que se destina a professores e estudantes?  É o fato das imagens, que circulam nas ruas, chegarem às escolas e saírem delas em convites e programações especiais, fortalecendo nitidamente o estereótipo de felicidade atrelada ao consumo. Sem reflexão, as imagens de mães de outdoors seguirão reforçando conceitos e valores que já precisamos repensar.

Estamos no século XXI e não podemos desconsiderar as transformações pelas quais vem passando as mulheres e, consequentemente, as mães na sociedade contemporânea, desde conquistas como sua consolidação no mercado de trabalho e uma maior participação no sistema financeiro familiar. Em lugar do Dia das Mães, Dia do Pais ou dos Avós algumas escolas já apresentam uma mudança sutil e definem em seus planejamentos o Dia da Família, que congrega num mesmo encontro todos os seus integrantes.  Este novo festejo, aliás,  já anuncia uma outra questão que está de toda forma presente no cotidiano escolar porque também está presente no mundo atual, este provedor nato de conteúdos. Isto é assunto complexo e merece espaço em outro texto que nos faça pensar na família como uma construção histórica e social. As famílias ditas tradicionais são cada vez menos comuns e temos num movimento crescente as famílias mononucleares ou monoparentais que surgem de produções independentes, adoções ou separações; as binucleares, com o exercício desafiador da guarda compartilhada e, ainda, famílias homoparentais que esperam ser reconhecidas e respeitadas em sua principal motivação: a afetividade.

Trabalhar com as chamadas efemérides do modo como fazíamos no século passado, traz o risco de manter a escola obsoleta, inócua e improdutiva. A sociedade muda e a escola não?  Se escolhermos não problematizar a realidade, o papel da escola estará assemelhado ao papel das concessionárias, perfumarias, shoppings e suas agências de publicidade.

E Siba, aquele pernambucano de quem lhes falava, continua cantarolando “Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar / Ouço o mundo me dizendo: corra pra me acompanhar!”

Lilia Rezende

Professora da Rede Estadual de Ensino da Bahia

Etnomatemática

Olá pessoal! Tudo Beleza? Espero que sim! Para abrirmos as discussões do mês de maio, falaremos sobre a etnomatemática, sob o ponto de vista dos povos e da cultura indígena. Durante muito tempo, essa etnia teve sua cultura, língua, ciência e conhecimento matemático renegados pelos povos colonizadores e pelo Ocidente. No entanto, sabemos que cada etnia  possui a sua própria forma de produzir ciência e de representá-la.  Assim como ocorre nas ciências, cada etnia  também produz seu conhecimento matemático, no qual esse saber também é representado de diversas formas  e surge a partir das necessidades de cada grupo étnico.

A etnia Guarani-Kaiowá por exemplo, não atribui o valor três  quando estão diante de três folhas de uma mesma planta. Os indivíduos desse grupo concluirão  que ali existe um único objeto. No entanto, se adicionarmos às três folhas  uma pedra e uma lasca de pau, eles dirão está diante de três objetos. Estranho? Não! Bem, eu diria que é cultural! Talvez eles tenham a mesma impressão a respeito do nosso sistema de numeração!

Outro exemplo, bem curioso, sobre a forma como as etnias indígenas representam alguns polígonos, é aquela adotada pelos povos Kuikuru para representar os triângulos. Os homens desenham estes polígonos com os seus vértices pintados, enquanto que as mulheres os desenham sem nenhuma pintura. Segundo pesquisadores, esta representação está associada aos mitos de gênero indígena e às partes vitais do seu corpo.

Essa forma particular que os grupos éticos utilizam para descrever os fenômenos, representar figuras geométricas e contar objetos, sob o seu processo de leitura de mundo, foi denominada, nos meados da década de 70, por alguns teóricos, de etnomatemática. O surgimento dessa corrente   emerge num momento em que as críticas sobre a existência de um currículo comum e uma única forma de apresentação do conhecimento matemático são muito rebatidas entre alguns pesquisadores, dentre eles, D´Ambrosio. Segundo eles, a Matemática Moderna não valoriza os conhecimentos prévios dos alunos proveniente do seu meio, contrapondo, assim, a etnomatemática, cujos olhares estão voltados para a matemática presente nas contas feitas pelo feirante, nas medições de áreas efetuadas pelo pedreiro, no dimensionamento dos artesões , nas técnicas de pesca dos ribeirinhos, nas receitas das cozinheiras e na forma de contar e construir artesanato dos povos indígenas.   Esses últimos, repletos de exemplos para o ensino da Matemática e revestidos de significado, por meio da simetria de seus traçados, dos ângulos presentes no cruzamento entre uma palha e outra das suas cestas, na pintura corporal por meio dos de seus adornos simbólicos e míticos.

Ao contrário do que se pensa, o estudo da matemática e da cultura indígena  pode contribuir para a interdisciplinaridade e transdisciplinaridade e, ainda, favorecer a contextualização dos conhecimentos tradicionais do ambiente escolar, trazendo significado e a aplicação para o ensino de Matemática, além de preservar a identidade dos povos indígenas.

Vamos aprender mais um pouco sobre a etnomatemática? Acesse agora o  AEW ( Ambiente Educacional Web)!

André Soledade.

Professor da Rede Pública Estadual.

Referências:

Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível  em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Etnomatem%C3%A1tica>. Acesso em: 15 de abr. de 2016.

Socioambiental, Povos Indígenas no Brasil. Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kuikuro>. Acesso em: 15 de abr. de 2016.

Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível  em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ubiratan_D%27Ambrosio>. Acesso em: 15 de abr. de 2016.

Unicamp, Centro de Desenvolvimento de Professores. Disponível em: <http://www.ime.unicamp.br/lem/publica/e_sebast/etno.pdf>. Acesso em: 15 de abr. de 2016.

Lições Indígenas

Fig.1: Aldeia indígena – interação com a natureza. Fonte: pt.wikipedia.org

Os povos indígenas manejam os recursos naturais de maneira sustentável. Eles procuram aplicar estratégias de uso dos recursos que, mesmo transformando seu ambiente, não alteram os princípios de funcionamento e nem colocam em risco as condições de reprodução deste meio. Trocando em miúdos, eles apenas consomem para sobreviver, utilizam apenas o necessário, sem excedentes! Tomemos como exemplo a visão destes povos como homens “naturais”, defensores da natureza. Os índígenas têm consciência da sua dependência – não apenas física, mas sobretudo cosmológica – em relação ao meio ambiente. O modo como evitam a sobrecarga dos recursos ambientais ao dividir a aldeia cada vez que a população se torna excessiva “é de uma enorme sabedoria”. Desta forma, evita-se o superpovoamento. “Temos que aprender a ser indíos, antes que seja tarde”, foi essa a principal mensagem dada pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

Os Yanomami, por exemplo, utilizam a palavra urihi para se referir à “terra-floresta”: entidade viva, dotada de um “sopro vital” e de um “princípio de fertilidade” de origem mítica. Urihi é habitada e animada por espíritos diversos, entre eles os espíritos dos pajés yanomami, também seus guardiões. A sobrevivência dos homens e a manutenção da vida em sociedade, no que diz respeito, por exemplo, à obtenção dos alimentos e a proteção contra doenças, depende das relações travadas com esses espíritos da floresta. Dessa maneira, a natureza, para os Yanomami, é um cenário do qual não se separa a intervenção humana, no entanto, esta intervenção se faz de forma sustentável.

O formato de sustentabilidade – um conceito sistêmico, ou seja, correlaciona e integra de forma organizada os aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade. A palavra-chave é continuidade e como essas vertentes podem se manter em equilíbrio ao longo do tempo. Segundo Luiz Carlos Cabrera (FGV) a norueguesa Gro Brundtland, publicou um livreto chamado Our Common Future, que relacionava meio ambiente com progresso. Nele, escreveu-se pela primeira vez o conceito: “Desenvolvimento sustentável significa suprir as necessidades do presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprirem as próprias necessidades”. Os povos indígenas não só preservam o meio cuidando da natureza, como atendem as necessidades de gerações sem esgotar seus recursos. As sociedades indígenas são inspiradoras e sofisticadas!

(…) Amantes da natureza

Eles são incapazes

Com certeza

De maltratar uma fêmea

Ou de poluir o rio e o mar

Preservando o equilíbrio ecológico

Da terra,fauna e flora

Pois em sua glória,o índio

Era o exemplo puro e perfeito

Próximo da harmonia

Da fraternidade e da alegria (…)

(Letra de Jorge Ben Jor)

 

Fontes Consultadas:

http://brasileiros.com.br/2014/08/temos-que-aprender-a-ser-indios-diz-antropologo/

http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/modos-de-vida/Indios-e-o-meio-ambiente

http://www2.unifesp.br/centros/cedess/CD-Rom/ativprati2.htm

http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yanomami/581

http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/conteudo_474382.shtml

Josenir Hayne Gomes

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino

 

 

Os Tuxá na TV Anísio Teixeira

Olá, turma!

Vocês sabem que existem várias etnias  indígenas, não é?

Então, hoje, vamos falar um pouco sobre a etnia Tuxá. Os Tuxá vivem na cidade de Rodelas, norte do estado, em Ibotirama, Vale do São Francisco e no município de Inajá, em Pernambuco. Com a construção da Barragem da Hidroelétrica de Itaparica, por volta de 1988, as famílias que habitavam as áreas inundadas foram transferidas para essas regiões.

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Fig. 1: Cacique Manoel e Ana Beatriz Padilha – Aldeia Tuxá – Ibotirama – Blog dos Educadores TV Anísio Teixeira

 

Visitamos, em 2012, os Tuxá, de Ibotirama, e conversamos muito com o cacique Manoel. Uma vez que não precisam mais lutar pela ocupação de terras, pois já estão em condições de assentados, os Tuxá brigam por preservar sua cultura e tradições.

O ritual do Toré, por exemplo, é praticado sempre, para que os membros mais jovens da comunidade não percam o contato com elementos de suas raízes. Nessa manifestação cultural, pública e coletiva, todos os indígenas, sem distinção de idade e sexo, participam, cantando e dançando, para atrair boas energias.

Em nossa visita à aldeia Tuxá, conhecemos também Ana Beatriz Padilha, na época, estudante do Centro Territorial de Educação Profissional  do Velho Chico. Ana foi destaque no Festival Anual da Canção Estudantil – FACE, de 2011, como melhor intérprete e melhor música e, por isso, foi personagem do Faça Acontecer, produção da TV Anísio Teixeira.

Os Tuxá desejam, exatamente, isso: o reconhecimento da sua identidade e a valorização das potencialidades, do talento, da força e da competência dos povos indígenas.  Que tal pesquisar mais sobre os Tuxá e outras etnias indígenas que vivem em nosso estado? Mãos à obra!

 

Joalva Moraes
Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia