O Poder da Mídia, Ontem e Hoje!

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Fig.1: Ilustração de Henrique Alvim Corrêa para  o livro A Guerra dos Mundos. Marciano lutando contra o navio de guerra Thunder Child. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Fighting_machine_(TheWaroftheWorlds)#/media/File:Correa-Martins_vs._Thunder_Child.jpg

Estamos na era das mensagens instantâneas, com piadas e charges facilmente identificáveis como fictícias, mas com muitas outras mensagens de teor ficcional tomadas como verdadeiras. Mas por que levamos a sério essas mensagens? Simplesmente pelo fato de serem construídas nos moldes utilizados pelos meios de comunicação, que conferem credibilidade ao que está sendo compartilhado nas redes sociais.

E desde sempre as coisas são assim. Exemplificando e começando pelas coisas mais simples, nós mesmos recorremos ao testemunho de uma outra pessoa para confirmar alguma história que estamos contando a alguém. Não é assim? Dizemos: pergunte a fulano. E se esse fulano for uma pessoa idônea, nossa história terá o devido respaldo. Infelizmente, muitos desses fulanos tendem a confirmar nossas histórias, mesmo sem tê-las testemunhado. Isso pode se dar devido a laços de amizade ou por outros interesses. Até nos tribunais há quem jure dizer a verdade, com a mão sobre a Bíblia, mesmo ciente da mentira. Desse modo, inocentes são condenados, e culpados libertos, a depender dos homens da lei envolvidos no processo. Diante de sistemas assim, alguns preferem lavar as mãos, como fez Pilatos.

Quanto ao testemunho da imprensa escrita, radiofônica e a televisada, a “verdade” é, naturalmente, consumida pela grande maioria de seus seguidores, mesmo que as “pontinhas soltas” sinalizem questionamentos a serem feitos. Assim, dizemos: deu no rádio… li no jornal… vi na televisão e, portanto, tudo pode ser verdade. Aliás, será que é por essa razão que alguns acrescentam “só repassando”, quando reenviam certos textos cujo respaldo parece estar faltando? Isso os exime da responsabilidade sobre aquilo que passam adiante? Pois uma mentira, em formato jornalístico, por exemplo, pode destruir civilizações inteiras.

Considerando que assim é, se uma mídia utilizada para anunciar fatos verídicos vier a misturá-los com ou substituí-los por ficção, dificilmente o público perceberá a farsa, a menos que se anuncie, previamente, do que se trata. Foi o que aconteceu em 1938, nos Estados Unidos.

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Fig.2: Manchete do New York Times de 31/10/1938 sobre o pânico causado pelo programa ficcional de rádio levado a sério pelos ouvintes. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:WOTW-NYT-headline.jpg

Naquele ano, Orson Welles adaptou para o rádio a obra A Guerra dos Mundos de Herbert George Wells, lançado em capítulos em 1897 e, em livro, em 1898. A história trata da invasão de marcianos inteligentes à Terra. O drama radiofônico foi apresentado ao público em formato de boletim de notícias, interrompendo outro programa que estava no ar. No início da transmissão foi anunciado que se tratava de uma obra de ficção, mas os ouvintes que ligaram o rádio depois de iniciado o programa não ouviram o tal aviso. Resultado: houve pânico generalizado e colapso de todas as centrais telefônicas, devido à imensa quantidade de chamadas para a polícia, bombeiros e para a própria emissora de rádio. As ruas e estradas ficaram congestionadas, com pessoas tentando fugir da área invadida pelos marcianos e foram inúmeros os depoimentos dos que viram e ouviram as naves marcianas e seus ocupantes. Hipnose coletiva? Não duvido. Clique aqui para ver um doc sobre isso.

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Fig.3: Orson Welles reunido com repórteres, em uma tentativa de explicar que nenhum dos envolvidos na transmissão do drama radiofônico tinha ideia do pânico que causaria. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:Orson_Welles_War_of_the_Worlds_1938.jpg

O curioso é que, 3 décadas depois, a peça radiofônica de Orson Welles foi reescrita para o ano de 1968. Você diria: ah, mas a essa altura, todos já saberiam de que se tratava de uma obra de ficção. Errou. Aconteceu a mesma coisa, claro que numa proporção menor, já que o número de ouvintes tinha diminuído. De acordo com a Wikipedia, apesar das exaustivas chamadas anunciando a peça radiofônica de 1968, muitos acreditaram nos boletins e na cobertura jornalística (ficcional) que a todo instante interrompiam a programação musical do horário. O criador dessa versão, Jefferson Kaye, e o diretor Danny Kriegler chegaram a pensar que seriam demitidos, tal foi a confusão criada, que chegou a envolver até a força armada canadense, um jornal e vários oficiais da polícia local, além dos telefonemas de ouvintes assustados, todos crendo que a invasão alienígena era real.

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Fig.4: Placa comemorativa da famosa transmissão radiofônica, em West Windsor. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:Landingsite_statue.JPG

Isso ilustra muito bem a força que têm os meios de comunicação. Se nesses casos aqui descritos não havia a intenção de atingir as pessoas, imaginemos o que seria se tudo fosse intencional!  Com esse mecanismo, derrubam-se governos legítimos e sustentam-se farsas e farsantes. Não é à toa que a mídia carrega o rótulo de 4º Poder.

Que possamos usar essa força para a Paz.

Feliz 2017!

Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Ensino

REFERÊNCIAS:
https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Guerra_dos_Mundos_(livro)
https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)
https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_1968)

Dezembro em Festa!

As festas religiosas da Bahia são um patrimônio cultural do povo baiano, que resistiu bravamente ao processo de “modernização” do Brasil, no qual a Igreja Católica e os poderes públicos tentaram, a todo custo, controlar a religiosidade popular, retirando das festas de rua tudo àquilo que chamavam de “profano”. Mas esses esforços não surtiram efeito, e os “devotos continuaram transitando sem culpa entre os rituais católicos e os afro-brasileiros”[1]. No mês de dezembro celebramos Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição da Praia e Santa Luzia.

As festas populares, em dezembro, transformam as ruas de Salvador, estas se enchem de cores e gente! O calendário festivo religioso deste mês se inicia com a festa de Santa Bárbara, no dia 4 de dezembro. O culto à “Santa do Mercado”, como também é chamada, foi introduzido pelos portugueses na Bahia no início da colonização, sendo rapidamente abraçado pelo povo negro e humilde de Salvador. Os comerciantes do Mercado de Santa Bárbara (hoje desativado, mas no século XIX funcionava na Cidade Baixa) e os bombeiros adotaram a sua figura como protetora, e desde então organizam os folguedos em sua homenagem.

Festa de Santa Bárbara

Fonte: Web TV UFBA

Os preparativos para o culto à Nossa Senhora da Conceição ocorrem quase concomitante ao de Santa Bárbara, pois é no dia 8 que a procissão, organizada pela irmandade, saem às ruas para venerar a padroeira de Portugal e, ao menos até 1930, a padroeira do Império brasileiro. O culto e a organização da festa à Nossa Senhora da Conceição acontecem na igreja que leva seu nome, pela irmandade composta por membros da elite de Salvador. A festa de Santa Luzia, ocorre na rua do Pilar, no comércio, no dia 13. Em procissão, os fiéis seguem até a Fonte do Pilar, onde acreditam que, molhando os olhos com a água da fonte, a “Padroeira dos Olhos”, como também é conhecida, pode curar problemas oculares.

Festa para Nossa Senhora da Conceição da Praia

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Fonte: Amanda Oliveira

Todas essas festas têm em comum a mistura do canto e da dança dos índios e africanos com a cultura das procissões, propriamente ibéricas. Nas palavras da pesquisadora Edilece Souza Couto, “assim formou-se uma religiosidade voltada para o fervor da devoção dos santos, a diversão e a sensualidade, na qual não se pode distinguir com precisão as fronteiras entre o profano e o sagrado.”[1]Nas ruas, o povo promove o encontro indenitário entre santos católicos e os orixás. Assim sendo, Santa Bárbara e Iansã são combinadas em uma única entidade divina, do mesmo modo que ocorre com Nossa Senhora da Conceição e Iemanjá.

Até meados do século XIX, eram sobretudo as irmandades e as associações leigas que se responsabilizavam pela organização do evento nas ruas. À igreja católica, cabia a função dos sacramentos. No final do século XIX, mas sobretudo no governo de J.J. Seabra (1912 a 1916), ideias deturpadas de civilidade, entendiam ser necessário sufocar as manifestações populares, percebidas como “imorais” pela elite local. Por isso, era preciso “evitar manifestações lúdicas, não soltar fogos, impedir a mendicância, cultos e manifestações não católicas, principalmente as manifestações de matriz africana que traziam à memória a escravidão” [2]. A igreja católica tentou, sem sucesso, reformar as irmandades, ou mesmo substituí-las, para pôr fim aos chamados “festejos profanos”.

Quer saber mais sobre as festas religiosas na Bahia? Que tal assistir o canal da TV UFBA na Web! Você pode ver vídeos sobre a festa da Conceição da Praia e a festa de Santa Bárbara.

Vale também a pena conferir a tese de doutorado da proª da UFBA Edilece Souza Couto, intitulada “Tempo de Festas: Homenagens a Santa Bárbara, N. S. da Conceição e Sant’Ana em Salvador (1860-1940).

[1]Edilece Souza Couto. Tempos de festa: Homenagens a Santa Bárbara, N. S. da Conceição  e Sant`Ana em Salvador (1860-1940). Tese de Doutorado, 2004, p. 13. http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/103165/couto_es_dr_assis.pdf?sequence=1

[2] Fabiano Moreira da Silva. Resenha do livro “Tempos de festas: homenagem a Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e Sant’Ana em Salvador (1860-1940)” de Edilece Souza Couto. http://www.revistahistoria.ufba.br/2012_2/r01.pdf

[1] Fabiano Moreira da Silva. Resenha do livro “Tempos de festas: homenagem a Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e Sant’Ana em Salvador (1860-1940)” de Edilece Souza Couto. http://www.revistahistoria.ufba.br/2012_2/r01.pdf

“Novo Tempo Sempre se Inaugura a Cada Instante que Você Viver.”

Quem espera que um novo ano nasça para que se tenha, enfim, uma nova ideia ou um novo rumo, certamente foi surpreendido com um Plano de Formação de Professores claro e organizado, apresentado no último dia 28, num encontro para Gestores de Núcleos Regionais, para Professores Formadores da rede estadual e Prefeitos eleitos da Região Metropolitana de Salvador (RMS). Estamos, pois, em dezembro, há poucos dias do encerramento do ano letivo, e eis que, fomos convidados a conhecer a nova Política Estadual de Formação e Desenvolvimento dos Profissionais da Educação Básica do Instituto Anísio Teixeira.

Essa Política de Formação foi construída por profissionais de diversos projetos do Instituto, em articulação com a Superintendência de Políticas para a Educação Básica (Suped), como uma iniciativa do diretor-geral, Severiano Alves, defensor contumaz de ações que promovam a qualidade da educação básica e a valorização dos professores. A ideia fundamental nesta gestão é devolver a instituição o status que lhe é devido, reafirmando a ideia de seu patrono, quando professava que “Só existirá democracia no Brasil, no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública”. Essa concepção exige, segundo o próprio Anísio Teixeira, “uma educação em mudança permanente, em permanente reconstrução”.

Programa Gestão de Aprendizagem Escolar

Severiano Alves, Diretor Geral Instituto Anísio Teixeira (IAT SEC BA). Foto: Amanda Oliveira

A finalidade deste órgão especial da Secretaria da Educação, inaugurado em 1994, foi sempre a de planejar e coordenar projetos referentes ao ensino,  pesquisa, experimentações e qualificação de recursos humanos na área de educação. E, apesar de todos os limites que uma crise política atualmente impõem, esses objetivos se renovam à medida que consideram as transformações sociais que, dialeticamente, provocam mudanças no papel social dos professores. O Instituto voltar-se-á, prioritariamente, para formação de professores desenvolvendo cursos de atualização, aperfeiçoamento e especialização para rede estadual e municipal.

A nova proposta, apreciada também por Regina Alcântara de Assis, Secretária de Articulação com os Sistemas de Ensino (MEC), traz a Identidade e Interculturalidade como princípios. Neste sentido, Ana Sueli de Pinho, assessora técnica do IAT, afirma que “a prática educativa se realiza num complexo contexto social e institucional, em que as ações mais explícitas, como as leis e diretrizes governamentais, as relações de trabalho, caminham concomitantemente com as ações menos explícitas. A escola faz parte desse sistema e se constitui num ambiente que mantém relações com a diversidade da comunidade e, ao mesmo tempo, carrega tradições locais e a própria história.”

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Há ainda outros princípios como Educação Sócio Emocional; Apropriações Éticas, Críticas, Contextualizadas e Colaborativas das Tecnologias; Produção e Difusão do Conhecimento; Ciência, Arte, Literatura e Expressão Cultural; Democracia e Participação; Pesquisa, Criatividade e Inovação; Construção de Sentidos e Projetos de Vida. Cada um deles, com distintas definições e possibilidades, integrarão o currículo dos cursos que serão desenvolvidos a partir de 2017. São ideias que traduzem fundamentos teóricos para três programas, interdependentes e complementares: o de Formação e Desenvolvimento dos Profissionais da Educação; de Tecnologias e Mídias Educacionais e de Pesquisas Inovações Pedagógicas.

Assim, receberemos os profissionais da educação para conhecer um novo Instituto Anísio Teixeira e, ao mesmo tempo, começar um novo ano com novo ânimo, considerando diversas oportunidades de formação continuada. Para nós, educadores do Instituto Anísio Teixeira, não é possível pensar na qualidade da aprendizagem dos nossos estudantes sem pensar, de maneira análoga, na aprendizagem de seus professores.

Lilia Rezende
Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

O Lado Azul do Novembro Negro

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Desde o ano de 2003, a lei 10.639, em seu artigo 79-B, inclui o dia 20 de novembro no calendário escolar como dia Nacional da Consciência Negra, haja vista, que foi na data de 20 de novembro de 1695 que morreu Zumbi dos Palmares. Novembro é, então, um mês dedicado a reflexões, debates e ações em torno da consciência sobre esse país ser também negro, uma realidade que costuma ser negada, muitas vezes. A vigilância comemorativa não é sem razão, porque a memória social é um aporte importante da nossa identidade enquanto nação, que foi formada a partir de três matrizes étnicas, a luta é para que negros brancos e índios sejam representados igualmente em nossa história.

 Atualmente, o mês de novembro está em franco status de disputa, uma vez que também é chamado “Novembro Azul”. Nele, o ministério da saúde faz uma  convocação nacional aos homens para que façam o exame de prevenção ao câncer de próstata.  É importante atentar para o fato de que esse tipo de câncer tem uma incidência diferenciada em termos étnicos, segundo estudo publicado na revista científica British Journal of Cancer a partir de uma pesquisa realizada na Inglaterra, foi constatado que o câncer de próstata é maior entre os homens negros. Esse dado chama atenção e aponta para um recorte importante da nossa sociedade, que deveria ter conhecimento sobre o resultado dessa pesquisa e aumentar seus cuidados preventivos. Portanto, o conteúdo dessa pesquisa deveria ser melhor explorado, somando forças ao novembro negro, afinal  a campanha de conscientização sobre o câncer de próstata e o Dia da Consciência Negra têm uma confluência de interesses e um mês em comum. Acredito, que esse é um ponto que deveria ser discutido de forma mais ampla, explorando-se a convergência das datas para um maior alcance das duas causas. A saúde da população negra também é uma questão de consciência.

Valdineia Oliveira dos Santos

Prof. Rede Pública Estadual de Ensino

Resenha PW: Áfricas no Brasil

Oi! Tudo bem? Estamos no mês de novembro e, neste período do ano, todas as nossas publicações abordam aspectos da História e Cultura Africana. Assim, fortalecemos as ações do projeto Novembro Negro, que acontece em todo o estado.

Em 2003, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 10.639, que obriga a inclusão da temática da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da Rede de Ensino. Na instituição em que você estuda, os professores já estão implementando a Lei? E você, educador, tem encontrado bons materiais para levar a discussão para a sala de aula?

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Fig. 1: Áfricas no Brasil: linguagem simples e boas referências. Imagem: reprodução do site da editora Scipione

O livro Áfricas no Brasil, de Kelly Cristina Araujo, é um bom começo para isso. Publicada no mesmo ano de sanção da lei, a obra aborda, de forma bastante didática, “as tradições e costumes dos povos africanos que aportaram no Brasil”.

No primeiro capítulo, Onde fica a África?, a autora convida o leitor para prestar mais atenção ao continente, a fim de perceber o quão perto ele está de nós. Em seguida, no capítulo 2, As rotas para o Brasil, Kelly fala mais detidamente do tráfico de escravos, destacando a violência como isso foi feito. Religião e solidariedade: o candomblé e as irmandades dos homens pretos é o assunto do excelente capítulo 3. Nele, a autora coloca em debate os traços culturais da África que foram incorporados à cultura brasileira. Para isso, faz um recorte e fala sobre o candomblé e as irmandades católicas de negros. Kelly, obviamente, não deixa de citar a Bahia nessa parte: “O primeiro terreiro de candomblé do Brasil instalou-se em Salvador, na Bahia, conhecido hoje como Casa Branca do Engenho Velho”, p. 17.

O quarto (Um reino chamado Congo…) e o quinto (…E uma festa chamada congada) capítulos são complementares. A autora se debruça sobre o Congo e destaca as suas tradições, como as congadas. No sexto, A Capoeira, o jogo é o protagonista. Segundo Kelly, a capoeira “talvez seja a manifestação mais brasileira de todo o universo cultural afro-brasileiro”, p. 41. No capítulo, ela cita a capoeira angola e a capoeira regional e faz uma análise geral das características da manifestação. No sétimo e último capítulo, O Brasil na África, o destaque vai para as comunidades africanas com raízes brasileiras. No Benin, de acordo com a autora, os povos que se consideram “brasileiros” são chamados de agudá; na Nigéria, amarô. Nesse capítulo, Kelly fala sobre a cultura brasileira que foi levada para a África e as tradições comuns ao continente e ao país. Como exemplo, cita a festa do Nosso Senhor do Bonfim, que é comemorada no mês de janeiro, no Benin. Algo familiar à nossa cultura, não é?

O livro é voltado para crianças a partir de 11 anos, mas estudantes e educadores de todas as idades devem ler e aproveitar o que a autora coloca em discussão. É muito bom para começar.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Referência:

ARAUJO, Kelly Cristina. Áfricas no Brasil. São Paulo: Scipione, 2003. (Série Diálogo na Sala de Aula).

Radiola PW: Ilê Pérola Negra

Oi! Tudo bem? Estamos no mês de novembro e, neste período do ano, todas as nossas publicações abordam aspectos da História e Cultura Africana. Assim, fortalecemos as ações do Novembro Negro, que acontece em todo o estado e será aberto oficialmente amanhãNa Radiola PW de hoje, o destaque vai para a música Ilê Pérola Negra, dos compositores Miltão, Renê Veneno e Guiguio. A canção foi gravada pela cantora e compositora Daniela Mercury, em 2000, no CD Sol da Liberdade.

Fig. 1: Ilê Aiyê. Foto: reprodução do site oficial do bloco afro

Fig. 1: Ilê Aiyê. Foto: reprodução do site oficial do bloco afro

Ilê Pérola Negra traz no seu discurso uma forma evidente de exaltação. Exalta a cultura negra em todos os seus aspectos: sociais, artísticos e religiosos. Os versos carregam um alerta para que toda a população perceba que a cultura negra é uma das bases da cultura brasileira e, por isso, todos deveriam conhecê-la e, obviamente, respeitá-la. Isso se confirma nos seguintes trechos:

[…]

Eu quero penetrar no laço afro que é meu e seu

Vem cantar meu povo

Vem cantar você

[…]

O mote da música é o desfile do bloco afro Ilê Aiyê, durante o Carnaval. Os autores fazem reverência àquele que é considerado “o mais belos dos belos” e reafirmam, durante todo a canção, a importância do cordão para a negritude. Por isso, o Ilê é uma pérola negra:

Lá vem a negrada que faz o astral da avenida

Mas que coisa tão linda, quando ela passa me faz chorar

Tu és o mais belos dos belos, traz paz e riqueza

Tens o brilho tão forte por isso te chamo de pérola negra

Um dos objetivos da obra é negar a política de assimilação, estrategicamente construída para fazer com que os negros não tenham orgulho de seus traços e de sua cultura. De acordo com BERND (1988, p. 35), tal política diz respeito à “tendência dos povos americanos, sobretudo dos negros, de assimilar a cultura européia (processo de aculturação) e a conseqüente perda da memória das culturas de origem indígena e africana (processo de desculturação) [sic]”.

Ilê Pérola Negra é, por si só, uma política de exaltação. É importante considerar o seu discurso, principalmente para que todas as pérolas brilhem de forma igual, mas mantendo as suas características próprias.

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Referência:

BERND, Zilá. O que é negritude. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Coleção Primeiros Passos).

Educação em Direitos Humanos

Começar pelo começo. Assim é como pretendo escrever esta reflexão sobre Educação em Direitos Humanos. Saber sobre o que estamos falando ou lendo é, definitivamente, uma boa condição para apropriação de uma (nova) ideia. Os Direitos Humanos são aqueles considerados fundamentais a todos, sem quaisquer distinções de sexo, nacionalidade, classe social, etnia, cor da pele, profissão, faixa etária, condição de saúde física e mental, escolha política, religião ou nível de instrução. Pensar nesta questão supõe admitir como principal o direito à vida, sem o qual todos os demais direitos perdem o sentido. Essa expressão, cada mais presente entre os educadores, quer fazer referência a princípios universais que podem, potencialmente, ser aceitos em todas as culturas, cuja função primordial é  promover a dignidade humana.

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Desde 2010 a Educação em Direitos Humanos ganhou dispositivos legais, contornos de política pública e legitimidade com a aprovação do Programa Nacional da Educação em Direitos Humanos, ideia que fundamenta a formação ética, crítica e política dos indivíduos. A escola é o tempo e o lugar em que esta aprendizagem acontece, não apenas porque ali seja um espaço educativo, mas, sobretudo, por que é um lugar de convivência.  Presume-se, portanto, que nesta experiência com a heterogeneidade seja possível a todos os educadores cultivar a aceitação das diversidades e o respeito à diferença. A consideração aos direitos individuais e, ao mesmo tempo, universais, coloca-se como um princípio: personagens dos contextos educativos podem admitir-se como sujeitos de direitos e deveres e assim reconhecer que os outros também o são, num movimento ativo e atento para que haja reciprocidade e transposição, ou seja, o que se aprende na escola ou em informais espaços de educação, transfere-se como um valor, um novo aprendizado, para outros campos pois a ideia é formar cidadãos do mundo.

No Brasil, essa mudança cultural é especialmente importante em função da nossa história, pois implica o abandono de valores e costumes que ao longo do tempo foram arraigados entre nós: nosso longo período de escravidão; nossa política oligárquica e patrimonial que garantia  amplo domínio do poder e da economia nacional por um pequeno grupo de senhores de terra e de políticos patrimonialistas; o caráter elitista e autoritário do nosso sistema de ensino; nossa aceitação passiva com a corrupção; nosso descaso com a violência, sobretudo quando seu alvo são os socialmente discriminados; nosso sistema familiar patriarcal e machista, que resiste às novas configurações; nossa sociedade racista; nosso desinteresse pela participação cidadã; nosso individualismo consumista. Estas e outras condutas são temas pouco incluídos nos currículos de formação de professores, quiçá nas atividades escolares ou didáticas.

Essa realidade contemporânea deve, ao invés de empecilho, constituir-se em motivação para o trabalho organizado e contínuo; afinal, a quem de nós interessa a manutenção desse estado de coisas?

A defesa dos Direitos humanos em Educação sugere e estimula uma ação transformadora, capaz de promover a emancipação dos indivíduos para que eles próprios tenham a capacidade para defender os interesses da coletividade. Aqui e agora, esperamos que gestores, professores, coordenadores e demais profissionais da educação, sintam-se motivados a propor mudanças efetivas em seus ambientes de trabalho, cotidianamente.

Lilia Rezende

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Rede Anísio Teixeira . Instituto Anísio Teixeira – IAT