Radiola PW: São João Antigo

Oi, gente! Tudo bem com vocês? Hoje, última Radiola PW deste semestre, a dica de música tem a ver com o período junino e convida todo mundo para fazer uma reflexão sobre as festas de São João espalhadas pelo Brasil, principalmente no Nordeste: trata-se da canção São João Antigo, composta por Zé Dantas e Luiz Gonzaga. Ela foi lançada pelo Velho Lua em 1962, no disco São João na Roça.

Fig.1: capa do disco de Gonzagão em que "São João Antigo" é uma das faixas. Foto: reprodução do site Memorial Luiz Gonzaga.
Fig.1: capa do disco de Gonzagão em que São João Antigo é uma das faixas. Foto: reprodução do site Memorial Luiz Gonzaga.

Muito se fala sobre a descaracterização das festas juninas, principalmente quando os seus elementos mais significativos são levados em consideração. Hoje em dia, por exemplo, o forró não é o único gênero musical que reina na programação junina das cidades. Artistas de axé music, arrocha e sertanejo estão ocupando esses espaços.

Isso está relacionado com o natural processo de transformação da sociedade, que incorpora novos costumes e muda a sua dinâmica. O passado interfere no presente, que ressignifica o futuro. Na década de sessenta, do século passado, Gonzagão e Zé Dantas já falavam sobre isso.

Na primeira estrofe da música, os autores se mostram saudosistas: Era a festa da alegria/São João!/Tinha tanta poesia/São João!/Tinha mais animação/Mais amor, mais emoção/Eu não sei se eu mudei/Ou mudou o São João”.

Em seguida, reforçam esse sentimento e revelam o motivo da angústia contida na letra: “Vou passar o mês de junho/Nas ribeiras do sertão/Onde dizem que a fogueira/Inda aquece o coração/Pra dizer com alegria/Mas chorando de saudade/Não mudei nem São João/Quem mudou foi a cidade”. Ou seja, nem o eu lírico nem o São João mudaram, a cidade que teve a sua dinâmica alterada. E você? O que acha sobre essas transformações? Conte para a gente!

Questão de linguística

Inda” é variação do advérbio “ainda”; “pra” é a forma reduzida da preposição “para”.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

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Radiola PW: Sobradinho

Oi! Como você está? Tudo bem? Hoje, a Radiola PW indica a música Sobradinho, composta por Sá e Guarabyra. A canção foi lançada pela dupla em 1977, no reconhecido disco Pirão de Peixe com Pimenta e é uma das letras mais emblemáticas do nosso cancioneiro.

A música é um protesto feito pelos autores para relatar o drama vivido pelos sertanejos durante a construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, em 1973. A obra foi capitaneada pela CHESF (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco) e durou seis anos para ser concluída. De acordo com o site da companhia, o início da operação da usina se deu em novembro de 1979.

Sá (direita) e Guarabyra (esquerda) durante apresentação no programa Viola, Minha Viola, da TV Cultura. Imagem: captura de tela feita em 12 de junho de 2016
Fig. 1: Sá (direita) e Guarabyra (esquerda) durante apresentação no programa Viola, Minha Viola, da TV Cultura. Imagem: captura de tela feita em 12 de junho de 2016

É impossível não associar o contexto de Sobradinho (música e cidade) ao da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em 2011. Certamente, o debate acerca dos impactos ambientais causados pelo projeto, bem como a reviravolta e a instabilidade que acompanharam a vida dos moradores diretamente atingidos pelo empreendimento, se repetiu. Para ampliar a discussão, vale a pena ler a cartilha Conheça a UHE Belo Monte, publicada pela Norte Energia, empresa responsável pela implantação, construção e operação da usina. Nesse sentido, é importante também acessar o site do projeto Os Impactos de Belo Monte, idealizado pelo fotojornalista Lalo de Almeida.

A canção do carioca Sá e do baiano Guarabyra conta a história sob a ótica do sertanejo que morava na região. O eu lírico diz: O homem chega e já desfaz a natureza/Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar. Esses versos revelam a forma como os moradores foram surpreendidos e tirados do seu lugar sem nenhum tipo de planejamento, com a promessa de que tudo ia mudar. O sertanejo temia a ação da natureza (O São Francisco lá pra cima da Bahia/Diz que dia menos dia/Vai subir bem devagar”) e não duvidava da profecia atribuída a Antônio Conselheiro (E passo a passo vai cumprindo a profecia/Do beato que dizia que o sertão ia alagar/O sertão vai virar mar/Dá no coração/O medo que algum dia o mar também vire sertão”).

Para deixar ainda mais evidente que os moradores foram expulsos da região onde viviam para que a barragem fosse construída, os compositores, num rico jogo semântico, expressaram: Adeus, Remanso, Casa Nova, Sento-Sé/Adeus, Pilão Arcado/Vem o rio te engolir”. O “adeus” significa tanto despedida quanto saudade. “Adeus” porque as cidades estavam indo embora, “engolidas pelo rio”; e “adeus” porque o próprio morador não poderia ficar naquelas regiões, uma vez que tinha sido convidado a se retirar. Para ele, sobrou acreditar no ditado popular que diz: O futuro a Deus pertence”. Irônico, não é? Vale ressaltar que todas as cidades citadas nos versos, assim como Sobradinho, ficam no extremo norte da Bahia.

No desfecho, um dos versos mais fortes da música: Debaixo d’água lá se vai a vida inteira”. Fica difícil até de comentar. A empatia é a responsável por isso. Nas linhas seguintes, os compositores falam de “gaiola” e “salto”. Gaiola é uma embarcação; salto, o mesmo que “queda d’água”. Assim, os versos ganham mais sentido ainda: Debaixo d’água lá se vai a vida inteira/Por cima da cachoeira o gaiola vai subir/Vai ter barragem no salto do Sobradinho/E o povo vai-se embora com medo de se afogar”. A música tem temática triste, que inunda o nosso coração, mas vale muito a pena ouvir e refletir sobre ela. Faça isso.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Radiola PW: Socorro

Oi! Tudo bem? Hoje, a dica de música da Radiola PW é Socorro, uma composição de Arnaldo Antunes e Alice Ruiz. A canção faz parte do repertório do CD Um som, lançado por Arnaldo em 1998.

Fig. 1: Arnaldo Antunes em cena do DVD Rosa Celeste, de 2012, em que canta a música Socorro. Imagem: captura de tela feita em 31 de maio de 2015
Fig. 1: Arnaldo Antunes em cena do DVD Rosa Celeste, de 2012, em que canta a música Socorro. Imagem: captura de tela feita em 31 de maio de 2016

A letra apresenta um eu lírico bastante desolado, procurando ânimo para viver. Logo no início, ele confidencia: Socorro, não estou sentindo nada/Nem medo, nem calor, nem fogo/Não vai dar mais pra chorar/Nem pra rir”. Esses versos mostram o desespero e a agonia de uma pessoa que está psicologicamente abalada. Na segunda estrofe, essa ideia é reforçada: “Já não sinto amor nem dor/Já não sinto nada”. A música é um banquete de substantivos abstratos.

A composição dá indícios de que a pessoa está com depressão e, por isso, pede socorro. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), depressão “é um transtorno mental comum, caracterizado por tristeza, perda de interesse ou prazer, sentimentos de culpa ou baixa autoestima, distúrbios do sono ou do apetite, sensação de cansaço e falta de concentração”. A estimativa é de que, em todo o mundo, 350 milhões de pessoas sejam afetadas pelo transtorno.

Num dado momento da letra, o eu lírico, em total desânimo, clama: “Socorro, alguém me dê um coração/Que esse já não bate nem apanha/Por favor, uma emocão pequena, qualquer coisa/Qualquer coisa que se sinta/Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva”. Melancólico, não é?

Olha que interessante… 

Na linguagem informal, há casos em que o verbo ter é usado com o sentido de haver ou existir. Quando isso acontece, ele fica impessoal. Ou seja: não admite sujeito. Por isso, fica no singular. Na música Socorro, os compositores escreveram: “Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva”. A forma “Tem” ficou no singular justamente por causa do que foi explicado acima. Vale ressaltar que a gramática normativa não reconhece o emprego do verbo ter no sentido citado aqui.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Cine PW – Que horas ela volta?

Foto: Janine Moraes/MinC
Fig. 1: Anna Muylaert no lançamento do filme no Cineclube Ambiente Cultural. Foto: Janine Moraes/MinC

Olá, cinéfilos!

Nesta semana, o blog vai indicar o filme brasileiro Que horas ela volta?, obra muito bem aclamada pela crítica e pelo público em 2015, recebendo algumas indicações como melhor filme estrangeiro no Critics’ Choice Award e também Satellite Award.

Sob direção de Anna Muylaert, que também roteirizou, em parceira de Regina Casé, o filme retrata de forma muito delicada a vida de Val, interpretada pela própria Regina, uma empregada doméstica pernambucana que trabalha em São Paulo há mais de uma década para uma família rica.

Nessa casa, Val se relaciona diferentemente com cada pessoa. Mas vale ressaltar a interação que ela tem com Fabinho, o filho dos patrões, que tem por Val uma afeição maternal, sentimento que não consegue enxergar na própria mãe, que, por sua vez, é uma pessoa conturbada e carregada de preconceitos.

O filme se desenrola com a chegada de Jéssica, filha de Val, que sai de Pernambuco para prestar vestibular em São Paulo. Nesse processo, ela fica hospedada temporariamente na casa onde Val trabalha. Tempo suficiente para Jéssica perceber as relações de poder que existem naquele lar . Por isso, Val é, a todo o tempo, questionada pela filha em relação à posição social que ocupa dentro daquele ambiente.

O filme consegue trazer à reflexão os micropoderes que coexistem na nossa sociedade, mostrando como alguns personagens podem ser, na mesma história, algozes e vítimas. Mostra também o quanto a sociedade ainda precisa se desgarrar dos diversos preconceitos e da mentalidade classista que ainda permeia muitos pensamentos.

Vitor Moreira

Colaborador da Rede Anísio Teixeira

Radiola PW: Aos Meus Heróis

Oi, galerinha! Tudo bem? A dica de hoje da Radiola PW é a música Aos Meus Heróis, do compositor Julinho Marassi. A canção foi composta em 2001 e gravada pela primeira vez em 2002, no CD Julinho Marassi & Gutemberg Ao Vivo. Recentemente, o cantor e ator Chay Suede regravou a canção e deu uma interpretação cheia de verdade aos versos.

A canção faz, ao mesmo tempo, uma homenagem e uma crítica à música brasileira. A crítica é feita, mais detidamente, ao funk. O interessante é que a letra não desmerece nenhuma manifestação artística que usa a música para se expressar, mas aconselha as pessoas a ouvirem músicas que mexam também com a cabeça. Ou seja, o autor deixa claro que o importante é não se limitar.

Fig. 1: Julinho Marassi e Gutemberg, em cena do DVD gravado em 2005, em Nova Iguaçu. Imagem: captura de tela feita em 22 de maio de 2016.
Fig. 1: Julinho Marassi e Gutemberg em cena do DVD gravado em 2005, em Nova Iguaçu-RJ. Imagem: captura de tela feita em 22 de maio de 2016.

No início da canção, ele afirma: “Faz muito tempo que eu não escrevo nada/Acho que foi porque a TV ficou ligada”. Assim, critica a influência negativa da televisão, tanto nos processos criativos quanto no fato de ditar modas. Em seguida, coloca o que pensa sobre o atual cenário da música brasileira: “Quero fazer uma canção mais delicada/Sem criticar, sem agredir, sem dar pancada/Mas não consigo concordar com esse sistema/E quero abrir sua cabeça pro meu tema”. O “tema”, no caso, é o convite à reflexão sobre as atuais letras da nossa música.

Julinho Marassi isenta a juventude de ser a culpada por essa situação: “Que fique claro, a juventude não tem culpa”. Dois versos são bastante significativos para mostrar o que o compositor pensa e quer dizer durante toda a canção: “Eu também gosto de dançar o pancadão/Mas é saudável te dar outra opção”.

A partir daí, a letra cita nomes de cantores brasileiros que fizeram história na música, os responsáveis pelas “riquezas do passado”. Eles são os “heróis” do título. Ao todo, 30 artistas são homenageados. Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Elis Regina, Marisa Monte, Rita Lee, Djavan e Cazuza são alguns dos nomes citados.

As duas estrofes finais fazem um perfeito arremate da ideia defendida na música. Elas contribuem para que a gente pense criticamente sobre a produção musical do nosso país e sobre a decadência da indústria fonográfica. Vale a pena refletir e discutir sobre tal questão. Vamos começar?! Seguem os versos finais:

“Atenção, DJ, faça a sua parte
Não copie os outros, seja mais ‘smart’
Na rádio ou na pista, mude a sequência
Mexa com as pessoas e com a consciência

Se você não toca letra inteligente
Fica dominada, limitada a mente
Faça refletir, DJ, não se esqueça,
Mexa o popozão, mas também a cabeça”

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Radiola PW: Dança do Desempregado

Oi! Tudo bem? Nesta semana, estamos discutindo a temática de trabalho e consumo aqui no blog. Por isso, a dica da Radiola PW é a música Dança do Desempregado, composta por Gabriel o Pensador e lançada em 1997, no CD Quebra-Cabeça. Mas, antes de falar dela, será que eu não estou fazendo confusão entre estes dois conceitos: trabalho e emprego? Você sabe qual é a diferença entre eles? E tem diferença?

Tem. O site do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) esclarece:

A maioria das pessoas associa as palavras trabalho e emprego como se fossem a mesma coisa, não são. […] O trabalho é mais antigo que o emprego, […] existe desde o momento que o homem começou a transformar a natureza e o ambiente ao seu redor, desde o momento que o homem começou a fazer utensílios e ferramentas. Por outro lado, o emprego é algo recente na história da humanidade. […] é um conceito que surgiu por volta da Revolução Industrial, é uma relação entre homens que vendem sua força de trabalho por algum valor, alguma remuneração, e homens que compram essa força de trabalho pagando algo em troca, algo como um salário.

O fato é que, quando se fala de trabalho ou emprego, tem sempre alguém que procura e alguém que oferece. E, de acordo com dados publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem muita gente procurando emprego. A taxa de desocupação, no trimestre encerrado em março de 2016, foi estimada em 10,9%. Ou seja, o Brasil tem 11,1 milhões de pessoas desempregadas.

Fig. 1: Gabriel O Pensador em cena do clipe oficial de Dança do Desempregado: ironia e deboche. Imagem: captura de tela feita em 9 de maio de 2016
Fig. 1: Gabriel o Pensador em cena do clipe oficial de Dança do Desempregado: ironia e deboche. Imagem: captura de tela feita em 9 de maio de 2016

Há quase 20 anos, Gabriel o Pensador homenageou essa categoria com a Dança do Desempregado. A letra jocosa, satiriza tanto a situação das pessoas sem emprego quanto as inúmeras danças que faziam sucesso na época. A Bahia, por sinal, era uma grande exportadora: Dança do Bumbum, Dança da Cordinha, A Dança da Sensual, Dança do Robô.… Não foi por acaso que a batida do pandeiro e o suingue do pagode entraram no arranjo.

O refrão, carregado de ironia, diz: “Essa é a dança do desempregado/Quem ainda não dançou, tá na hora de aprender/A nova dança do desempregado/Amanhã o dançarino pode ser você”. Ao longo da letra, vê-se o uso de expressões que se associam muito bem ao contexto, como “pé na bunda”, “olho da rua” e “uma mão na frente e outra atrás”. Gabriel descreve aquilo que seria o cotidiano de um desempregado: “E bota a mão no bolsinho (Não tem nada)/E bota a mão na carteira (Não tem nada)/E bota a mão no outro bolso (Não tem nada)/E vai abrindo a geladeira (Não tem nada)/Vai procurar mais um emprego (Não tem nada)/E olha nos classificados (Não tem nada)/E vai batendo o desespero (Não tem nada)/E vai ficar desempregado”.

É claro que o rapper não deixa de falar de contrabando (“E vai descendo, vai descendo, vai/E vai descendo até o Paraguai/E vai voltando, vai voltando, vai/’Muamba de primeira olhaí quem vai?'”), de trabalho informal (“E vai vendendo vai, vendendo, vai/Sobrevivendo feito camelô”) e da profissionalização do sexo (“E vai rodando a bolsinha (Vai, vai!)/E vai tirando a calcinha (Vai, vai!)/E vai virando a bundinha (Vai, vai!)/E vai ganhando uma graninha”), alguns dos possíveis caminhos para quem está desempregado. No final, cita as pessoas que usam o roubo como opção de sobrevivência e o que esse ato violento acarreta para a sociedade.

Vale muito a pena ouvir a música e refletir sobre as questões que ela traz. Faça isso e conte para a gente como foi a experiência!

#FicaADica: você sabia que nem sempre o prefixo “des” indica a ideia de negação? Ele pode ter valor de intensidade, de oposição e privação. “Desempregado” é aquele que não está empregado; “desorganizado”, aquilo que não está organizado. Já “desinfeliz”, usado mais informalmente, significa “alguém que está muito infeliz”; “desaliviar” é o mesmo que “aliviar totalmente” e “desfalecido” não é alguém que voltou a viver (é até engraçado pensar isso!), mas alguém privado de forças. Viu como a nossa língua é repleta de possibilidades?

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Radiola PW: Pra Que

Fig. 1: o cantor e compositor Luiz Melodia. Foto: divulgação
Fig. 1: o cantor e compositor Luiz Melodia. Foto: divulgação do site oficial do artista

Oi! Tudo bem com você? Hoje, na Radiola PW, a dica de música é Pra Que, de autoria de Luiz Melodia e Ricardo Augusto. Ela foi lançada por Luiz em 1997, no CD 14 Quilates. A letra, que fala sobre desigualdade social, traz um eu lírico bastante crítico e preocupado com as questões do lugar em que vive. No início da canção, ele indaga:

Pra que chorar?

Pra que mentir?

Pra que morgar?

Pra que fugir?”

Em seguida, explica as razões que justificam todos esses lamentos:

Só queria que todos

Tivessem comida

Tivessem oportunidade

Tivessem guarida

Não precisassem rezar pedindo melhores dias

Reclamando migalhas

Vivendo só de agonia”

Nessa estrofe, a música ganha força e nos estimula a refletir sobre a sociedade da qual fazemos parte. A discriminação e o preconceito, de toda e qualquer natureza, contribuem para que as oportunidades não sejam iguais para todos. Isso faz com que as pessoas vivam “reclamando migalhas”.

Em setembro de 2014, o programa Artigo 5º teve como temática a desigualdade social no Brasil e discutiu assuntos como saúde, educação e a política de erradicação da pobreza. Vale a pena conferir!

Na seguinte estrofe, os compositores de Pra Que tocam, principalmente se pensarmos na sociedade brasileira, numa questão ainda recorrente nos dias atuais:

Já que tão poucos põem o rei na barriga

Gritando guerras em leis

Forjando a morte da vida”

Infelizmente, essa realidade insiste em permanecer no Brasil. No desfecho, o eu lírico afirma que é importante continuar lutando para que a situação se modifique:

Já que nem eu nem o diabo tem pressa

De pouco vale a conversa

Só encarando essa briga”

#FicaADica: certamente, devido à métrica, os autores optaram por esta redação: “Já que nem eu nem o diabo tem pressa”. Pela gramática normativa da língua portuguesa, o verbo deveria ficar no plural, uma vez que o sujeito é composto e a declaração contida no predicado pode ser atribuída aos dois núcleos (eu e diabo). Portanto, a oração ficaria “Já que nem eu nem o diabo temos pressa”. Contudo, esse detalhe não tira a riqueza nem o propósito da canção. O mais importante, é a mensagem que ela traz. Que a gente reflita e contribua para uma sociedade melhor.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Radiola PW: História do Povo Umutina

Oi, pessoal! Tudo bem? A dica de hoje da Radiola PW é a música História do Povo Umutina, de autoria de Ademilson Umutina, cantor e compositor. De acordo com informações do site Povos Indígenas no Brasil, os Umutina possuem “um forte sentido de identidade étnica, reconhecendo-se como tradicionais moradores do alto-Paraguai, envolvidos atualmente na recuperação de suas manifestações sócio-culturais (sic) tradicionais”.

Fig.1: Ademilson Umutina em imagem do videoclipe oficial de sua música. Imagem: captura de tela
Fig.1: Ademilson Umutina em imagem do videoclipe oficial de sua música. Clique na foto para assistir. Imagem: captura de tela

Talvez, por essa razão, os 447 Umutina que vivem na Barra dos Bugres, no estado de Mato Grosso, estejam lutando para recuperar a língua Umutina, pertencente ao tronco linguístico Macro-Jê, da família Bororo. Atualmente, eles se comunicam através da língua portuguesa. A música História do Povo Umutina toca nesse ponto de preservação cultural (o refrão diz: “Somos o povo Umutina/E viemos revitalizar”) e fala de outros aspectos, como as lutas e perseguições sofridas pelo povo.

A canção é uma homenagem a todos os ancestrais que lutaram pela cultura dos Umutina. No início, o autor pede aos ouvintes que prestem atenção à história triste que ele tem para contar. Em seguida, fala dos mais de mil indígenas que viviam felizes nas margens do rio Bugres e do rio Paraguai, mas, com a chegada do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), os costumes do povo ficaram ameaçados. Isso fica evidente nos seguintes versos do lamento sertanejo: “1911/Chegou aqui nesse lugar/O tal do SPI/Que quis tudo mudar/ Suas danças, seus rituais/Vocês não irão realizar/Também o seu idioma/Vocês não irão mais falar”.

História do Povo Umutina fala de questões importantes, principalmente se a gente for refletir sobre o dia de hoje. É absurda a forma como os ditos “civilizados” tentam mostrar um outro mundo para os indígenas, visto como “ideal”. O grande equívoco se dá, principalmente, por não reconhecer que o indígena é um ser do mundo e que não precisa abdicar de sua cultura para ser considerado como tal.

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Cine PW – Apocalypto

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Olá, cinéfilos!

O blog dedica inteiramente o mês de abril para trazer e discutir a história e cultura dos povos indígenas. Com isso, traremos produções que tratam desse universo, com intuito de enriquecer o nosso conhecimento e observar a riqueza cultural das inúmeras etnias que existiam e as que ainda existem e resistem.

Para a primeira semana de abril, o Cine PW indicará o filme “Apocalypto”, dirigido por Mel Gibson e lançado em 2006. Essa super produção retrata a história de Jaguar Paw, um caçador que vive numa aldeia na América Central com sua esposa e filho. Durante a história, o personagem encontra com outras etnias, sendo uma delas, a civilização Maia. Jaguar então é capturado pelos maias e subjugado à condição de ser ofertado aos deuses.

Para além da história de Jaguar Paw, podemos perceber a preocupação da obra fílmica em reproduzir a grandeza do império Maia. Os cenários são grandiosos e conseguem retratar mais fielmente essa complexa nação do período pré-colombiano. O dialeto maia foi preservado no filme, trazendo mais fidelidade à obra e uma sensação de maior proximidade com aquele universo de outrora.

Sobre outras óticas, podemos perceber com “Apocalypto” a enorme diversidade étnica que existia antes da invasão espanhola. Cabe também refletir sobre a relação de coexistência entre esses povos e como estes, posteriormente, se modificaram com a chegada dos europeus. Por fim, analisar e comparar o império Maia com sua sólida estrutura social e seu nítido avanço tecnológico da época com outras etnias que ainda viviam dentro de sistemas primitivos.

“Apocalypto” é um bom filme para ilustrar esse momento da história. Até para percebermos que, antes dos europeus cruzarem o atlântico com seus navios cheios de ganância e tragédias, aqui já se encontravam, também, muitos problemas.

Vitor Moreira

Colaborador da Rede Anísio Teixeira

Povos Indígenas e a Tecnologia

E aí, galera! Será que conhecemos mesmo os nossos povos?

Atualmente muitas pessoas ainda acreditam que os povos indígenas devem viver reclusos na mata, isolados da civilização e longe das tecnologias.

“Estar incluído nas novas tecnologias não altera em nenhum momento a identidade de nenhum povo, a identidade indígena continua viva e crescendo a cada dia. Identidade étnica não altera com sua profissão, ou com seu meio de comunicação. A identidade indígena está nos traços natos, nos ideais, na natureza está no dia a dia, está com cada um cidadão que faz parte dessa imensa família chamada indígena.” (Alex Maurício – ÍNDIO QUER SE CONECTAR E ENTRAR NA REDE, Publicado em: 28/06/2012)

Figura 1- Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil, Indígena utilizando o computador e um smartphone.
Figura 1- Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil, Indígena utilizando o computador e um smartphone.

A internet não torna os indígenas menos indígenas, ela da voz aos nossos povos a nível global, facilita a comunicação entre diversas aldeias, através da internet os povos indígenas podem ser ouvidos, podem fazer denúncias, podem compartilhar sua cultura. Não é preciso muitas pesquisas para perceber que eles já estão se apropriando das tecnologias, através de smartphones e computadores, com acesso internet, os índios perceberam que poderiam gerar seus próprios conteúdos digitais, e com isso diversos sites indígenas foram criados por eles, para que pudessem utilizar a internet para se comunicar, compartilhar a sua arte, história, música entre outros, e tudo isso sem a intervenção de terceiros, essas iniciativas devem ser incentivadas por todos nós, o conhecimento deve ser compartilhado sempre e dessa forma poderemos nos aproximar, conhecer e compartilhar cada vez mais a história dos nossos povos, contadas por eles mesmos.

Afinal a internet quando bem utilizada pode ser uma ferramenta muito poderosa de união e compartilhamento de ideias e ideais.

Alguns sites indígenas:

http://www.indioeduca.org

http://www.tupivivo.org/

http://radioyande.com

Gabriel Luhan – Colaborador da Rede Anísio Teixeira