O retorno da máquina de ensinar?

Atualmente, muitos cursos on-line e programas de aprendizagem promovem a interação entre o aprendiz e o conteúdo a ser aprendido sem a intermediação de um professor. Mas, você sabia que no século passado professores já foram substituídos por máquinas de ensinar?

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 Figura 01: Maquina de ensinar de Skinner Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/18/Skinner_teaching_machine_01.jpg

Conheça a Máquina de Ensinar de Skinner (Figura 01), importante psicólogo e pesquisador educacional americano e um dos principais defensores do behaviorismo, assistindo ao vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vmRmBgKQq20

Segundo o próprio Skinner no vídeo, as características da máquina de ensinar  são descritas assim:

  • o estudante está livre de indecisão ou ansiedade sobre seu sucesso ou falha;
  • leva mais rapidamente a formação do comportamento correto;
  • seu trabalho é prazeroso;
  • ele não tem que forçar para estudar;
  • fornece um relatório para o aluno da adequação da sua resposta;
  • o aluno é livre para se mover no seu próprio ritmo… o estudante rápido completa o material em um tempo mais curto…mas, o estudante mais lento, ao ter mais tempo para estudar, completa o mesmo espaço;
  • cada estudante segue um programa cuidadosamente planejado;
  • pistas auxiliadoras, sugestões e comandos maximizam a chance de que ele estará correto.

A máquina de ensinar foi descrita na obra “A Ciência da Aprendizagem e a Arte de Ensinar”, publicada na Harvard Educational Review, 1954, vol 24, nº 2, pp. 86-97 e em Current Trends in Psychology and the Behavioral Sciences, University of Pittsburgh Press, 1954. Muitas críticas foram direcionadas para este modelo mecanizado de educação, chamado de “Ensino Programado”, resultando na rejeição ao uso da máquina que não chegou a ser utilizada de modo sistemático nas escolas americanas. Porém, os princípios aplicados influenciaram muitos programas educacionais em vários países, incluindo no Brasil.

Hoje, mais de sessenta anos depois, em pleno contexto de inserção das tecnologias da informação e comunicação na educação, provavelmente você já ouviu falar ou mesmo teve a oportunidade de participar de programas on-line de preparação para o Enem ou cursos a distância que apresentam questionários on-line e outros recursos que auxiliam na aprendizagem de conteúdos. Destacam-se, nesse sentido, os MOOCS, cursos on-line, massivos e abertos.

Tais programas, usualmente, apresentam como características:

  • as atividades são programadas previamente e de modo que suas chances de aprovação sejam maximizadas;
  • o aluno, estudante, aprendiz, é livre para adotar um ritmo de estudo que seja mais confortável;
  • alguns cursos e programas de ensino não apresentam a figura do professor para mediar os processos de ensino e de aprendizagem;
  • relatórios de desempenho são produzidos de acordo com as respostas aos questionários e atividades e servem de referências para a programação das próximas etapas.

É claro que o desenvolvimento tecnológico permite o uso de recursos que possibilitam várias abordagens didáticas, muito mais dinâmicas e interativas do que a máquina de Skinner. Entretanto, será que estamos diante do retorno da Máquina de Ensinar em uma versão atualizada? O professor, mais uma vez, está sendo substituído? O que você pensa sobre isso?

Leia mais sobre esse tema em:

https://www.ufrgs.br/psicoeduc/behaviorismo/maquina-de-ensinar-de-skinner-1/

Sobre educação a distância, recomendamos:

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/conteudos-digitais/conteudo/exibir/id/3940

http://www.educacao-a-distancia.com/moocs-mudarao-a-educacao-a-distancia-ead/

Tropicália

Onde esta a criatividade e a coragem do povo brasileiro?

Dentre tantos exemplos, podemos citar o Tropicalismo. Esse foi  o movimento musical popular, ocorrido nos anos 60, mas que teve influência sobre a poesia, as artes plásticas, o teatro e o cinema.

O nome do movimento foi originado a partir de um projeto ambiental do arquiteto Hélio Oiticica, na exposição “Nova objetividade brasileira”, exposta no MAM no Rio de Janeiro, em 1967. A exposição de Oiticica relacionava o contexto das vanguardas da época e as diversas manifestações da arte.

O movimento originou-se, nos grandes festivais de MPB dos anos 60. Com letras que apresentavam um tom poético, fazendo críticas sociais de um jeito inovador e criativo sobre o regime militar. O Tropicalismo revolucionou a música popular brasileira, até então dominada pela Bossa Nova. O fundamental para o movimento era a liberdade.

Os artistas do Tropicalismo tinham um descompromisso total com os estilos, os modismos, o comum. Adotavam uma visão latino-americana usando temas cotidianos. Cheios de humor e irreverência, os tropicalistas buscavam combater o nacionalismo infligido pela Ditadura Militar, rejeitando a à intenção romântica da MPB, usando uma linguagem mais realista e atual, além de desmistificar a tradicional música brasileira ao colocar em conflito seus principais elementos.

Um retorno à ideologia do movimento antropofágico de Oswald de Andrade , alimentando e ingerindo qualquer tipo de cultura: dos Beatles à cultura hippie norte americana e regurgitando crítica aos valores éticos, morais e estéticos da cultura brasileira.

Veja mais sobre a Tropicália no Ambiente Educacional Web.

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/1501

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/1541

Geize Gonçalves

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

A Força das Marias

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Fonte: Pixabay – Licença CC

 

 

“Maria, Maria 

É o som, é a cor, é o suor

É a dose mais forte e lenta

De uma gente que ri

Quando deve chorar

E não vive, apenas aguenta”

 

Nesse trecho da música Maria, Maria, Milton Nascimento traz um pouco da complexidade do universo feminino. Sabemos que o dia 8 de março é dedicado à reafirmação da luta pela igualdade de gênero. Mas por que esse dia foi escolhido?

A escolha dessa data é atribuída a um fato ocorrido em 1857. Em meio a tantas outras reivindicações das mulheres, em especial nos Estados Unidos e na Europa, por melhores condições de trabalho, direitos sociais e políticos, entre a segunda metade do século XIX e parte do XX, trabalhadores e trabalhadoras de uma indústria têxtil de Nova Iorque fizerem greve, reclamando, além de questões trabalhistas, igualdade de direitos para as mulheres. Conta-se que os manifestantes foram violentamente reprimidos pela polícia. As tecelãs foram trancadas na fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente, 130 trabalhadoras morreram carbonizadas. Mas essa versão é contestada por alguns autores.

No ano de 1910, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em Copenhagen, na Dinamarca, decidiu-se que deveria instituir um dia que homenageasse o movimento pelos direitos delas e procurando apoio internacional para a luta pelo direito de voto para as mulheres (sufrágio feminino). Entretanto, foi só em 1975, no Ano Internacional da Mulher, que a ONU (Organização das Nações Unidas) passou a celebrar o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março.

Na verdade, nessa data, as comemorações devem ir além de homenagens e flores. A data deve ser um pretexto para a realização de conferências, debates e palestras, em todo o mundo, com a intenção de discutir o papel da mulher em nossa sociedade, na tentativa de diminuir o preconceito e a desvalorização feminina. Infelizmente, ainda, são comuns situações onde as mulheres sofrem com salários baixos, assédio moral e sexual e desvantagens na carreira profissional.

Passeando pela nossa história, em 1827, surgiu a primeira lei sobre educação das mulheres, a qual permitia que elas frequentassem as escolas elementares; em 1879, passam a ter autorização do governo para estudar em instituições de ensino superior, embora aquelas que decidiam entrar na universidade passavam a ser descriminadas pela sociedade.

Mas, apesar de todo esse panorama desfavorável, algumas brasileiras conseguiram  vencer barreiras, como é o caso da compositora e pianista Chiquinha Gonzaga que, em 1885, estreou como maestrina, regendo a opereta “A Corte na Roça”. Chiquinha foi a primeira mulher no Brasil a estar à frente de uma orquestra. Ela, ainda foi a precursora do chorinho, compôs mais de duas mil canções populares, entre elas, a primeira marcha carnavalesca do país: “Ô Abre Alas”.

E o direito ao voto? Esse só veio em 1932, com o novo Código Eleitoral, promulgado por Getúlio Vargas. Nas eleições para a Assembleia Constituinte, de 1933, foram eleitos 214 deputados e uma única mulher: a paulista Carlota Pereira de Queiroz. 77 anos depois, foi eleita a primeira Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff.

Não podemos esquecer a Lei 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, considerada pela ONU como uma das três melhores legislações do mundo no enfrentamento à violência contra as mulheres. Além da agressão física, a Maria da Penha protege as mulheres nos casos de violência sexual, sofrimento psicológico e violência patrimonial.

São várias conquistas, mas há ainda muito que reivindicar para que se alcance a igualdade dos direitos entre homens e mulheres. O primeiro de todos é o respeito. Buscando sempre inspiração nos versos de Milton,

 

      “Mas é preciso ter força

É preciso ter raça 

É preciso ter gana sempre

Quem traz no corpo a marca

Maria, Maria

Mistura a dor e a alegria.”

 

 

Joalva Moraes
Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Yes,in Bahia!

Let’s play, sing and dance, folks! Disco, Rap, Country, Rock, Pop Rock, Hip hop, Axé Music… Axé Music? Oh, yes! Carnival is coming! What kind of music do you like?

Você já se perguntou quantos estilos musicais existem e como eles surgiram? A verdade é que a variedade de músicas está para o gosto de todos. A palavra musikê é de origem grega e significa a “arte das musas”, uma referência feita à mitologia grega. Para muitos pesquisadores, a música já existia na Pré-História e tinha um caráter estritamente religioso, como forma de gratidão aos deuses pela proteção, boa caça, entre outras razões.

Considerado um elemento forte na nossa cultura, a Bahia é um estado essencialmente musical e, por ser Carnaval, o Axé Music, gênero baiano, carrega em si a fusão cultural no próprio nome: Axé, como representação da cultura afro e Music, da cultura pop, carregando a bandeira da World Music.

O surgimento e a invenção dos instrumentos musicais, dos mais simples aos mais sofisticados, permitiram o desenvolvimento de novos gêneros musicais e um novo mundo para a produção musical. A organologia apresenta um estudo sistemático dos instrumentos para os mais variados tipos e estabelece critérios de classificação surgidos na Grécia Antiga.

Com tanta variedade, haja  habilidade! Mas como expressar habilidade em inglês? So easy! O verbo modal can é utilizado para expressar permissão e habilidade, sendo essa última o nosso foco, como está claramente expresso no breve texto sobre Carlinhos Brown, um dos representantes da música baiana de reconhecimento internacional cujo nome artístico vem de James Brown. Veja o que dizem lá fora sobre ele.

Can you read this text about Brown? b1                                                                Fig.1 Carlinhos Brown 

Antonio Carlos Santos de Freitas, known as Carlinhos Brown (born November 23, 1962 in Salvador, Bahia) is a very talented multi-instrumentalist.He is one of the most popular male singers of the present in Brazil and he is very recognized by his creativity and charisma. He can sing latin music, samba, Axé music and others. Axé is a typical Bahia music. He is also known for his abilities at improvisasion. He can make music with different and unconventional objects.

What about you? Can you sing Axé Music? Can you dance? Can you play any instrument?

Como se pode observar no texto acima, as frases  destacadas expressam habilidade, capacidade de fazer algo. Sempre após o modal “can”, o verbo principal deve vir no infinitivo sem o “to”. Veja outros exemplos:

Affirmative sentences:

Daniela Mercury can sing Axé Music.

Carlinhos Brown can play tambourine and reco-reco.

Na forma negativa, acrescenta-se a partícula not” após o verbo modal. Podendo assumir duas ortografias.

Negative sentences:

I can’t play percussion.

He can not play bango drums.

Na forma interrogativa, inicia a frase com o verbo modal.

Interrogative form:

Can you play any instrument?

Can you dance?

Be smart! You can search to get more information.

Bye! Have a nice Carnival!

Mônica Mota

Professora da Rede Pública Estadual da Bahia

A “música de preto” e o carnaval da Bahia

Os compositores Djavan e Caetano Veloso escreveram versos de uma canção chamada Linha do Equador em que dizem “gosto de filha música de preto / gosto tanto dela assim…”Esse modo de dizer “música de preto” bem poderia ser associado à maneira pejorativa como a palavra “preto” surge para designar os negros no Brasil. Neste caso, trata-se de uma constatação feita na poesia de Caetano da força imensa da cultura negra na música popular mundial.

Essa força se apresenta também na Bahia – território com grande número de pessoas descendentes de africanos da diáspora forçada pelo processo escravista desde o século XVI até o século XIX d.C. A cada início de ano, culminando com o carnaval de Salvador, a música que emerge como dominante na cena é a música de matrizes negras.

Samba, reggae, samba-reggae. Os gêneros são muitos e desde a década de oitenta do século XX que temos um fenômeno crescente da massificação (através das grandes e pequenas mídias) da música produzida pelos Blocos Afro num encontro com a sonoridade do Trio Elétrico, desaguando no que alguns pesquisadores chamam consideram como o nascedouro da Axé Music. Esse termo – cunhado de forma crítica por um jornalista baiano – deu nome a uma interface poderosa de ritmos e ambiências musicais que são tornados mais fortes durante o carnaval de Salvador e ao longo do ano são ensaiados pelos soteropolitanos e turistas que enchem a cidade de festa, som e sujeiras, como todo carnaval que se preze.

O samba-reggae é o gênero musical por excelência dos blocos afro de Salvador. Sua sonoridade parece ter surgido em finais dos anos setenta com os percussionistas que executavam as matrizes de samba-duro, samba-de-roda e ritmos afins chegando a uma síntese tanto no ambiente musical do Ilê Aiyê, quanto no Olodum, entidades mais que importantes para a compreensão desse fenômeno cultural que são os Blocos Afro de Salvador. O compositor e Maestro Neguinho do Samba teve papel de destaque na criação do samba-reggae a partir das claves musicais que adaptou dos sambas tocados na quadra do Ilê Aiyê e depois no Largo do Pelourinho, já quando membro do dissidente bloco Olodum.

Em 2017, comemoram-se trinta anos da canção Faraó (Divindade do Egito), de Luciano Gomes. Essa canção representou uma projeção enorme tanto do Olodum quanto da moderna música produzida na Bahia, sobretudo aquela ligada aos temas afro-baianos. Além do Olodum, a cantora e compositora Margareth Menezes, o cantor e compositor Djalma Oliveira e a Banda Mel eternizaram a música, levando para um número maior de ouvintes, propagando a negritude que era evocada na letra de Faraó e de tantas outras belamente compostas pelos artistas das agremiações negras da Bahia.

A “música de preto” baiana prossegue com outras possibilidades estéticas e outras reverberações. O Ilê permanece, O Olodum é global e outros artistas se vincularam ao gênero. A cantora e compositora Daniela Mercury (socialmente branca  e ligada aos aspectos culturais da negritude) é uma das artistas que até hoje – trinta anos de carreira depois – carrega a bandeira do samba-reggae e da música afro-baiana como conteúdo principal de onde emana seu trabalho. Essa música ainda é o suporte básico das narrativas acerca do recôncavo baiano e de Salvador nos planos sócio-existenciais, políticos e econômicos. A “música de preto” dá dinheiro, mesmo que menos para os compositores e artistas negros do que para outros agentes que movimentam a indústria da cultura na Bahia e no Brasil. Ecos da escravidão?

Música e sociedade possuem elos indissolúveis num país como o Brasil. Como dizia Naná Vasconcelos (percussionista pernambucano e criador incansável), tem povo que canta mais que reza. O Brasil reza e canta. A Bahia, então…

Saudemos a “pretitude musical” baiana!

Saudemos e cantemos!

Carlos Barros

Professor da Rede Estadual da Bahia.

O carnaval: da saturnália aos camarotes

É fevereiro, aproxima-se o carnaval, uma das festas mais populares do país. Em Salvador, a cada ano, a festa se transforma, metamorfoseando-se em duas: na avenida, o folião pipoca, se aglomera, pulando atrás do trio, numa região fronteiriça e insalubre, que insiste em existir, espremida entre a corda dos blocos e suntuosos camarotes. Ao lado dessa cena pitoresca, há outro carnaval que transcorre do alto. Ali estão os “vips”,  as pessoas que têm uma visão e situação social privilegiadas, que contemplam a avenida, instaladas com conforto e segurança. Nesses clubes sociais ambulantes, acontecem  shows de artistas de axé, funk e sertanejo, em paralelo ao circuito da folia. Como se vê na foto abaixo:

Fig 1. Fonte: Rodriga Sá. Circuito Barra Ondina

Fig 1. Fonte: Rodriga Sá. Circuito Barra Ondina

É possível ver, com bastante evidência, a suntuosa edificação instalada diante da avenida, para que as elites possam participar da festa com segurança e, sobretudo, com alguma distância, para não sofrer o absurdo desconforto de se misturar com a plebe.

Mas, nem sempre foi assim, a separação social não é a tônica dessa festa. O carnaval tem origem na antiguidade, mais precisamente, nos festivais realizados em Roma para homenagear Saturno. Durante a saturnália,  a irreverência era o ponto alto dos dias festivos, hierarquias sociais eram suspensas, escravos tomavam o lugar de seus senhores, vestiam-se como eles e com isso satirizavam seu comportamento. Senhores serviam seus escravos, comiam e bebiam juntos com eles. Nesses dias festivos o jugo da escravidão era suspenso. A inversão de papéis, aliás, é um fenômeno tipicamente carnavalesco.

No Brasil, na primeira metade do século XIX, acontecia o Entrudo, uma festa que envolvia muita espontaneidade e brincadeiras nos espaços públicos. Escravos saíam pelas ruas com os rostos pintados de branco em batalhas de  laranja, limões, farinha, água de cheiro e outros líquidos menos nobres. As famílias das elites não participavam das brincadeiras na rua, mas faziam esses jogos em casa e ficavam na janela  lançando, nos transeuntes, farinha, limões e outros. Em casa, a festa tinha limites sociais. Certas liberdades só eram permitidas entre os iguais. Veja, na foto abaixo, que os escravos, estão apenas servindo, e não participam.

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Earle, Augustus, 1793-1838. Jogos durante o carnaval do Rio de janeiro.

No século XX, o Entrudo foi considerado subversivo, violento e, por isso, criminalizado. Foram criados os bailes de carnaval em clubes sociais, onde tocavam marchinhas. Ali, o ambiente era controlado para que as famílias pudessem participar da festa com segurança e longe da balbúrdia que imperava nas ruas. Observa-se, que ao longo da história do Brasil a festa do carnaval coloca em paralelo estes dois vieses, as elites criaram um carnaval civilizado, controlado em suas pulsões mais tempestuosas: a sexualidade e a violência. Nesse ínterim, é importante pensar que o carnaval nasce da espontaneidade do povo, em seus dias livres, durante os quais podiam se expressar com irreverência, espontaneidade e criatividade. Juntavam-se  escravos e senhores sob a égide de suas pulsões mais libertárias.

O sistema escravista vigente no Brasil interferiu nas brincadeiras de rua chamadas de Entrudo, colocando em contraste festa de senhores e festa de escravos. As famílias “tradicionais” em sua avidez por controle e limites, mataram a irreverência e inversões que caracterizam a festa. Hoje, as elites assistem ao carnaval instaladas em camarotes, sob ar-condicionado, servidas de Buffet, segurança particular, um ambiente controlado no qual só entra “gente bonita”. São clubes que se ergueram ao lado da avenida, já cerceada pelas cordas dos blocos. Ao final, vemos que o carnaval espelha a desigualdade social que é vivenciada no cotidiano do Brasil.

Talvez, por isso, o carnaval de Salvador tenha perdido tanto de sua vitalidade nos últimos tempos; empresários da folia lotearam, a maioria dos espaços, o povo foi confinado entre as cordas. Com isso, reprimiu-se também toda a efervescência e liberdade que caracterizam essa festa, esvaziando seu melhor conteúdo: a junção de todos em um ambiente de irreverência e liberdade, sobretudo, o extravasar de emoções legítimas e próprias do ser humano.

É importante depreender, sobre esse texto, a riqueza do tema festa como um objeto de análise sobre a vida social apto a desvelar suas camadas, estruturas e grupos sociais excluídos. Nesse sentido, os professores e estudantes podem se apropriar dessa temática  para refletir e debater, de forma crítica, sobre diversos aspectos da sociedade. Acessem o Ambiente Educacional  Web vejam o vídeo abaixo e inspirem-se na escola de samba inclusiva Embaixadores da Alegria.

Valdineia Oliveira

Prof. de História da Rede Estadual de Ensino da Bahia

Fontes:

CUNHA, Fabiana Lopes da. Carnaval X Entrudo: formas de regrar o carnaval no Rio de Janeiro em fins do século XIX e início do século XX. Cad. Pesq. Cdhis, Uberlândia, v.24, n.2, jul./dez. 2011.

DANTAS, Marcelo Nunes. Desigualdade Social – A Exclusão Social no Carnaval de Salvador. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/1870091

O Poder da Mídia, Ontem e Hoje!

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Fig.1: Ilustração de Henrique Alvim Corrêa para  o livro A Guerra dos Mundos. Marciano lutando contra o navio de guerra Thunder Child. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Fighting_machine_(TheWaroftheWorlds)#/media/File:Correa-Martins_vs._Thunder_Child.jpg

Estamos na era das mensagens instantâneas, com piadas e charges facilmente identificáveis como fictícias, mas com muitas outras mensagens de teor ficcional tomadas como verdadeiras. Mas por que levamos a sério essas mensagens? Simplesmente pelo fato de serem construídas nos moldes utilizados pelos meios de comunicação, que conferem credibilidade ao que está sendo compartilhado nas redes sociais.

E desde sempre as coisas são assim. Exemplificando e começando pelas coisas mais simples, nós mesmos recorremos ao testemunho de uma outra pessoa para confirmar alguma história que estamos contando a alguém. Não é assim? Dizemos: pergunte a fulano. E se esse fulano for uma pessoa idônea, nossa história terá o devido respaldo. Infelizmente, muitos desses fulanos tendem a confirmar nossas histórias, mesmo sem tê-las testemunhado. Isso pode se dar devido a laços de amizade ou por outros interesses. Até nos tribunais há quem jure dizer a verdade, com a mão sobre a Bíblia, mesmo ciente da mentira. Desse modo, inocentes são condenados, e culpados libertos, a depender dos homens da lei envolvidos no processo. Diante de sistemas assim, alguns preferem lavar as mãos, como fez Pilatos.

Quanto ao testemunho da imprensa escrita, radiofônica e a televisada, a “verdade” é, naturalmente, consumida pela grande maioria de seus seguidores, mesmo que as “pontinhas soltas” sinalizem questionamentos a serem feitos. Assim, dizemos: deu no rádio… li no jornal… vi na televisão e, portanto, tudo pode ser verdade. Aliás, será que é por essa razão que alguns acrescentam “só repassando”, quando reenviam certos textos cujo respaldo parece estar faltando? Isso os exime da responsabilidade sobre aquilo que passam adiante? Pois uma mentira, em formato jornalístico, por exemplo, pode destruir civilizações inteiras.

Considerando que assim é, se uma mídia utilizada para anunciar fatos verídicos vier a misturá-los com ou substituí-los por ficção, dificilmente o público perceberá a farsa, a menos que se anuncie, previamente, do que se trata. Foi o que aconteceu em 1938, nos Estados Unidos.

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Fig.2: Manchete do New York Times de 31/10/1938 sobre o pânico causado pelo programa ficcional de rádio levado a sério pelos ouvintes. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:WOTW-NYT-headline.jpg

Naquele ano, Orson Welles adaptou para o rádio a obra A Guerra dos Mundos de Herbert George Wells, lançado em capítulos em 1897 e, em livro, em 1898. A história trata da invasão de marcianos inteligentes à Terra. O drama radiofônico foi apresentado ao público em formato de boletim de notícias, interrompendo outro programa que estava no ar. No início da transmissão foi anunciado que se tratava de uma obra de ficção, mas os ouvintes que ligaram o rádio depois de iniciado o programa não ouviram o tal aviso. Resultado: houve pânico generalizado e colapso de todas as centrais telefônicas, devido à imensa quantidade de chamadas para a polícia, bombeiros e para a própria emissora de rádio. As ruas e estradas ficaram congestionadas, com pessoas tentando fugir da área invadida pelos marcianos e foram inúmeros os depoimentos dos que viram e ouviram as naves marcianas e seus ocupantes. Hipnose coletiva? Não duvido. Clique aqui para ver um doc sobre isso.

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Fig.3: Orson Welles reunido com repórteres, em uma tentativa de explicar que nenhum dos envolvidos na transmissão do drama radiofônico tinha ideia do pânico que causaria. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:Orson_Welles_War_of_the_Worlds_1938.jpg

O curioso é que, 3 décadas depois, a peça radiofônica de Orson Welles foi reescrita para o ano de 1968. Você diria: ah, mas a essa altura, todos já saberiam de que se tratava de uma obra de ficção. Errou. Aconteceu a mesma coisa, claro que numa proporção menor, já que o número de ouvintes tinha diminuído. De acordo com a Wikipedia, apesar das exaustivas chamadas anunciando a peça radiofônica de 1968, muitos acreditaram nos boletins e na cobertura jornalística (ficcional) que a todo instante interrompiam a programação musical do horário. O criador dessa versão, Jefferson Kaye, e o diretor Danny Kriegler chegaram a pensar que seriam demitidos, tal foi a confusão criada, que chegou a envolver até a força armada canadense, um jornal e vários oficiais da polícia local, além dos telefonemas de ouvintes assustados, todos crendo que a invasão alienígena era real.

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Fig.4: Placa comemorativa da famosa transmissão radiofônica, em West Windsor. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:Landingsite_statue.JPG

Isso ilustra muito bem a força que têm os meios de comunicação. Se nesses casos aqui descritos não havia a intenção de atingir as pessoas, imaginemos o que seria se tudo fosse intencional!  Com esse mecanismo, derrubam-se governos legítimos e sustentam-se farsas e farsantes. Não é à toa que a mídia carrega o rótulo de 4º Poder.

Que possamos usar essa força para a Paz.

Feliz 2017!

Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Ensino

REFERÊNCIAS:
https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Guerra_dos_Mundos_(livro)
https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)
https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_1968)