Dezembro em Festa!

As festas religiosas da Bahia são um patrimônio cultural do povo baiano, que resistiu bravamente ao processo de “modernização” do Brasil, no qual a Igreja Católica e os poderes públicos tentaram, a todo custo, controlar a religiosidade popular, retirando das festas de rua tudo àquilo que chamavam de “profano”. Mas esses esforços não surtiram efeito, e os “devotos continuaram transitando sem culpa entre os rituais católicos e os afro-brasileiros”[1]. No mês de dezembro celebramos Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição da Praia e Santa Luzia.

As festas populares, em dezembro, transformam as ruas de Salvador, estas se enchem de cores e gente! O calendário festivo religioso deste mês se inicia com a festa de Santa Bárbara, no dia 4 de dezembro. O culto à “Santa do Mercado”, como também é chamada, foi introduzido pelos portugueses na Bahia no início da colonização, sendo rapidamente abraçado pelo povo negro e humilde de Salvador. Os comerciantes do Mercado de Santa Bárbara (hoje desativado, mas no século XIX funcionava na Cidade Baixa) e os bombeiros adotaram a sua figura como protetora, e desde então organizam os folguedos em sua homenagem.

Festa de Santa Bárbara

Fonte: Web TV UFBA

Os preparativos para o culto à Nossa Senhora da Conceição ocorrem quase concomitante ao de Santa Bárbara, pois é no dia 8 que a procissão, organizada pela irmandade, saem às ruas para venerar a padroeira de Portugal e, ao menos até 1930, a padroeira do Império brasileiro. O culto e a organização da festa à Nossa Senhora da Conceição acontecem na igreja que leva seu nome, pela irmandade composta por membros da elite de Salvador. A festa de Santa Luzia, ocorre na rua do Pilar, no comércio, no dia 13. Em procissão, os fiéis seguem até a Fonte do Pilar, onde acreditam que, molhando os olhos com a água da fonte, a “Padroeira dos Olhos”, como também é conhecida, pode curar problemas oculares.

Festa para Nossa Senhora da Conceição da Praia

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Fonte: Amanda Oliveira

Todas essas festas têm em comum a mistura do canto e da dança dos índios e africanos com a cultura das procissões, propriamente ibéricas. Nas palavras da pesquisadora Edilece Souza Couto, “assim formou-se uma religiosidade voltada para o fervor da devoção dos santos, a diversão e a sensualidade, na qual não se pode distinguir com precisão as fronteiras entre o profano e o sagrado.”[1]Nas ruas, o povo promove o encontro indenitário entre santos católicos e os orixás. Assim sendo, Santa Bárbara e Iansã são combinadas em uma única entidade divina, do mesmo modo que ocorre com Nossa Senhora da Conceição e Iemanjá.

Até meados do século XIX, eram sobretudo as irmandades e as associações leigas que se responsabilizavam pela organização do evento nas ruas. À igreja católica, cabia a função dos sacramentos. No final do século XIX, mas sobretudo no governo de J.J. Seabra (1912 a 1916), ideias deturpadas de civilidade, entendiam ser necessário sufocar as manifestações populares, percebidas como “imorais” pela elite local. Por isso, era preciso “evitar manifestações lúdicas, não soltar fogos, impedir a mendicância, cultos e manifestações não católicas, principalmente as manifestações de matriz africana que traziam à memória a escravidão” [2]. A igreja católica tentou, sem sucesso, reformar as irmandades, ou mesmo substituí-las, para pôr fim aos chamados “festejos profanos”.

Quer saber mais sobre as festas religiosas na Bahia? Que tal assistir o canal da TV UFBA na Web! Você pode ver vídeos sobre a festa da Conceição da Praia e a festa de Santa Bárbara.

Vale também a pena conferir a tese de doutorado da proª da UFBA Edilece Souza Couto, intitulada “Tempo de Festas: Homenagens a Santa Bárbara, N. S. da Conceição e Sant’Ana em Salvador (1860-1940).

[1]Edilece Souza Couto. Tempos de festa: Homenagens a Santa Bárbara, N. S. da Conceição  e Sant`Ana em Salvador (1860-1940). Tese de Doutorado, 2004, p. 13. http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/103165/couto_es_dr_assis.pdf?sequence=1

[2] Fabiano Moreira da Silva. Resenha do livro “Tempos de festas: homenagem a Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e Sant’Ana em Salvador (1860-1940)” de Edilece Souza Couto. http://www.revistahistoria.ufba.br/2012_2/r01.pdf

[1] Fabiano Moreira da Silva. Resenha do livro “Tempos de festas: homenagem a Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e Sant’Ana em Salvador (1860-1940)” de Edilece Souza Couto. http://www.revistahistoria.ufba.br/2012_2/r01.pdf

GREENpense

 

Hi there!

We will move ahead!” Essa foi a frase que ambientalistas de vários países apresentaram com o término da COP 22. Do inglês Conference of the Parties, (Conferência das Partes – COP22) corresponde a 22ª Conferência da ONU sobre o Clima, em Marraquexe, no Marrocos, ocorrida em novembro com 196 países, inclusive, o Brasil. A presença de líderes mundiais definiram particularidades do regulamento que regerá o Acordo de Paris, que definirá as diretrizes universais para seguir em frente no combate ao aquecimento global.

monicaFig.1 Luciano Albuquerque. Frase exposta por ambientalistas na COP 22 “Nós seguiremos adiante.”

O Brasil também promove ações e políticas voltadas às questões ambientais. Da árvore que o nomeou, foi inaugurado o Parque Nacional do Pau Brasil, área de grande concentração de biodiversidade. Localizado no sul da Bahia, região de Porto Seguro e também chamada de Costa do Descobrimento, reúne espécies da fauna e flora da Mata Atlântica, um bioma que está em constante ameaça e muitos são os que sofrem! De acordo com registros, o número mundial de assassinatos de ambientalistas chega a 200 por ano e, no Brasil, soma um total de 50.

Muitas são as organizações de reconhecimento internacional, como por exemplo,

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Fig.2 Logo Greenpeace

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Fig.3 Logo  World Wide Foundation

 

 

 

 

 

 

que estão presentes em diferentes países que assumem o compromisso de proteger reservas ecológicas e dialogar acerca de questões ambientais presentes e futuras. O Greenpeace Brasil lança a cartilha intitulada: “E agora, José? O Brasil em tempos de mudanças climáticas” durante a 22a Conferência do Clima das Nações Unidas . O documento trata de estudos referentes ao aumento da temperatura do planeta. Ações emergenciais que precisam ser tomadas para um futuro breve. E, por falar em futuro, você poderia responder tal questionamento?

Do you think these aspects are going to become big problems in the future ?

Disappearence of green areas (Desaparecimento de áreas verdes)

Excess of carbon dioxide (Excesso de dióxido de carbono )

Disposal of waste (Eliminação de resíduos)

Burning of forests (Queimada de florestas)

Global warming (Aquecimento global)

Shortage of water (Escassez de água)

Basic Sanitary (Saneamento básico)

Nuclear plants (Usinas Nucleares)

River pollution (Poluição de rios)

Deforestation(Desmatamento)

Noise (Barulho)

Aliás, falar de questões ambientais numa projeção futura é o que será feito agora!

Vejamos duas formas de expressar o FUTURE TENSE. “Will” ou “going to”? Quem já não se fez essa pergunta?

O verbo auxiliar “will” é utilizado para fazer previsões, falar de possíveis eventos e ações futuras. Veja alguns exemplos:

  • Gas emissons will increase in 2020.

  • Will temperatures and sea levels rise?

  • Will tropical diseases like malaria and zika spread?

Já a formação do futuro com going to” expressa eventos planejados,predições, intenções. Estrutura:To be + going + to + verbo (infinitivo). Veja alguns exemplos:

  • We are going to study about environmental problems.

  • Are these aspects going to become big problems in the future?

  • I’m not going to use plastic trash bags.

Fácil, não? Para saber mais, acesse nosso ambiente, veja outras sugestões e exemplos!

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/conteudos-digitais/conteudo/exibir/id/5684

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/conteudos-digitais/conteudo/exibir/id/4073

Be green!

Mônica de Oliveira Mota

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Tecnologias Educacionais e o Antirracismo

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Mural no V SERNEGRA – IF Brasília – Foto: Carlos Barros

 

No mês dedicado à Consciência Negra, o Instituto Federal de Brasília (IFB) organizou a Semana de Reflexões Sobre Negritude, Gênero e Raça – SERNEGRA. Diz respeito a um evento técnico-científico, idealizado e organizado pelo Grupo de Pesquisa Estudos Culturais Sobre Classe, Gênero e Raça.

Neste ano (2016), aconteceu a quinta edição do SERNEGRA, trazendo reflexões sobre a luta antirracista no Brasil, a teoria e a práxis decolonial, abordando os eixos: a colonialidade do poder, do saber e fazer ser, debruçada sobre questões como a Geopolítica do Poder e a possibilidade de uma arte e de uma pedagogia decolonial.

A interculturalidade é o ponto forte desse Seminário, que contou com apresentações artísticas, oficinas, debates, filmes, palestra, simpósios temáticos com algumas das principais personalidades do mundo acadêmico, artístico e político que se propõem a debater o enfrentamento das questões raciais e de gênero no Brasil, Estiveram presentes: Adolfo Alban Achinte, Universidad Del Cauca – Unicauca/ ColômbiaPatricia Hill Collins, University Professor of Sociology at the University of Maryland, College Park, Nelson Fernando Inocêncio, Universidade de Brasília, Joaze Bernardino Costa, Universidade de Brasília, Vera Maria Ferrão  Candau, Universidade Católica do Rio de Janeiro, Wanderson Flor do Nascimento, Universidade de Brasília.

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Caderno de Resumos do V SERNEGRA – Foto: Carlos Barros

As tecnologias educacionais foram temas de debates, através de apresentações de projetos que trouxeram ações que difundem o antirracismo e que podem servir de exemplos para estudantes e professores, na prática pedagógica. Foram eles: Cine NEABI: educando para a diversidade (IF Roraima); Ikoloju: cibercultura e educação antirracista (UERJ); Documentários com estudantes de escolas públicas baianas (IAT – BA); Memórias e identidades: produção formativa de vídeos educacionais (IAT/UFBA); Violência no contexto escolar e racismo: um olhar a partir de um município do entorno do Distrito Federal (Universidade Nacional da Província de Buenos Aires e Faculdade Anhanguera de Valparaíso/GO – Kroton Educacional); e Programa Intervalo como tecnologia educacional na contribuição de práticas antirracistas: o caso do Quadro Histórias da Bahia (IAT- BA).

 Momentos como esse comprovam que as tecnologias aliadas ao processo educativo podem trazer benefícios tanto para a Educação, como para a compreensão da relevância do papel do cidadão em seu grupo social, estimulando a autonomia e a criticidade dos estudantes, principalmente, acerca de questões pouco presentes nos Livros Didáticos, como é o caso da Educação para as Relações Étnico-Raciais.

Raça Humana?

Qual a sua cor ou raça?

Essa pergunta faz parte do Censo, dos questionários para acesso às universidades e pode ser motivo de controvérsias e até mesmo dúvidas. O Censo 2010 detectou mudanças na composição da cor ou raça declarada no Brasil, visto que “dos 191 milhões de brasileiros, 91 milhões se classificaram como brancos, 15 milhões como pretos, 82 milhões como pardos, 2 milhões como amarelos e 817 mil como indígenas. Registrou-se uma redução da proporção de brancos, que em 2000 era 53,7% e em 2010 passou para 47,7%, e um crescimento de pretos (de 6,2% para 7,6%) e pardos (de 38,5% para 43,1%). Sendo assim, a população preta e parda passou a ser considerada maioria no Brasil (50,7%).”

Mas houve mesmo um aumento numérico na população autodeclarada parda e preta ou pessoas que se declaravam brancas passaram a não se reconhecer neste grupo?

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Fig. 1 – Tipos humanos. Fonte: Wikipedia

Observe a letra da música Mistura de Raças, um forró de autoria de Pinto do Acordeon e gravado por Genival Lacerda:

“Meu avô é holandês

Minha avó é africana

O meu pai é português

E a minha mãe baiana

Eu nasci na Paraíba

No recanto brasileiro

Onde as praias são bonitas

Onde o sol nasce primeiro

Tenho um parente inglês

Japonês, italiano

Tem um primo que é francês

O outro é índio alagoano

Sou mulato, sarará

Mais meu sangue é de primeira

É a mistura de raça

Da genética brasileira

O meu sangue viajou, navegou pelos mares

Foi parar no quilombo em zumbi dos palmares

O meu sangue viajou, navegou pelos mares”

O que há de verdade e de mito nessa letra? Que informações ela traz que podem ser exploradas em sala de aula? O será que se pensa sobre os termos “sarará” e “mulato”?

Foi parar no quilombo em Zumbi dos Palmares
O meu sangue viajou, navegou pelos mares

Agora que você fez uma reflexão sobre a música, vamos abordar o termo raça do ponto de vista “acadêmico”.

Fig. 1 – Tipos humanos.

Mas o que é mesmo raça?

A palavra raça apresenta múltiplas definições e pode ser definida como: “forma de estratificação social;  categoria social relacionada à classe; população que se distingue de outras pela freqüência com que herda traços físicos geneticamente; determinados grupo de pessoas classificadas em conjunto tendo por base uma história comum, nacionalidade ou distribuição geográfica; populações mais ou menos isoladas que diferem uma das outras pela freqüência de suas características hereditárias”, dentre outros aspectos.

Segundo Cavalli-Sforza (2003) raça é um termo que não possui o mesmo significado para todas as pessoas e sua definição pode depender dos motivos pelo qual é usada. “Qualquer classificação racial é arbitrária, imperfeita e difícil. Baseado em todas as  evidências disponíveis, não existem diferentes raças humanas do ponto de vista biológico”, e o mais fundamental aspecto biológico das raças está naquilo que as une e não naquilo que as separa.

Mas de onde vem essa ideologia de raças diferentes baseadas em aspectos físicos?

O  poligenismo, segundo a qual o Homo Sapiens tinha se originado de diferentes populações primitivas em várias partes do mundo foi bastante aceito até os anos 80 do século XX. Assim, os “ancestrais dos europeus teriam evoluído do homem de Neanderthal, os asiáticos do Homem de Pequim e assim por diante. Isso sugeria diferenças profundas entre as raças e, para alguns, uma hierarquia entre elas – talvez nem todas tivessem evoluído ao mesmo tempo e no mesmo ritmo. A partir de estudos genéticos e populacionais na década de 90 do século XX, foi possível mostrar que a espécie humana ao contrário do que se pensava, tem um antepassado comum que viveu na África há 144.000 anos.”

            As diferenças físicas (cor da pele, tipo de cabelo, etc) que deram origem à designação de raças, nada mais são que mudanças adaptativas as quais tem pouco a ver com a real distância genética entre as populações. Portanto, para a ciência, o conceito biológico de raças não se justifica. Somos todos humanos e nossas diferenças culturais, físicas, geográficas, econômicas, lingüísticas e religiosas não deveriam motivo para preconceito e discriminação. Somos iguais! Temos os mesmo direitos perante a nossa Constituição. Mas vale a pena discutir até que ponto essa igualdade se reflete no acesso a educação, à saúde, à políticas publicas, ao trabalho, dentre outras coisas.

Não apenas no Novembro Negro, mas em todo o currículo escolar, se faz necessário difundir o conhecimento, fomentar a reflexão e a discussão sobre os pré e pós conceitos que infelizmente ainda permeiam nosso contexto de vida.

Guel Pinna

Professora da Rede Estadual de Ensino

Referências bibliográficas

Gabriela Lamarca & Mario Vettore. A nova composição racial brasileira segundo o Censo 2010. Disponível em : http://dssbr.org/site/2012/01/a-nova-composicao-racial-brasileira-segundo-o-censo-2010/

Cristina M. M. Fortuna & Maria Betânia P. Toralles.  A Aplicação e o Conceito de Raça em Saúde Pública: Definições, Controvérsias e Sugestões para Uniformizar sua Utilização nas Pesquisas Biomédicas e na Prática Clínica . Disponível em: http://www.gmbahia.ufba.br/index.php/gmbahia/article/viewFile/355/344

S O Y Keita, R A Kittles et all. Conceptualizing human variation. Disponível em: http://www.nature.com/ng/journal/v36/n11s/full/ng1455.html

Norton Godoy. Somos todos um. Disponível em: http://labs.icb.ufmg.br/lbem/aulas/grad/evol/humevol/templeton

Resenha PW: Áfricas no Brasil

Oi! Tudo bem? Estamos no mês de novembro e, neste período do ano, todas as nossas publicações abordam aspectos da História e Cultura Africana. Assim, fortalecemos as ações do projeto Novembro Negro, que acontece em todo o estado.

Em 2003, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 10.639, que obriga a inclusão da temática da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da Rede de Ensino. Na instituição em que você estuda, os professores já estão implementando a Lei? E você, educador, tem encontrado bons materiais para levar a discussão para a sala de aula?

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Fig. 1: Áfricas no Brasil: linguagem simples e boas referências. Imagem: reprodução do site da editora Scipione

O livro Áfricas no Brasil, de Kelly Cristina Araujo, é um bom começo para isso. Publicada no mesmo ano de sanção da lei, a obra aborda, de forma bastante didática, “as tradições e costumes dos povos africanos que aportaram no Brasil”.

No primeiro capítulo, Onde fica a África?, a autora convida o leitor para prestar mais atenção ao continente, a fim de perceber o quão perto ele está de nós. Em seguida, no capítulo 2, As rotas para o Brasil, Kelly fala mais detidamente do tráfico de escravos, destacando a violência como isso foi feito. Religião e solidariedade: o candomblé e as irmandades dos homens pretos é o assunto do excelente capítulo 3. Nele, a autora coloca em debate os traços culturais da África que foram incorporados à cultura brasileira. Para isso, faz um recorte e fala sobre o candomblé e as irmandades católicas de negros. Kelly, obviamente, não deixa de citar a Bahia nessa parte: “O primeiro terreiro de candomblé do Brasil instalou-se em Salvador, na Bahia, conhecido hoje como Casa Branca do Engenho Velho”, p. 17.

O quarto (Um reino chamado Congo…) e o quinto (…E uma festa chamada congada) capítulos são complementares. A autora se debruça sobre o Congo e destaca as suas tradições, como as congadas. No sexto, A Capoeira, o jogo é o protagonista. Segundo Kelly, a capoeira “talvez seja a manifestação mais brasileira de todo o universo cultural afro-brasileiro”, p. 41. No capítulo, ela cita a capoeira angola e a capoeira regional e faz uma análise geral das características da manifestação. No sétimo e último capítulo, O Brasil na África, o destaque vai para as comunidades africanas com raízes brasileiras. No Benin, de acordo com a autora, os povos que se consideram “brasileiros” são chamados de agudá; na Nigéria, amarô. Nesse capítulo, Kelly fala sobre a cultura brasileira que foi levada para a África e as tradições comuns ao continente e ao país. Como exemplo, cita a festa do Nosso Senhor do Bonfim, que é comemorada no mês de janeiro, no Benin. Algo familiar à nossa cultura, não é?

O livro é voltado para crianças a partir de 11 anos, mas estudantes e educadores de todas as idades devem ler e aproveitar o que a autora coloca em discussão. É muito bom para começar.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Referência:

ARAUJO, Kelly Cristina. Áfricas no Brasil. São Paulo: Scipione, 2003. (Série Diálogo na Sala de Aula).

A África e o Comércio de Tecidos na Modernidade

Aprendemos nas escolas que no século XVIII houve profundas mudanças na estrutura de organização do trabalho. O trabalhador artesão foi substituído pelo operário na produção de manufaturas.  Este último, ao contrário do primeiro, foi destituído do conhecimento global do processo produtivo, bem como dos meios de produção, para tornar-se mão de obra subjugada ao “patrão”. Esse modelo foi exportado para diversas regiões do mundo, fazendo da Inglaterra o grande centro difusor de transformações econômicas e sociais. O objetivo era potencializar a produção, aumentando o quantitativo de tecidos para atender ao mercado externo. A indústria têxtil tornou-se, então, o carro chefe de todo esse processo. E para entendermos o porque da demanda por tecidos ter impactado tão profundamente o mercado mundial, a ponto de promover mudanças sociais tão profundas na Europa, que tal cruzarmos o Atlântico em direção a África centro-ocidental?

Fig. 1 Mapa da África

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Fonte: https://pt.wikipedia.org

A  África Centro Ocidental  corresponde aos territórios de Angola e parte do Congo, como podemos ver no mapa acima. No mapa abaixo, podemos localizar as diversas regiões que citaremos ao longo do texto!

Fig. 2 CARTE DES ROYAUMES DE CONGO ANGOLA et BENGUELA. Carta geográfica de Angola e do Congo, feita por Jacques Bellin (1703-1772). Avec les Pays Voisins. from Histoire Generale Des Voyages of A.F. Prevost d’Exiles.

mapa-angolaFonte: https://commons.wikimedia.org

Nos séculos XIII, XIV e XV, essa região era grande produtora de tecidos. Em 1611, o Congo Oriental exportava para Angola 100 mil metros de panos por ano, cifras estas que permitiram alguns historiadores comparar sua produção com a da Holanda. Estas fazendas eram produzidas a partir das fibras de plantas diversas, coloridos com takula, carvão,  giz ou através da exposição ao sol em diferentes períodos do dia.

Fig. 3 Textura da casca da fibra da palmeira com corda.

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Dreamstime1300 × 949Pesquisa por imagem

O uso dos tecidos mais belos era uma prerrogativa dos chefes africanos, a exemplo dos panos de libongo – também conhecidos como sambu ou nollolevieri. Das fibras do embondeiro, encontrada no Ndongo e no Congo, faziam-se tangas e sacos e das fibras da insandeira se produzia os tecidos chamados de kitundu. Em Loango, Ndembu e Congo, um tipo específico de pano, denominado mpusu, servia para a produção de roupas, cobertores e almofadas. A fibras de palmira-bordão, encontradas e manufaturadas no Loango e Congo, eram a matéria-prima para a produção da urila, bungu, maxze, kundi e meio-kundi. Uma parte considerável das sociedades do Loango trabalhava na atividade têxtil, fazendo dessa região o maior centro produtor de toda a África centro-ocidental. Estes tecidos eram empregados, sobretudo, na confecção de sacos, cobertores, esteiras e diversas peças do vestuário dos homens e mulheres africanas.

Os africanos utilizavam os tecidos não apenas para se vestir, mas também na decoração, nas cerimônias de cremação e casamento e nos rituais de iniciação dos jovens africanos. Uma das funções mais importantes dos tecidos, entretanto, era o de objeto-moeda. Isso mesmo, os tecidos serviam como dinheiro. Com os tecidos, os africanos pagavam tributos, compravam alimentos e serviços. Por isso, os comerciantes europeus que quisessem negociar na África tinham que levar fazendas, dentre outras mercadorias. Inicialmente estes tecidos exportados para o continente africano eram adquiridos na Índia e na China, mas com o passar do tempo, varias regiões na Europa passaram a produzir panos. Dessa forma, o fato da indústria têxtil ter sido o carro chefe da revolução industrial está diretamente ligado a dinâmica econômica e social do continente africano.

Quer saber mais sobre os tecidos africanos durante o período moderno e o impacto disso na Europa e no resto do mundo? Confira as sugestões de leitura!

– KAZUO, Kobayashi. British Atlantic Slave Trade and East Indian Textiles, 1650-1808. In: Exploring Global Linkages between Asian Maritime World and Trans-Atlantic World: Global History and Maritime Asia Working Paper, v. 19, p. 26-52, (Nov. 2011).
– MILLER. Joseph. C. Way of Death: Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade (1730-1830). EUA: Copyright, 1988.
 – PARREIRA, Adriano. Economia e Sociedade em Angola na Época da Rainha Jinga (séc. XVII). Lisboa: Editorial Estampa, 1999.

A Luta dos Movimentos Negros na Tela do Cinema

Olá, galerinha do PW! No mês de novembro, celebramos o Dia Nacional da Consciência Negra, e não posso deixar de recomendar dois filmes que me inspiraram a escrever este texto: “Até o Fim” e “Selma”. Esses dois filmes são fascinantes e abordam, dentro de um contexto histórico, a luta dos negros afro-americanos pelos direitos civis nos Estados Unidos. Sei que muitos  leitores devem achar irrelevante falar sobre a história de outro país, enquanto poderíamos exaltar a nossa, no entanto, esses filmes tratam, dentro de um contexto social e político, a vida de  Martin Luther King. Conhecendo um pouco da sua trajetória, vejo a influência de seus ideais no movimento negro no Brasil e no mundo.

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Martin Luther King – Disponível em Wikimedia, acessado 04/11/16

Os negros americanos foram escravizados de 1619 a 1863, todavia, mesmo com o fim da escravidão, os negros americanos permaneceram segregados por um longo tempo, apesar de a Constituição americana garantir os direitos fundamentais a todos os cidadãos. Nesse período, uma doutrina jurídica chamada “Separados, mas iguais”  permitia que o governo deixasse que os setores públicos ou  privados como de serviços, instalações, acomodações, moradia, cuidados médicos, emprego e transporte pudessem ser separados baseados na raça. Assim, os negros eram obrigados a frequentar escolas só para negros, tinham banheiros em repartições públicas e privadas destinados somente a eles e em muitos estados americanos eram obrigados a ceder o lugar num coletivo caso um branco estivesse de pé.  Outro direito civil regulamentado pela Constituição desde 1870 e negado aos negros por quase cem anos após o fim da escravidão, principalmente nos estados do sul, foi o voto. Para conter a participação dos negros pobres nas eleições, alguns estados passaram a instituir taxas ou a exigir que o eleitor passasse por uma avaliação escrita antes de votar. Essa situação é muito bem retratada no filme ”Selma”. Além disso, grupos violentos denominados Ku Klux Klan ameaçavam os negros, tentando desencorajá-los de chegar às urnas.

Muitos negros não aceitavam esse tipo de tratamento e destaco, entre eles, a atitude de Rosa Parks, mulher negra que se negou a ceder seu lugar num coletivo para uma mulher branca e, por essa atitude, foi presa. A partir da década de 60, indivíduos como Martin Luther King ,  Malcolm X, Rosa Parks  e outros passaram a lutar pelos diretos civis dos negros nos Estados Unidos. O ativista Malcolm X conduziu parte do movimento negro com o princípio da violência como forma de autodefesa. Ou seja, a violência não era uma forma de barbárie, mas um meio legítimo de conquistas, afinal as grandes mudanças na história da humanidade se deram dessa forma. Ao contrário de Malcolm X, o pastor protestante Martin Luther King conduziu o movimento negro inspirado em  Mahatma Gandhi, que tinha como princípios: coagir as autoridades através da desobediência civil e a prática da não violência. Ele organizou diversas marchas com o propósito de pôr um fim na segregação racial e de assegurar o voto a toda comunidade negra, que mais tarde teria os direitos assegurados com a Lei dos Direitos Civis (1964) e a Lei dos Direitos Eleitorais (1965), ambas fruto desses movimentos e abordadas no filme “Até o Fim”.  Por obra da sua liderança e resistência não violenta e pelo fim do preconceito, em 1964, King recebe o Prêmio Nobel da Paz. A postura e os ideais de igualdade de King incomodaram a muito segmentos da sociedade americana, dentre eles o FBI, que, representado na pessoa a John Edgar Hoover, considerou-o um radical e comunista e por isso investigou sua vida, através de grampos telefônicos. Anonimamente, ameaçava sua vida através de cartas, que, apesar de tudo, nunca o intimidou.

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Assinatura da lei dos Direitos Civis – Disponível na Wikimedia, acessado em 04/11/16

A postura de King culminou no seu assassinato em 04 de abril de 1968, momentos antes de uma marcha. Nos anos seguintes, contudo, muitos líderes dos direitos civis continuaram a trabalhar pela igualdade racial nas instâncias políticas.

A luta e os ideais de King e de seus contemporâneos repercutiram e influenciaram movimentos similares em todo o mundo, levando as comunidades negras a reivindicar por direitos de igualdade e oportunidade. Nos anos que sucederam a sua morte, o número de negros em repartições públicas, na política e mais tarde com a eleição de Barack Obama na própria presidência se tornaria marcos na história dos Estados Unidos.

Até a próxima!

Referências:

Enciclopédia Livre, Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Luther_King_Jr. Acesso em 2 de outubro de 2016.

Enciclopédia Livre, Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Malcolm_X. Acesso em 2 de outubro de 2016.

Enciclopédia Livre, Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Loyd_Jowers. Acesso em 2 de outubro de 2016.

Enciclopédia Livre, Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_da_Consci%C3%AAncia_Negrahttp://escola.britannica.com.br/article/480991/Movimento-pelos-Direitos-Civis. Acesso em 2 de outubro de 2016.

Enciclopédia Livre, Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mahatma_Gandhi. Acesso em 2 de outubro de 2016.