Suicídio, Adolescência e Redes Sociais

Atualmente, o tema do suicídio entre adolescentes passou a ser centro de diversos debates, principalmente após o destaque alarmista dado pela mídia ao jogo Baleia Azul, um desafio virtual cujo objetivo final seria levar o jogador a cometer o suicídio, tendo como vítimas preferenciais os adolescentes. A repercussão alarmista em torno desse jogo trouxe a tona, um dos temas, considerado grande tabu da nossa sociedade: o suicídio. A adolescência é um período da vida humana em que estamos mais vulneráveis à ideação suicida, e essa conjuntura se torna ainda mais perigosa quando parte de um universo desconhecido para pais e professores: a vivência dos adolescentes na Web.

Tendo em vista essas questões, o Blog entrevista nessa edição Juliana Cunha coordenadora psicossocial da SaferNet Brasil, um órgão que atua na defesa e prevenção contra crimes na web, relacionados aos direitos humanos. A SaferNet alerta que o jogo da Baleia Azul se difundiu a partir de uma noticia falsa de cunho alarmista, que teve um impacto grande na sociedade por envolver  adolescentes, risco de morte e internet. Esses componentes são um forte atrativo quando agregados a uma notícia e capturam facilmente a atenção de um grande número de pessoas.

Aos poucos a notícia gerou uma histeria coletiva e criminosos passaram a replicar a ideia do jogo, atraindo a atenção dos adolescentes. Juliana Cunha alerta sobre a necessidade de que “Sejamos usuários menos ingênuos” desconfiando de notícias que tenham esse teor. É preciso checar sempre a veracidade das fontes. Nesse processo, a escola tem um papel fundamental e deve assumir o papel de discutir sobre segurança e liberdade na Web. Com a palavras, Juliana Cunha:

 

O suicídio é um problema grave de saúde pública no Brasil e no mundo. Segundo a OMS está entre as três causas de morte mais frequentes em populações de 15 a 44 anos, trata-se, portanto de um tema delicado e que merece um tratamento cuidadoso por parte das unidades escolares, professores e profissionais de saúde, já que as causas são multifatoriais. Na Bahia o NEPS (Núcleo de estudos e prevenção ao Suicídio) atua no Hospital Roberto Santos e trabalha na prevenção do suicídio os profissionais desse setor elaboraram uma cartilha que você pode acessar aqui no Ambiente Educacional WEB.

 

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Temos disponível também a cartilha recomendada pelo Conselho Brasileiro de Psiquiatria Leia, Informe-se. Estudantes e professores precisam estar atentos contra o desrespeito aos direitos humanos na Web, que está longe de ser uma terra sem lei, em que se podem cometer crimes de forma inconsequente, há muito de bom a ser aproveitado, mas muitos perigos também estamos atentos! Para saber mais, acesse o novo portal da SaferNet abaixo:

 

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EQUIPE:

Valdineia Oliveira (Texto)

Peterson Azevedo (Produção e imagem)

Rodrigo Maciel (edição)

 

REFERÊNCIAS 

BORGES, Vivian Roxo; Werlang Blanca Susana Guevara. Estudo de Ideação suicida em adlescentes de 15 a 19 anos. Estu. psicol. (Natal) vol. 11 no. 3 Natal Sept./Dec. 2006.

Portal da Fiocruz – https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/suicidio-deve-ser-tratado-como-questao-de-saude-publica-alertam-pesquisadores

SaferNet – http://new.safernet.org.br/

Organização Pan Americana de Saúde – http://www.paho.org/bra/

http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2017/04/serie-13-reasons-why-foge-a-cartilha-da-oms/

 

Raios!

Chuva forte, ventos, raios e trovões compõem um cenário que inquieta muita gente! Antigamente, e ainda hoje, não é raro deparar-se com pessoas que, durante a ocorrência de tempestades, cobrem todos os espelhos com toalhas e lençóis, guardam todas as tesouras e facas da casa, de forma a evitar a sua exposição. Isso porque, segundo o conhecimento popular, esses utensílios têm a propriedade de atrair raios.

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Disponível em pixabay, acessado em 16/06/2017

Os mitos acerca dos raios e trovões não são de hoje, datam de períodos muito antigos. Os babilônicos, por exemplo, acreditavam que o deus Adad carregava um bumerangue em uma das mãos, que quando lançado, provocava o trovão. E, na outra mão, empunhava uma lança, que, quando arremessada, produzia os raios. Já os gregos acreditavam que os raios eram lanças forjadas por gigantes ciclope . Segundo a mitologia, eles trabalhavam como ferreiros, fabricando-as, para que Zeus, o rei dos deuses, as atirasse sobre os homens pecadores e arrogantes.

A partir do século XVIII, os raios começaram a ser compreendidos sob o ponto de vista da ciência. Os primeiros estudos sistemáticos foram realizados em 1752, em Paris, por Thomas François Dalibard. Ele suspeitava que os raios estivessem associados à eletricidade estática e, por isso, se propôs a subir no alto de uma montanha durante uma tempestade, onde colocou uma haste metálica isolada do chão e logo em seguida, utilizando os dedos, verificou que pulavam faíscas em direção a eles. Comprovando, assim, a natureza elétrica das descargas atmosféricas. Posteriormente, várias experiências foram feitas, sendo a mais conhecida a realizada pelo americano Benjamin Franklin. Segundo a história, Franklin empinou uma pipa num dia de tempestade e observou que faíscas pulavam de uma chave amarrada próximo da extremidade da linha à sua mão. Confirmando aquilo que Tomas François já havia constatado no seu experimento.

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Disponível em pixabay, acessado em 16/06/2017

Hoje, sabemos que os relâmpagos têm a sua origem na eletrização das nuvens, gerando, assim, campos elétricos intensos; que, quando atingem níveis críticos, quebram a rigidez dielétrica do ar, possibilitando a descarga elétrica entre nuvens ou entre as nuvens e o solo. Essas descargas provocam o aquecimento abrupto do ar que se expande, gerando os estrondos que conhecemos como trovão. Apesar de se tratar do mesmo fenômeno, percebemos o trovão e o relâmpago em momentos distintos. Isso ocorre porque o som e a luz possuem velocidades diferentes. Como sabemos, a luz (300.000.000 m/s) é muito mais rápida que o som (340 m/s), por isso é percebido muito antes, ocasionando a falsa sensação de que se tratam de fenômenos diferentes.

Por mais bonitos e atraentes que sejam, os relâmpagos representam um grande perigo. Isso porque, ao atingir o corpo humano, a corrente elétrica gerada por eles pode causar queimaduras, parada cardiorrespiratória e o óbito do indivíduo.

Os raios têm uma probabilidade maior de atingir os pontos mais altos, locais descampados, piscinas, praias, campos de futebol e árvores isoladas. Assim, durante uma tempestade, deve-se evitar esses locais. Caso esteja dentro de um veículo, evite sair dele. O carro é o local mais seguro para se abrigar dos raios. Ele funciona como uma gaiola de Faraday, anulando o campo elétrico no seu interior. E, finalmente, não precisa mais cobrir os espelhos de casa! Eles não atraem os raios! Até hoje, não foi encontrada nenhuma relação entre eles, até porque o espelho é feito de vidro, material que não conduz bem a eletricidade, logo não oferece nenhum perigo. Já os metais, principalmente os pontiagudos, devem ser evitados, já que eles são bons condutores de eletricidade. Por medida de segurança, desligue os eletroeletrônicos e evite fazer ligações no telefone fixo!

Aprenda mais sobre os raios, acessando agora o Ambiente  Educacional Web!

Referências:

INSTITUTO DE FÍSICA DE SÃO CARLOS. Eletricidade prejudicial ou fundamental?. Disponível em: <http://www.ifsc.usp.br/index.php?option=com_content&view=article&id=926:desvendando-raios-eletricida-prejudicial-ou-fundamental&catid=7:noticias&Itemid=224>. Acesso em: 13 de junho de 2017.

 

 

Mulheres negras no cotidiano da cidade de salvador no século XIX

 

Olá, pessoal do PW!

Vocês já pararam para pensar sobre as experiências sociais das mulheres no passado? Esse texto convida a refletir a esse respeito, incorporando ao nosso repertório de conhecimentos histórias sobre mulheres negras no cotidiano da Bahia do século XIX.

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Mulher negra na Bahia. 1885. Por: Marc Ferrez

A família e a sociedade no Brasil são temas comumente pensados a partir dos pressupostos teóricos de Gilberto Freyre, na obra Casa Grande & Senzala (1933). Em seus escritos, as mulheres negras comparecem na condição de escravas a serviço da lavoura e da casa grande. É importante que professores e estudantes não se acostumem a pensar em um Brasil constituído assim, sob essa hierarquia estática e imutável. A realidade social é bem mais fluida e dinâmica e a historiografia tem sido acrescida de pesquisas que descrevem trajetórias de mulheres negras que tiveram um papel social mais amplo do que apenas escravas. É importante que professores e estudantes pesquisem e conheçam outras faces do cotidiano feminino no período oitocentista, para não incorrer no equívoco de pensar que apenas homens brancos fizeram história.

Como exemplo desse acréscimo de pesquisas, temos as discussões da  antropóloga Cecília Moreira Soares (1994) sobre como as mulheres negras tiveram um papel destacado no mercado de trabalho urbano, tanto como escravas de ganho quanto como mulheres livres e libertas, sublinhando que no espaço da rua elas tinham possibilidade de ter uma posição mais autônoma. Elas circulavam na cidade com seus tabuleiros, gamelas e cestas, ocupando ruas, praças e mercados. É preciso conhecer essas novas pesquisas que dão visibilidade às experiências sociais das mulheres negras. Jane de Jesus Soares (2009) pesquisou arranjos familiares na cidade de Salvador, reconstituindo a geografia da freguesia da Sé no século XIX e constatou que mulheres negras assumiam a posição de chefes de família na Salvador oitocentista. Adriana Dantas Reis Alves traz como objeto de sua tese a escrava jeje Luzia Gomes de Azevedo, que teve seis filhos com o senhor de Engenho Manoel de Oliveira Barroso, morador da freguesia de Paripe. O que chama a atenção na trajetória de vida dessa escrava é o fato de que os seis filhos foram legitimados pelo capitão e reconhecidos como seus herdeiros.

Esse é uma pequeno ensaio que tem por fim trazer um recorte da área de pesquisa sobre mulheres negras na Bahia, mostrando como esse tema é profícuo e importante para toda a comunidade escolar.

Valdineia Oliveira

Prof. de História da Rede pública Estadual da Bahia

FONTES:

ALVES, Adriana Dantas Reis. As Mulheres Negras por Cima O Caso de Luzia Jeje: escravidão, Família e Mobilidade Social – Bahia, 1780 -1830. (Tese de doutorado) UFF, 2010.

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Editora Record, Rio de Janeiro, 1998,  34ª edição.

SOARES, Cecília Moreira. Mulher Negra na Bahia do Século XIX. (dissertação de mestrado) UFBA, Salvador 1994.

SOARES, Jane de Jesus. Mulheres Chefes de Família, Maternidade e Cor na Bahia do Século XIX. Feira de Santana, UEFS, 2009.

Fique ligado!

 

Olá, pessoal! Preparado?

É positivamente válido revelar experiências exitosas no cenário educacional, notadamente, quando elas vêm de sujeitos que valorizam e lutam por uma educação cada vez melhor.

O quadro “Faça Acontecer” que integra o Programa Intervalo da TV Anísio Teixeira (TVAT)/ Rede Anísio Teixeira  trata-se de um documentário em que, educandos da rede estadual de ensino, participam de atividades, seleções ou premiações incentivadas pela Secretaria Estadual de Educação e Cultura / SEC.

Atavés dos projetos que estimulam o pensar educativo, científico, cultural e tecnológico orientados pela Lei de Diretrizes e Bases (Lei 9394 de 20 de dezembro de 1996) como: Festival Anual da Canção Estudantil (FACE), Artes Visuais Estudantis (AVE),Projeto Tempos de Arte Literária (TAL),Produções Visuais Estudantis (PROVE), Feiras de Matemática, Feira de Ciências e Jogos Estudantis da Rede Pública (JERP) para o fomento de atividades socioculturais que, para além dessa proposta, são atividades que estimulam a criatividade e criticidade  dos educandos com o propósito de valorização e divulgação de um produto, sem perder de vista sobretudo, o reconhecimento das questões identitárias dos sujeitos.

A proposta do “Faça Acontecer” versa por diferentes áreas do conhecimento o que permite, portanto, um diálogo interdisciplinar. O ponto forte desse quadro é, sem dúvida, revelar as potencialidades bem como o protagonismo estudantil dando visibilidade à sua produção e criação, claramente percebido  na fala do educando Pablo de Jesus,participante do AVE 2010,de Morro do Chapéu -BA. Assista ao vídeo abaixo e confira!

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Como fica evidente, o documentário aborda , a trajetória do estudante até a conquista da premiação, o enfrentamento e a superação de suas dificuldades revelando, consideravelmente, o papel da família e da comunidade escolar como os pilares para a realização do desejo de cada participante.  Para assistir aos demais vídeos acesse nosso ambiente!

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/episodios/id/6

Por fim, o “Faça Acontecer” é uma grande oportunidade de mostrar a sociedade  as potencialidades dos educandos . A exemplo de Mirela Andrade de Jeremoabo- BA, com seu projeto “A Geografia da fome” revela  grande contribuição  para um problema bastante gritante,  não somente no nosso contexto social, mas global. Seu trabalho científico ganhou a Feira de Ciências da Bahia em 2011 e teve ainda repercussão nacional  na Feira Brasileira  de Ciências e Engenharia (FEBRACE) em 2012 .

  Então! O que está esperando? Você, como muitos e tantos outros, pode ser o protagonista do próximo “Faça Acontecer”! Portanto, fique ligado no “Encontro Estudantil” e revele seu talento!

Mônica de Oliveira Mota

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Feminismo: isso é coisa de quem luta por igualdade de direitos

Em 2015, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) trouxe temáticas que estão na pauta do movimento feminista em duas de suas provas: a de Redação e a de Ciências Humanas e suas Tecnologias. Obviamente, o fato de os responsáveis pelo ENEM abordarem tal assunto não foi à toa. A necessidade de discutir feminismo parte de uma demanda social urgente, que tem no seu cerne a luta por direitos iguais para todos os gêneros.

De acordo com a historiadora e cientista política Céli Regina Jardim Pinto, a chamada primeira onda do feminismo aconteceu a partir das últimas décadas do século XIX, quando as mulheres, primeiro na Inglaterra, organizaram-se para lutar por seus direitos, sendo que o primeiro deles que se popularizou foi o direito ao voto”, p. 15. No Brasil, o ponto de partida da luta feminista se deu no início do século XX, através de Bertha Lutz, também tendo o direito ao voto como principal bandeira. Contudo, ao longo do tempo, outras pautas tornaram-se necessárias para o movimento. Por isso, é possível dizer que há vários feminismos.

Fig. 1: Simone de Beauvoir: referência máxima do movimento feminista. Imagem: reprodução do site The Simone de Beauvoir Society

Nesse sentido, existem grupos feministas que reivindicam questões específicas, a exemplo das lésbicas, das mulheres negras e das mulheres trans. Obviamente, há temas que são comuns a todo mundo, como a busca pelo fim da desigualdade salarial entre homens e mulheres que exercem a mesma função, a liberdade sexual, a descriminalização do aborto, o fim da violência doméstica e da cultura do estupro, entre outras. Para as feministas, a sociedade deve entender e respeitar que as mulheres são livres para fazer as próprias escolhas. Feminismo não é o contrário de machismo, que é uma forma de dominação socialmente aceita e, ainda hoje, incentivada. Ser feminista é ter consciência de que os direitos devem, de fato, ser iguais, tanto para homens quanto para mulheres.

A prova de Ciência Humanas do ENEM 2015, na questão 42, reproduziu o seguinte trecho do livro O Segundo Sexo, da filósofa francesa Simone de Beauvoir, referência máxima quando se fala em movimento feminista: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”. O que Beauvoir quis dizer? Djamila Ribeiro, em texto publicado no site da revista Carta Capital, explica: “…ao dizer que ‘não se nasce mulher, torna-se’, a filósofa francesa distingue entre a construção do ‘gênero’ e o ‘sexo dado’ e mostra que não seria possível atribuir às mulheres certos valores e comportamentos sociais como biologicamente determinados”. Então, repetir frases como “Isso é coisa de mulher”, é um dos equívocos de que precisamos nos desfazer para assumir uma postura menos machista. Afinal, ninguém nasce machista, torna-se.

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Referências:

ENEM 2015. Exame Nacional do Ensino Médio. INEP: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Ministério da Educação. Prova de Redação e de Linguagens Códigos e suas Tecnologias, Prova de Matemática e suas Tecnologias. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/provas/2015.pdf>. Acesso em: 31 mar. 2016.

ENEM 2015. Exame Nacional do Ensino Médio. INEP: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Ministério da Educação. Prova de Ciências Humanas e suas Tecnologias, Prova de Ciências da Natureza e suas Tecnologias. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/provas/2015.pdf>. Acesso em: 31 mar. 2016.

PINTO, Céli Regina Jardim. Feminismo, História e Poder. Revista de Sociologia Política, Curitiba, v. 18, n. 36, p. 15-23, jun. 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsocp/v18n36/03.pdf>. Acesso em: 31 mar. 2016.

RIBEIRO, Djamila. Simone de Beauvoir e a imbecilidade sem limites de Feliciano e Gentili. Carta Capital, Opinião, Sociedade, 3 nov. 2015. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/sociedade/simone-de-beauvoir-e-a-imbecilidade-sem-limites-de-feliciano-e-gentili-6444.html>. Acesso em: 31 mar. 2016.

Fontes para a história da Bahia

O ensino de história da Bahia é muito prejudicado nas unidades escolares, principalmente, pela escassez de fontes, tendo em vista que os livros didáticos, na maioria das vezes, focam sua análise na perspectiva eurocêntrica, em que a visão sobre a história local fica prejudicada.

Na prática de muitos professores, prevalece a ênfase nos eventos que acontecem na Europa, América e Brasil, sem conexão com o contexto da cidade em que os estudantes vivem. O autor Michel de Certeau, em A Escrita da História (1982), apresenta um ponto de vista importante sobre essa problemática ao afirmar que o passado europeu tem um papel central na análise histórica.

É preciso viabilizar um ensino de história que privilegie a memória local, a pesquisa e a aprendizagem dos alunos sobre o fazer histórico. Toda cidade é singular, tem uma memória, uma trajetória sócio-histórica a ser desvelada pelo olhar interessado de pesquisadores, um professor de história comprometido com a aprendizagem dos estudantes identifica as fontes para esses conhecimentos a partir do espaço em seu entorno. A cidade em que a unidade escolar está inserida é fecunda em experiências sociais, dinâmica e está em constante interação com o restante do país e do mundo. O professor de história precisa mostrar como essa disciplina produz seu conhecimento para que o fazer histórico não seja pensando como algo amorfo e desvinculado de sua realidade social. A pesquisa é a melhor metodologia para alcançar esse resultado, principalmente quando as fontes são os artefatos culturais oferecidos pela cidade em que o estudante mora.

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Fig 01: Anais do Arquivo do Estado da Bahia.

As fontes históricas são o material o qual os historiadores se apropriam por meio de abordagens específicas, métodos diferentes, técnicas variadas para tecerem seus discursos históricos (PINSK, 2005, p.07). O conceito de fontes históricas tornou-se bastante amplo ao longo do tempo, além dos documentos escritos, inclui entrevistas, jornais antigos, fotografias, monumentos, correspondências etc.

A pesquisa sobre história local abre uma importante possibilidade de análise sobre diversos aspectos da vida social, cultural e cotidiana  a partir do uso de fontes constantes em arquivos públicos de diversos tipos. Muitas cidades têm arquivos sobre sua história que são públicos, outros estão alocados em fóruns, delegacias, prefeituras, museus e esses acervos podem ser uma importante fonte de consulta para a história do município. Em Salvador, contamos com o Arquivo Público da Bahia e o Arquivo Municipal de Salvador. Não devemos, principalmente, esquecer o valor memorialístico dos mais velhos, um acervo de conhecimentos inestimável sobre a memória da cidade e que deve ser reverenciado como nos lembra o mestre da tradição oral  Amadou Hampâté-Bâ: “Na África quando um velho morre, uma biblioteca se incendeia” (Hampâté Bâ: 1999, 1) Percebe-se então como a pesquisa  histórica pode ser uma ponte para problematizar o papel social dos mais velhos, o valor da memória como fonte de conhecimento e fortalecer a relação entre gerações.

É importante que os estudantes e professores percebam que o fazer histórico não é algo tão distante, centrado  no ambiente acadêmico. O papel dos professores é, sobretudo, o de estimular a iniciativa dos estudantes por meio de uma problematização levantada em sala de aula, uma questão que suscite a curiosidade dos estudantes e os estimulem a buscar o conhecimento  histórico em suas fontes, que podem ser, as mais  diversas.

No vídeo abaixo, vemos um exemplo importante de como os professores podem estimular o gosto pela pesquisa  em seus alunos, através do contato com as fontes históricas:

 

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/conteudos-digitais/conteudo/incorporar-conteudo/id/3873

 

 

Valdineia Oliveira dos Santos

Professora de História da Rede Estadual de Ensino

 

REFERÊNCIAS:

FONSECA, Selva Guimarães. Didática e prática de ensino de História. Campinas – SP: Papirus, 2005.

CERTEAU, Michel de. A Escrita da História. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1982.

PINSK, Carla Bassanezi. Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005.

XAVIER, Erica da Silva. Ensino e história: o uso das fontes históricas como ferramentas na produção de conhecimento histórico.Disponível em: http://www.uel.br/eventos/sepech/sumarios/temas/ensino_e_historia_o_uso_das_fontes_historicas_como_ferramentas_na_producao_de_conhecimento_historico.pdf

Possibilidades

Nos processos pedagógicos[1] assumimos, muitas vezes, posturas radicais no sentido das definições disto ou daquilo. Conhecer, interpretar e agir diferem de pessoa para pessoa, por termos o tempo e a cultura em constante transformação. Paulo Freire, em sua trajetória questionadora, estimula e provoca constantemente a liberdade de associações e expressões de modo que não existam distinções ou privilégios de classes hereditárias ou arbitrárias. Referindo-se à relação entre educando e educadores qualquer que seja o lugar que ocupemos no momento, ele diz: “uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas”.

Contudo, está associado à ciência o pensar, o ser objetivo, remetendo ao grego ísos=igual. A ciência possui conhecimentos sistematizados, adquiridos via observação, identificação, pesquisa. Suas explicações são formuladas  através de determinadas categorias que buscam explicar fenômenos e fatos, formulados metódica e racionalmente. A ciência baseia seus conhecimentos em provas, princípios, argumentações ou demonstrações que garantam ou legitimem a sua validade. Por outro lado, a subjetividade associa-se ao conhecimento  para a qual a distinção entre verdadeiro e falso não tem valor objetivo, que agrega o mito ou desigual ou aníso do grego: anísos.

Essa dicotomia entre esses conceitos relativos ao pensar leva-nos a um dos mitos africanos o Espelho de Olorum. Diz a lenda que no princípio havia só uma verdade no mundo. Orun que era o mundo invisível, espiritual, um grande espelho e Aiyê, ou mundo natural. Sendo assim, tudo que estava no mundo espiritual, Orun, se materializava, refletia no Aiyê. Assim, todos os acontecimentos eram verdadeiros! O espelho da Verdade ficava entre os dois: Orun e Aiyê. No mundo natural, havia uma jovem chamada Mahura, que ajudava sua mãe pilando inhame. Certo dia, sua mão tocou no espelho e se espatifou pelo mundo.  Mahura tenta pedir desculpas para Olorum (o Deus Supremo). Olorum a escuta e determina que a partir daquele dia não existirá mais uma verdade única. Como o espelho espelha a imagem onde ele se encontra, cada parte do espelho será uma parte da verdade.

Se na prática humana existe a experiência ou experiências, do latim experientìa, significando prova, ensaio, tentativa; exame, prática, sapiência como também: ato ou efeito de experimentar(-se)[2] . Esse experienciar igual a experimentar pode assumir o caráter de contingência, incerteza se algo acontecerá ou não ou de contundência, de forma incisiva, categórica, terminante. Questões muito claras e distintas nos são exibidas no dia a dia.  É como se estivéssemos tentando atravessar uma linha férrea onde devemos: parar, escutar, olhar para os lados, observar e seguir, se for o caso. Então, cada ser humano identifica e apreende o conhecimento baseado em suas vivências ou experiências. É impossível vermos com o “mundo” do outro um mesmo objeto.

Sendo assim, podemos deduzir que o tempo através da cultura pode transformar um mesmo conceito ou ponto de vista. Como diz o grande pensador Sócrates e o seu método, a maiêutica (grego maieutike), aprendemos a partir do diálogo a descoberta da verdade individual, o que nos leva a entender que não existe uma constituição solitária. Citando também outro pensador, Gaston Bachelard: ” Resta, então, a tarefa mais difícil: colocar a cultura científica em estado de mobilização permanente, substituir o saber fechado e estático por um conhecimento aberto e dinâmico, dialetizar todas as variáveis experimentais, oferecer enfim à razão razões para evoluir”.

Sendo assim, em termos de verdades, a única coisa que podemos dizer é: no momento!

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REFERÊNCIAS:

BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de janeiro:Contraponto, 1996.

DESCOBERTA. In. BARROS JR., José Jardim de. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001. 1 CD-ROM

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 43. ed., São Paulo: Paz e Terra, 2011.

[1] https://www.dicio.com.br/pedagogico/ ciência que se dedica ao processo de educação dos jovens, estudando os problemas que se relacionam com o seu desenvolvimento.

[2] 1) Experimentação, experimento (método científico) ;2) Qualquer conhecimento obtido por meio dos sentidos ;3) Forma de conhecimento abrangente, não organizado, ou de sabedoria, adquirida de maneira espontânea durante a vida; prática 4) Forma de conhecimento específico, ou de perícia, que,adquirida por meio de aprendizado sistemático, se aprimora com o correr do tempo; prática 5) Tentativa, ensaio, prova.

Fátima Coelho

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia