About Peterson Azevedo

Geógrafo, Fotógrafo e produtor de mídias educacionais livres da Rede Anísio Teixeira, SEC- BA.

A Geografia e seus caminhos – contribuições na era da informação

Fala, galera! Beleza?

Raso da Catarina

Fig. 1: Raso da Catarina, Glória – BA. Crédito: Peterson Azevedo

Hoje, nosso papo é sobre os caminhos trilhados pela geografia contemporânea ou como alguns autores costumam chamar: geografia crítica. O termo “geografia” é utilizado desde o período conhecido como Antiguidade Clássica, termo muito utilizado para descrever os “acidentes” geográficos, ou melhor, os aspectos fisiográficos do planeta, como: o relevo, os tipos de biomas, as funções hídricas e físicas do rio, dentre outras. Por ser filha da ciência filosófica, a observação foi o ponto de partida para essa área do conhecimento humanista. Apenas no início do século XIX, passou a ganhar pompas de uma ciência concreta e aceita nas academias da Europa. Duas escolas se destacaram nesse processo: a escola Alemã, com sua teoria do determinismo geográfico, que deu início ao processo de interpretação do espaço como forma de poder e conquista. Os principais pensadores desse período foram Humboldt, Ritter e Ratzel, que reafirmava que o território e sua expansão eram vitais para a construção de uma sociedade imperialista. Afirmava também que o ambiente(natureza) condicionava as relações sociais e poderiam dificultar ou ampliar as condições de sociabilidade, ou seja, o homem era visto apenas em seu aspecto biológico. Sendo assim, desconsiderava-se seu aspecto social. Muito dessa teoria fortaleceu o discursos expansionista da Alemanha do início do século XIX.

DSC_0808-2

Fig. 2: A luz do pensamento. Crédito: Peterson Azevedo

Outra escola muito importante para o pleno desenvolvimento do conhecimento geográfico foi a Francesa, principalmente com o geógrafo Vidal de La Blache, liberalista, grande crítico da teoria alemã do determinismo geográfico – e sugeria, como contraponto ao pensamento de Ratzel, a teoria do Possibilismo Geográfico, na qual propõe que o homem seja o principal ator condicionante e modificador do meio, ou seja, o ponto de partida do pensamento geográfico. É na escola francesa que o homem e suas transformações no meio ambiente, por meio do trabalho e de suas tecnologias, se firmam como o principal objeto de estudo da Geografia moderna. Apesar do liberalismo francês, a Geografia ainda estava muito prisioneira do “poder” e da geopolítica de expansão territorial, como afirmou o geógrafo Yves Lacoste: “isso [a geografia] serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra”(LACOSTE, 1989 p.1).

Em meados do século XX, a Geografia Crítica passa a ter um papel mais atuante nas questões de empoderamento social, propondo de forma crítica uma leitura de mundo que possibilite romper as amarras com o poder do capital, a geografia passa agir de maneira libertária, passando a atuar além dos muros da escolarização, deixando de ser apenas uma disciplina escolar e passando a configurar como instrumento de política pública. Quando a ciência geográfica passa a ter um olhar mais crítico sobre o espaço construído e suas relações sociológicas e tecnológicas, muitos geógrafos passam a expor seus pensamentos de maneira mais libertária e crítica. Os mais importantes geógrafos da época foram Pierre George e David Harvey, que passam a estabelecer diálogos mais próximos com a sociologia, filosofia e a antropologia, em especial um diálogo mais amplo com a teoria marxista, discutindo como os espaços geográficos eram dinamizados e organizados de acordo com os bens de produção e os conflitos estabelecidos pela luta de classes. Um geógrafo também entusiasta dessa linha de pensamento libertário e crítico foi o nosso baiano de Brotas de Macaúbas e um dos maiores nomes do pensamento geográfico na contemporaneidade. Estamos falando do intelectual e professor Milton Santos, ganhador do prêmio Nobel da geografia, o Vautrin Lud, em 1994, com o livro Por uma geografia nova, da crítica da geografia a uma geografia crítica (1978). O professor Milton Santos propõe que o espaço geográfico se torne o principal objeto de estudo dessa ciência, que passa cada vez mais a ver o homem e suas estruturas de trabalho como condicionantes de suas análises interpretativas. Um dos objetos mais discutidos por ele é o intenso processo da Globalização econômica, instituído e dominado pelos países detentores do capital moderno. Milton afirmava que o processo de globalização não deveria ser controlado pelas classes dominantes e, sim, deveria ser demandado e incrementado pelas bases sociais do espaço construído, o lugar deve ser mais importante que o espaço mundializado.

No início do século XXI, com a intensificação e massificação das novas tecnologias da informação e da comunicação, o pensamento geográfico, que já estava consolidado como uma ciência humana e crítica, passa a se tornar cada vez mais uma ciência do poder, ou melhor, do empoderamento popular, ao alcance de todos, se tornando possivelmente uma ciência de contraponto ao unilateralismo do pensamento. E o que a geografia pode contribuir com a sociedade da informação? Não podemos negar, na contemporaneidade, as diversas forma de leituras e da construção de novas configurações de diálogos com o mundo “globalizado”, que vão além da palavra escrita. A imagem e, em especial, a fotografia, vem se tornando um forte instrumento de leitura e interpretação do espaço geográfico. Para Sontag, “a fotografia é um fenômeno que ocupa lugar central na cultura contemporânea”.

Boipeba 4

Fig 3: A janela: Créditos: Peterson Azevedo

A imagem pode ser uma forma mais dinâmica e um poderoso instrumento de diálogo no mundo globalizado, já que a escrita visual independe de entendimento direto, no que se refere à linguística, amplificando o modo de se expressar, por meio da interpretação imagética. A imagem deve ser compreendida como instrumento dialógico crítico no tempo e no lugar, problematizando e contextualizando as relações que se estabelecem no espaço geográfico e suas implicações. A imagem fotográfica produzida deve ser entendida e interpretada como sendo parte conceitual e de identidade do seu interlocutor. Quem produz uma imagem, conta sua própria história! Fotografar é construir uma narrativa visual própria, é compartilhar seu repertório cultural/geográfico, compartilhar sua territorialidade. Hoje, com a popularização das redes sociais, dos objetos educacionais livres, a democratização tecnológica nas produções audiovisuais e ao acesso aos aparelhos de telecomunicações, o ensino da geografia tem a possibilidade de democratizar seus discursos, desprendendo-se do chão acadêmico, que tanto os polariza. O professor e o estudante, principalmente da escola pública, passam a ser coautores de suas aprendizagens, deixando de serem meros espectadores do pensamento geográfico.

Como vimos amigos, a Geografia passou por diversas fases no desenvolvimento do pensamento humano e, por ser dinâmica e contemporânea, vem ampliando sua capacidade de ler e interpretar o espaço, livre das amarras do poder, possibilitando assim um olhar mais crítico sobre as relações sociais que se configuram e reconfiguram no “fazer” o mundo.

Deixemos as ciências humanas fazerem seus papéis: democratizar o pensamento.

Peterson Azevedo

Fotógrafo e Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

REFERÊNCIAS

MORAES, Antônio Carlos Robert. Geografia: pequena história crítica. 20° ed. São Paulo: Annablume, 2005.

YVES, Lacoste. A geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 2. ed. Campinas: Papirus, 1989.

Milton Santos. Disponível em: http://miltonsantos.com.br/site/biografia/.Acesso em 02 de março de 2017

A Geografia e as mídias e tecnologias educacionais livres

Ambiente Educacional Web. Disponível em: http://ambiente.educacao.ba.gov.br/. Acesso em 02 de março de 2017.

Geografia Visual. Disponível em: http://geografiavisual.com.br/.Acesso em 02 de março de 2017.

MApa de Iniciativas de Recursos Abertos. Disponível em: http://mira.educacaoaberta.org/. Acesso em 07 de março de 2017

Compartilhando Saberes, Olhares e Fazeres…

Fala, rede!

No mês de agosto, foi finalizada a 2ª formação de Produção de Mídias Estudantis, realizada pela Rede Anísio Teixeira (Programa de Difusão de Mídias e Tecnologias Educacionais Livres da Rede Pública Estadual de Ensino).

raulino
Fig. 1: Professor Raulindo em plena produção textual. Captura Rodrigo Maciel

Essa formação é ofertada a estudantes e professores da rede pública estadual de ensino, o que possibilita uma vivência compartilhada entre esses atores, ampliando as relações professor-aluno. A formação em mídias estudantis é mais uma iniciativa de se discutir e problematizar as diversas metodologias educacionais mediadas pelas tecnologias, em especial a produção de  textos para blogs, a leitura e interpretação de imagens como novas formas de letramentos e a produção audiovisual como elemento de construção crítica e contextualizada de conteúdos curriculares.

marcus

Fig. 2: A turma na aula de roteiro como Professor Marcus Leone. Captura Rodrigo Maciel

A escola contemporânea deve possibilitar novos diálogos com as diversas formas de ler o mundo e suas transformações. O multiletramento possibilita que vejamos e interpretemos a dinâmica no espaço por meio de diversos instrumentos de leitura. O ato de ler está relacionado a diversas modalidades de leitura (s), seja ela um texto, uma música, uma imagem. A educação mediada pelas tecnologias, de forma colaborativa e livre, pode ser um caminho viável para esse nosso novo percurso. É com essa filosofia metodológica que os formadores da Rede Anísio Teixeira conduzem a formação, sempre procurando o “fazer junto, fazer com”.

peterson

Fig. 3: Aula de fotografia e leitura e interpretação de imagem com o Professor Peterson Azevedo. Captura Rodrigo Maciel

A professora de história, Sandra Barbosa, do Colégio Estadual de Vilas de Abrantes, no município de Camaçari, apontou a importância “de trabalhar e valorizar o uso das tecnologias na sala de aula, visando a ética e o respeito […] para mostrar aos nossos alunos que isso é importante, vai gerar autonomia, que vai gerar a possibilidade de novos olhares”. Comentou ainda sobre a metodologia de estarmos juntos, professores e alunos, como aprendizes: “Não poderia deixar de falar sobre a importância de trabalhar junto com os alunos. Eu aprendi muito com os fazeres tecnológicos deles”.

O estudante Nickson Lima, do Colégio Estadual de Aplicação Anísio Teixeira, de Salvador, enfatizou: “Nunca imaginei que uma escola pública poderia me proporcionar uma formação que trabalhasse a tecnologia, como foi ofertado aqui. Meu intuito é aprender e levar para os meus colegas essa nova alfabetização”.

Um dos maiores objetivos da formação é estimular o empoderamento dos nossos professores e estudantes, principalmente no uso das tecnologias da informação e da comunicação; não como enfeites para as aulas, mas como processos na construção do conhecimentos para além da sala de aula, para a autonomia e protagonismos desses atores. Como relatou o professor e formador da Rede Anísio Teixeira, Raulino Júnior, “o mais importante desta formação é a possibilidade de dar autonomia para os participantes”.

É possível fazer com o estudante e não apenas para o estudante.

Até a próxima.

Peterson Azevedo

Fotógrafo e Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Alfabetização visual: que papo é esse?


15c57ec3-3977-43be-b0ae-859ce2bdbd8dFala, galera! Quero compartilhar com vocês um papo que tive com o professor e fotógrafo João Kulcsár, m
estre em Artes pela Universidade de Kent, Canterbury, UK, coordenador de fotografia do Senac e criador do Projeto Alfabetização Visual. Tive o prazer de ser selecionado para o workshop que ele ministrou em Salvador nessa sexta (01), em que abordou a temática: Alfabetização Visual – a fotografia como instrumento metodológico de ensino e aprendizagem. Em paralelo, lançou a exposição Herança Compartilhada, mostra que tem como principal objetivo apresentar as relações que foram estabelecidas entre o Brasil e os Estados Unidos da América, por meio do olhar dos imigrantes, com curadoria do próprio João, e conta com fotógrafos brasileiros e estadunidenses. O evento, na Bahia, foi fomentado pela english school ACBEU.


307d396b-b768-4701-aeb7-d757991f72e5E, finalmente, que papo é esse de alfabetizar por meio da imagem? Como você lê o mundo? Há tempos, a leitura não se resume apenas à escrita. Hoje,
observa-se uma necessidade imediata na ampliação de como interpretamos o mundo. As novas tecnologias nos auxiliam nessa empreitada. A capacidade de interpretar e usar as mídias digitais com mais autonomia, profundidade, ética, colaboração, contextualização e criticidade nos convida para uma conversa ao pé do ouvido. As mídias (televisiva, radiofônicas, internéticas e fotográficas) nos suscitam uma maior profundidade na prosa das ideias.

cfbfc59c-115f-4d21-8f08-1b37b4b53e87A imagem não pode ficar distante dessa troca! Pensando nisso, João propõe um aprofundamento no discurso e na importância da imagem como ferramenta crítica na (da) educação. Não podemos negar seu valor dialógico, ainda mais na contemporaneidade, em que as diversas formas de leituras vão além da palavra escrita. Freire (1981) já nos alertava que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Pensando nisso, vamos propor uma reflexão acerca daquele velho dito popular, que diz: uma imagem vale por mil palavras. Ou uma imagem vale por mil perguntas?

5d411f27-ac50-4b8c-bc01-7878772911aeÉ importante compreender a história para não repetir os erros, apreciar, refletir e interpretar os signos e mensagens contidas na imagem, ir além da estética. E como podemos fazer isso? É o que propõe a Alfabetização Visual! Conhecimento é poder, nos liberta dos opressores, as informações circulam no espaço com uma velocidade absurda, elas estão em toda parte e são constantemente ressignificadas e ganham, cada vez mais importância nas relações humanas. A imagem também faz parte desse universo, mas não pode estar apenas no lugar categórico de ilustração, precisa ser inserida no patamar dialógico de construção e transformação. E, para João, não existe lugar mais apropriado para isso do que a sala de aula, empoderando e estimulando os alunos a serem atores de sua própria realidade, possibilitando uma releitura midiática e imagética do mundo.

Galera, vale a pena conferir a exposição! Ela ficará aberta até o dia 31 de abril, na galeria ACBEU, no Corredor da Vitória!

Peterson Azevedo – Fotógrafo e Colaborador da Rede Anísio Teixeira

Keops Maciel – Editor e Colaborador da Rede Anísio Teixeira

Vamos contar um conto?

O episódio em questão do quadro Ser professor, do programa Intervalo, fala sobre a arte de contar um conto. Neste episódio, apresentaremos o projeto da professora Gilbene Esquivel – O prazer do conto. O projeto consiste na utilização da literatura de cordel como ferramenta cultural e identitária para o ensino de história.

Imagem: captura de tela

Imagem: captura de tela. Clique na imagem para assistir ao vídeo.

A professora Gilbene Esquivel leciona no Colégio Estadual Germano Machado Neto, localizado no bairro de Marechal Rondon. Ela realiza um trabalho que alia os conteúdos de história à poesia, utilizando como metodologia o cordel como instrumento de ensino e aprendizagem. Esse trabalho se inicia com oficinas, ministradas pela arte-educadora Gilbene Esquivel, com duração de 10 horas: 4 horas para o ensino do cordel, 2 horas para conhecerem a vida do escritor baiano e 4 horas destinas à produção do cordel. Segundo a professora, “é muito bom trabalhar o cordel com os alunos e ver o seu desenvolvimento. No início das oficinas, eles não sabem o que é, mas depois eles adoram e começam a brincar com as rimas. Ser Professor é ajudar o aluno a construir seu ser […]”

Vamos nessa conferir?

Fui!

Peterson Azevedo

Professor da Rede Estadual de Ensino da Bahia

Ser Professor: Urânia Viana

Fala, galerinha!

Foto: Peterson Azevedo

Foto: Peterson Azevedo

O episódio em destaque de hoje, do quadro Ser professor, do programa Intervalo, fala de literatura e música. Apresentaremos o projeto da Professora Urânia Vianna – De onde vêm…Grandes Ideias? As muitas faces de Vinícius de Moraes.

A professora Urânia é uma inovadora no que se refere à metodologia de projetos. Professora do Colégio Estadual Rotary, localizado no bairro artístico de Itapuã, Urânia propõe a prática de leitura e criação de trovas e cordéis, com o objetivo de familiarizar o aluno do 1º. Ano do Ensino Médio com a arte da poesia, bem como estabelecer ligação com a poesia medieval portuguesa.

Foto: Peterson Azevedo

Foto: Peterson Azevedo

O projeto tem como foco a criação de trovas e cordéis a partir da leitura e estudo dos poemas e crônicas de Vinícius de Moraes, bem como a audição de suas músicas e a abertura de uma exposição com a produção dos alunos, numa forma criativa, lúdica e divertida de homenagear esse grande poeta brasileiro.

 

 

 

Foto: Peterson Azevedo

Foto: Peterson Azevedo

“Ser professor, pra mim, é ser capaz de encantar o aluno em sala de aula, através de novas ideias (…)”

Fui!

 

 

 

 

 

 

Clique na imagem abaixo para assistir ao vídeo.

Imagem: captura de tela

Imagem: captura de tela

 

Texto e Fotos: Professor Peterson Azevedo

Ser Professor: Flávio Márcio

Fala, galerinha!

O episódio em destaque de hoje, do quadro Ser professor, do programa Intervalo, fala de poesia e história. Em 2003, o professor de história da rede pública de ensino, Flávio Márcio Sacramento, com o intuito de deixar suas aulas mais dinâmicas e participativas, ampliando a noção de arte, literatura e história, proporcionando a seus alunos uma visão mais ampla do que é aprender criando, pensou o projeto O Ensino da História por Meio da Poesia, que vem beneficiando, anualmente, cerca de 120 alunos do 2º e 3º ano do ensino médio, do Colégio Estadual Professora Ana Bernardes, no bairro de Cajazeiras, em Salvador.

A parceria entre o professor Flávio e os alunos fica evidente no quadro quando, juntos, recitam os versos sobre momentos históricos do Brasil, versos contextualizados e citados com o bom e típico baianês, em que as regionalidades são ingredientes a mais nessa narrativa poética. A ideia do projeto é ampliar o ensino de história para além dos fatos, possibilitando aos alunos utilizarem a poesia como ferramenta de diálogo. “Pra mim, ser professor é ser um guerreiro. É poder armar meus alunos com informações, com conceitos, com ideias (…)”.

Vamos nessa conferir? Clique na imagem para assistir ao vídeo.

Professor Flávio Márcio. Foto: captura de tela feita em 31/8/2015.

Professor Flávio Márcio. Foto: captura de tela feita em 31/8/2015.

Fui!

 

Peterson Azevedo

Professor da Rede Pública de Ensino da Bahia

E essa tal de Sustentabilidade?

Fala, galera do bem!

Neste mês, se fala muito de sustentabilidade e suas questões, devido ao dia 5 de junho, dia em que se comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente. Esse dia foi instituído em nosso calendário pelas nações unidas em 1972, em decorrência da primeira conferência mundial sobre o meio ambiente, em Estolcomo, na Suécia, onde também foi construído o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

O termo Sustentabilidade foi introduzido pela primeira vez nas discussões sobre o desenvolvimento humano, neste planeta, pelo analista Lester Brown na década de 1980. Lester é fundador do Worldwatch Institute e nos deixou como conceito de uma sociedade sustentável aquela que tem a capacidade de satisfazer suas necessidades, sem reduzir as oportunidades das futuras gerações.

Flor

E passadas mais de três décadas da “tal sustentabilidade”, será que já podemos viver sem comprometer a autonomia das futuras gerações? Será que o sistema que escolhemos é capaz de conviver com essa teoria? O capitalismo é autofágico e se alimenta do que produz, inclusive se apropriando de certas terminologias. Alguns teóricos ambientalistas suscitaram a teoria comportamental dos 3 Rs (reduzir, reutilizar e reciclar), mas o engraçado é que o sistema de capital se apropriou apenas de um, o reciclar, que virou a bandeira de algumas corporações, com o slogan – consuma, que reciclamos! Mas se pensarmos de maneira sistêmica, vamos descobrir que a real intenção é o consumo e não a reciclagem. O sistema de capitais não leva em consideração o comportamento sistêmico do planeta, mas, sim, interesses individuais e coorporativos, apropriando-se de três grandes redes: a tecnológica, a científica e a comunicacional.

Tem uma corrente do pensamento que é chamada de “pensamento sistêmico” que propõe que enxerguemos o todo (o sistema integrado e os seus processos) e não apenas processos isolados, pois tudo está interligado e interdependente.

Plantas

É nesse sentido que o Professor Fritjof Capra nos propõe uma nova forma de vermos o mundo e de nos comportarmos perante ele. Ele nos conta que precisamos compreender os princípios de organização que os ecossistemas desenvolveram para manter a sustentabilidade da vida. (A essa forma de pensar, Capra chamou de Alfabetização Ecológica).

A palavra “ecologia” vem do grego oikos (casa) e de como essa “casa” funciona e se relaciona. A ecologia é um campo muito vasto, podemos estudá-la como disciplina científica, como filosofia e/ou como estilo de vida ou ecologia profunda. Essa última é o que queremos discutir neste texto.

Criança

A “ecologia profunda” não separa o homem do ambiente e, na verdade, tudo está unido e deve funcionar como um único sistema. Nessa proposta, o homem deixa de ser o centro das coisas e passa a ser mais um elemento da engrenagem, podendo dar continuidade ou simplesmente danificar a teia da vida. Claro que existem diferenças entre os ecossistemas e as comunidades humanas, onde temos que levar em consideração, além dos fatores bióticos, os fatores sociais e de comportamento. As sociedades humanas que ainda hoje podem nos ensinar essa tal de sustentabilidade são as comunidades tradicionais, como os povos indígenas e as comunidades extrativistas que, em decorrência de sua vasta experiência ecológica, internalizam e espiritualizam os ecossistemas, compreendendo o seu pleno funcionamento, integrando-se ao ciclo, sem interromper seu fluxo, tornado o sistema terra sustentável para si e as futuras gerações. Um dos legados desses povos tradicionais consiste em:

– Entender que nenhum ecossistema deve produzir resíduos, já que esses devem voltar ao ciclo, como fonte de alimento;

– A base de toda energia deve vir do Sol;

– A diversidade assegura a resiliência (capacidade de existir);

– A força deve ser substituída pela cooperação e trabalho colaborativo, para dar segmento ao ciclo e às trocas de informações.

Para que essa “tal sustentabilidade” realmente exista e se torne um elemento transformador do comportamento, é preciso escutar e ensinar a sabedoria dos povos tradicionais, para construirmos uma alfabetização ecológica, aliando a esse conhecimento uma ciência, uma tecnologia e um sistema comunicacional comprometido com esse ideal. Só assim conseguiremos coexistir com nossa terra mãe.

Texto e imagens:

Peterson Azevedo – Professor da Rede Pública de ensino do Estado da Bahia.

Bibliografia

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/

CAPRA, Fritjof. The Web of Life: A New Scientific Understanding of Living Systems. Editora Cultrix, Califórnia – US. 1996;

SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização. Ed. Record. Rio de Janeiro – RJ. 2000;

TRIGUEIRO, André. Meio ambiente no século 21. 5. Ed – Campinas, São Paulo. SP. 2008;