About Lilia Rezende

Sou graduada em Pedagogia (UCSal - 1987) e tenho Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional (UFBa - 1996). Experiência com Docência, Gestão e Coordenação em instituições de Ensino Fundamental, Médio e Ensino Superior e com Formação Continuada de Professores e Formadores. Integro a equipe de educadores da TV Anísio Teixeira desde 2008, projeto da Secretaria de Educação do Estado da Bahia atuando na pesquisa, produção e disseminação de conteúdos audiovisuais destinados à formação de professores e estudantes da rede pública estadual - IAT/SEC - BA

Escritores Baianos, Aqui e Acolá

Abril. Abre-se, em nosso blog, um espaço maior para a literatura. Nossa escolha é dar visibilidade à produção literária do estado da Bahia e estimular a apreciação estética das obras destes novos escritores. Ao mesmo tempo, realizaremos uma conversa entre a literatura e outras linguagens artísticas aqui produzidas, como teatro, dança, música e audiovisual.

Durante o ensino médio, nas aulas de Literatura, há a recomendação ou exigência da leitura de vários livros clássicos, de autores brasileiros ou portugueses. Para a maioria dos estudantes, essa atividade é extremamente desafiadora: ler livros que foram escritos há séculos, com uma linguagem bastante diferente da nossa, descrevendo uma realidade aparentemente muito distante.

Respeitando os direitos imprescritíveis do leitor, como sugere Daniel Penac, …

O direito de não ler;  de pular as páginas; de não terminar de ler o livro; de reler; de ler no importa o quê; o direito ao “bovarysmo”; de ler não importa onde; o direito de “colher aqui e acolá”; o direito de ler em voz alta;  de se calar.”

… em algum momento haverá o reconhecimento de que esses textos da escrita universal permitem ao leitor descobrir mais sobre a alma, o mundo e os recursos estilísticos da língua. Seus autores são verdadeiros artistas, são artistas da palavra: esculpem a língua com cuidado e estilo e põem em evidência os principais conflitos da existência humana.

Desta vez, no Blog queremos dar espaço aos novos escritores. Na última década houve uma diversificada atividade literária com produção de livros de novos autores que, infelizmente, por circunstâncias de distribuição, não chegaram às livrarias do país. Esta é uma boa ocasião para apresentar escritores que estão aqui – os que nasceram, residem e produzem em sua própria terra – bem mais perto que imaginam. Não digo apenas dos escritores de obras consagradas,  nascidas em terras nossas, digo mesmo dos contemporâneos escritores.

Entre 2015 e 2016, num projeto denominado Mapa da Palavrafoi constituída uma chamada pública para a seleção de produções artísticas e literárias realizadas em nosso estado. Resultado: duzentos e setenta e cinco artistas da palavra se cadastraram e tiveram suas obras publicadas em plataforma virtual ou em versão impressa. Teremos aqui no blog, na TV e na nossa Rádio Anísio Teixeira grandes encontros e conversas com escritores da nossa Bahia.

De abril em diante, algumas postagens estarão aqui para “degustação”. Aguardem! Enquanto isso, podem ir se deleitando com o que a Rede Anísio Teixeira produziu no quadro “Poesia de Cada Dia” com textos de poetas brasileiros. Aqui, apenas um dos muitos que vocês podem acessar no Ambiente Educacional Web.

Até mais!

Lilia Rezende

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino

 

 

Sorria! Você Está no Facebook!

As redes sociais, em especial o Facebook e o Instagram, inauguram um comportamento que em nenhum outro meio, que possamos lembrar tão rapidamente, se pôde antes observar: seus usuários não economizam publicação de fotos que a todo custo revelam uma felicidade plena aos olhos de quem navega por essas imagens. De onde nasceu a necessidade de se expor feliz com o que come, o que veste, o que ama, o que conhece, o que produz?  Essa é uma pergunta que teima e consome hipóteses de quem observa o mundo e a sua evolução (ou involução, em alguns pontos de vista), desde a criação dessas plataformas.

blog-julia

Fig. 1: Era da exibição. Foto: Lilia Rezende

O psicanalista e cronista Contardo Calligaris, na última edição do Fronteiras Braskem do Pensamento, em 2015, refletindo sobre a temática “Como Viver Juntos?”, chamava atenção para o fato de que nas atuais fotografias todos exibem seus sorrisos e as comparava àquelas feitas antigamente, em que as pessoas não sorriam. Esse é um dado histórico facilmente observável e talvez se explique pelo uso rudimentar da técnica de fotografar, pois era necessário que os modelos permanecessem em posição fixa por até 20 ou 30 minutos, em alguns casos. Há, porém, quem duvide dessa explicação, pois, mesmo depois de 1840, quando as fotografias passaram a ser feitas em menos tempo, os sorrisos continuavam raros ou inexistentes. Outra hipótese é que a maioria dos indivíduos daquela época não queria ser imortalizada com um sorriso forjando uma expressão tola. Na palestra, Calligaris destacava que entre nós parece não ser permitido outro modo de se deixar fotografar e as fotografias acabam por representar a rejeição que fazemos, desde a mais tenra idade, a qualquer ocasião para o tédio, como se ele (o tédio) não fosse parte da existência humana. Em um de seus artigos, ressalta que “sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior. (…) O problema é que há uma boa parte da vida exterior que, sem vida interior, é totalmente insossa.”

Hoje, nas linhas do tempo da vida de quem “seguimos”, por mera curiosidade ou amizade, se enxerga anúncios de sabores e até uma folhinha de alface num largo sorriso, antes mesmo que se saiba o que o motivou. Não tarda e se saberá da defesa de tese, do casamento feliz, do sucesso no trabalho ou da viagem dos sonhos que estão por trás das coloridas fotografias.

 

blogcomida

Fig. 2: Quer? Foto: Lilia Rezende

Com maior acesso às redes sociais intensificou-se um movimento conhecido por “espetacularização do eu”, expressão cunhada por Guy Debord (1997). Toda esta exposição da vida cotidiana sugere transformações nos processos de subjetivação em suas dimensões identitárias, narrativas, relacionais e midiáticas,  e vem gerando boas discussões sobre como a visibilidade e a privacidade são percebidas na e pela internet. Ali  o contorno entre o público e o privado não se distingue de modo claro. Curiosamente são selecionados para exposição nas redes sociais as melhores selfies, as maiores festas e outras garantias de largo sorriso, prova inquestionável de felicidade na produção de uma autobiografia digital. Se por insondável motivo, pesquisadores utilizarem esses registros num exercício antropológico, concluirão, lá no futuro, que vivemos hoje em um constante idílio. Já os leitores atuais destas publicações devem pensar:

Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?” (Fernando Pessoa)

Sim. Causa grande estranheza que, diante de tantos problemas da vida contemporânea, tenhamos as redes sociais ou para a disseminação de ódio, especialmente quando se trata de assuntos políticos, ou para cultuar uma superficial ideia de vida feliz.

Fazendo uma análise mais profunda, poderemos ver que não se trata de mais uma atitude inócua apenas do “mundo” da internet. O modelo de identidade baseado na vida interior vem sendo gradativamente formatado (para usar a gramática da tecnologia) por um outro modelo em que as pessoas só existem e só são felizes se publicam evidências da tão almejada felicidade.

Lilia Rezende

Professora da Rede Pública Estadual da Bahia

“Novo Tempo Sempre se Inaugura a Cada Instante que Você Viver.”

Quem espera que um novo ano nasça para que se tenha, enfim, uma nova ideia ou um novo rumo, certamente foi surpreendido com um Plano de Formação de Professores claro e organizado, apresentado no último dia 28, num encontro para Gestores de Núcleos Regionais, para Professores Formadores da rede estadual e Prefeitos eleitos da Região Metropolitana de Salvador (RMS). Estamos, pois, em dezembro, há poucos dias do encerramento do ano letivo, e eis que, fomos convidados a conhecer a nova Política Estadual de Formação e Desenvolvimento dos Profissionais da Educação Básica do Instituto Anísio Teixeira.

Essa Política de Formação foi construída por profissionais de diversos projetos do Instituto, em articulação com a Superintendência de Políticas para a Educação Básica (Suped), como uma iniciativa do diretor-geral, Severiano Alves, defensor contumaz de ações que promovam a qualidade da educação básica e a valorização dos professores. A ideia fundamental nesta gestão é devolver a instituição o status que lhe é devido, reafirmando a ideia de seu patrono, quando professava que “Só existirá democracia no Brasil, no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública”. Essa concepção exige, segundo o próprio Anísio Teixeira, “uma educação em mudança permanente, em permanente reconstrução”.

Programa Gestão de Aprendizagem Escolar

Severiano Alves, Diretor Geral Instituto Anísio Teixeira (IAT SEC BA). Foto: Amanda Oliveira

A finalidade deste órgão especial da Secretaria da Educação, inaugurado em 1994, foi sempre a de planejar e coordenar projetos referentes ao ensino,  pesquisa, experimentações e qualificação de recursos humanos na área de educação. E, apesar de todos os limites que uma crise política atualmente impõem, esses objetivos se renovam à medida que consideram as transformações sociais que, dialeticamente, provocam mudanças no papel social dos professores. O Instituto voltar-se-á, prioritariamente, para formação de professores desenvolvendo cursos de atualização, aperfeiçoamento e especialização para rede estadual e municipal.

A nova proposta, apreciada também por Regina Alcântara de Assis, Secretária de Articulação com os Sistemas de Ensino (MEC), traz a Identidade e Interculturalidade como princípios. Neste sentido, Ana Sueli de Pinho, assessora técnica do IAT, afirma que “a prática educativa se realiza num complexo contexto social e institucional, em que as ações mais explícitas, como as leis e diretrizes governamentais, as relações de trabalho, caminham concomitantemente com as ações menos explícitas. A escola faz parte desse sistema e se constitui num ambiente que mantém relações com a diversidade da comunidade e, ao mesmo tempo, carrega tradições locais e a própria história.”

gestar

Há ainda outros princípios como Educação Sócio Emocional; Apropriações Éticas, Críticas, Contextualizadas e Colaborativas das Tecnologias; Produção e Difusão do Conhecimento; Ciência, Arte, Literatura e Expressão Cultural; Democracia e Participação; Pesquisa, Criatividade e Inovação; Construção de Sentidos e Projetos de Vida. Cada um deles, com distintas definições e possibilidades, integrarão o currículo dos cursos que serão desenvolvidos a partir de 2017. São ideias que traduzem fundamentos teóricos para três programas, interdependentes e complementares: o de Formação e Desenvolvimento dos Profissionais da Educação; de Tecnologias e Mídias Educacionais e de Pesquisas Inovações Pedagógicas.

Assim, receberemos os profissionais da educação para conhecer um novo Instituto Anísio Teixeira e, ao mesmo tempo, começar um novo ano com novo ânimo, considerando diversas oportunidades de formação continuada. Para nós, educadores do Instituto Anísio Teixeira, não é possível pensar na qualidade da aprendizagem dos nossos estudantes sem pensar, de maneira análoga, na aprendizagem de seus professores.

Lilia Rezende
Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Educação em Direitos Humanos

Começar pelo começo. Assim é como pretendo escrever esta reflexão sobre Educação em Direitos Humanos. Saber sobre o que estamos falando ou lendo é, definitivamente, uma boa condição para apropriação de uma (nova) ideia. Os Direitos Humanos são aqueles considerados fundamentais a todos, sem quaisquer distinções de sexo, nacionalidade, classe social, etnia, cor da pele, profissão, faixa etária, condição de saúde física e mental, escolha política, religião ou nível de instrução. Pensar nesta questão supõe admitir como principal o direito à vida, sem o qual todos os demais direitos perdem o sentido. Essa expressão, cada mais presente entre os educadores, quer fazer referência a princípios universais que podem, potencialmente, ser aceitos em todas as culturas, cuja função primordial é  promover a dignidade humana.

fig1direitos

Desde 2010 a Educação em Direitos Humanos ganhou dispositivos legais, contornos de política pública e legitimidade com a aprovação do Programa Nacional da Educação em Direitos Humanos, ideia que fundamenta a formação ética, crítica e política dos indivíduos. A escola é o tempo e o lugar em que esta aprendizagem acontece, não apenas porque ali seja um espaço educativo, mas, sobretudo, por que é um lugar de convivência.  Presume-se, portanto, que nesta experiência com a heterogeneidade seja possível a todos os educadores cultivar a aceitação das diversidades e o respeito à diferença. A consideração aos direitos individuais e, ao mesmo tempo, universais, coloca-se como um princípio: personagens dos contextos educativos podem admitir-se como sujeitos de direitos e deveres e assim reconhecer que os outros também o são, num movimento ativo e atento para que haja reciprocidade e transposição, ou seja, o que se aprende na escola ou em informais espaços de educação, transfere-se como um valor, um novo aprendizado, para outros campos pois a ideia é formar cidadãos do mundo.

No Brasil, essa mudança cultural é especialmente importante em função da nossa história, pois implica o abandono de valores e costumes que ao longo do tempo foram arraigados entre nós: nosso longo período de escravidão; nossa política oligárquica e patrimonial que garantia  amplo domínio do poder e da economia nacional por um pequeno grupo de senhores de terra e de políticos patrimonialistas; o caráter elitista e autoritário do nosso sistema de ensino; nossa aceitação passiva com a corrupção; nosso descaso com a violência, sobretudo quando seu alvo são os socialmente discriminados; nosso sistema familiar patriarcal e machista, que resiste às novas configurações; nossa sociedade racista; nosso desinteresse pela participação cidadã; nosso individualismo consumista. Estas e outras condutas são temas pouco incluídos nos currículos de formação de professores, quiçá nas atividades escolares ou didáticas.

Essa realidade contemporânea deve, ao invés de empecilho, constituir-se em motivação para o trabalho organizado e contínuo; afinal, a quem de nós interessa a manutenção desse estado de coisas?

A defesa dos Direitos humanos em Educação sugere e estimula uma ação transformadora, capaz de promover a emancipação dos indivíduos para que eles próprios tenham a capacidade para defender os interesses da coletividade. Aqui e agora, esperamos que gestores, professores, coordenadores e demais profissionais da educação, sintam-se motivados a propor mudanças efetivas em seus ambientes de trabalho, cotidianamente.

Lilia Rezende

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Rede Anísio Teixeira . Instituto Anísio Teixeira – IAT

Escola e Cidadania

Estamos em um momento político bastante conturbado e, entre tantas interrogações sobre o destino do país, cabe pensar também em quem somos nós e como se dá nossa participação neste cenário. E, especificamente pelo tipo de leitores que temos, refletir sobre o papel dos professores e estudantes nesse processo.
A escola é uma das instituições sociais que deve se comprometer com a formação cidadã, definida como um dos princípios básico da vida desde a constituição de 1988. Nenhum novo projeto como “escola sem partido” poderá negar-lhe esta tarefa.
Sabemos que cabe à escola formar pessoas bem informadas, críticas, criativas e capazes de atuar decisivamente na sociedade; sim, todos sabemos, mas em que situações trabalhamos em prol deste objetivo que tanto valorizamos? As atitudes dos nossos estudantes, nas escolas ou nas manifestações políticas surgem como reflexo deste trabalho?
A ideia de “formar cidadãos” se propaga largamente e, se não apurarmos os sentidos, muito mais que os ouvidos, somos capazes de pensar que todas elas atuam exatamente do mesmo modo e para a mesma finalidade. Isso porque os discursos coincidem de jeito espantoso. Grande parcela dos educadores acaba fazendo um trabalho intuitivo já que a cidadania não ocupa nos projetos didáticos o lugar que merece. Em geral, a prática contraria a teoria. “Formar cidadãos” é uma expressão que exprime conceitos importantíssimos, mas deslocada do contexto histórico e teórico em que foi pensada, reduz-se a um simples jargão. Cidadania é essencialmente consciência de direitos e deveres e exercício da democracia: direitos civis,direitos sociais, direitos políticos, etc. Cidadania numa concepção mais ampla, se manifesta na mobilização da sociedade para a conquista de novos direitos e na participação direta da população na gestão da vida pública. Se uma instituição de ensino não reconhece a cidadania como um valor, certamente não educa para a vida em sociedade.

cidadania-adeliateixeira
Há, entretanto, escolas que estão envolvidas nesta tarefa, muito atentas, portanto para a dimensão política de seus currículos e seus projetos educativos. Todo projeto de educação é, afinal, ao mesmo tempo, político e pedagógico. Como diz Moacir Gadotti, professor titular da Universidade de São Paulo, “Na verdade o pedagógico já é político. Contudo, para realçar o caráter político do projeto pedagógico é que inserimos o adjetivo “político”. É assim que se cria uma alternativa a um projeto com visão meramente burocrática e técnica.
Para orientar os futuros cidadãos rumo ao seu desenvolvimento como seres de direitos e deveres é fundamental planejar a construção de meios intelectuais, de saberes e de competências que são fontes de autonomia, de capacidade de se expressar, de negociar, de mudar o mundo. E este exercício começa muito cedo, desde a educação infantil, prolongando-se no Ensino Fundamental e Médio, sempre que se estimule a participação e tomada de decisão em diversos movimentos da escola.

O Que Quer E O Que Pode Uma Escola

Educadores baianos que participaram nos últimos dias 26 e 27 de julho do Seminário Estadual da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) analisando a 2ª versão da Base Comum certamente levarão para seus respectivos lugares de atuação os ecos da fala de um estudante em uma das plenárias: “A escola está velha”.

Fig. 1: captura de tela do site da BNCC.

Fig. 1: captura de tela do site da BNCC

A Base Nacional Comum Curricular pretende nortear a construção dos currículos brasileiros, norte a sul do país, observando as particularidades regionais e locais e assegurando aprendizagem e desenvolvimento como direitos de todos os estudantes. Enquanto as contribuições elaboradas neste seminário por gestores, professores e estudantes se organizam, até que elas ganhem um novo formato, numa versão definitiva, nosso blog compartilha o texto abaixo, trazendo para este espaço uma reflexão sobre “O que quer e o que pode uma Escola”.

Uma Escola pode muito. Uma Escola pode formar cidadãos, pessoas capazes de organizar-se para defender seus interesses e solucionar problemas respeitando as regras e normas estabelecidas socialmente.

Pode formar pessoas solidárias, capazes de demonstrar sensibilidade em relação aos semelhantes ou aquelas que vivem num mundo particular, sem reconhecer a interdependência entre os seres.

A Escola pode desenvolver em seus alunos princípios éticos, capacidade de diálogo e justiça, fundamentais para uma vida social digna.

Pode formar pessoas curiosas, aquelas que têm prazer em aprender e o mantêm por toda a vida. E pode fazer isso discutindo conteúdos de relevância social – além de conteúdos próprios da Língua, Matemática, Ciências, História e Geografia – para que os alunos façam correlação entre o que aprendem e o que vivem fora da Escola.

Pode fazer leitores e escritores competentes, capazes de falar bem a sua língua, receber e expressar idéias e deleitar-se com as leituras. Pode, ao invés disso, formar analfabetos funcionais: aqueles que apenas decifram o que os olhos vêem.

E o que pode uma Escola relaciona-se com o quer esta Escola . Uma Escola que deseja formar cidadãos solidários, curiosos, reflexivos, leitores e escritores deve ter uma prática consonante com as atuais pesquisas no campo da Educação, sobretudo aquelas que apontam para a capacidade dos sujeitos construírem conhecimento.

Deve oferecer um ambiente seguro e estimulante que favoreça acesso a cultura e atividades que promovam a circulação de conhecimentos: divulgação do que se produz no espaço escolar e incorporação de novas ideias.

Deve ainda investir em formação continuada, atenta à sua equipe de educadores como modelos para seus educandos. E a finalidade última da formação é cultivar nessa equipe as qualidades de ordem ética, intelectual e afetiva que deseja desenvolver em seus estudantes.

Lília Rezende

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

“O Cordel Tem Tudo a Ver com a Educação”

Chegou ao Brasil no século XVI e, de lá pra cá, ainda reclama mais visibilidade e lugar de importância entre os textos literários. Trata-se do Cordel, narrativas em versos impressas em papel simples, ilustradas com xilogravuras e que era, geralmente, exposto em barbantes ou cordas. Com nomes distintos desde o seu nascimento, andou na Espanha como “pliegos suelitos”, em Portugal como “folhas sueltos” ou “volantes”. Foi trazido pelos portugueses, instalou-se na Bahia e estabeleceu-se no Nordeste, região bastante retratada em histórias ricas em dramas e comicidade.

Com uma linguagem coloquial e rimas simples para tratar de temas populares do povo nordestino, o Cordel foi muito estigmatizado, especialmente entre os intelectuais. Por outro lado, apesar disso, há registros de que escritores como João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, José Lins do Rego e Guimarães Rosa tenham sido fortemente influenciados por essa arte. Vale pesquisar sobre sua história, visitando o site da Academia Brasileira da Literatura de Cordel, mais uma iniciativa para a sua valorizaçãoFelizmente, nos últimos anos, o Cordel ressurge como objeto de pesquisas acadêmicas e, consequentemente, ganha mais espaço também em salas de aula, onde pode ser contemplado como uma expressão literária e, além disso, como prática sóciodiscursiva. O cordel, afinal, traz uma missão: pretende ensinar a viver o verbo em versos.

Fig. 1: Elton Magalhães é professor de Literatura e poeta cordelista. Foto: arquivo pessoal.

Fig. 1: Elton Magalhães é professor de Literatura e poeta cordelista. Foto: arquivo pessoal.

Hoje, o Blog do Professor Web, traz uma entrevista e inspiração para os estudantes e professores com a experiência e talento de um convidado: Elton Magalhães. Nascido em Castro Alves, graduado em Letras Vernáculas pela UFBA e mestre em Literatura e Cultura também por essa instituição. Ele fala do trabalho que realiza em aulas, palestras e oficinas em que utiliza o cordel como opção metodológica.

Para Elton, a Literatura passou a ser um interesse por volta dos 17-18 anos, já na universidade, quando cursou a disciplina Literatura Popular. Ele, eu e todos os educadores deste Blog acreditamos: com cordões e cordéis se faz uma boa rede, um texto bem tecido.

Lilia Rezende (Blog do PW): O cordelista mostra-se comprometido com a realidade e vê, na arte literária, uma forma de expressão e luta. O seu cordel tem engajamento político?

Elton Magalhães: Bem, na posição de professor, nós somos, inevitavelmente, formadores de opinião e, consequentemente, precisamos tomar uma posição política, independentemente de qual seja ela. Sabemos que todo e qualquer avanço social de um grupo ou uma nação deve partir necessariamente da educação. Às vezes, infelizmente, acabo misturando a minha função de educador e a minha condição de cordelista. Muitos dos meus textos seguem uma metodologia e não tem como deixar a política passar despercebida. Ainda mais quando se trata de um país como o nosso, tão frágil socialmente. Já escrevi alguns folhetos de cordel e alguns poemas avulsos sobre essa condição.

LR: Quais as influências para sua produção de cordelista?

EM: Costumo dizer que o meu grande mestre no Cordel é o poeta (e hoje grande amigo) Antônio Barreto. Conheci seu trabalho pela internet, quando recebi um texto seu que versava sobre o caso de uma professora “linchada” publicamente por ter dançado uma música sensual numa casa de shows em Salvador. Aquele foi o meu primeiro grande “barato” com o Cordel. Antônio foi um grande incentivador. Depois que comecei a escrever, foi que me embrenhei a pesquisar outros autores e me apaixonar ainda mais pelos textos. Posso citar alguns grandes: Leandro Gomes de Barros (o “pai” do cordel no Brasil), Mestre Azulão (falecido recentemente), Rouxinol do Rinaré, o Mestre Bule-Bule, Gonçalo Ferreira da Silva, os irmãos Klévisson e Arievaldo Viana, Franklin Maxado e alguns amigos da Bahia: Jotacê Freitas, Creuza Meira, José Warter Pires, Salete Maria. São muitos.

LR: Como se pode construir uma relação entre Cordel e Educação?

EM: O Cordel tem tudo a ver com a Educação. Primeiramente, porque ele não é um gênero em si, é uma vasta área dentro da Literatura e pode aparecer em diversas roupagens, em diversos gêneros textuais. Isso a partir da sua estrutura primordial que é a rima, a métrica e a oração (a sintaxe). Tendo isso em conta, o professor pode trabalhar com um romance, uma piada, com adivinhas, um conto, um texto mais lírico ou até mesmo falar de temas sociais a partir do Cordel. Além disso, a sua estrutura é muito atrativa, faz com que os alunos mantenham-se interessados, já que a rima e a métrica, quando bem usadas, prendem a atenção de quem lê ou ouve. Por fim, a linguagem simples e coesa do Cordel também ajuda no entendimento do texto. Sendo mais acessível, o Cordel consegue dialogar melhor com diversos grupos escolares.

Fig. 2: a cultura e a tradição dos folhetos de cordel enriquecem a nossa literatura. Fonte da imagem: Wikipedia.

Fig. 2 – Literatura de Cordel: riqueza e tradição na cultura brasileira. Fonte da imagem: Wikipedia.

LR: E na Leitura e Escrita, de modo específico, o Cordel colabora?

EM: Todo tipo de leitura e produção textual em sala de aula é proveitoso. Claro que isso depende da forma como o professor utiliza os recursos que lhe cabem. Para abordar o cordel, é necessário, antes de tudo, que os alunos conheçam a sua história, sua estrutura e a sua importância para a cultura popular do Brasil. Quando essa arte é apresentada a eles, existe uma empolgação imediata. Nas minhas experiências, eu posso afirmar isso. Muitos alunos, inclusive, escrevem textos em rima por conta própria e pedem a minha avaliação.

LR: No projeto O Português na Língua do Cordel, você produziu um livro didático com alunos usando versos populares em torno das Funções da Linguagem e das Variações Linguísticas. Como você lidou com esse desafio de falar sobre a língua, usando a língua numa estrutura e numa linguagem tão pouco usual?

EM: O trabalho foi maravilhoso. Foi uma atividade de metalinguagem, sobre temas que estávamos discutindo em sala de aula. Deixei que eles escolhessem entre produzir um texto em Cordel ou fazer uma prova tradicional. Os que produziram o texto em Cordel se desempenharam muito bem e isso me motivou a organizar uma coletânea com os melhores textos. Foi a partir daí que eu pensei n’O Português na Língua do Cordel, um projeto que parte de oficinas realizadas em sala de aula e que pretende colaborar com os professores e alunos. Os professores podem utilizar esses textos, já que são mais atrativos, para exemplificar os assuntos abordados neles, assim como os alunos podem utilizá-los como ferramenta lúdica na hora de estudar os conteúdos presentes ali. No âmbito virtual, ele teve boa divulgação, identifiquei quase mil downloads do livro que está acessível no blog https://ocordelnaweb.wordpress.com/.

LR: E a coleção Literatura em Cordel, como tem chegado a professores e estudantes? Tem boas notícias?

EM: Os meus primeiros textos estão nessa coleção. Ao trabalhar com as tradicionais escolas literárias em sala de aula, eu sempre levo esses textos. Eles correspondem a um grande resumo em cordel, narrando de forma lúdica e didática, com um pouco de humor e algumas críticas, o contexto e as características do Quinhentismo, Barroco, Arcadismo e Romantismo. É um projeto que pretendo dar continuidade e, assim que terminá-lo, penso em transformar em livro didático para contribuir para aquisição do conhecimento dos alunos e com o trabalho pedagógico dos colegas professores.

 

Lília Rezende

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia