About Geraldo Seara

Professor de Inglês (pela UFBA), especialista em Tecnologias da Comunicação e Informação (pela UNEB) e em Mídias na Educação (pela UESB). Integrante da equipe de professores da Rede Anísio Teixeira.

O Poder da Mídia, Ontem e Hoje!

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Fig.1: Ilustração de Henrique Alvim Corrêa para  o livro A Guerra dos Mundos. Marciano lutando contra o navio de guerra Thunder Child. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Fighting_machine_(TheWaroftheWorlds)#/media/File:Correa-Martins_vs._Thunder_Child.jpg

Estamos na era das mensagens instantâneas, com piadas e charges facilmente identificáveis como fictícias, mas com muitas outras mensagens de teor ficcional tomadas como verdadeiras. Mas por que levamos a sério essas mensagens? Simplesmente pelo fato de serem construídas nos moldes utilizados pelos meios de comunicação, que conferem credibilidade ao que está sendo compartilhado nas redes sociais.

E desde sempre as coisas são assim. Exemplificando e começando pelas coisas mais simples, nós mesmos recorremos ao testemunho de uma outra pessoa para confirmar alguma história que estamos contando a alguém. Não é assim? Dizemos: pergunte a fulano. E se esse fulano for uma pessoa idônea, nossa história terá o devido respaldo. Infelizmente, muitos desses fulanos tendem a confirmar nossas histórias, mesmo sem tê-las testemunhado. Isso pode se dar devido a laços de amizade ou por outros interesses. Até nos tribunais há quem jure dizer a verdade, com a mão sobre a Bíblia, mesmo ciente da mentira. Desse modo, inocentes são condenados, e culpados libertos, a depender dos homens da lei envolvidos no processo. Diante de sistemas assim, alguns preferem lavar as mãos, como fez Pilatos.

Quanto ao testemunho da imprensa escrita, radiofônica e a televisada, a “verdade” é, naturalmente, consumida pela grande maioria de seus seguidores, mesmo que as “pontinhas soltas” sinalizem questionamentos a serem feitos. Assim, dizemos: deu no rádio… li no jornal… vi na televisão e, portanto, tudo pode ser verdade. Aliás, será que é por essa razão que alguns acrescentam “só repassando”, quando reenviam certos textos cujo respaldo parece estar faltando? Isso os exime da responsabilidade sobre aquilo que passam adiante? Pois uma mentira, em formato jornalístico, por exemplo, pode destruir civilizações inteiras.

Considerando que assim é, se uma mídia utilizada para anunciar fatos verídicos vier a misturá-los com ou substituí-los por ficção, dificilmente o público perceberá a farsa, a menos que se anuncie, previamente, do que se trata. Foi o que aconteceu em 1938, nos Estados Unidos.

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Fig.2: Manchete do New York Times de 31/10/1938 sobre o pânico causado pelo programa ficcional de rádio levado a sério pelos ouvintes. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:WOTW-NYT-headline.jpg

Naquele ano, Orson Welles adaptou para o rádio a obra A Guerra dos Mundos de Herbert George Wells, lançado em capítulos em 1897 e, em livro, em 1898. A história trata da invasão de marcianos inteligentes à Terra. O drama radiofônico foi apresentado ao público em formato de boletim de notícias, interrompendo outro programa que estava no ar. No início da transmissão foi anunciado que se tratava de uma obra de ficção, mas os ouvintes que ligaram o rádio depois de iniciado o programa não ouviram o tal aviso. Resultado: houve pânico generalizado e colapso de todas as centrais telefônicas, devido à imensa quantidade de chamadas para a polícia, bombeiros e para a própria emissora de rádio. As ruas e estradas ficaram congestionadas, com pessoas tentando fugir da área invadida pelos marcianos e foram inúmeros os depoimentos dos que viram e ouviram as naves marcianas e seus ocupantes. Hipnose coletiva? Não duvido. Clique aqui para ver um doc sobre isso.

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Fig.3: Orson Welles reunido com repórteres, em uma tentativa de explicar que nenhum dos envolvidos na transmissão do drama radiofônico tinha ideia do pânico que causaria. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:Orson_Welles_War_of_the_Worlds_1938.jpg

O curioso é que, 3 décadas depois, a peça radiofônica de Orson Welles foi reescrita para o ano de 1968. Você diria: ah, mas a essa altura, todos já saberiam de que se tratava de uma obra de ficção. Errou. Aconteceu a mesma coisa, claro que numa proporção menor, já que o número de ouvintes tinha diminuído. De acordo com a Wikipedia, apesar das exaustivas chamadas anunciando a peça radiofônica de 1968, muitos acreditaram nos boletins e na cobertura jornalística (ficcional) que a todo instante interrompiam a programação musical do horário. O criador dessa versão, Jefferson Kaye, e o diretor Danny Kriegler chegaram a pensar que seriam demitidos, tal foi a confusão criada, que chegou a envolver até a força armada canadense, um jornal e vários oficiais da polícia local, além dos telefonemas de ouvintes assustados, todos crendo que a invasão alienígena era real.

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Fig.4: Placa comemorativa da famosa transmissão radiofônica, em West Windsor. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)#/media/File:Landingsite_statue.JPG

Isso ilustra muito bem a força que têm os meios de comunicação. Se nesses casos aqui descritos não havia a intenção de atingir as pessoas, imaginemos o que seria se tudo fosse intencional!  Com esse mecanismo, derrubam-se governos legítimos e sustentam-se farsas e farsantes. Não é à toa que a mídia carrega o rótulo de 4º Poder.

Que possamos usar essa força para a Paz.

Feliz 2017!

Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Ensino

REFERÊNCIAS:
https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Guerra_dos_Mundos_(livro)
https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_drama)
https://en.wikipedia.org/wiki/The_War_of_the_Worlds_(radio_1968)

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Independence Day: 1822 or 1823?

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Fig. 1: Brazilian Army Parade

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Independence_Day_(Brazil)

Oi, Pessoal!

Encontrei um blog que ensina o nosso Português aos estrangeiros e, como os professores brasileiros explicam o funcionamento da nossa língua em inglês, percebi que dá pra aprender Inglês também. Entre as postagens do blog, encontrei muitos textos sobre nosso país, nossa cultura e nossa história. Como estamos no mês da Independência do Brasil, o trecho abaixo, me chamou a atenção:

While Dom Pedro I was shouting “Independence or death!” on the banks of the Ipiranga river in São Paulo, the war for the independence of Bahia against the Portuguese military was in full swing.

Que interessante! O texto informa que enquanto D. Pedro I gritava “Independência ou Morte”, às márgens do rio Ipiranga, aqui na Bahia a guerra pela independência contra os soldados portugueses estava em pleno andamento. O texto continua informando:

In actuality, it not only ended after Brazil was declared independent but it begun before the fight for Brazilian independence had started. The Bahian efforts, in the end, were what sent the Portuguese packing.

O texto diz que, na verdade, a guerra não só terminou depois que o Brasil foi declarado independente, mas que começou antes que a luta pela independência tivesse começado. E que foi o esforço dos baianos que fez os portugueses fazerem as malas.

Na verdade, o texto do StreetSmartBrazil começa trazendo uma decisão do Senado brasileiro, datada de 2013, que liga o 7 de setembro diretamente ao nosso 2 de julho, uma data igualmente importante para o país. Veja o trecho:

On May 8th, 2013, Bahian Independence Day, which falls on July 2nd, was officially recognized by the Senate as a date of national importance in Brazil. The recognition doesn’t mean it will become a national holiday but the date does hold an important place in the hearts of Bahians.

O texto segue explicando os motivos:

In fact, Bahian people are proud of July 2nd because it symbolizes the real fight for independence (and not just a mere proclamation of it), where they not only shed a lot of blood and tears, but where slaves and those of native indian descent (caboclos) came together to aid in the fight. It is also where they found themselves outnumbered, by three-thousand Portuguese soldiers versus one-thousand five-hundred on the Brazilian side, and still ended up victorious.

De fato, este foi o mês da proclamação, enquanto que as lutas reais aconteceram meses depois, em 1823. O trecho acima diz que o povo baiano tem orgulho do 2 e Julho porque simboliza a luta real pela independência (e não apenas uma mera proclamação), na qual não só se derramou muito sangue e lágrimas, mas também onde escravos e descendentes dos indígenas (os caboclos) se uniram para ajudar na batalha. Eles se achavam em número reduzido de mil e quinhentos contra os três mil soldados portugueses e, ainda assim, terminaram vitoriosos.

Em tempo, como o Enem está à porta, destaco desse texto uma estrutura semelhante à que temos no Português: …not only … but (also)… equivalente a …não só, mas também…
Vejamos:

It [the fight] not only ended after Brazil was declared independent but it begun before the fight for Brazilian independence had started.

O pronome it se refere à luta, lembra? Traduzido livremente, esse trecho diz que a luta não só terminou terminou depois que o Brasil foi declarado independente, mas (também) começou antes mesmo que a batalha pela independência tivesse começado.

[…] where they not only shed a lot of blood and tears, but where slaves and those of native indian descent (caboclos) came together to aid in the fight. Aqui está dito que não só derramaram muito sangue e lágrimas, mas também onde escravos e caboclos se uniram na batalha (tradução livre).

Visite os links das referências para leituras em inglês sobre a independência. É só por hoje e até a próxima vez.

Geraldo Seara

Professor da Rede Estadual de Ensino da Bahia

REFERÊNCIAS:

StreetSmart Brazil
http://streetsmartbrazil.com/bahian-independence-day-july-2nd/

Independence Day (Brazil)
https://en.wikipedia.org/wiki/Independence_Day_(Brazil)

 

Vai de Inglês no Enem?

Fig.1: Wikipedia bunch

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:WikiProject_Wikipedia-Books

Olá, pessoal! Que tal buscarmos maiores desafios no aprendizado da língua estrangeira? Eu sei que muitos estudantes gostam de praticar as estruturas básicas da língua, através de pequenos diálogos recheados de palavras e expressões idiomáticas bastante conhecidas, que dão a sensação de domínio da língua, mas precisamos avançar mais um pouco.

De fato, usamos muitos termos estrangeiros no nosso cotidiano que vão desde o “xis” do X-men ao wifi do vizinho. Assim, vamos surfando na vida e na net e, se pintar dificuldade, um tradutor online pode resolver. Mas esse fato – o de vivermos rodeados dessas palavras (algumas aportuguesadas) –, não nos garante um bom desempenho na prova de inglês. Algumas delas nos darão pistas, mas é preciso muito mais.

Na verdade, precisamos, mesmo, é praticar leituras no idioma alvo. Pra começar, podemos partir de notícias sobre fatos conhecidos ou temas da atualidade, tais como ciências, meio-ambiente, economia e política. É uma boa ideia ficarmos atentos às informações divulgadas nos diversos meios de comunicação. Para exemplificar, lembro da alegria que senti, ao ver na minha prova do vestibular um texto sobre um assunto que eu tinha lido, dias antes. Embora o inglês da prova estivesse em um nível mais avançado, pude identificar o tema já pelo título: Sudden Infant Death Syndrome. A transparência das palavras cognatas e a lembrança do assunto ajudaram bastante, mas outros conhecimentos e habilidades foram decisivos nas questões que seguiam o texto. Na ocasião, eu não conhecia muitas palavras, mas reconhecia infant, death e syndrome. Essas informações somadas ao que eu sabia da síndrome me levaram a inferir o significado de sudden. Logo, só podia se tratar da Síndrome da Morte Súbita Infantil (SMSI).

Não foi difícil interpretar o texto, nem algumas das questões voltadas para o conhecimento gramatical, pois sabendo que, em inglês, o adjetivo vem antes do substantivo, pude deduzir que a síndrome era de morte (death syndrome) e que era de criança (infant). E a palavra sudden? Bem, só podia ser “súbita”, “repentina”, com base na notícia que eu tinha visto. Mas é muito importante prestar atenção na ordem em que as palavras aparecem, em inglês. Repetindo, não era apenas uma syndrome. Era uma death syndrome. E, como há várias síndromes mortais, era preciso especificar que era uma infant death syndrome e que ocorria de modo repentino. Portanto, uma sudden infant death syndrome. Notem que cada palavra destacada modifica o trecho que vem depois.

Encontrei um texto parecido com o do meu vestibular, na Wikipedia. Destaquei o trecho que trata de possíveis soluções para se evitar a referida síndrome. Ao mesmo tempo, o referido parágrafo nos permite ver o uso de duas formas da língua: gerund (ing form) e infinitive. ATENÇÃO: nem sempre ing indica o present continuous.

Muitas vezes, os textos vêm acompanhados de gravuras que podem ajudar na compreensão. Nesse caso, o que a gravura sugere? A frase que acompanha a imagem está de acordo com uma possível solução para o problema?

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Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Sudden_infant_death_syndrome

[…] The most effective method of preventing SIDS is putting a child less than one year old on their back to sleep. Other measures include a firm mattress separate from but close to caregivers, no loose bedding, a relatively cool sleeping environment, using a pacifier, and avoiding exposure to tobacco smoke.  […]

Não se assuste se o texto pareceu muito estranho. Esta é uma boa oportunidade para saber se você está se enganando, estudando sempre as mesmas estruturas, ou se está, de fato, buscando desafios maiores.

Veja como ficam traduzidos os verbos na forma ing:

The most effective method of preventing SIDS is putting a child less than one year old on their back to sleep. Tradução livre: A melhor maneira de evitar a SMSI é botar a criança de menos de um ano de idade para dormir de barriga para cima.

Mas quando usar o infinitivo com to? E quando usar a ing form?

Sobre esse assunto indico o site https://www.englishclub.com/grammar/verbs-m_infinitive-ing.htm (em inglês) e também uma das aulas de Inglês do Emitec:

Bons estudos e até a próxima vez!

Geraldo Seara

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Fontes:

https://en.wikipedia.org/wiki/Sudden_infant_death_syndrome

https://www.englishclub.com/grammar/verbs-m_infinitive-ing.htm

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/emitec/disciplinas/exibir/id/4667

 

Is Brazil Sunstainable?

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Fig. 1: Deforestation in Brazil

Olá!

Você sabia que grande parte do vocabulário da língua inglesa tem a mesma origem que as palavras do nosso português? Pois é. Na Idade Média, a Inglaterra falava francês e, por meio desse idioma, as palavras de origem latina foram incorporadas ao inglês que veio a ser falado, mais tarde, na região. É por essa razão que compreendemos muitas palavras, principalmente se o tema estiver ligado às ciências e termos técnicos.

Por exemplo, o que o texto abaixo comunica?

Environmental issues in Brazil

Environmental issues in Brazil include deforestation in the Amazon basin, illegal wildlife trade, illegal poaching, air and water pollution, land degradation and water pollution caused by mining activities, wetland degradation and severe oil spills, among others. As the home to approximately 13% of all known species, Brazil has one of the most diverse collections of flora and fauna on the planet. Impacts from agriculture and industrialization in the country threaten this biodiversity.
As a developing or newly industrialized nation, Brazil is notable for taking a lead in environmentally friendly initiatives. In the field of biofuels, Brazil is the second-largest producer of ethanol in the world. It is also home to two sustainable cities. Nevertheless, environmental issues remain a major concern in Brazil.

In Wikipedia, the free encyclopedia

Sem muito esforço, é possível reconhecer muitas palavras, apenas passando os olhos pelo texto. Eu pus algumas em negrito, para facilitar. Assim, sem recorrer ao dicionário, dá até pra descobrir o que significa a palavra environmental. Muito bem! Ambiental! O contexto ajuda a compreender as demais palavras. Desse modo, conseguimos captar o sentido do título que está tratando das questões ambientais no Brasil. Acertou?

Com a competência que temos de falantes nativos do português, podemos transferir para outras línguas o que já sabemos do funcionamento da nossa. É assim que percebemos que as palavras deforestation, pollution, degradation, nation e industrialization têm o mesmo sufixo e que este equivale ao nosso -ção. Percebemos que o sufixo -ty da palavra biodiversity é o mesmo que está em city, necessity e sustainability, equivalendo ao nosso -dade. Já o sufixo -ly, das palavras approximately, environmentally e friendly, transforma tudo em advérbio, do mesmo modo que o nosso -mente.

Em meio a tantas notícias ruins sobre o Brasil, recentemente, pelo menos o texto em inglês da Wikipédia fala que lideramos em environmentally friendly initiatives. E aí? Você arrisca a tradução? Ou compreender já é o bastante?

Agora, se ficou muito curios@, copie e cole o texto no tradutor online de sua preferência e confira o quanto você acertou sobre essas iniciativas ambientalmente amigáveis, que ainda precisam avançar (ou serem, de fato, adotadas) no Brasil.

Abraços,

Geraldo Seara

Professor da Rede Estadual de Ensino da Bahia

Preconceito não!

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Fig. 1: Caminhada Caboclo Marcellino. Fotograma do videoclipe “Preconceito Não”.

Olá, pessoal!

Já vivi muitas experiências relacionadas ao local onde nasci, onde cresci, onde estudei, onde morei, onde trabalhei… Vim de São João do Panelinha, comarca de Camacan. Passei por Itabuna e vim parar em Salvador, pra daqui viajar por outros mundos, com mais experiências relacionadas ao meu sotaque, minha origem. Um dia consegui entrar para o staff de uma compahia aérea (na época era uma grande ousadia!). Em um determinado turno de trabalho, um passageiro perguntou por que eu era o único estranho naquele ninho, mas não, exatamente, com essas palavras. De modo sutil, ele se referiu ao meu nariz, que era bem diferente do dos meus colegas. Cortez ou politicamente correto? Na ocasião, eu ainda não tinha a resposta, mas esta começou a ser elaborada, a partir do que foi dito àquele passageiro. Disseram sobre mim: “ele fala inglês!”. Até então, eu achava que seriam outros os motivos que teriam me levado a trabalhar naquela empresa – e no aeroporto! Mas foi o inglês que “afilou” o meu nariz, fazendo eu me “parecer” igual aos colegas que não falavam nenhuma língua estrangeira, mas que tinha a tal boa aparência exigida. Eu tinha passado pelo processo de embranquecimento (cultural) que mais tarde vim saber.

Na verdade, o que há de maior nisso tudo é a Educação. Quando uma pessoa abre a boca, demonstra de onde vem e quanta bagagem carrega. A Educação – formal e informal – é, portanto, o passaporte para todos os mundos! Quando concluí a faculdade, troquei o aeroporto pela sala de aula, com mais ferramentas na sacola.

Recentemente, estivemos entre os indígenas de Olivença, mais precisamente entre os Tupinambá, para realizarmos o Curso de Interpretação e Produção de Vídeos Estudantis, na Escola Estadual Indígena Tupinambá de Olivença. Antes de irmos, nos disseram muitos “tenham cuidado!”

Ah se pudessem ver por baixo da pele, por trás do nariz desafilado, por dentro do coração…

Realizamos o curso e, desse encontro, descobri muitas coisas sobre mim, incluindo a origem do meu nariz, aludindo, aqui, a postagem da professora Valdineia Oliveira sobre nossa ancestralidade. Curti quando me disseram que eu me parecia com um deles. Aliás, quando falei a eles do lugar onde nasci, logo disseram “você deve é um Kamakã!”. 

Infelizmente, também percebemos que muitos negam sua origem, principalmente pela falta de informação ou das informações tendenciosas que fomentam preconceitos e espalham o terror. Do curso, surgiu o filme sobre o Caboclo Marcellino, um herói para os indígenas. Marcellino, que sabia ler e escrever, foi perseguido e preso  por defender o direito às terras ocupadas. Os parentes – modo de se referir aos demais indígenas – foram torturados, enquanto os jornais da época tratavam o herói como bandido. Nesse contexto, muitos abandonaram a identidade indígena, o que favorecia, grandemente, os coronéis.

Finalizado o filme, retornamos a Olivença para o seu lançamento e colhemos outra pérola: um videoclipe com o tema “preconceito não” cuja letra e canção foram feitas pelo indígena Juninho que, inclusive, já tinha participado do FACE, um dos projetos estruturantes da Secretaria da Educação do Estado da Bahia. Sim: indígenas escrevem, hoje, com vários instrumentos, pra todo mundo ler.

Vejam o video clipe Preconceito Não e o documentário sobre o curso de interpretação.

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/conteudos-digitais/conteudo/incorporar-conteudo/id/4171

Geraldo Seara

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia 

Línguas, Pra Que Te Quero?

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Fig. 1: Placa trilingue no Abaeté, em Salvador. Foto: Nildson B. Veloso

Olá! Você conhece os benefícios de aprender outros idiomas? Você sabia que as línguas, além de  facilitarem a comunicação com pessoas de diferentes nacionalidades e suas culturas, contribuem também para o crescimento do cérebro? Segundo estudos neurológicos mais recentes, estudar línguas deixa o cérebro em forma, além de atrasar os sintomas de Alzheimer!

Do ponto de vista pedagógico, por acessar muitas outras culturas,  podemos aprender mais sobre nós mesmos, enquanto povo, devendo ser este, também, o foco da aprendizagem. Além do código linguístico, devemos também atentar para o discurso que vem embutido nos livros, vídeos, excertos, etc. São modos de viver, de ser e de pensar próprios de cada cultura, que podem ser absorvidos, muitas vezes, sem a devida reflexão. Compreendo a aquisição de uma língua estrangeira, também, como possibilidade de falarmos de nós mesmos, para o mundo, diretamente, sem a intervenção de um tradutor.

Em reunião realizada com secretários de Educação, novembro passado, para se tratar da língua estrangeira em nossas escolas, a opinião de um estudante que trabalhava de garçom foi ouvida. Ele disse: “Vocês são as pessoas que estão escolhendo o futuro dos nossos filhos. A maioria das empresas não é gerenciada por brasileiros. Como vou tratar com um gerente se não falamos a mesma língua? Como vou mandar meu filho estudar fora se ele não fala inglês? E não posso ir junto, porque não falo […]. E se for esse inglês que está hoje na sala de aula, pode tirar, porque ninguém sai falando nada”. O evento ocorreu no Amapá, estado próximo às Guianas. Leia a reportagem completa.

Sobre esse lugar do estudo de línguas no mundo, podemos fazer comparações. Enquanto os Estados-Membros da União Europeia incentivam o multilinguismo,  com fluência em pelo menos duas línguas estrangeiras, aqui no Brasil aprendemos a nos conformar com o uso de um único idioma, embora sejamos consumidores de bens culturais e de outras naturezas importados de várias nações e línguas. Digo “aprendemos”, porque isso tem sido “ensinado”, ao longo do tempo, através de frases prontas repetidas à exaustão e de atitudes que não só atrapalham, como também nos desmotivam, resultando no quadro que temos que, inclusive, é mencionado nos PCNs para as Linguagens. Veja aqui a decisão da União Europeia sobre a necessidade de que seus cidadãos sejam multilíngues.

Como início de uma reflexão sobre esse assunto, sugiro o vídeo abaixo, intitulado Línguas pra quê? Na simulação de uma situação real, o vídeo sugere outros papéis para as línguas estrangeiras, para além do punhado de regras e tolas repetições.

E você? Qual a sua opinião sobre esse assunto como estudante e/ou como professor? Poste aqui seu comentário.

Geraldo Seara

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia 

Qual a pronúncia do Aedes?

Fig. 1: Speech

Recentemente, jornalistas de rádio e de TV passaram a pronunciar o nome do mosquito transmissor da dengue, febre amarela, febre zika e chikungunya  de forma diferente da que alguns de nós estávamos acostumados a ouvir. Outros ainda pronunciam do mesmo jeito que se escreve, sem o devido alofone.

A razão para a junção das letras, transformando o trissílado /a-e-des/ em um dissílabo /e-des/, remonta ao latim, língua usada para nomear, cientificamente, a maioria dos seres vivos do planeta. Mas há uma certa confusão aqui, porque, na verdade, a palavra aedes vem do grego, com a junção da partícula “a” (negação) com a palavra “édus” (agradável), resultando em “desagradável”, “odioso”. Já aedes, em latim, significa “casa”, “templo”. Ou seja, nada a ver com a fama do inseto. Entretanto, o nome do mosquito foi grafado, assim mesmo, no latim do século XIX. A meu ver, estão corretas ambas as pronúncias. Se pelo lado grego, trissílabo, ou pelo latim, dissílabo, juntando as letras ae da mesma maneira que fazemos com aegypti.

Sobre isso, enquanto em muitas línguas os dois caracteres ae se fundiram, graficamente, em um só æ, os romanos seguiram fazendo uso deles como um ditongo, mas que acabou evoluindo para um único fonema.

O que o rádio e a TV estão fazendo é uma correção para a pronúncia correta da palavra em latim. Por comparação, podemos ver, por aí, nomes tais como Cæsar e cællum, grafados assim mesmo, com as letras agarradinhas. Isso sinaliza que as 2 são uma única coisa. Deste modo, se pronunciamos Cæsar como c[ɛ]zar e se a palavra cællum evoluiu para céu, em português, estas pistas, somadas a outras de mesma natureza, como o próprio nome aegypti sinalizam como devemos chamar o famigerado Aedes.

Em Linguística, usamos barras e colchetes para indicar os fonemas e os alofones. As barras são usadas para as transcrições fonológicas, enquanto os colchetes sinalizam as transcrições fonéticas. Para exemplificar, a palavra mosquito, tem 8 letras, mas apenas 7 fonemas. Transcrevemos, fonemicamente /moskito/, sinalizando um único fone para duas letras, enquanto, foneticamente, podemos registrar uma série de variações na pronúncia da palavra, a depender da região geográfica e de alguns outros fatores. A essas variações, chamamos alofones. Assim, podemos ouvir [mɔs’kitu], [mus’kitu], [mɔʃ’kitu], [mos’kito], [moʃ’kito] e por aí vai. Os símbolos fonéticos [ɔ] e [ʃ] correspondem, respectivamente, ao “ó” aberto, como na palavra “cópia” e ao som do “ch”, como na palavra Chikungunya.

Quanto ao Aedes, seja a pronúncia [a’ɛdis], como no grego, ou [‘ɛ dis], como no latim, precisamos, mesmo, é nos livrar do bicho!

Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia