About carlosbarroscantor

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia, cantor de música popular, Mestre em Ciências Sociais, pesquisador musical.

Ping-pong com Mary Garcia Castro: Violências contra a mulher

A violência contra a mulher é uma temática que mexe com todos nós que buscamos uma sociedade melhor. Superar os estados de agressividade que atingem as mulheres é uma meta dos que querem um mundo menos hostil. Pensando no debate em que está inserida essa questão, a equipe da Rádio Anísio Teixeira conversou a professora Mary Garcia Castro sobre o assunto, tendo como inspiração o quadro Filmei! – Tapas na Alma, da TV Anísio Teixeira / Rede Anísio Teixeira.

Mary é uma atuante socióloga, graduada pela Universidade Federal da Bahia e doutora pela Universidade da Flórida, além de pesquisadora da A Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais- Flacso e bolsista da CNPQ. Autora do livro Juventude e sexualidade no Brasil, juntamente com Miriam Abramovay e Lorena Bernadete da Silva. Seus estudos e pesquisas versam sobre os temas: juventude, migrações internacionais, gênero, família, mulher, feminismo, identidades e cidadanias, modernidade e pós-modernidade e metodologia de pesquisa. Confira essa conversa:

Rádio Anísio Teixeira: Quais as principais formas de violência contra a mulher?

Mary Garcia Castro: São muitas as violências de gênero, ou seja, aquelas que estão relacionadas com a mulher e codificada socialmente e que se dão também nas relações sociais entre homens e mulheres: violências verbais, violências físicas, violências psicológicas; violências institucionais (como educação sexista, padrões de beleza e publicidade que excluem algumas mulheres), violência obstétrica, no campo da saúde,   entre  outras,  e, claro, toda  aquela que a mulher sente como tal. Hoje violência de gênero engloba também lesbofobia, homofobia, transgenerofobia. Ver Lei Maria da Penha e Lei contra o feminicídio que se conceitua como violência domestica (um tipo, mas não o único de violência de gênero).

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Professora Mary Garcia Castro – Foto: Arquivo pessoal

RAT: Quais os principais agressores?

MGC: Várias pesquisas indicam que a maior probabilidade é de o agressor ser o marido ou o parceiro sexual ou um conhecido.

RAT: Na sua opinião, qual o motivo das mulheres violentadas não aceitarem ajuda?

MGC: As mulheres violentadas sentem vergonha e pela ideologia dominante que elas absorvem, se sentem culpadas, como se tivessem “provocado” pela roupa que usaram e ou por não se comportarem de forma submissa.  É muito comum até em Delegacias perguntarem a queixante:”o que você fez para merecer essa surra?”.  O amor romântico também é uma ideologia que colabora com a violência simbólica, ou seja, segundo Bourdieu, o tipo de violência em que a vítima não considera que foi violentada e ate desculpa o agressor – “foi por amor”; “é que ele é ciumento e gosta muito de mim”. Por outro lado, há o medo, elas não têm para onde ir, se pobres, ou não serão bem vistas pela família e amigos, se forem classe média ou rica. E há a dependência econômica, como se livrar de uma pessoa com quem vive se não tem para onde ir? E existe ainda a síndrome da mãe, que atura tudo pelo amor dos filhos, “porque filho precisa de pai”.

RAT: É difícil para as agredidas se perceberem como vítimas?

MGC: Para muitas sim pela ideologia dominante que estimula baixa autoestima, a síndrome de mártir e o medo de ficar só.

RAT: Existe uma saída para esse grave problema?

MGC: Claro que há saídas! Não há país em que a taxa de violência contra a mulher é 0,  mas não do mesmo nível do Brasil.  Primeiro: políticas públicas que promovam autonomia econômica das mulheres; Segundo: educação com perspectiva de gênero nas escolas, em que se trabalhe respeito ao outro, à outra; Terceiro: Implementar as leis que temos, como a Maria da Penha e contra o Feminicídio – já foi um ganho eliminar a punição de casos de agressões domésticas com uma cesta básica e, na Maria da Penha, se incluir a violência psicológica. Mas muitas mulheres não sabem seus direitos e muitos juízes se recusam a interpretar como devem as leis, deixando que suas posturas machistas prevaleçam; Quarto: Recursos para as Casas Abrigos, que foram multiplicadas no governo Dilma e tiveram recursos cortados no governo Temer, pois sem a alternativa de onde ir, como denunciar e sair do convívio com o agressor? O empoderamento das mulheres, por informação, apoio, educação antissexista, amparo econômico são básicos. E, claro, educação antissexista para os homens também e questionamento da noção de que amor e relação sexual não implicam a propriedade do outro, da outra.

Gostou da entrevista?

Aproveite e assista um trecho do Programa TVE Debate sobre o movimento “Marcha das Vadias”, que problematiza os olhares sobre a mulher e o feminino e as violências sofridas historicamente pelas mulheres no mundo e no Brasil.

O video está disponível no Ambiente Educacional WEB:

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/conteudos-digitais/conteudo/exibir/id/3101

Carlos Barros.

Professor da Rede Estadual da Bahia.

 

 

 

A “música de preto” e o carnaval da Bahia

Os compositores Djavan e Caetano Veloso escreveram versos de uma canção chamada Linha do Equador em que dizem “gosto de filha música de preto / gosto tanto dela assim…”Esse modo de dizer “música de preto” bem poderia ser associado à maneira pejorativa como a palavra “preto” surge para designar os negros no Brasil. Neste caso, trata-se de uma constatação feita na poesia de Caetano da força imensa da cultura negra na música popular mundial.

Essa força se apresenta também na Bahia – território com grande número de pessoas descendentes de africanos da diáspora forçada pelo processo escravista desde o século XVI até o século XIX d.C. A cada início de ano, culminando com o carnaval de Salvador, a música que emerge como dominante na cena é a música de matrizes negras.

Samba, reggae, samba-reggae. Os gêneros são muitos e desde a década de oitenta do século XX que temos um fenômeno crescente da massificação (através das grandes e pequenas mídias) da música produzida pelos Blocos Afro num encontro com a sonoridade do Trio Elétrico, desaguando no que alguns pesquisadores chamam consideram como o nascedouro da Axé Music. Esse termo – cunhado de forma crítica por um jornalista baiano – deu nome a uma interface poderosa de ritmos e ambiências musicais que são tornados mais fortes durante o carnaval de Salvador e ao longo do ano são ensaiados pelos soteropolitanos e turistas que enchem a cidade de festa, som e sujeiras, como todo carnaval que se preze.

O samba-reggae é o gênero musical por excelência dos blocos afro de Salvador. Sua sonoridade parece ter surgido em finais dos anos setenta com os percussionistas que executavam as matrizes de samba-duro, samba-de-roda e ritmos afins chegando a uma síntese tanto no ambiente musical do Ilê Aiyê, quanto no Olodum, entidades mais que importantes para a compreensão desse fenômeno cultural que são os Blocos Afro de Salvador. O compositor e Maestro Neguinho do Samba teve papel de destaque na criação do samba-reggae a partir das claves musicais que adaptou dos sambas tocados na quadra do Ilê Aiyê e depois no Largo do Pelourinho, já quando membro do dissidente bloco Olodum.

Em 2017, comemoram-se trinta anos da canção Faraó (Divindade do Egito), de Luciano Gomes. Essa canção representou uma projeção enorme tanto do Olodum quanto da moderna música produzida na Bahia, sobretudo aquela ligada aos temas afro-baianos. Além do Olodum, a cantora e compositora Margareth Menezes, o cantor e compositor Djalma Oliveira e a Banda Mel eternizaram a música, levando para um número maior de ouvintes, propagando a negritude que era evocada na letra de Faraó e de tantas outras belamente compostas pelos artistas das agremiações negras da Bahia.

A “música de preto” baiana prossegue com outras possibilidades estéticas e outras reverberações. O Ilê permanece, O Olodum é global e outros artistas se vincularam ao gênero. A cantora e compositora Daniela Mercury (socialmente branca  e ligada aos aspectos culturais da negritude) é uma das artistas que até hoje – trinta anos de carreira depois – carrega a bandeira do samba-reggae e da música afro-baiana como conteúdo principal de onde emana seu trabalho. Essa música ainda é o suporte básico das narrativas acerca do recôncavo baiano e de Salvador nos planos sócio-existenciais, políticos e econômicos. A “música de preto” dá dinheiro, mesmo que menos para os compositores e artistas negros do que para outros agentes que movimentam a indústria da cultura na Bahia e no Brasil. Ecos da escravidão?

Música e sociedade possuem elos indissolúveis num país como o Brasil. Como dizia Naná Vasconcelos (percussionista pernambucano e criador incansável), tem povo que canta mais que reza. O Brasil reza e canta. A Bahia, então…

Saudemos a “pretitude musical” baiana!

Saudemos e cantemos!

Carlos Barros

Professor da Rede Estadual da Bahia.

Outubro Rosa – a saúde pública para a mulher e para todos nós.

O câncer de mama é uma doença que acomete um número muito grande de pessoas no planeta. Sua incidência tem sido revertida em muita dor  para pacientes, familiares e amigos de indivíduos atingidos. O século XX viu um grande crescimento do número de casos de câncer de mama e também de ações médicas e sociais para tentar lidar melhor com o problema.

Além de estar ligado à questão da saúde pública, a doença se relaciona também com aspectos sociais relativos, sobretudo às condições de saúde     da mulher, de alimentação inadequada, da falta do hábito da medicina preventiva e da genética, que responde por mecanismos que parecem disparar o crescimento desordenado de células no corpo.

Na década de 90, um movimento começa nos Estados Unidos a fim de buscar o diagnóstico precoce do câncer de mama, com exames de mamografia que se concentravam no mês de outubro. Essas ações ganharam um caráter oficial quando o Congresso americano fez o mês de outubro ser oficialmente o mês nacional no país de prevenção ao câncer de mama.

A Fundação Susan G. Komen for the cure é a responsável pela Corrida pela Cura, realizada em Nova York a partir de 1990 e que ocorre até os dias atuais, no sentido de motivar os debates sobre esse problema mundial. Os laços rosas passaram a ser símbolo dessa luta juntamente com a iluminação rosada para prédios públicos e de destaque nas cidades, desfiles e ações midiáticas em geral.

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Símbolo da campanha Outubro Rosa

No Brasil, foi emblemática a campanha feita com a atriz Cássia Kiss Magro, em 1988, em que com os seios à mostra, ela chamava atenção para a necessidade do autoexame. No período, o fato de a atriz já famosa aparecer com os seios desnudos causou certo alvoroço, o que acabou potencializando a campanha.

Segundo estimativas do INCA (Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva), 58 mil casos de câncer de mama devem acometer mulheres no Brasil, em 2016. Esse dado pode ficar ainda mais surpreendente quando sabemos que os homens também podem ser acometidos por câncer de mama,  representando menos de 1% dos casos.

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Autoexame para detecção de alterações na mama. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cancro_da_mama

Na sociedade contemporânea, o estresse, a alteração da percepção de tempo, como que nos colocando sempre com muita pressa, e uma alimentação que não é das melhores fazem com que o nosso corpo acabe tendo que lidar com adaptações que talvez sejam agressivas à estrutura biológica humana. Segundo Paulo Cesar Naoum, Professor Titular pela UNESP, 90% dos casos de câncer são adquiridos em hábitos pessoais que a pessoa possui ao longo de sua vida. O stress crônico na família, no trabalho ou por quaisquer outras razões, além de vícios de cigarro, drogas e álcool, alimentação rica em gorduras trans podem ser disparadores de diversos tipos de câncer, entre eles o câncer de mama.

Em 1872, o médico oftalmologista Hilário de Gouveia fez a primeira observação acerca da hereditariedade do câncer e em 1919 é criado o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), com ações voltadas para o câncer e ainda num momento em que os conhecimentos médicos sobre o tratamento da doença eram escassos e que a saúde pública no Brasil atingia muito menos pessoas que atualmente.

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Cirurgia de câncer de mama no século XVIII. Fonte: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9845793

O SUS (Sistema Único de Saúde) trata o câncer de mama através de sua rede credenciada, embora sua atuação seja limitada pela demanda alta que recebe a todo tempo, bem como os problemas enfrentados nos repasses de recursos que muitas vezes não chegam até os pontos de atendimento. Dependendo da região do país, o indivíduo pode ser encaminhado para uma Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (UNACON) ou para um Centro de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (CACON).

O Outubro Rosa é uma ação que merece destaque, mas precisamos estar atentos aos cuidados com a saúde pública a todo tempo. É preciso que investimentos sejam realizados constantemente e que a medicina preventiva seja possível para um maior número de pessoas. A desigualdade social no Brasil também tem efeitos graves sobre o entendimento a respeito dos cuidados com a saúde. Quando uma sociedade está sadia em sentidos múltiplos, a saúde pública expressa essa condição. Que cuidemos da saúde amplamente em nós e em todos!

Carlos Barros

Professor da Rede Estadual de Ensino.

 

Ética e Cidadania no cotidiano do estudante: exercícios educativos em processos de construção a partir da Escola

Ética é uma expressão complexa. Vem sendo tratada cotidianamente como um atributo, uma coisa que se tem ou não tem. Observando sua história no planeta e seus significados em diversas culturas, percebe-se o quanto é necessário entender melhor sua pertinência.

Segundo Desmond Tutu, arcebispo anglicano emérito da Cidade do Cabo, na África do Sul, e prêmio Nobel da Paz o conceito “Ubuntu” sustenta a noção de Ética numa visão global no continente africano. Nas suas palavras,  falando sobre o tema no evento Global Ethic Lectures na Alemanha em 2009, “`Ubuntu trata do “valor das pessoas, sua dignidade, sobre o seu valor. `Ubuntu` fala sobre o fato de que pertencemos a uma mesma família; à família humana, à família de Deus`”.

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Cooperação. Imagem disponível em http://www.pixabay.com

Para os gregos antigos (século V a.C.), a Ética consiste numa forma de saber que se refere à moral enquanto orientação das condutas do ser humano em diversas instâncias; no Estado, num grupo social-religioso e/ou no Cosmo.

Nas civilizações orientais (de maneira geral), a Ética está associada de forma profunda à compreensão das relações estabelecidas entre os seres humanos e a natureza, onde o equilíbrio parece ser o objetivo buscado como forma de guiar filosoficamente os modos de ser e existir.

Atualmente e mais precisamente na sociedade brasileira, o conceito de Ética vem passando por algumas crises ora benéficas, ora prejudiciais. As crises são benéficas quando nos fazem pensar sobre a Ética problematizando nossas ações em prol de melhorias possíveis em atitudes e visões de mundo. A crise é prejudicial quando relativiza ações humanas que devem ser superadas, como o autoritarismo e a falta de autonomia, por exemplo.

A Escola cumpre um papel fundamental como formadora de sujeitos que possam ler o mundo de maneira crítica e autoral. A Ética – em diversas perspectivas – precisa estar presente na comunidade escolar como orientação para as formas de produzir conhecimento e para formação dos estudantes na interação com seus professores, promovendo exercícios constantes de ações éticas em construção.

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Afresco “Escola de Atenas”, por Rafael Sanzio, 1509-1511

Neste sentido, é preciso garantir que a Ética seja um saber a permear o cotidiano dos estudantes de modo fluido e concreto, desde o cultivo do respeito às diversas vozes que estão em cena na Escola até o debate constante sobre o ser no mundo com noção de pertença à comunidade humana, aliás, como preconiza o conceito africano de Ubuntu.

Partindo dessas premissas, existir no mundo em coletividade leva ao entendimento do que chamamos Cidadania, que desde a antiguidade clássica grega está associada ao exercício da compreensão das funções que cada um de nós possui em sociedade.

De forma prática, a Ética no cotidiano estudantil se faz com plena participação dos estudantes enquanto sujeitos que – no processo de formação – dialogam entre si e com os seus professores construindo sentidos sobre a vida e exercendo cidadania.

Assim, se faz Educação.

Para refletir sobre essa discussão, que tal assistir ao material com a temática “Cidadania e direitos humanos”, disponível no Ambiente Educacional WEB?

Segue o link:

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/1554

Carlos Barros

Professor da rede estadual de ensino.

Envelhecimento e cultura: por que ficar velho incomoda tanto?

O envelhecimento é um processo natural por que passam todos os seres vivos. No caso dos humanos, além da natureza, envelhecer também tem impactos na cultura. As sociedades contemporâneas, sobretudo, parecem cada vez menos compreender o envelhecimento como um fenômeno que faz parte da vida tanto quanto a juventude.

A passagem do tempo está relacionada aos aspectos biológicos e interfere nas relações sociais, que constituem a história humana. A faixa etária determina posições, ações e formas de ser e viver, constituindo possibilidades e identidades coletivas e individuais. Ser adolescente, adulto e idoso significa também pertencer e transitar por espaços diferentes, atuando na vida de formas diversas.

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Fonte: pixabay.com

Um menino de dezessete anos em geral se percebe no mundo de uma forma que não é a mesma que um homem de sessenta anos. Social e culturalmente, desde as civilizações mais antigas, a idade sugere também pertencimento a espaços e a realização de atividades desiguais. Com isso, as hierarquias também podem se apresentar, determinando o que seria melhor, ser idoso ou jovem, ser rapaz, ou senhor.

Na sociedade brasileira, historicamente, a diferenciação por idade traz algumas questões que podem ser vistas de forma mais aproximada. Uma delas é o lugar da mulher no processo de envelhecimento. A outra é o “mito da juventude eterna” que muitas vezes aprisiona as pessoas numa ideia fixa de que ficar mais velho seria ruim.

A mulher brasileira – sobretudo nos períodos Colonial, Imperial e na Velha República – ocupava um lugar de subserviência aos homens sustentado pela falsa crença de superioridade masculina que foi base para a cultura brasileira durante muito tempo. Neste sentido, para satisfazer os desejos dos homens e corresponderem a este ideal, a juventude é uma característica normalmente associada para que a mulher seja reconhecida.

Atualmente, ainda que a sociedade brasileira tenha se modificado bastante, a velhice feminina ainda é tratada como um problema no imaginário coletivo. Frases assim são comuns:

– Nossa! Por que ela não pinta esse cabelo?

– Meu Deus! Como ela está cheia de rugas! Deveria fazer uma plástica!

– Você viu? Ela já fez tanta plástica que não tem mais onde mudar!

Essas indagações e afirmações revelam exatamente a dificuldade que ainda persiste em reconhecer o envelhecimento como um processo comum e inerente à vida humana. As mulheres – ainda vistas como objetos sexuais – não deveriam envelhecer (nessa forma de percepção) por não corresponderiam mais ao padrão imposto pelos homens. Quando um homem tem cabelos grisalhos é muito mais comum se ouvir que ele está “charmoso”. Quando uma mulher começa a mostrar sinais de que chega à maturidade, as cobranças estéticas muitas vezes são tão intensas que sufocam e constrangem.

Envelhecer é um direito de todos.

As mulheres – idosas e mais velhas – possuem o direito de ser.

Isso é liberdade!

Pensemos nisso, também, assistindo ao episódio sobre Diversidade Fenotípica, no Quadro Diversidades, do Programa Intervalo, da Rede Anísio Teixeira!

Segue o link:

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/3950

Carlos Barros

Professor de Rede Estadual

Eu sei que é Junho! Tradições culturais no Nordeste do Brasil

O mês de junho no Brasil coincide com o início do inverno, estação caracterizada entre outras marcas pela diminuição da temperatura e também por manifestações mais ligadas aos elementos interioranos de nossa cultura.

As festas juninas apareceram Europa e ocorriam no período do solstício de verão para comemorar o início da colheita.  Eram realizadas pelos celtas, egípcios, entre outros povos. Inicialmente eram chamadas “junônias”, em referência à Juno (a deusa grega Hera), esposa de Júpiter (o Deus grego Zeus) e com a influência em crescimento da Igreja Católica na Europa e pela coincidência com o nascimento de João Batista (24 de junho), as festas passaram a se chamadas de “joaninas”.

No Nordeste Brasileiro, onde a temperatura cai menos que no Sul e Sudeste do país, as tradições juninas estão ligadas historicamente à forte presença europeia e à fé católica popular, que além de São João, cultua Santo Antônio e São Pedro nesse período festivo.

As celebrações juninas nesta região trazem como temática central a alegria da colheita do milho, do amendoim, da laranja, dos alimentos que sustentam uma região do país marcada pela seca e pelo descaso histórico do estado ao longo do tempo.

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Praça do Forró, por Cido Carneiro (2010).

O Forró é o gênero que engloba diferentes manifestações de música e dança que são típicas da cultura junina. O Xote, Baião e Xaxado, além das Toadas, compõem um mosaico de estilos que juntos fazem a festa nas noites enluaradas dos sertões do Maranhão ao norte de Minas Gerais. Esses gêneros musicais e de dança foram popularizados no Brasil pós-década de 50 do século XX sobretudo através do trabalho realizado pelo cantor, compositor e acordeonista Luiz Gonzaga, também conhecido como o Rei do Baião.

O período de junho no nordeste brasileiro pode ser considerado como o momento em que o interior açucareiro (da cultura do açúcar colonial) mostra a força de suas tradições fortemente marcadas pelo catolicismo português. Na dança, os folguedos juninos são celebrados através das quadrilhas que chegaram no Brasil Imperial por influência francesa e se popularizaram no nordeste, onde ainda hoje as expressões “anarriê” e “anavantur” remetem à língua originária dessa dança de baile.

E como a cultura nordestina continua viva e sendo transformada a cada dia, o compositor Edilson Barreto (que foi aluno da Rede Estadual de ensino da Bahia) compôs a música Contos de Baião, que você pode conferir no Quadro Gramofone, do Programa Intervalo, Rede Anísio Teixeira no link abaixo:

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/3830

 

Carlos Barros

Professor da Rede Estadual de Ensino da Bahia

Salvador e Sua História: Celebrar e Tornar Melhor como Necessidade Cotidiana

Salvador é a cidade mais velha do Brasil.

Algumas vilas se formaram antes, como São Vicente (1532) e Olinda (1535), mas no formato cidade (organizada como uma zona urbana e planejada para tal), a cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos é a mais antiga da colônia portuguesa que posteriormente se torna o país Brasil. O nome da cidade é uma referência cristã católica ao Salvador, Jesus Cristo, o que condizia com o projeto cristianizador das navegações que foram realizadas no sentido Europa/América, processo que originou a colonização das terras americanas ao sul do Equador por Portugal.

Fruto de uma ordem do Rei D. João III de Portugal, Salvador foi oficialmente fundada em 29 de março de 1549, quando o então nomeado Governador Geral do Brasil – Tomé de Souza – desembarcou no Porto da Barra dando início ao projeto de Luís Dias (Mestre da Fortaleza e Obras de Salvador), para construir a primeira capital da colônia, centro administrativo dos negócios econômicos do produto que ora se cultivava como riqueza principal nesta terra: a cana-de-açúcar.

Em 1763, a capital da colônia é transferida para a cidade do Rio de Janeiro, já no contexto das descobertas de metais preciosos na região do atual estado de Minas Gerais e Salvador perde sua relevância principal como centro político da América Portuguesa (que viria a ser o Brasil), ficando ao longo do tempo como referência dos primeiros tempos coloniais.

Em 2016, Salvador completa 467 anos de fundação e ao mesmo tempo em que se rememora sua trajetória como cidade, é importante pensar sobre problemas que precisam ser superados para que a vida nesse lugar seja melhor aproveitada. A desigualdade social, a violência urbana, a mobilidade e consequentemente os padrões de convivência social precisam ser revistos.

Com índices de desempregos altos e muitos subempregos que se apresentam, por exemplo, na economia informal (os camelôs), a desigualdade econômica é um grande desafio para que as comemorações de aniversário possam ser plenas. Com uma pequena malha de Metrô recentemente inaugurada, Salvador ainda possui muitas dificuldades no que diz respeito à mobilidade urbana. Ônibus que demoram muito a passar pelos pontos, frotas reduzidas em horários após 21h, domingos e feriados são questões que tornam difícil a vida do habitante dessa capital. Some-se a isso a crescente violência urbana que acomete essa zona urbana. Segundo dados de 2012, em torno de 42 mil adolescentes de 12 a 18 anos estão propensos a serem vítimas de assassinato em cidades com mais de cem mil habitantes. A projeção se refere ao período entre 2013 e 2019, tal como o gráfico abaixo aponta:

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Dados: UNICEF, SDH (Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República ), ONG Observatório de Favelas e o LAV – UERJ (Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Dessa forma, é importante que pensemos a cidade de Salvador como o local onde a comemoração deve vir junto à reflexão. Suas belezas naturais e culturais são bálsamos para olhos, ouvidos e demais sentidos humanos que se dão ao prazer de vivenciarem sua existência. Ter esse espaço como um lugar melhor para viver deve ser objetivo de todos nós que queremos uma sociedade mais humanitária e assim, mais viva!

Salve, Salvador!

Como sugestão de audiovisual sobre a temática desse texto, o episódio “Salvador” do Quadro Histórias da Bahia, do Programa Intervalo (Rede Anísio Teixeira) pode ser interessante para outros olhares acerca de nossa história.

Segue o link:

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/3873

Carlos Barros

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia.