Hipercorreção

Em Linguística, hipercorreção também chamada ultracorreçãoé um fenômeno muito presente no cotidiano dos falantes de uma língua, que, nas palavras da professora Stella Maris Bortoni-Ricardo, “decorre de uma hipótese errada que o falante realiza num esforço para ajustar-se à norma-padrão. Ao tentar ajustar-se à norma, acaba por cometer um erro”, (BORTONI-RICARDO, 2004 p.8, apud SANTOS).

Há várias definições para o fenômeno, sendo algumas bem sofisticadas, mas, resumindo, é fazer correção onde não há erro. E isso acontece por diversos motivos, desde simples analogias ao que já foi aprendido, passando pela insegurança linguística, até o esforço de falar difícil.

Como exemplos de analogia às formas já aprendidas, os mais corriqueiros vêm de falantes que aprendem a dizer telha em vez de teia e velha em vez de véia e que passam a dizer também telha de aranha e injeção na velha.

De acordo com o professor Cláudio Moreno, “não é qualquer pessoa que comete erros de hipercorreção; paradoxalmente, eles só atacam os falantes que têm certo grau de estudo, preocupados honestamente com o correto uso do idioma”, (MORENO, 2009). Há casos em que alguns falantes chegam a repetir um termo que a outra pessoa disse, de modo hipercorrigido, com a intenção de apenas “educar”, pois julga estar fazendo a coisa certa. A palavra privilégio, por exemplo, é uma das preferidas, ao ser repetida pelo outro interlocutor como previlégio, numa tentativa de ensinar “o certo” ao outro. Esse erro, talvez, acontece, por conta dos usos cotidianos do prefixo pré, como em pré-pago, pré-escola e de palavras como previdência, previsão, previsto, presidente, prepotência, preposição, etc. Nesse caso, o falante acaba trocando o i pelo e, tentando seguir um padrão. Essa é só uma forma bem simples de tentar entender parte desse processo.

Entre pessoas comuns, a hipercorreção ocorre de modo corriqueiro, sem traumas. Já entre pessoas públicas e/ou famosas, o caso vai parar na mídia! Foi assim com o ministro, quando disse em público: haverão (sic) mudanças” no Enem. O caso foi manchete em tudo quanto é jornal e nas redes sociais. O alarde teve um lado positivo, pois muita gente ficou sabendo da regra com o verbo haver, que quando significa ocorrer, existir, etc., é impessoal e, portanto, deve permanecer na 3ª pessoa do singular. Mas quem está livre desses escorregos na língua? O falante aludido aqui não era apenas ministro: a pasta dele era da Educação, daí a exigência da multidão. Mas quando essa exigência se faz a alguém que não teve acesso ou precisou deixar a escola pra trabalhar, passa a configurar preconceito linguístico.

Nos anos sombrios da ditadura, houve um outro tipo de correção. Essa, sim, era perversa e cheia de más intenções. Considerando nossa imensa área territorial e toda a diversidade linguística decorrente disso, é um crime censurar alguém pelo registro que utiliza para se comunicar, ou pelo estilo que deseja imprimir em suas obras. E se essa comunicação se faz pela poesia, ainda mais dor causa a censura. Assim, erra quem tenta corrigir a voz de um Patativa do Assaré, quando ele diz basta vê no mês de maio, um poema em cada gaio, um verso em cada fulô”. Que maldade corrigir um Adoniran Barbosa por conta do seu “Tiro ao Alvaro. Quem não cantou e ainda canta ‒ “De tanto levar frexada do teu olhar…”.

Sim, censores, o teu olhar mata mais que atropelamento de artomorve, mais que bala de revorve”.

“A hipercorreção da ditadura contra ‘Tiro ao Álvaro’, de 1974.
Documento oficial da DCDP (Divisão de Censura de Diversões Públicas), em que consta censura à letra da música “Tiro ao Álvaro”, de Adoniran Barbosa, em 1974. O órgão da ditadura militar que atuou entre 1964 e 1985. Este e outros acontecimentos documentos podem ser vistos em www.memoriasreveladas.gov.br.
Imagem e descrição extraídas de
<http://www.advivo.com.br/blog/joao-paulo-caldeira/clone-de-fotos-charges-e-tirinhas-230>

REFERÊNCIAS:

MORENO, Cláudio. Hipercorreção. Disponível em < http://sualingua.com.br/2009/05/11/hipercorrecao/ >. Acessado em 13/07/2018.

SANTOS, Edson. O fenômeno da hipercorreção linguística: entenda um pouco mais. Disponível em <https://revistaidentidade.webnode.com.br/news/o%20fenomeno%20da%20hipercorre%C3%A7%C3%A3o%20linguistica%3A%20entenda%20um%20pouco%20mais/>. Acessado em 13/07/2018.

Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Educação.

Texto publicado originalmente em http://blog.pat.educacao.ba.gov.br/blog/2018/07/19/hipercorrecao/

A arte de dar vida às personagens

Construir uma obra fílmica de ficção é uma tarefa de responsabilidade imensa já que personas vão tomando formas concretas, a tal ponto de seu autores não conseguirem mais frear suas atitudes, pois, quando a construção delas é sincera, elas passam a falar por si só, obrigando aos seus desenvolvedores esquecerem de suas premissas, conceitos e pré-conceitos sobre tudo. As ações perpassam os interesses de quem as escreve como se, de repente, não conseguissem mais segurar a língua e o corpo dessas criaturas e, se tentarem fazê-lo, estarão negligenciando seus atos, causando até uma inverossimilhança interna por conta dos seus conceitos pré-concebidos.

No cinema, isso é exposto à máxima potência já que, além das ações descritas em palavras, temos as ações concretizadas em forma de imagens captadas em close, revelando, então, nuances de gestos, muitas vezes imperceptíveis em outros veículos como o palco de teatro e, até mesmo, a tela da TV, pelo seu tamanho reduzido.

Existem diversos exemplos de personagens que tomaram outro rumo que não era o previsto por seu autor, no início. Eram simplesmente coadjuvantes, mas que ganharam uma força tão grande, que superaram os protagonistas. Veja como exemplo o Coringa do filme Batman – O Cavaleiro das Trevas, no qual o ator Heath Ledger “rouba” a cena, deixando o personagem Batman quase que em segundo plano. Segundo o diretor, a proposta não era inicialmente essa, mas o empenho do ator fez com que cenas extras fossem criadas para explorar mais o caráter da personagem.

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Fig,1 Ator Heath Ledger

Em outros casos, personagens coadjuvantes tomam vida de forma tal que cenas extras começam a ser escritas para elas, como foi o caso de Bebel, interpretada por Camila Pitanga em Insensato Coração de Gilberto Braga.

No Brasil, existem outros exemplos de mudança no caminho de algumas personagens, tanto no cinema, quanto na TV, a exemplo de Igor, o cigano, interpretado pelo modelo Ricardo Macchi na novela Explode Coração, de Glória Perez. Na história era previsto o romance entre ele e Dara, a protagonista interpretada por Tereza Seiblitz. No entanto, a interpretação do ator ficou muito abaixo do esperado e o romance dos dois foi declinando até calar sua voz, sendo substituído por um outro par romântico, formado agora por Dara e João Falcão, interpretado por Edson Celulari.

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Quando personagens perdem a importância, devido à dificuldade de seus intérpretes em construí-los e desenvolvê-los, ao longo das telenovelas, o autor, muitas vezes toma a atitude mais drástica, a de matá-los. Em se tratando de filmes, a saída é cortá-los na edição.

Como a vida imita a arte, segundo um ditado bem conhecido, há também personagens reais que assumem posições nas quais  não eram esperadas, muitas vezes em detrimento de outros. Vejamos o caso da presidência da república que, por diversas vezes e diversos motivos, teve seu vice assumindo a vaga do presidente, em alguns momentos do nosso país: Deodoro da Fonsêca foi substituído  por Floriano Peixoto, através de um Golpe de Estado; Afonso Penna, por Nilo Peçanha, por causa da morte daquele; Delfim Moreira por Rodrigues Alves, que assumiu, interinamente, já na posse, por doença do líder; Getúlio Vargas por Café Filho, Jânio Quadros por João Goulart, Tancredo Neves por José Sarney (da mesma forma que aconteceu com Delfim Moreira e Rodrigues Alves), Fernando Collor por Itamar Franco e, por último, Dilma Rousseff por Michel Temer e, neste caso, também se tornou uma verdadeira história de horror.