A África e o Comércio de Tecidos na Modernidade

Aprendemos nas escolas que no século XVIII houve profundas mudanças na estrutura de organização do trabalho. O trabalhador artesão foi substituído pelo operário na produção de manufaturas.  Este último, ao contrário do primeiro, foi destituído do conhecimento global do processo produtivo, bem como dos meios de produção, para tornar-se mão de obra subjugada ao “patrão”. Esse modelo foi exportado para diversas regiões do mundo, fazendo da Inglaterra o grande centro difusor de transformações econômicas e sociais. O objetivo era potencializar a produção, aumentando o quantitativo de tecidos para atender ao mercado externo. A indústria têxtil tornou-se, então, o carro chefe de todo esse processo. E para entendermos o porque da demanda por tecidos ter impactado tão profundamente o mercado mundial, a ponto de promover mudanças sociais tão profundas na Europa, que tal cruzarmos o Atlântico em direção a África centro-ocidental?

Fig. 1 Mapa da África

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Fonte: https://pt.wikipedia.org

A  África Centro Ocidental  corresponde aos territórios de Angola e parte do Congo, como podemos ver no mapa acima. No mapa abaixo, podemos localizar as diversas regiões que citaremos ao longo do texto!

Fig. 2 CARTE DES ROYAUMES DE CONGO ANGOLA et BENGUELA. Carta geográfica de Angola e do Congo, feita por Jacques Bellin (1703-1772). Avec les Pays Voisins. from Histoire Generale Des Voyages of A.F. Prevost d’Exiles.

mapa-angolaFonte: https://commons.wikimedia.org

Nos séculos XIII, XIV e XV, essa região era grande produtora de tecidos. Em 1611, o Congo Oriental exportava para Angola 100 mil metros de panos por ano, cifras estas que permitiram alguns historiadores comparar sua produção com a da Holanda. Estas fazendas eram produzidas a partir das fibras de plantas diversas, coloridos com takula, carvão,  giz ou através da exposição ao sol em diferentes períodos do dia.

Fig. 3 Textura da casca da fibra da palmeira com corda.

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Dreamstime1300 × 949Pesquisa por imagem

O uso dos tecidos mais belos era uma prerrogativa dos chefes africanos, a exemplo dos panos de libongo – também conhecidos como sambu ou nollolevieri. Das fibras do embondeiro, encontrada no Ndongo e no Congo, faziam-se tangas e sacos e das fibras da insandeira se produzia os tecidos chamados de kitundu. Em Loango, Ndembu e Congo, um tipo específico de pano, denominado mpusu, servia para a produção de roupas, cobertores e almofadas. A fibras de palmira-bordão, encontradas e manufaturadas no Loango e Congo, eram a matéria-prima para a produção da urila, bungu, maxze, kundi e meio-kundi. Uma parte considerável das sociedades do Loango trabalhava na atividade têxtil, fazendo dessa região o maior centro produtor de toda a África centro-ocidental. Estes tecidos eram empregados, sobretudo, na confecção de sacos, cobertores, esteiras e diversas peças do vestuário dos homens e mulheres africanas.

Os africanos utilizavam os tecidos não apenas para se vestir, mas também na decoração, nas cerimônias de cremação e casamento e nos rituais de iniciação dos jovens africanos. Uma das funções mais importantes dos tecidos, entretanto, era o de objeto-moeda. Isso mesmo, os tecidos serviam como dinheiro. Com os tecidos, os africanos pagavam tributos, compravam alimentos e serviços. Por isso, os comerciantes europeus que quisessem negociar na África tinham que levar fazendas, dentre outras mercadorias. Inicialmente estes tecidos exportados para o continente africano eram adquiridos na Índia e na China, mas com o passar do tempo, varias regiões na Europa passaram a produzir panos. Dessa forma, o fato da indústria têxtil ter sido o carro chefe da revolução industrial está diretamente ligado a dinâmica econômica e social do continente africano.

Quer saber mais sobre os tecidos africanos durante o período moderno e o impacto disso na Europa e no resto do mundo? Confira as sugestões de leitura!

– KAZUO, Kobayashi. British Atlantic Slave Trade and East Indian Textiles, 1650-1808. In: Exploring Global Linkages between Asian Maritime World and Trans-Atlantic World: Global History and Maritime Asia Working Paper, v. 19, p. 26-52, (Nov. 2011).
– MILLER. Joseph. C. Way of Death: Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade (1730-1830). EUA: Copyright, 1988.
 – PARREIRA, Adriano. Economia e Sociedade em Angola na Época da Rainha Jinga (séc. XVII). Lisboa: Editorial Estampa, 1999.
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