Radiola PW: Sobradinho

Oi! Como você está? Tudo bem? Hoje, a Radiola PW indica a música Sobradinho, composta por Sá e Guarabyra. A canção foi lançada pela dupla em 1977, no reconhecido disco Pirão de Peixe com Pimenta e é uma das letras mais emblemáticas do nosso cancioneiro.

A música é um protesto feito pelos autores para relatar o drama vivido pelos sertanejos durante a construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, em 1973. A obra foi capitaneada pela CHESF (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco) e durou seis anos para ser concluída. De acordo com o site da companhia, o início da operação da usina se deu em novembro de 1979.

Sá (direita) e Guarabyra (esquerda) durante apresentação no programa Viola, Minha Viola, da TV Cultura. Imagem: captura de tela feita em 12 de junho de 2016

Fig. 1: Sá (direita) e Guarabyra (esquerda) durante apresentação no programa Viola, Minha Viola, da TV Cultura. Imagem: captura de tela feita em 12 de junho de 2016

É impossível não associar o contexto de Sobradinho (música e cidade) ao da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em 2011. Certamente, o debate acerca dos impactos ambientais causados pelo projeto, bem como a reviravolta e a instabilidade que acompanharam a vida dos moradores diretamente atingidos pelo empreendimento, se repetiu. Para ampliar a discussão, vale a pena ler a cartilha Conheça a UHE Belo Monte, publicada pela Norte Energia, empresa responsável pela implantação, construção e operação da usina. Nesse sentido, é importante também acessar o site do projeto Os Impactos de Belo Monte, idealizado pelo fotojornalista Lalo de Almeida.

A canção do carioca Sá e do baiano Guarabyra conta a história sob a ótica do sertanejo que morava na região. O eu lírico diz: O homem chega e já desfaz a natureza/Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar. Esses versos revelam a forma como os moradores foram surpreendidos e tirados do seu lugar sem nenhum tipo de planejamento, com a promessa de que tudo ia mudar. O sertanejo temia a ação da natureza (O São Francisco lá pra cima da Bahia/Diz que dia menos dia/Vai subir bem devagar”) e não duvidava da profecia atribuída a Antônio Conselheiro (E passo a passo vai cumprindo a profecia/Do beato que dizia que o sertão ia alagar/O sertão vai virar mar/Dá no coração/O medo que algum dia o mar também vire sertão”).

Para deixar ainda mais evidente que os moradores foram expulsos da região onde viviam para que a barragem fosse construída, os compositores, num rico jogo semântico, expressaram: Adeus, Remanso, Casa Nova, Sento-Sé/Adeus, Pilão Arcado/Vem o rio te engolir”. O “adeus” significa tanto despedida quanto saudade. “Adeus” porque as cidades estavam indo embora, “engolidas pelo rio”; e “adeus” porque o próprio morador não poderia ficar naquelas regiões, uma vez que tinha sido convidado a se retirar. Para ele, sobrou acreditar no ditado popular que diz: O futuro a Deus pertence”. Irônico, não é? Vale ressaltar que todas as cidades citadas nos versos, assim como Sobradinho, ficam no extremo norte da Bahia.

No desfecho, um dos versos mais fortes da música: Debaixo d’água lá se vai a vida inteira”. Fica difícil até de comentar. A empatia é a responsável por isso. Nas linhas seguintes, os compositores falam de “gaiola” e “salto”. Gaiola é uma embarcação; salto, o mesmo que “queda d’água”. Assim, os versos ganham mais sentido ainda: Debaixo d’água lá se vai a vida inteira/Por cima da cachoeira o gaiola vai subir/Vai ter barragem no salto do Sobradinho/E o povo vai-se embora com medo de se afogar”. A música tem temática triste, que inunda o nosso coração, mas vale muito a pena ouvir e refletir sobre ela. Faça isso.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

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