Vai uma tapioca aí?

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Imagem  Comunidade Quilombola – As Mulheres em atividade (produção de tapioca). Por: Eny Silva, Caroline Tonete Gomes e Flávia Germano

Falar de tapioca é lembrar de mandioca, é falar de Nordeste, é falar um pouco da nossa alimentação. Se existe um ingrediente muito utilizado, esse certamente é a mandioca, presente em muitos pratos típicos do Nordeste . Ela possui uma importância cultural e histórica muito grande, podendo ser classificada pela quantidade de ácido cianídrico – mansa (macaxeira ou aipim) ou brava (venenosa), uma raiz nativa da Amazônia brasileira e, segundo a Embrapa, existem quase 250 variedades de mandioca.

O cultivo da mandioca começou na bacia do amazonas por diversas tribos indígenas. Se espalhou aos poucos pela América do Sul (Venezuela e as Guianas) e, em seguida, na América Central e do Norte. Conta a lenda que, nos tempos indígenas, existia uma indiazinha chamada Maní, que nasceu branca e morreu com apenas um ano de idade. Foi enterrada dentro de sua oca, que tinha o nome de “maní-oca”. De sua sepultura, brotou uma planta, que hoje chama-se mandioca e está na base da alimentação brasileira. A mandioca teve grande importância no tráfico negreiro. Os navios que retornavam para a África  levavam farinha de mandioca como uma das moedas de troca. Ela teve papel essencial na alimentação dos índios nativos, dos portugueses e dos bandeirantes, na época das expedições pelo interior do país.

A importância histórica e cultural da mandioca está justamente no fato de ela ter sido a base de sustento das pessoas durante a colonização do Brasil. Versatilidade é uma característica marcante da mandioca, desde a folha até a raiz, tudo é aproveitado. Produz uma ampla lista de subprodutos. Tudo começou com os índios, pelo fato de terem o primeiro contato, desenvolvendo  outros usos para a mandioca. Conseguiram consumir sem perigo a espécie “brava”, tirando o seu veneno através do cozimento por um bom tempo. A mandioca mata a fome de milhares de pessoas, principalmente as que moram em áreas rurais. É um produto barato e popular, preparado de diversas maneiras e base de inúmeros pratos da nossa cozinha. Chamada pelos portugueses de “farinha de pau”. Uma boa mandioca deve soltar a casca com facilidade, ser  branca e qualquer mancha escura é sinal  de doença ou contaminação.

Presente na mesa do brasileiro e, principalmente, do nordestino, a mandioca é descrita por várias pessoas como: “Pão de cada dia” e “mãe do povo brasileiro”. Ingrediente  marcante e de grande importância, representa o Brasil e o Nordeste na história, na cultura  e na gastronomia. Milhares de pessoas sobrevivem por causa da mandioca, ora plantando, cultivando ou se alimentando. Podemos afirmar com certeza de que a prática do seu cultivo e seus derivados influenciaram a cultura  e a formação gastronômica no nordeste do Brasil.

E aí, ainda vai uma tapioca?

Josenir Hayne Gomes.

Professora da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia.

Links consultados:

http://www.petitgastro.com.br/mandioca-de-norte-a-sul-do-pais/

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/alimentacao_cultura.pdf

 

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Oxe! Forró é For all?

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Fig. 1: Ilustração feita por Josymar Alves

Oxente! É São João! Vou aquecer essa indagação no calor de uma fogueira, ao som da zabumba do Rei do Baião! Aliás, assim ele já cantava a composição de José Batista e Antônio Barros:

“ Reinado, coroa
Tudo isso o baião me deu
Estrelas de ouro
No meu chapéu
Roupa de couro e gibão
Como um milagre caído do céu…”

selo_luiz_gonzaga-02Fig.2 Selo produzido pelos Correios em homanagem a Luiz Gonzaga no ano de 2012

Mas, a propósito! De onde vem a expressão for all? Bem… muitos tentam explicá-la, até mesmo Geraldo Azevedo em sua canção “For All Para Todos”, mas a verdade é que, segundo a pseudoetimologia a palavra forró resultaria da expressão inglesa for all (para todos). Seria essa a explicação? Ficou curioso(a) para saber mais? Segundo estudiosos, é resultante da corruptela da palavra francesa faux-bourdo. De acordo com o gramático e filólogo Evanildo Bechara é a redução de “forrobodó” ou, simplesmente, forró. Originário das festividades europeias, acabou sendo incorporado à cultura brasileira na qual o Nordeste é sua maior manifestação.

De onde veio ou não, o que importa é que muito do nosso forró veio do Gonzagão! Aliás, você sabia dessa? Assista ao vídeo e confira:

E não há forró que se preze, sem ele. Portanto, convido a todos para fazer um retorno ao passado com o saudoso Luiz Gonzaga, “The King of Baião”. Enquanto aprendemos sobre a vida dele, vamos revisar o Simple Past (Regular Verbs) tempo verbal bastante utilizado na língua inglesa. Esse ícone da cultura nordestina cuja “Asa Branca” alçou voo ganhou versão em inglês com o Forro in the Dark / David Byrne. Busque o vídeo e tire suas conclusões!

Here we go!

A formação do Simple Past (Regular verbs) é muito simples. Vejamos algumas regras! É necessário acrescentar o ED ao final do verbo sempre que ele for regular na forma afirmativa. Essa é a regra geral!

Luiz Gonzaga learnED to play accordion at very early age.

The singer mentionED different rythms and musical fusions like xote, baião, xaxado and others.

Gonzaga recordED Baião in 1946.

Com os verbos terminados em “E”, acrescentamos apenas o “D” :

The King of Baião admireD his people and his culture.

He promoteD northeastern music throughout Brazil.

Luiz Gonzaga and Humberto Teixeira composeD “Asa Branca” in 1947.

The King of Baião receiveD the Shell prize for Brazilian Popular Music in 1984.

He died in 1989.

Remember! Para negar ou interrogar é necessário utilizar o verbo auxiliar DID e manter o verbo principal na sua forma original. Vejamos um exemplo na forma interrogativa!

Luiz Gonzaga createD a new style of Brazilian folk music.

DID Luiz Gonzaga create a new style of Brazilian folk music?

Então… So easy! Não é mesmo? Para aprender mais veja no nosso Ambiente Educacional Web, acessando o link:

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/conteudos-digitais/conteudo/exibir/id/4242

Well… Forró or For all, enjoy yourself! Porque sendo inglês, francês ou  português  o bom mesmo é a comemoração e : Viva São João!

 Mônica Mota

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia

Rede AT em Ação!

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No dia 16 de maio,  no Instituto Anísio Teixeira, foi ministrada pelos educadores da Rede AT a sexta Formação em Apropriações Tecnológicas no Ensino e na Aprendizagem, durante a VIII Etapa Intermediária da LICEEI/UNEBLicenciatura Intercultural em Educação Escolar Indígena, com o objetivo de contribuir para a melhoria da educação básica.

A formação contou com um público muito especial de 65 participantes, todos licenciandos do curso interdisciplinar da UNEB e pertencentes a diversas etnias indígenas como: Kantareré, Pankararé, Kaimbé, Tupi,Tumbalalá, Xucuru Kariri, Tuxá ,Kiriri, Tupinambá de Olivença, Pataxó dentre outras.

A Rede AT valida um movimento que  luta contra a exclusão e busca fomentar o conhecimento democrático e solidário na tentativa de ampliar alternativas para novos aportes no contexto educacional do Estado da Bahia, cuja  iniciativa está  na fusão da aquisição do conhecimento e da informação aliada à apropriações tecnológicas críticas, lúdicas, contextualizadas e colaborativas.

Na ocasião foram desenvolvidos estudos epistemológicos sobre a Teoria da Aprendizagem Significativa (TAS) – David Paul Ausubel; REA – Recursos Educacionais Abertos; Licenças Livres e apresentação do  AEW – Ambiente Educacional WEB, Blog do Professor WEB  e TV Anísio Teixeira.

Foram apresentados: o AEW , bem como sua utilização nos processos de busca , pesquisa e catalogação de conteúdos digitais; o Blog do PW, onde são  compartilhados  conteúdos educacionais e realizadas publicações diárias com assuntos direcionados à comunidade escolar, divididos em temas transversais e áreas do conhecimento, além de notícias relacionadas à educação e ao cenário cultural da Bahia e do Brasil; a TV AT, formação e produção de mídias educacionais.

A Formação foi desenvolvida através de uma atividade lúdica, tendo como mote o conhecimento inter e transdisciplinar, balizado pelos PCNs, a partir de uma dinâmica que ampliou esse diálogo gerando interação entre educadores e participantes.

Os participantes mostraram-se bem receptivos durante todas as discussões, por compreender a dimensão dessa ação para o processo democrático e equitativo na busca da  informação e do conhecimento.

Assista ao vídeo do Cacique Ramón, da etnia Tupinambá de Olivença.

 

A Rede Anísio Teixeira fechou com chave de ouro o primeiro semestre de 2016,com a Formação em  Apropriações Tecnológicas no Ensino e na Aprendizagem, ocorrida no dia 09 de junho, no Colégio Estadual de Praia Grande/Periperi( Subúrbio Ferroviário de Salvador) , onde foram atendidos 22 cursistas, lotados nas seguintes unidades escolares: Colégio Estadual de Praia Grande, Colégio Estadual Nelson Mandela, Colégio Estadual Sete de Setembro, Colégio Estadual Barros Barreto, Colégio Estadual Professor Carlos Barros, Colégio Estadual Maria Odete, Colégio Estadual Professora Maria Anita.

Outras formações foram realizadas pela Rede Anísio Teixeira em 2016, através do grupo de trabalho de Formação em  Apropriações Tecnológicas no Ensino e na Aprendizagem. Foram atendidos os Projetos Estruturantes: Pacto , Gestar , PCE – Programa Ciência na Escola; a SUPED – Superintendência de Educação Básica; o CJCC – Centro Juvenil de Ciência e Cultura. O grupo de trabalho ministrou palestra no Encontro com os articuladores do JERP – Jogos Estudantis da Rede Pública.

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Fotos – Vítor Moreira

 

Até o próximo!

Ana Rita Esteves Medrado

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia.

Instituto Anísio Teixeira abre inscrições para Oficina de Produção de Mídias Estudantis

O Instituto Anísio Teixeira, por meio do Programa de Difusão de Mídias e Tecnologias Educacionais Livres da Rede Pública Estadual de Ensino, Rede Anísio Teixeira – Rede AT, abre inscrições para a Oficina de Produção de Mídias Estudantis. O objetivo da oficina é formar estudantes e professores da rede pública de ensino para atuarem como produtores e gestores multimídia, além de estimular o uso de softwares livres nas unidades escolares.

Fig. 1: banner de divulgação

Fig. 1: banner de divulgação

Inscrição

Professores e estudantes do ensino médio da rede pública de ensino da Bahia têm até o dia 01 de julho para se inscrever na atividade de formação. O curso tem carga horária de 56 horas e disponibilizará 20 vagas, sendo 4 para professores e 16 para estudantes.

Para participar da seleção, é muito fácil:

1ª fase: basta ler na íntegra a chamada pública e preencher a ficha de inscrição, respondendo atentamente a cada item.

2ª fase: após análise de ficha de inscrição, serão convocados 40 candidatos para uma entrevista presencial. Essa etapa é classificatória e, através dela, serão selecionados os 20 candidatos que participarão do curso.

Resultado

O resultado da primeira fase será divulgado no dia 08 de julho (análise do formulário de inscrição). Já o resultado final será informado após a segunda fase (entrevista), no dia 15 de julho 2016, no Portal da Educação, aqui no Blog do Professor Web e também através de contato via e-mail e/ou telefone.

Local e período da formação

A formação ocorrerá no Instituto Anísio Teixeira (IAT), instituição situada na Estrada da Muriçoca, Avenida Paralela, Salvador – BA. (Próximo ao Colégio de Aplicação Anísio Teixeira) . A oficina vai acontecer no período de 18 de julho a 01 de agosto de 2016 (exclusivamente no turno vespertino, das 14h às 18h ).

Para obter mais informações, entre em contato pelo e-mail rede.anisio@educacao.ba.gov.br ou pelo telefone (71) 3116- 9061.

Vem compartilhar o seu mundo com a gente!

Radiola PW: São João Antigo

Oi, gente! Tudo bem com vocês? Hoje, última Radiola PW deste semestre, a dica de música tem a ver com o período junino e convida todo mundo para fazer uma reflexão sobre as festas de São João espalhadas pelo Brasil, principalmente no Nordeste: trata-se da canção São João Antigo, composta por Zé Dantas e Luiz Gonzaga. Ela foi lançada pelo Velho Lua em 1962, no disco São João na Roça.

Fig.1: capa do disco de Gonzagão em que "São João Antigo" é uma das faixas. Foto: reprodução do site Memorial Luiz Gonzaga.

Fig.1: capa do disco de Gonzagão em que São João Antigo é uma das faixas. Foto: reprodução do site Memorial Luiz Gonzaga.

Muito se fala sobre a descaracterização das festas juninas, principalmente quando os seus elementos mais significativos são levados em consideração. Hoje em dia, por exemplo, o forró não é o único gênero musical que reina na programação junina das cidades. Artistas de axé music, arrocha e sertanejo estão ocupando esses espaços.

Isso está relacionado com o natural processo de transformação da sociedade, que incorpora novos costumes e muda a sua dinâmica. O passado interfere no presente, que ressignifica o futuro. Na década de sessenta, do século passado, Gonzagão e Zé Dantas já falavam sobre isso.

Na primeira estrofe da música, os autores se mostram saudosistas: Era a festa da alegria/São João!/Tinha tanta poesia/São João!/Tinha mais animação/Mais amor, mais emoção/Eu não sei se eu mudei/Ou mudou o São João”.

Em seguida, reforçam esse sentimento e revelam o motivo da angústia contida na letra: “Vou passar o mês de junho/Nas ribeiras do sertão/Onde dizem que a fogueira/Inda aquece o coração/Pra dizer com alegria/Mas chorando de saudade/Não mudei nem São João/Quem mudou foi a cidade”. Ou seja, nem o eu lírico nem o São João mudaram, a cidade que teve a sua dinâmica alterada. E você? O que acha sobre essas transformações? Conte para a gente!

Questão de linguística

Inda” é variação do advérbio “ainda”; “pra” é a forma reduzida da preposição “para”.

Até o próximo!

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

“O Cordel Tem Tudo a Ver com a Educação”

Chegou ao Brasil no século XVI e, de lá pra cá, ainda reclama mais visibilidade e lugar de importância entre os textos literários. Trata-se do Cordel, narrativas em versos impressas em papel simples, ilustradas com xilogravuras e que era, geralmente, exposto em barbantes ou cordas. Com nomes distintos desde o seu nascimento, andou na Espanha como “pliegos suelitos”, em Portugal como “folhas sueltos” ou “volantes”. Foi trazido pelos portugueses, instalou-se na Bahia e estabeleceu-se no Nordeste, região bastante retratada em histórias ricas em dramas e comicidade.

Com uma linguagem coloquial e rimas simples para tratar de temas populares do povo nordestino, o Cordel foi muito estigmatizado, especialmente entre os intelectuais. Por outro lado, apesar disso, há registros de que escritores como João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, José Lins do Rego e Guimarães Rosa tenham sido fortemente influenciados por essa arte. Vale pesquisar sobre sua história, visitando o site da Academia Brasileira da Literatura de Cordel, mais uma iniciativa para a sua valorizaçãoFelizmente, nos últimos anos, o Cordel ressurge como objeto de pesquisas acadêmicas e, consequentemente, ganha mais espaço também em salas de aula, onde pode ser contemplado como uma expressão literária e, além disso, como prática sóciodiscursiva. O cordel, afinal, traz uma missão: pretende ensinar a viver o verbo em versos.

Fig. 1: Elton Magalhães é professor de Literatura e poeta cordelista. Foto: arquivo pessoal.

Fig. 1: Elton Magalhães é professor de Literatura e poeta cordelista. Foto: arquivo pessoal.

Hoje, o Blog do Professor Web, traz uma entrevista e inspiração para os estudantes e professores com a experiência e talento de um convidado: Elton Magalhães. Nascido em Castro Alves, graduado em Letras Vernáculas pela UFBA e mestre em Literatura e Cultura também por essa instituição. Ele fala do trabalho que realiza em aulas, palestras e oficinas em que utiliza o cordel como opção metodológica.

Para Elton, a Literatura passou a ser um interesse por volta dos 17-18 anos, já na universidade, quando cursou a disciplina Literatura Popular. Ele, eu e todos os educadores deste Blog acreditamos: com cordões e cordéis se faz uma boa rede, um texto bem tecido.

Lilia Rezende (Blog do PW): O cordelista mostra-se comprometido com a realidade e vê, na arte literária, uma forma de expressão e luta. O seu cordel tem engajamento político?

Elton Magalhães: Bem, na posição de professor, nós somos, inevitavelmente, formadores de opinião e, consequentemente, precisamos tomar uma posição política, independentemente de qual seja ela. Sabemos que todo e qualquer avanço social de um grupo ou uma nação deve partir necessariamente da educação. Às vezes, infelizmente, acabo misturando a minha função de educador e a minha condição de cordelista. Muitos dos meus textos seguem uma metodologia e não tem como deixar a política passar despercebida. Ainda mais quando se trata de um país como o nosso, tão frágil socialmente. Já escrevi alguns folhetos de cordel e alguns poemas avulsos sobre essa condição.

LR: Quais as influências para sua produção de cordelista?

EM: Costumo dizer que o meu grande mestre no Cordel é o poeta (e hoje grande amigo) Antônio Barreto. Conheci seu trabalho pela internet, quando recebi um texto seu que versava sobre o caso de uma professora “linchada” publicamente por ter dançado uma música sensual numa casa de shows em Salvador. Aquele foi o meu primeiro grande “barato” com o Cordel. Antônio foi um grande incentivador. Depois que comecei a escrever, foi que me embrenhei a pesquisar outros autores e me apaixonar ainda mais pelos textos. Posso citar alguns grandes: Leandro Gomes de Barros (o “pai” do cordel no Brasil), Mestre Azulão (falecido recentemente), Rouxinol do Rinaré, o Mestre Bule-Bule, Gonçalo Ferreira da Silva, os irmãos Klévisson e Arievaldo Viana, Franklin Maxado e alguns amigos da Bahia: Jotacê Freitas, Creuza Meira, José Warter Pires, Salete Maria. São muitos.

LR: Como se pode construir uma relação entre Cordel e Educação?

EM: O Cordel tem tudo a ver com a Educação. Primeiramente, porque ele não é um gênero em si, é uma vasta área dentro da Literatura e pode aparecer em diversas roupagens, em diversos gêneros textuais. Isso a partir da sua estrutura primordial que é a rima, a métrica e a oração (a sintaxe). Tendo isso em conta, o professor pode trabalhar com um romance, uma piada, com adivinhas, um conto, um texto mais lírico ou até mesmo falar de temas sociais a partir do Cordel. Além disso, a sua estrutura é muito atrativa, faz com que os alunos mantenham-se interessados, já que a rima e a métrica, quando bem usadas, prendem a atenção de quem lê ou ouve. Por fim, a linguagem simples e coesa do Cordel também ajuda no entendimento do texto. Sendo mais acessível, o Cordel consegue dialogar melhor com diversos grupos escolares.

Fig. 2: a cultura e a tradição dos folhetos de cordel enriquecem a nossa literatura. Fonte da imagem: Wikipedia.

Fig. 2 – Literatura de Cordel: riqueza e tradição na cultura brasileira. Fonte da imagem: Wikipedia.

LR: E na Leitura e Escrita, de modo específico, o Cordel colabora?

EM: Todo tipo de leitura e produção textual em sala de aula é proveitoso. Claro que isso depende da forma como o professor utiliza os recursos que lhe cabem. Para abordar o cordel, é necessário, antes de tudo, que os alunos conheçam a sua história, sua estrutura e a sua importância para a cultura popular do Brasil. Quando essa arte é apresentada a eles, existe uma empolgação imediata. Nas minhas experiências, eu posso afirmar isso. Muitos alunos, inclusive, escrevem textos em rima por conta própria e pedem a minha avaliação.

LR: No projeto O Português na Língua do Cordel, você produziu um livro didático com alunos usando versos populares em torno das Funções da Linguagem e das Variações Linguísticas. Como você lidou com esse desafio de falar sobre a língua, usando a língua numa estrutura e numa linguagem tão pouco usual?

EM: O trabalho foi maravilhoso. Foi uma atividade de metalinguagem, sobre temas que estávamos discutindo em sala de aula. Deixei que eles escolhessem entre produzir um texto em Cordel ou fazer uma prova tradicional. Os que produziram o texto em Cordel se desempenharam muito bem e isso me motivou a organizar uma coletânea com os melhores textos. Foi a partir daí que eu pensei n’O Português na Língua do Cordel, um projeto que parte de oficinas realizadas em sala de aula e que pretende colaborar com os professores e alunos. Os professores podem utilizar esses textos, já que são mais atrativos, para exemplificar os assuntos abordados neles, assim como os alunos podem utilizá-los como ferramenta lúdica na hora de estudar os conteúdos presentes ali. No âmbito virtual, ele teve boa divulgação, identifiquei quase mil downloads do livro que está acessível no blog https://ocordelnaweb.wordpress.com/.

LR: E a coleção Literatura em Cordel, como tem chegado a professores e estudantes? Tem boas notícias?

EM: Os meus primeiros textos estão nessa coleção. Ao trabalhar com as tradicionais escolas literárias em sala de aula, eu sempre levo esses textos. Eles correspondem a um grande resumo em cordel, narrando de forma lúdica e didática, com um pouco de humor e algumas críticas, o contexto e as características do Quinhentismo, Barroco, Arcadismo e Romantismo. É um projeto que pretendo dar continuidade e, assim que terminá-lo, penso em transformar em livro didático para contribuir para aquisição do conhecimento dos alunos e com o trabalho pedagógico dos colegas professores.

 

Lília Rezende

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia

 

 

Culturas Sertanejas

 

Foto de: Cristiane Batista da Silva Santos

Fig 1. Meu sertão por: Cristiane Batista da Silva Santos

 

“O sertanejo é antes de tudo um forte” já dizia Euclides da Cunha em sua obra Os Sertões, que se tornou um clássico da literatura brasileira. Essa visão, compartilhada por muitas pessoas, tem como referência o determinismo geográfico, segundo o qual o meio ambiente daria as condições para o desenvolvimento da fisiologia e psicologia humana. Trata-se de um equívoco que nos convida a pensar: afinal, a interação entre o homem e a natureza, seria determinante sobre a personalidade das pessoas?

Sobre as populações sertanejas, sabe-se que, historicamente, não têm as condições favoráveis de vida. O sertão já vivenciou secas célebres, faltam chuvas regulares para viabilizar a produção agrícola, há pouco investimento econômico nessas regiões do país, e consequentemente, pouca perspectiva de trabalho para além do campo. A luta diária pela sobrevivência, em situação tão adversa, contribui para se criar um estereótipo de super homens e mulheres. Mas, em verdade, o que há são condições desfavoráveis demandando um esforço extra na lida  cotidiana.

Nesses termos, não há escolha, senão ser forte, tanto para ficar, quanto para migrar, se preciso, e muitos fogem da seca para estados como São Paulo. Chegando lá, são recebidos com essa perspectiva identitária limitada, de que são sertanejos, baianos, nordestinos, retirantes, etc. Esses estereótipos são demarcadores de diferença entre nordestinos e moradores da região sudeste rica e desenvolvida. São braços fortes para o trabalho e nada mais. Há uma visão reducionista sobre a identidade dos homens e mulheres do sertão. Aqui cabe perguntar: O sertão teria uma única cultura?

O sertão era como os portugueses chamavam, na época colonial, as regiões do interior do país. Hoje se sabe que essas regiões são muito diversas entre si, não há homogeneidade, nem mesmo no clima e na paisagem. O imaginário sobre seca, distância e aridez esconde muitos aspectos da vida dos homens e mulheres dessas localidades. É preciso tomar uma perspectiva aproximada, para saber sobre o elenco de tradições que compõem o repertório próprio das culturas sertanejas, algo muito rico e que precisa ser valorizado, sobretudo, em sua heterogeneidade.

Para compreender melhor as complexidades do cotidiano da nossa gente, o Cine PW indica um clássico da literatura brasileira, escrito por João Cabral de Melo Neto, publicado em 1955, Morte e Vida Severina, que retrata o sofrimento de um migrante do sertão nordestino em busca de melhores condições de vida no litoral.

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Fig 2 – Captura de tela da animação Morte e Vida Severina – TV Escola

 

Valdineia Oliveira.

Prof. de História da Rede Pública Estadual de Ensino.

 

Fontes:

A importância das tradições culturais do Sertão e sua relação com o ato de educar. Disponível em: http://www2.uefs.br/semic/upload/2011/2011XV-606MAY283-100.pdf

CUNHA, Euclides. Os Sertões. São Paulo:Três, 1902.