Mães de Outdoors

Tarefa delicada para o(a) professor(a) é olhar o mundo como um legítimo portador de conteúdos para o trabalho com seus pares e com seus estudantes. Reconhecer a relação dinâmica entre o mundo e a educação é o primeiro passo porque “toda vez que dou (damos) um passo o mundo sai do lugar”, já diz Siba, cantor pernambucano.

Vale então se perguntar o que pensam os professores sobre o fato de costumeiramente pararem suas atividades didáticas e entrarem em campanha para o Dia das Mães, em maio; ou Dia dos Pais, em agosto. Será que – para além do aspecto comercial destas datas – as escolas já problematizam o lugar da mulher no mundo atual?  E a mulher no papel de mãe? E a importância  da mãe na educação dos filhos? Há um campo vasto de questões que podem ser tematizadas nas atividades de formação de professores ou nos encontros com nossos estudantes.

Existem diversos modos de viver a maternidade, com desafios cada vez maiores em diferentes contextos e isso, por si só, é de uma riqueza indiscutível. Muito antes de maio chegar, entretanto, os outdoors de nossa cidade estampam mulheres que se relacionam “afetivamente” com perfumes, sapatos, carros e aparelhos celulares, revelando-se, portanto, apenas como mães do consumo. Onde estão as mães que se dividem entre os filhos e suas teses, entre filhos e sua vida profissional, entre os filhos e o casamento, entre os filhos e convicções políticas, entre a educação doméstica e a educação formal? São de tantos jeitos, afinal! As mulheres de outdoors certamente não representam as mães estudantes que frequentam a rede pública de ensino, nem as mães das crianças pequenas que dela fazem parte.

mae-lilia-rezende

E o que deste fato merece vir a um blog que se destina a professores e estudantes?  É o fato das imagens, que circulam nas ruas, chegarem às escolas e saírem delas em convites e programações especiais, fortalecendo nitidamente o estereótipo de felicidade atrelada ao consumo. Sem reflexão, as imagens de mães de outdoors seguirão reforçando conceitos e valores que já precisamos repensar.

Estamos no século XXI e não podemos desconsiderar as transformações pelas quais vem passando as mulheres e, consequentemente, as mães na sociedade contemporânea, desde conquistas como sua consolidação no mercado de trabalho e uma maior participação no sistema financeiro familiar. Em lugar do Dia das Mães, Dia do Pais ou dos Avós algumas escolas já apresentam uma mudança sutil e definem em seus planejamentos o Dia da Família, que congrega num mesmo encontro todos os seus integrantes.  Este novo festejo, aliás,  já anuncia uma outra questão que está de toda forma presente no cotidiano escolar porque também está presente no mundo atual, este provedor nato de conteúdos. Isto é assunto complexo e merece espaço em outro texto que nos faça pensar na família como uma construção histórica e social. As famílias ditas tradicionais são cada vez menos comuns e temos num movimento crescente as famílias mononucleares ou monoparentais que surgem de produções independentes, adoções ou separações; as binucleares, com o exercício desafiador da guarda compartilhada e, ainda, famílias homoparentais que esperam ser reconhecidas e respeitadas em sua principal motivação: a afetividade.

Trabalhar com as chamadas efemérides do modo como fazíamos no século passado, traz o risco de manter a escola obsoleta, inócua e improdutiva. A sociedade muda e a escola não?  Se escolhermos não problematizar a realidade, o papel da escola estará assemelhado ao papel das concessionárias, perfumarias, shoppings e suas agências de publicidade.

E Siba, aquele pernambucano de quem lhes falava, continua cantarolando “Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar / Ouço o mundo me dizendo: corra pra me acompanhar!”

Lilia Rezende

Professora da Rede Estadual de Ensino da Bahia

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About Lilia Rezende

Sou graduada em Pedagogia (UCSal - 1987) e tenho Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional (UFBa - 1996). Experiência com Docência, Gestão e Coordenação em instituições de Ensino Fundamental, Médio e Ensino Superior e com Formação Continuada de Professores e Formadores. Integro a equipe de educadores da TV Anísio Teixeira desde 2008, projeto da Secretaria de Educação do Estado da Bahia atuando na pesquisa, produção e disseminação de conteúdos audiovisuais destinados à formação de professores e estudantes da rede pública estadual - IAT/SEC - BA

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