Reformatório Krenak: O Purgatório dos Pataxó Durante a Ditadura Militar

No dia 17 de abril de 2016, o Brasil assistiu perplexo à cena grotesca protagonizada pelo deputado federal Jair Bolsonaro, durante o plenário de votação da admissibilidade do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff, ao dedicar o seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do DOI-CodI do Exército de São Paulo, órgão de repressão política do governo militar. O dito coronel foi responsável pelas sessões de tortura praticadas contra a então militante política Dilma Rousseff e muitos outros jovens que lutaram contra a opressão vivida no Brasil. Mas o que o ato infame do deputado Bolsonaro tem a ver com o reformatório de Krenak e com os índios Patoxó do sul da Bahia? Para entendermos esse elo é preciso tomarmos conhecimento de uma história que só há pouco tempo começou a ser desvendada.

Figura 1: A Ditadura Militar no Brasil. Fonte: TV Anísio Teixeira

Figura 1: A Ditadura Militar no Brasil. Fonte: TV Anísio Teixeira

Quando pensávamos que os horrores do período da ditadura militar já haviam sido revelados em toda a sua extensão, eis que a CNV (Comissão Nacional da Verdade), instaurada pela presidente Dilma Rousseff para investigar os crimes contra os direitos humanos durante a Ditadura Militar no Brasil, descortina um novo capítulo dessa história. Durante os “anos de chumbo” que se seguiram ao golpe de 64, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) criou centros de detenção para os chamados “índios infratores”. A pesquisadora e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Maria Hilda Baqueiro, acredita que muitos desses detentos eram, em verdade, presos políticos. Os “Índios infratores”, na sua maioria, foram condenados e punidos por lutarem pela permanência em suas terras.

Uma das prisões indígenas mais cruéis que se tem noticia foi o Reformatório Agrícola Indígena Krenak, em Resplendor (MG), criado em 1969. Segundo André Campos, os familiares dos presos indígenas afirmam que muitos índios e índias que foram levados para lá nunca mais retornaram às suas aldeias e estão desaparecidos até hoje. Aqueles que sobreviveram, relatam que o Krenak funcionava como um verdadeiro campo de concentração, sendo os índios submetidos a torturas diversas e a trabalhos forçados. Índios de diferentes etnias, espalhadas pelo Brasil, inclusive oriundas da Bahia, foram enviados para o Krenak. Diógenes Ferreira dos Santos, que na década de 1960 vivia com sua família na terra Indígena Caramuru Catarina-Paraguaçu, no sul da Bahia, foi um dos entrevistados de André Campos para revelar esse triste capítulo da História recente do Brasil. Ainda adolescente, ele e seus pais foram retirados a força da própria terra por militares e levados para a delegacia de Pau Brasil (BA) onde ficaram detidos por seis dias. Depois, foram enviados para o Krenak. A razão da prisão da família de Diógenes esta relacionada à insatisfação dos fazendeiros locais com a presença dos pataxós nessa região.

No reformatório Krenak, segundo Diógenes, eles eram obrigados a ir “ até um brejo, com água até o joelho, plantar arroz”. O método aplicado pelo reformatório para “reeducar” os índios e “aculturá-los” incluía o açoitamento, além de serem arrastados por cavalos, segundo denúncias da ex-integrante do Conselho Indigenista Missionário em Minas Gerais (Cimi/Leste), a pedagoga Geralda Chaves Soares. Os indígenas tinham que confessar seus pretensos crimes, ainda que não entendessem o que estava sendo perguntado, pois muitos não falavam o português. A criatividade sádica dos milicos não tinha limite. André Campos informa que um dos índios que viveu no reformatório, para confessar os crimes imaginados pelos militares, foi obrigado a beber leite fervendo alternando com água gelada. O resultado foi a queimadura do seu aparelho digestivo, trazendo graves conseqüências a sua saúde. Os índios também eram submetidos a práticas humilhantes, como por exemplo jogar futebol durante os poucos momentos de “descanso” que lhes era permitido. Diógenes se lembra com tristeza desses momentos e desabafa: “Meu pai não gostava, nunca tinha jogado bola na vida. Aquilo era uma humilhação para ele.”

Por tudo que foi dito aqui, fica o recado: Ditadura nunca mais! E é por todos aqueles que sofreram durante a ditadura militar, sendo torturados e humilhados, que chamamos a comunidade escolar à reflexão! A postura do deputado federal Bolsonaro na câmara dos deputados é inaceitável. Evocar de forma gloriosa a figura do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra é um soco no estômago das vítimas da ditadura militar e da própria democracia, pois nega os seus erros e reafirma práticas equivocadas de se exercer a política. Fazer política é um direito de TODOS. Para saber um pouco mais da população indígena do sul da Bahia e da ditadura militar na Bahia assista aos vídeos do programa Histórias na Bahia: Povos Indígenas e Ditadura Militar na Bahia.

 

 

Telma Santos

Professora da Rede Estadual de Ensino da Bahia

Fontes:

Andre Campos. Um Campo de Concentração Indígena a 200 km de MG. 25 de junho de 2013. Pública AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO http://apublica.org

Krenak: O Presídio Indígena da Ditadura Militar. Revista Porantim: Em Defesa da Causa Indígena. Ano XXXV • N0 347• Brasília-DF • Agosto de 2012.

http://www.cimi.org.br/pub/Porantim/2012/Porantim%20347%20-%20Final.pdf

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