Preconceito não!

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Fig. 1: Caminhada Caboclo Marcellino. Fotograma do videoclipe “Preconceito Não”.

Olá, pessoal!

Já vivi muitas experiências relacionadas ao local onde nasci, onde cresci, onde estudei, onde morei, onde trabalhei… Vim de São João do Panelinha, comarca de Camacan. Passei por Itabuna e vim parar em Salvador, pra daqui viajar por outros mundos, com mais experiências relacionadas ao meu sotaque, minha origem. Um dia consegui entrar para o staff de uma compahia aérea (na época era uma grande ousadia!). Em um determinado turno de trabalho, um passageiro perguntou por que eu era o único estranho naquele ninho, mas não, exatamente, com essas palavras. De modo sutil, ele se referiu ao meu nariz, que era bem diferente do dos meus colegas. Cortez ou politicamente correto? Na ocasião, eu ainda não tinha a resposta, mas esta começou a ser elaborada, a partir do que foi dito àquele passageiro. Disseram sobre mim: “ele fala inglês!”. Até então, eu achava que seriam outros os motivos que teriam me levado a trabalhar naquela empresa – e no aeroporto! Mas foi o inglês que “afilou” o meu nariz, fazendo eu me “parecer” igual aos colegas que não falavam nenhuma língua estrangeira, mas que tinha a tal boa aparência exigida. Eu tinha passado pelo processo de embranquecimento (cultural) que mais tarde vim saber.

Na verdade, o que há de maior nisso tudo é a Educação. Quando uma pessoa abre a boca, demonstra de onde vem e quanta bagagem carrega. A Educação – formal e informal – é, portanto, o passaporte para todos os mundos! Quando concluí a faculdade, troquei o aeroporto pela sala de aula, com mais ferramentas na sacola.

Recentemente, estivemos entre os indígenas de Olivença, mais precisamente entre os Tupinambá, para realizarmos o Curso de Interpretação e Produção de Vídeos Estudantis, na Escola Estadual Indígena Tupinambá de Olivença. Antes de irmos, nos disseram muitos “tenham cuidado!”

Ah se pudessem ver por baixo da pele, por trás do nariz desafilado, por dentro do coração…

Realizamos o curso e, desse encontro, descobri muitas coisas sobre mim, incluindo a origem do meu nariz, aludindo, aqui, a postagem da professora Valdineia Oliveira sobre nossa ancestralidade. Curti quando me disseram que eu me parecia com um deles. Aliás, quando falei a eles do lugar onde nasci, logo disseram “você deve é um Kamakã!”. 

Infelizmente, também percebemos que muitos negam sua origem, principalmente pela falta de informação ou das informações tendenciosas que fomentam preconceitos e espalham o terror. Do curso, surgiu o filme sobre o Caboclo Marcellino, um herói para os indígenas. Marcellino, que sabia ler e escrever, foi perseguido e preso  por defender o direito às terras ocupadas. Os parentes – modo de se referir aos demais indígenas – foram torturados, enquanto os jornais da época tratavam o herói como bandido. Nesse contexto, muitos abandonaram a identidade indígena, o que favorecia, grandemente, os coronéis.

Finalizado o filme, retornamos a Olivença para o seu lançamento e colhemos outra pérola: um videoclipe com o tema “preconceito não” cuja letra e canção foram feitas pelo indígena Juninho que, inclusive, já tinha participado do FACE, um dos projetos estruturantes da Secretaria da Educação do Estado da Bahia. Sim: indígenas escrevem, hoje, com vários instrumentos, pra todo mundo ler.

Vejam o video clipe Preconceito Não e o documentário sobre o curso de interpretação.

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/conteudos-digitais/conteudo/incorporar-conteudo/id/4171

Geraldo Seara

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia 

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