Bahia Indígena

 

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Fig 1. Índios da Bahia, príncipe Maximiliano Wied-Neuwied, 1817.

 

Você já teve a curiosidade de saber quem são seus ancestrais? Quem já fez essa pergunta aos pais, às vezes, se surpreende ao perceber que seus bisavós, ou mesmo tataravós, eram indígenas. Conhecer esse passado significa explorar as nuances de nossa identidade e reencontrar as nossas raízes étnicas. Há muitas histórias que se cruzam com a trajetória das nossas famílias, afinal, os grupos familiares compõem uma amostra privilegiada, de observação, sobre a vida social e o processo histórico.

Na Bahia, a dinâmica de ocupação e povoamento, pelos portugueses se deu em meio a confrontos violentos com povos indígenas, por vezes, esse contexto de resistência se confunde com a formação das famílias que habitaram desde o litoral até o interior. A região Sul da Bahia é um bom exemplo disso, tendo em vista que o seu processo de ocupação e povoamento aconteceu em meio a guerras entre os portugueses e os índios Aimorés. É muito comum se pensar no Sul da Bahia, apenas pelo ponto de vista dos lendários Coronéis do cacau, mas foram os índios Aimorés quem escreveram um capítulo vitorioso na história dessa região, quando impediram, por mais de dois séculos, que os portugueses adentrassem o sertão para tomar posse das terras por completo.
Os índios Aimorés empreenderam uma longa e árdua resistência à ocupação portuguesa no Sul da Bahia por isso, muitas histórias de famílias dessa região tem como gênese a figura de mulheres indígenas que foram capturadas no meio da mata.
O historiador Luiz Mott registrou a seguinte fala de um índio de Ilhéus em meados do século XVIII:

Que o meu filho branco guarde estas palavras do pajé botocudo. Nunca existirá uma aliança entre os opressores e os oprimidos. Entre as nações indígenas há umas que foram aniquiladas até o último varão, outras submeteram-se, e outras ainda, estão dominadas pelo terror. Nós outros fomos particularmente perseguidos, sitiados, massacrados, porque somos valentes e a independência nos é mais cara do que a vida. O nosso ódio não pode nem crescer nem se extinguir. Enquanto houver um botocudo de pé, esse botocudo marchará pelo caminho da guerra. Os brancos e os mulatos possuem armas de fogo que lhes facultam quase sempre a vitória, mas os peles-vermelhas receberam do Criador dos seres a astúcia e a paciência.

Luiz Mott descreve a luta sangrenta dos portugueses contra os índios, ressaltando que através de Bandeiras os indígenas foram cruelmente caçados no meio da mata, mortos, escravizados. Esse depoimento registra, com acuidade, o ponto de vista indígena sobre a posse de suas terras e, sobretudo, o seu  amor pela liberdade, vemos também a obstinação dos Aimorés em resistir aos portugueses e não se entregar. Isso é um ponto importante a ser pensado porque o senso comum fala sobre índios preguiçosos e submissos. Mediante esse contexto de violência, as mulheres, foram, muitas vezes, raptadas para viver com os portugueses, é comum pensarmos na instituição familiar construída pela mediação do afeto, mas é importante também pensarmos que, muitas vezes, famílias são erigidas como efeito de processos violentos como rapto, estupro, subjugação.

Assim, reitero a importância de se conhecer a história da nossa família, pois ela tem pontos de contato entre a formação e a configuração da região em que vivemos. E caso descubra os seus ancestrais indígenas, vá além, pesquisando sobre suas lutas pela terra e liberdade, o modo como resistiram, os processos de violência que sofreram para se constituir como família, mas não se esqueça de que essas lutas não se encerraram no século XVIII, elas são também contemporâneas e todos nós fazemos parte dela.

Conheça mais sobre a região Sul da Bahia no episódio: Sul da Bahia.

Conheça mais sobre os Povos Indígenas no Episódio Povos Indígenas:

 

Valdineia Oliveira
Prof. de História da Rede Pública Estadual de Ensino.

 

REFERÊNCIAS:

Fig. 01. Índios da Bahia, príncipe Maximiliano Wied-Neuwied, 1817. Fonte: MOTT, L. Bahia:inquisição e sociedade [online]. Salvador: EDUFBA, 2010.

HERNE, The Hunter. Botocudos –  A Construção de um Inimigo. Disponível em: http://hernehunter.blogspot.com.br/2013/12/umadas-questoes-mais-discutidas-na.html

MOTT. L. Os índios do Sul da Bahia: População, Economia e Sociedade (1740-1854). Disponível em: http://books.scielo.org/id/yn/pdf/mott-9788523208905-10.pdf

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