Radiola PW: Salvador, Uma Soteropolitana de 467 Anos

Ontem, a capital da Bahia comemorou 467 anos de existência. É impossível falar de Salvador sem citar, mesmo sendo clichê, a sua riqueza cultural. Da literatura à culinária, da religiosidade ao carnaval, da geografia à música. A metrópole pulsa! Em todos os sentidos! Das vias congestionadas aos incontáveis casos de violência urbana, do barulho dos protestos ao barulho dos sons que invadem as ruas, dos jogos de futebol às festas de largo. Quem vive em Salvador, conhece todas essas peculiaridades. Recentemente, foi eleita a Cidade da Música, pela Rede de Cidades Criativas da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Como este texto tem um quê de homenagem, e já que estamos na cidade da música, a pedida para hoje é Soteropolitana, da banda Cascadura, que anunciou o encerramento da carreira em julho do ano passado. A música, composta por Fábio Cascadura, integra o álbum Aleluia, de 2012. O disco, inclusive, tem a própria Salvador como inspiração.

Fig. 1: captura de tela feita do clipe oficial da música "Soteropolitana". Clique na imagem para assistir ao clipe.

Fig. 1: captura de tela feita do clipe oficial da música “Soteropolitana”. Clique na imagem para assistir ao vídeo.

O título da música já brinca com as expectativas do ouvinte: vai tratar de uma pessoa que vive/nasceu em Salvador? Provavelmente, alguém que se identifica com o gênero feminino? Afinal, o nome da canção é “Soteropolitana”. É bem por aí! Na obra, Fábio personifica Salvador. Tudo é feito de forma muito sutil e poética. Nas primeiras estrofes, o compositor traz os seguintes versos:

Mãe do Rio, irmã da Louisiana,

Fortaleza lusitana, erguida aqui a mando do rei

No seu brilho, primeiro ela chama

Depois vibra, empena, engana, brindando os seus filhos da vez…

Hoje eu não vou chorar!”

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Onde uma frota inteira fez cabana

Velha ordem de bacana estampa sorriso no jornal

Vida nova, iberoafricana

Menos sacra, mais sacana, rica, fusa e Carnaval

This city burns on fire!”

Ao longo da música, fica evidente a presença de dados históricos relacionados a Salvador. Na estrofe inicial, o autor evoca isso: “Fortaleza lusitana, erguida aqui a mando do rei”. Logo em seguida, faz uma crítica, fincado nas informações da história da capital: “Onde uma frota inteira fez cabana/Velha ordem de bacana estampa sorriso no jornal”. Mesmo depois de 467 anos, existe alguma diferença? Existe! A frota de hoje é nativa e, além disso, dona de jornais.

A canção se destaca pela criticidade e também pela riqueza literária. O verso Menos sacra, mais sacana, rica, fusa e Carnaval” é um bom exemplo dessa simbiose. Faz referência às características da cidade, sua religiosidade e mistura de povos e ritmos; mas não deixa de meter o dedo na ferida, ao afirmar que a urbe é “menos sacra, mais sacana”. No que diz respeito ao uso da função poética da linguagem, Fábio mostra a sua genialidade: a última sílaba da palavra rica se une à palavra fusa e produz uma eufonia inteligente, que revela um traço da soteropolitana do texto (e de muitas outras soteropolitanas!): cafuza.

A sonoridade poética, por sinal, é um dos aspectos mais bonitos da canção. Os versos São tantas colinas, tantos anos/Tantas casas, tantos planos, tantos donos, tantos danos” são bem elucidativos nesse sentido. E, como sempre, vêm acompanhado de uma boa reflexão sobre a sociedade soteropolitana: um lugar de crescimento desordenado, que conhece projetos que não saem do papel (os planos: reais e metafóricos) e que os “donos” pouco fazem para reduzir os danos. Impossível não lembrar de Gregório de Matos: “Triste Bahia! […]/Tanto negócio e tanto negociante”.

Em alguns trechos, a personificação fica bem evidente: “[…] Ela é loira, galega, é infame/Musa que, por mais que eu ame, tenta me cegar com tua luz […]/Ela finge andar como se manda,/Mas basta tocar a banda: joia! Ela se entrega de vez!”. Nesses dois últimos versos, mais uma vez, Fábio usa a criticidade para falar da cidade, que vive fingindo a andar como se manda.

Na estrofe final, um recado bem dado: Eu queria que a visse só, de um jeito mais confesso/E sem truques de altar […]”. O eu lírico está atento e não é bobo. Não basta pintar uma Salvador “para inglês ver”, cheia de maquiagem. É preciso cantá-la, tê-la como inspiração, mas sem deixar de falar das coisas que incomodam. Evocando Caetano, “de perto ninguém é normal”, não é? Que Salvador comemore os seus 467 anos repensando a sua dinâmica social para os próximos anos que virão! Assim, “pretos, vindos de outros cantos” deixarão de ser “carne fresca pro Seu Freguês!”.

Raulino Júnior

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

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