Qual a pronúncia do Aedes?

Fig. 1: Speech

Recentemente, jornalistas de rádio e de TV passaram a pronunciar o nome do mosquito transmissor da dengue, febre amarela, febre zika e chikungunya  de forma diferente da que alguns de nós estávamos acostumados a ouvir. Outros ainda pronunciam do mesmo jeito que se escreve, sem o devido alofone.

A razão para a junção das letras, transformando o trissílado /a-e-des/ em um dissílabo /e-des/, remonta ao latim, língua usada para nomear, cientificamente, a maioria dos seres vivos do planeta. Mas há uma certa confusão aqui, porque, na verdade, a palavra aedes vem do grego, com a junção da partícula “a” (negação) com a palavra “édus” (agradável), resultando em “desagradável”, “odioso”. Já aedes, em latim, significa “casa”, “templo”. Ou seja, nada a ver com a fama do inseto. Entretanto, o nome do mosquito foi grafado, assim mesmo, no latim do século XIX. A meu ver, estão corretas ambas as pronúncias. Se pelo lado grego, trissílabo, ou pelo latim, dissílabo, juntando as letras ae da mesma maneira que fazemos com aegypti.

Sobre isso, enquanto em muitas línguas os dois caracteres ae se fundiram, graficamente, em um só æ, os romanos seguiram fazendo uso deles como um ditongo, mas que acabou evoluindo para um único fonema.

O que o rádio e a TV estão fazendo é uma correção para a pronúncia correta da palavra em latim. Por comparação, podemos ver, por aí, nomes tais como Cæsar e cællum, grafados assim mesmo, com as letras agarradinhas. Isso sinaliza que as 2 são uma única coisa. Deste modo, se pronunciamos Cæsar como c[ɛ]zar e se a palavra cællum evoluiu para céu, em português, estas pistas, somadas a outras de mesma natureza, como o próprio nome aegypti sinalizam como devemos chamar o famigerado Aedes.

Em Linguística, usamos barras e colchetes para indicar os fonemas e os alofones. As barras são usadas para as transcrições fonológicas, enquanto os colchetes sinalizam as transcrições fonéticas. Para exemplificar, a palavra mosquito, tem 8 letras, mas apenas 7 fonemas. Transcrevemos, fonemicamente /moskito/, sinalizando um único fone para duas letras, enquanto, foneticamente, podemos registrar uma série de variações na pronúncia da palavra, a depender da região geográfica e de alguns outros fatores. A essas variações, chamamos alofones. Assim, podemos ouvir [mɔs’kitu], [mus’kitu], [mɔʃ’kitu], [mos’kito], [moʃ’kito] e por aí vai. Os símbolos fonéticos [ɔ] e [ʃ] correspondem, respectivamente, ao “ó” aberto, como na palavra “cópia” e ao som do “ch”, como na palavra Chikungunya.

Quanto ao Aedes, seja a pronúncia [a’ɛdis], como no grego, ou [‘ɛ dis], como no latim, precisamos, mesmo, é nos livrar do bicho!

Geraldo Seara
Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s