A Mulher e os Espaços Ocupados no Carnaval da Bahia

A mulher hoje vem ocupando lugares de destaque e respeito cada vez maiores na sociedade baiana e brasileira. Na música produzida no e/ou para o carnaval da Bahia, mais centralmente no carnaval de Salvador, a presença feminina é marcante nos dias atuais. O número de intérpretes femininas é grande e o foco midiático sobre elas também. Nem sempre foi assim. O modelo do carnaval de rua soteropolitano data suas origens nos anos 50  do século XX, quando a dupla  Dodô e Osmar criou a Fobica, que depois originou o moderno Trio Elétrico. Nos anos sessenta e setenta, os afoxés e blocos afro ampliam sua ação no carnaval.

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Fig. 1 – A Fobica, primeiro carro construído por Dodô e Osmar, precursor do moderno Trio Elétrico. Fonte: aufgenommen im Rathaus Salvador

 

A primeira cantora a subir num Trio Elétrico para cantar foi  Baby do Brasil (antes conhecida como Baby Consuelo). Baby possui timbre forte, voz de comando e passeava pelo repertório de frevos eletrizados, sambas elétricos e música pop dos anos setenta, que eram a tônica da sonoridade de sua turma de músicos e colegas. Baby abriu caminho para  artistas, como  Laurinha, Sarajane, Márcia Freire, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Márcia Short, Ivete Sangalo,  Cláudia Leitte, entre outras. Daniela Mercury nacionalizou a  Axé Music e começou a tratar de temas de afirmação política a respeito de gênero, intensificando essa postura ao final dos anos 2000. Margareth Menezes se afirma como uma voz negra a definir possibilidades de percepção do étnico e racial na festa. Ivete Sangalo assume o lugar da mulher bem-humorada e, de certa forma, sem preocupações políticas mais intensas. Claudia Leitte se apresenta como um feminino mais ligado a padrões estéticos pautados na cena pop norte-americana.

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Fig. 2 – Ivete Sangalo em Trio Elétrico                Foto: Sergio Savarese.

 

Todas estas mulheres que são vozes do carnaval e que em 2016 encontraram-se com um fenômeno de projeção instantânea e até certo ponto estranha vindo do sul da Bahia e que é alçada à categoria de “revelação” da festa pelas mídias locais: a Banda Vingadora, que traz como vocalista Tays Reis. E ficou famosa no carnaval de 2016 por causa das polêmicas que envolveram a música de trabalho da banda – Paredão Metralhadora. Um outro padrão de mulher aparece na cena do carnaval: Tays Reis, ao cantar a metralhadora numa referência ao “poder” das meninas sobre os rapazes leva a pensar sobre como pode querer ser encarada a nova mulher baiana e brasileira.

É interessante fazer uma observação importante. Neste mesmo ano de 2016, outra mulher baiana, a cantora Maria Bethânia – que comemorou cinqüenta anos de carreira em 2015 – é homenageada pela escola de samba carioca Estação Primeira de Mangueira, justamente com o tema “Maria Bethânia: a menina dos olhos de Oyá”. Oyá, também chamada de Iansã, é uma divindade cultuada nos Candomblés brasileiros e associada ao perfil de mulher guerreira, forte, decidida, altiva e que ocupa lugares sociais no mesmo patamar dos homens.

Por Repórter Vladimir Platonow

Fig. 3 – Imagem de Desfile da Mangueira no carnaval carioca. Por: Repórter Vladimir Platonow / Agência Brasil

Desde Baby do Brasil, o carnaval de Salvador vê surgir mulheres que buscam espaço e fazem valer, cada uma à sua maneira, o exercício do feminino e das suas existências. Seus cantos são imperativos e – para além dos gostos particulares – expressam aspectos das identidades culturais que formam a Bahia.

Em 2016, o carnaval de Salvador faz surgir, através da fala da mídia, a Vingadora; e, ao mesmo tempo, o carnaval carioca homenageia a Bahia através da cultura afro-brasileira, tal como vista na trajetória de Maria Bethânia.

Para quem é soteropolitano, baiano ou mora em Salvador, este carnaval foi um momento de ver e rever possibilidades de mulheres que comandam (ou podem fazer parecer que comandam) suas vidas e cantam essas conquistas.

Até porque, melhor que vingar, é conquistar!

Os mitos de Oyá-Iansã confirmam!

Carlos Barros

Professor da Rede Pública Estadual de Ensino da Bahia.

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