Cartas em Dezembro

Sou muito mais jovem que Michel Miguel Elias Temer, vice-presidente do país, autor da correspondência mais comentada nos últimos dias, mas sou do tempo que ainda se escrevia cartas frequentemente. Sou de um lugar onde, geralmente aos sábados, as pessoas comunicar-se com quem morava em São Paulo, destino dos parentes fugidios das agruras da seca do sertão baiano. Esse exercício de escrever cartas imprimindo no papel a saudade, os planos, as notícias e os anseios de quem me fazia este pedido e este ditado, foi uma das mais marcantes da minha infância e da minha experiência de escritora aprendiz. Não posso negar a máxima que “ler se aprende lendo, escrever se aprende escrevendo”. Assim não posso também negar agradecimento a todos que me permitiram escrever cartas. É possível que daí tenha nascido um gosto enorme que trago por esse tipo particular de texto. Talvez, por esta razão, faço a escolha de publicar aqui uma carta,  meu último texto do ano, por considerá-la bem especial, apropriada para dezembros.

O Natal se aproxima, então não pude deixar de pensar num texto que circulou amplamente, mas pode ainda ser “novo” para alguns leitores/professores. Sua leitura vale em qualquer tempo, porque talvez permita resgatar valores que importam para uma vida inteira.

Foto: Lilia Rezende

Foto: Lilia Rezende

Trata-se de uma história que aconteceu em 1897, com uma garotinha de 8 anos, chamada Virgínia, que vivia importunada pela atroz dúvida: “Papai Noel existe ou não existe?”. Alguns amiguinhos da menina juravam que o bom velhinho não existia. Perturbada, chegou ao seu pai e perguntou: “E aí, existe?” Ele foi evasivo, como a maioria dos adultos diante dessa recorrente pergunta. A menina, então, resolveu escrever ao jornal que a família lia na época, o hoje extinto “The New York Sun”, para perguntar se o Papai Noel existia ou não.

“Prezado Editor, tenho 8 anos. Alguns de meus amiguinhos dizem que não existe Papai Noel. Meu pai costuma falar: Se estiver no The Sun, então será verdade. Por favor, me diga a verdade: Papai Noel existe?”

Assinado: Virginia Ohanlon.

A carta-dúvida de Virgínia caiu nas mãos de um veterano editor do “The New York Times”, que anonimamente escrevia para o “Sun” e, naquela oportunidade, publicou um editorial  cujo título era “Sim, Virginia, Papai Noel Existe”.  Editoriais, você sabe, são textos em que os jornais geralmente imprimem suas opiniões políticas, econômicas etc., que aparecem nas primeiras páginas de suas edições.

O texto, que entrou para a história do jornalismo mundial e foi publicado pelo “Sun” em todos os natais posteriores até o jornal fechar as portas, em 1949, foi este:

“Virginia, seus amiguinhos estão errados. Provavelmente foram afetados pela descrença de uma época em que as pessoas acreditam em poucas coisas. Só acreditam naquilo que vêem. Elas acham que o que não compreendem com suas cabecinhas não pode existir. Todas as mentes, Virginia, sejam as dos adultos ou das crianças, são limitadas. Neste nosso grande Universo, o homem é um mero inseto, uma formiguinha, quando seu intelecto é comparado com o infinito que o cerca ou quando medido pela inteligência capaz de entender toda a verdade e conhecimento.

Sim, Virginia, Papai Noel existe! Isso é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção e você sabe que tudo isso existe em abundância, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Ah! Como seria triste o mundo sem Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virginias. Não haveria então a fé das crianças, a poesia e a fantasia para fazer a nossa existência suportável. Não teríamos alegria nem prazer, a não ser com os nossos sentidos: seria preciso ver e tocar para poder sonhar. A transparente luz das crianças, com a qual inundam o mundo, seria apagada.

Não acreditar em Papai Noel!… É o mesmo que não acreditar em fadas!

Você poderia pedir ao seu pai para contratar muitos homens para vigiar todas as chaminés na véspera de Natal e assim pegar Papai Noel; mas, mesmo que você não o visse descendo por elas, o que isso provaria? Ninguém vê o Papai Noel, mas não há sinais de que ele não existe.

Ninguém pode conceber ou imaginar todas as maravilhas do mundo que nunca foram vistas e que nunca poderão ser admiradas. As coisas mais reais são aquelas que nem as crianças nem os adultos podem ver.

Se quebramos o chocalho de um bebezinho, poderemos ver o que faz aquele barulho lá dentro, mas existe um véu cobrindo o mundo invisível que nem o homem mais forte, nem mesmo toda a força de todos os homens mais fortes do mundo reunida poderia rasgar. Somente a fé, a poesia, o amor e a fantasia podem abrir essa cortina e desvendar a beleza e a glória celestiais que existem por detrás dela. Será que tudo isso é real? Ah, Virginia, em todo esse mundo não existe nada mais real e duradouro.

Se existe Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá para sempre.

Daqui a mil anos, Virginia, e ainda daqui a dez mil anos ou dez vezes esse número, ele continuará a fazer feliz o coração das crianças.”

Francis Church

Virginia morreu em 1971, aos 81 anos, e durante a vida recebeu cartas sobre crianças e adultos que queriam falar com ela sobre a existência do Papai Noel. A todas, respondeu mandando junto com a carta o editorial do “Sun” anexado.

Bem, esta é a minha escolha para hoje. E você, o que responderia às Virgínias que te cercam e te indagam? Papai existe ou não existe?!

 

Lilia Rezende

Professora Rede Pública Estadual de Ensino

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About Lilia Rezende

Sou graduada em Pedagogia (UCSal - 1987) e tenho Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional (UFBa - 1996). Experiência com Docência, Gestão e Coordenação em instituições de Ensino Fundamental, Médio e Ensino Superior e com Formação Continuada de Professores e Formadores. Integro a equipe de educadores da TV Anísio Teixeira desde 2008, projeto da Secretaria de Educação do Estado da Bahia atuando na pesquisa, produção e disseminação de conteúdos audiovisuais destinados à formação de professores e estudantes da rede pública estadual - IAT/SEC - BA

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