Cemiterada: revolta popular contra a reforma higienista na Bahia oitocentista

No dia 25 de outubro de 1836, uma multidão de quase quatro mil pessoas, lideradas pelas irmandades religiosas, se reuniu para protestar contra a lei que proibia os enterros no interior das igrejas. A partir daquele ano, um local próprio deveria abrigar os mortos: o cemitério. Para atender à nova lei, foi construído o cemitério do Campo Santo, inaugurado em 1836, cabendo sua administração ao capital privado por 30 anos. Os manifestantes se encontraram no Terreiro de Jesus, no adro da igreja da Ordem Terceira de São Domingos, e de lá se dirigiram ao Campo Santo, onde promoveram um quebra-quebra.

Os médicos baianos, movidos pelas ideias higienistas que chegavam da Europa, convenceram os legisladores de Salvador da necessidade de proteger a população dos malefícios dos “miasmas mefíticos” provocados pela decomposição dos corpos. Mas a nova lei passava ao largo da cultura funerária da Bahia, em que as irmandades eram responsáveis pela organização dos enterros e alocação dos corpos no interior das igrejas. Segundo o historiador João José Reis, o enterro dos corpos dentro das igrejas decorria da crença medieval, difundida na Bahia, de que, quanto mais próximo do altar e dos santos nas igrejas, mais próximo da salvação estaria a alma do defunto[1].

Qualquer pessoa podia ser enterrada no interior das igrejas, ainda que não fossem membro das irmandades, desde que tivesse, obviamente, uma boa reserva de capital para adquirir o seu lugarzinho junto ao corpo celestial que se encontrava no entorno do altar! Aliás, esse era o lugar perfeito para que a alma do defunto aguardasse pacientemente o fim do mundo e o tão esperado juízo final. Os membros paroquiais com maior cabedal podiam solicitar – em testamento – um jazigo individual em que constasse seu nome, data de nascimento e óbito. Os demais, quando membros das irmandades, ainda que despossuídos de grandes fortunas, não ficavam desamparados na morte, pois podiam ser enterrados em sepulturas comuns pertencentes às irmandades. O pior destino pós morte era sem dúvida do povo pobre, sem recurso para pagar seu descanso eterno no interior das igrejas. Estes eram enterrados no cemitério do Campo da Pólvora, onde negros pagãos eram sepultados.

[1] Reis, João José. O lugar da morte na Revolta da Cemiterada: Bahia, 1836. Resgate da Memória. n.º 03. Nov. 2014

Telma Santos

Professora da Rede Pública de Ensino da Bahia