Quando menos é mais

Há mais de dez anos foi divulgado um escrito da argentina Ana Maria Shua, considerado o menor conto do mundo, com exatas trinta e três letras:
Fujamos! Os caçadores de letras estão aq…”.

Antes dele, era conhecido o menor e mais famoso conto, de Augusto Monterroso, escritor hondurenho, com apenas trinta e sete letras:
Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”.

Na versão em espanhol, o mesmo conto tem quarenta e três letras:

Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.”

Foto: Lilia Rezende

Foto: Lilia Rezende

As particularidades destes textos podem interessar bastante a pesquisadores da área de linguagens, mas sem dúvida aguça a curiosidade de muitos leitores; são, afinal, referências sobre a possibilidade de se revelar uma história inteira com poucos caracteres. Neles impressiona a possibilidade de produzir uma narrativa com começo, meio e fim e propriedades preservadas em espaço tão exíguo. Não se trata, naturalmente, do mesmo tipo de conto breve da metade do século XX, também chamado de miniconto, mas podemos considerá-los como um tipo de reinvenção que desafia seus limites.

Neste século das mensagens abreviadas da Internet, das senhas e dos códigos, a literatura vem revelando que pode se renovar, acompanhando a velocidade dos tempos. Estamos aprendendo uma nova forma de comunicação, pois a conectividade altera o nosso modo de ler e escrever. O Twitter, rede social de largo uso, tem o limite de 140 caracteres e de alguma forma faz lembrar os microcontos. Apareceu como uma herança de antigos sistemas de comunicação escrita imediata; seus criadores queriam que os microblogs fossem compatíveis com os celulares mais básicos e adotaram os 140 pro tweet, mais 20 para o nome do usuário. Já o WhatsApp, aplicativo à disposição de muitos usuários, apela para uma espécie de subversão da língua: permite o uso de expressões coloquiais, ícones e símbolos figurativos de um estado de humor momentâneo, entre outros artifícios.  O Facebook, outro caso, é uma plataforma na qual  textos e imagens circulam livremente e vem, aliás, se configurando como um espaço carente de consistência; sobram palavras, faltam sentidos. De todo modo, o contato com textos de leitura breve e promessa de fruição tem sido o mais costumeiro nestes novos tempos. Podemos  pensar que o microconto, assim como os textos do Twitter ou a conversa escrita do WhatsApp, tem uma estética própria da contemporaneidade.

Aqui compartilhamos a ideia do livro “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”, organizado pelo pernambucano Marcelino Freire, que convidou cem autores contemporâneos para produzir histórias de até cinquenta letras (sem contar título e pontuação). Fernando Bonassi, Manoel de Barros, Glauco Mattoso, Adriana Falcão e Millôr Fernandes são alguns dos que participaram dessa brincadeira inteligente. O resultado é uma coletânea de soluções inusitadas e divertidas.

FIM

Corpos se separam.

Ofegantes ainda.

E distantes para sempre.

(Alberto Guzik)

Uma vida inteira pela frente.

O tiro veio por trás.

(Cíntia Moscovich)

Se eu soubesse o que procuro

com esse controle remoto

(Fernando Bonassi)

AMOR

Maria,

quero caber todo

em você.

Agora escreva um conto. E, se quiser, aumente um ponto. Só um ponto. Final.

Lilia Rezende

Professora da Rede Estadual de Ensino

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About Lilia Rezende

Sou graduada em Pedagogia (UCSal - 1987) e tenho Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional (UFBa - 1996). Experiência com Docência, Gestão e Coordenação em instituições de Ensino Fundamental, Médio e Ensino Superior e com Formação Continuada de Professores e Formadores. Integro a equipe de educadores da TV Anísio Teixeira desde 2008, projeto da Secretaria de Educação do Estado da Bahia atuando na pesquisa, produção e disseminação de conteúdos audiovisuais destinados à formação de professores e estudantes da rede pública estadual - IAT/SEC - BA

5 thoughts on “Quando menos é mais

  1. Como não entrar nessa ciranda?

    Um convite para poucas palavras diante de um texto com tamanha riqueza… me arriscarei.

    Família

    Alegria da vida
    pra quem nela viva.

    Adriana Loiola Bruni

    Um cheiro!!!

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