A Alfabetização e as Novas Tecnologias, por Emília Ferreiro

Nos anos 80, Emília Ferreiro revolucionou as práticas de alfabetização ao valorizar o modo como as crianças aprendem, em sua pesquisa de doutorado feita à luz da Epistemologia Genética de Jean Piaget. Todos os educadores que desejavam compreender como se dá a aquisição da leitura e escrita pela criança, dedicaram-se à leitura da Psicogênese da Língua Escrita que, desde sua publicação em 1985, passou a ser uma referência internacional pois havia no país àquela época – e ainda há – grande preocupação com as altas taxas de analfabetismo ou com o analfabetismo funcional, condição daqueles que decifram textos e não os compreende e nem os utiliza socialmente para maior integração no mundo.

A pesquisadora esteve em Salvador, no Colóquio Internacional de Alfabetização promovido pelo Instituto Chapada de Educação e Pesquisa – ICEP – e na ocasião repetiu o que diz há 40 anos: “Alfabetização não é um estado, é um processo largo, longo, de início incerto e de final impossível”, para dizer que não é possível precisar o início desta aprendizagem e acrescenta que as mudanças no mundo contemporâneo nos impõem sempre novas aprendizagem sobre a leitura e a escrita. Para ela, estar alfabetizado significa transitar de modo eficiente numa vasta trama de práticas sociais ligadas à escrita.

Neste contexto, destaca a revolução tecnológica como um fato que naturalmente redefiniu todas as profissões e assim fará com o fazer docente. Os professores mudaram com os novos recursos interativos, os modos de comunicação que são criados velozmente suscitam novos tipos de textos e criam novos comportamentos leitores e escritores que precisam ser estudados, diminuindo as tensões que se estabeleceram na complexa relação entre tecnologias e escolas.

Sobre a realidade do Brasil, Ferreiro avalia que “está em curso uma mudança sensível em relação à escolarização. Muito mais crianças e jovens em idade escolar estão nas salas de aula. Agora, vem o mais importante: o desafio da qualidade da aprendizagem. Não basta ocupar todas as carteiras. É preciso ensinar.”

Para a pesquisadora, quando se propõe problemas interessantes, é possível ver as crianças fazerem buscas particularmente inteligentes na internet. Este suposto problema a ser discutido e pesquisado coloca os alunos diante de informações que devem ser confrontadas, hierarquizadas, organizadas. Afinal, o Google não lê e compara, este é um trabalho do leitor.

Estar alfabetizado no século XXI exige muito mais, “não se pode fazer mais do mesmo”, diz Emília. Deste evento participaram também Telma Weisz, Regina Scarpa e Claudia Molinari, educadoras que discutem ações possíveis para uma efetiva formação de leitores e escritores, em programas de formação continuada de professores. No Instituto Anísio Teixeira, temos diversos projetos cujo objetivo é o desenvolvimento das competências de leitura e escrita para alunos da rede estadual e, deste modo, trazemos aqui um convite aos professores para que conheçam as ideias de Emília Ferreiro e busquem articulação entre estas e as propostas educativas das escolas onde atuam. Temos novas perguntas e devemos ir construindo coletivamente nossas respostas.

Discutindo a possibilidade do avanço tecnológico gerar o desaparecimento do livro, Emília cita Umberto Eco e encerra assim sua participação no Colóquio: “O livro é perfeito, o livro não vai desaparecer”. E acrescenta como Eco, “… o livro é perfeito como a roda e a colher.”

 

Lilia Rezende

Pedagoga, Rede Anísio Teixeira

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2 thoughts on “A Alfabetização e as Novas Tecnologias, por Emília Ferreiro

  1. Sim, o livro é perfeito e traz consigo um significado afetivo para quem o lê e o indica a uma amigo…

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