O Dia da África e o Trabalho no Brasil: para além do samba e do futebol

Em 1963, no dia 25 de maio, numa reunião na cidade de Adis Abeba, capital da Etiópia, chefes de Estado e Governo africanos se reuniram para discutir a unificação de lutas em favor das independências. O continente vivia um contexto de ideologias anti-coloniais, pois muitos países ainda se viam na condição de colônias de nações europeias, numa edição renovada e nefasta do colonialismo do século XVI.

Essa reunião resultou na criação da Organização da Unidade Africana, mais tarde chamada de União Africana com 53 países membros no continente e cuja data de criação – 25 de maio de 1963 – é lembrada a cada ano e celebrada em diversas nações africanas e também naquelas que foram destino de diásporas africanas, como o Brasil com o nome de Dia da África.

É sabido pela história e pelo senso comum o quanto os africanos contribuíram para a construção da sociedade brasileira. Chegados pelas vias da colonização portuguesa que negociou milhões de pessoas em condição de subalternidade para o continente americano, africanos da região do BenimNigéria Angola aportaram no litoral brasileiro e desde os meados do século XVI compuseram a base da estrutura social brasileira contribuindo sobretudo com o trabalho mais efetivo e de sustentação das economia canavieira (cana-de-açúcar), mineira (mineração) e da cafeicultura (café). Nesse processo, ao longo de mais de quatro séculos, africanos, indígenas e europeus (sobretudo portugueses) acabaram por dar forma à diversidade étnica e racial no Brasil.

Bandeira da União Africana

No final do século XIX e com a escravidão já abolida, ao invés de serem incorporados à sociedade brasileira pela via da empregabilidade, os descendentes de africanos foram afastados do trabalho formal em função da vinda de imigrantes de nações europeias que se tornaram a base do trabalho assalariado que se institui a partir de então.

Ao longo do século XX e com a complexificação do mundo do trabalho brasileiro, os afro-brasileiros passam a ser incorporados paulatinamente às estruturas formais de emprego, para além da informalidade a que já vinham acostumados compulsoriamente desde a abolição escravista que não os incluiu devidamente no projeto nacional.

Na indústria nascente, no comércio urbano, nas atividades rurais do interior do país e na cultura artística e esportiva que abria espaço (sem garantias nem segurança enquanto atividades sólidas economicamente), os afro-brasileiros continuaram sendo de extrema relevância para a manutenção de atividades produtivas e base da economia brasileira. Ao contrário do elemento indígena que diminuiu numericamente a olhos vistos, os descendentes de africanos no Brasil não puderam ser apagados da história, embora tenham sido tratados pelos grupos dominantes na sociedade brasileira sem a devida atenção.

Atualmente, algumas políticas públicas como a política de cotas raciais e alguns programas de inclusão no ensino universitário vêm atendendo de maneira indireta a demandas históricas de re-inserção dos afro-brasileiros nos lugares sociais mais cabíveis para a trajetória de contribuição objetiva na construção do Brasil. Mesmo com as dificuldades enormes encontradas, há advogados, cientistas sociais, literatos negro-mestiços e negros que podem ser elencados como ícones no Brasil. Cosme de FariasMilton Santos e Lima Barreto são exemplos importantes da presença de afro-brasileiros de destaque no mundo do trabalho no nosso país. Da primeira para a segunda metade do século XX, conquistas foram realizadas na ampliação de espaços profissionais para esse grupo social.

Embora, a música e o futebol sujam duas áreas tradicionalmente associadas à presença do negro no Brasil – e há uma relevância grande nessas duas áreas profissionais – é importante perceber que a contribuição social dos afro-brasileiros vai além e está associada histórica e geo-politicamente às manifestações anti-coloniais no próprio continente africano que se representam na criação da União Africana e às independências no continente africano.

Vale ressaltar que na Bahia, por exemplo, e no mesmo contexto de internacionalização das lutas africanas e da diáspora africana, na década de setenta do século XX, os movimentos políticos de afirmação identitária da negritude geraram consequências interessantes, como a criação do Bloco Afro Ilê Ayiê, um ícone cultural e emblema das lutas anti-racismo no Brasil.

O Dia da África não é mais importante que qualquer outro dia. Ele vem lembrar, apenas, o quanto é necessário se pensar sobre a história da humanidade em seus aspectos políticos e sociais. O continente africano ainda sofre muitas consequências de suas fissuras internas em relação com as pressões externas sentidas desde o século XVI. A saúde deste continente é precária, as condições de vida em geral ainda não alcançam os IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) compatíveis com a média mundial e justamente por isso, muitas epidemias de porte acabam por surgir e se expandir a partir de África.

Atualmente, ao falar sobre o Dia da África, é preciso que o Brasil tome para si a questão do debate sobre as relações com os países africanos enquanto nação irmanada na luta contra os malefícios da colonização, que foi nefasta também para o nosso país.

Neste mês de maio, em que nos reportamos ao trabalho enquanto ação humana fundamental, falar sobre as relações entre o continente africano e o Brasil é falar sobre nossa história e a construção do mundo do trabalho no Brasil. Trabalho esse que passa pela agricultura, pecuária, extrativismos, serviços, cultura e arte.

E você? Que tal consultar este material, disponível no Blog África Portal do Professor e pensar um pouco mais sobre o assunto?

https://africaportaldoprofessor.wordpress.com/

Ah! E aqui, um vídeo do Programa Intervalo, da TV Anísio Teixeira. Trata-se do episódio Heranças além do mar, do quadro Histórias da Bahia!

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/3882

Esperamos que você goste e possa debater com seus professores e colegas!

Conhecer é um bom caminho para sermos melhores!

Por Carlos Barros

Arte Educador

Cantor de Música Popular

Professor de História da Rede Anísio Teixeira

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