LSKB e Índios Surdos

Português, Libras, japonês, francês, inglês ou alemão. Qual dessas línguas você conhece? E a LSKB? (Língua de Sinais Urubu-Kaapor). Ainda não? Então vão aí algumas informações: LSKB é a língua de sinais criada e utilizada cotidianamente pela tribo indígena Urubu-Kaapor que, para @s não índi@s, existe há mais de trezentos anos.

indios-urubu-kaaporO antropólogo e ex-senador Darcy Ribeiro desenvolveu estudos com essa tribo, a partir de 1949, evidenciando um histórico pouco amistoso entre @s kaapor e não índios, muitas vezes relacionado à demarcação do território indígena em relação a posseir@s, madeireir@s e outr@s. Kaapor, que em tupi-guarani significa povo da mata (ka’a= povo e por= mata) é considerado um dos povos muito resistentes à aculturação. Esses indivíduos concentram-se ao sul do Maranhão e no Estado do Pará, numa área de aproximadamente 530 mil hectares, homologada pelo Decreto nº 88.002, em 1982. De acordo com depoimento do índio Valdemar Kaapor, os seus antepassados eram númerosos, mas estima-se que atualmente essa população seja composta de mais ou menos 1500 indivíduos.

Pronto! Voltemos à LSKB! Existe uma alta incidência de surd@s entre @s kaapor. A relação é de um@ surd@ kaapor para cada setenta e cinco ouvintes da tribo. Por conta disso, são multilíngues e ágrafos. Como assim? Alguns falam o português oral, o ka’apor oral e a língua de sinais ka’apor, a LSKB. Poucos são os estudos relativos a essa tribo e, por extensão, a LSKB. Nessa comunidade, índi@s surd@s e ouvintes interagem com essas línguas no seu cotidiano, sem grandes dificuldades. Desde o nascimento são imers@s num ambiente onde a língua oral (kaapor) e a sinalizada (LSKB) é uma necessidade na interação, levando-nos a pressupor que não haja um ensino da LSKB à parte, como ocorre entre a língua portuguesa e a Libras.

Na condição de construto social, sabemos que a língua é desenvolvida pela humanidade ao longo do processo evolutivo filogenético (evolução da espécie) e ontogenético (evolução do indivíduo). Os humanos a utilizam como meio de sobrevivência. Imbricada nas relações de poder, tem força para integrar, submeter um povo ou, até mesmo, fazê-lo desaparecer. A questão é tão séria que existe até uma Declaração Universal dos Direitos Linguísticos. Pensem aí: por que a necessidade de criá-la?

Por isso, é de fundamental importância valorizar a nossa língua, respeitar a dos outros e ainda aprender tantas línguas o quanto for possível. É uma forma de empoderamento e de acesso à herança cultural da humanidade. Trazer informações sobre a LSKB pode contribuir para manter vivo um patrimônio brasileiro que ainda carece muito de pesquisas e de valorização. A diversidade linguística é uma riqueza e sua proteção, indispensável.

Profª. Elzeni Bahia Gois de Souza

 

REFERÊNCIAS

Um senador na aldeia indígena – Rev. bras. Ci. Soc. vol. 13 n. 36 São Paulo Feb. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-6909199800 0100017  . Acessado em: 15 de março de 2015.

Povos Indígenas no Brasil. http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kaapor/1739. Acessado em: 23 de março de 2015.

RODRIGUES, Ayron. Panorama das Línguas Indígenas da Amazônia. http://www.comciencia.br/reportagens/amazonia/amaz6.htm. Acessado em: 20 de março de 2015.

Povo Kaapor apresenta: Nossa Terra. https://www.youtube.com/watch?v=5qvmVX-wGks.

Acesso em 25/03/2015.

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