Vai câmera. Vai áudio. Sou índio. Ação!

Os povos indígenas não querem apenas terra, querem diversão e arte. E aí, galera! O que vocês acham disso? Vamos trocar uma ideia sobre os povos indígenas e suas produções audiovisuais?

Bom, vamos nessa. Perguntei ao meu filho de seis anos: “Como você imagina os índios?” E ele responde – A professora me falou que são aqueles povos que vivem na floresta e pinta nas paredes. Pensei: ainda hoje se ensina com saudosismo o que são e a que lugar “pertencem” os povos indígenas? Foi, então, que convidei meu filho para assistir comigo a um vídeo chamad1o “ Indígenas Digitais”, filme este que mostra que os indígenas estão longe de ser resquícios de uma história viva, “restos” de um passado de massacre e aculturações. Os povos indígenas, além de serem etnias vivas, são contemporâneos em suas narrativas. Meu filho, depois de assistir ao vídeo, questionou: “Papai, então eles também filmam?” “Sim, meu querido!” Além de viver intensamente sua cultura, agora eles utilizam as novas tecnologias para contar suas histórias e como instrumentalização de suas lutas. A proximidade dos povos indígenas com as regiões urbanas possibilitou diversas experiências não vivenciadas por eles antes, tais como o uso de recursos utilizados por não índios, incluindo as tecnologias da informação e da comunicação, que foram incorporadas à cultura indígena. É importante deixar claro que a tecnologia não pode ser vista como a vilã da história. Ela não pode ser entendida e gerenciada como carrasco, aprisionando e escravizando a sociedade indígena. Pelo contrário, ela tem que ser entendida e mediada como elemento conciliador entre as lutas e os processos de afirmação cultural.2

É por meio da tecnologia que os povos indígenas, amplificam ainda mais, seus contatos com outras etnias. Dessa maneira, fortalecem o diálogo a respeito de suas lutas e direitos. “Estar conectado à internet ajuda a encurtar as distâncias entre nós e outros povos” relata Poran Potiguara. Não basta estar apenas conectado, antenado, o importante é não perder de vista o porquê disso. O protagonismo dos povos indígenas depende do grau de envolvimento de sua afirmação como povo, da certeza de sua territorialidade, do fortalecimento e apropriação de sua identidade. A tecnologia deve ser compreendida como elo entre suas narrativas e a mediatização do mundo contemporâneo, e não como autora do processo, ditando suas regras.

Todos queremos estar integrados. Somos voyeurs de nossas histórias, diretores de nossos sonhos, personagens de nossa caminhada no mundo. Hoje, temos redes sociais, smartphones, câmeras fotográficas que filmam; mas, antes de tudo, temos linguagens, essas que são múltiplas em seus universos, como a linguagem de trânsito, da oralidade, do gestual, das artes e do audiovisual. Todas elas nos ajudam a contar uma história por meio de significados, símbolos e técnicas. Para Roger Chartier, “a leitura é sempre apropriação, produção de significados”.

3A apropriação de uma linguagem liberta amplifica seus horizontes. E é com esse intuito que os indígenas se mostram curiosos e executores dos diversos formatos audiovisuais e suas tecnologias, com a proposta de intensificar seus campos de atuação, comunicando-se cada vez mais com outros povos indígenas, fortalecendo sua cultura, fortalecendo suas conquistas. Para o cinegrafista Winti Suyá, “tem que mostrar a cultura de outro para outro, para ele reconhecer como é a festa dele, como é a cultura, a língua … né?”.

Os povos indígenas constroem a sua própria linguagem e, hoje, é também por meio do audiovisual que eles contam suas narrativas, sua percepção de mundo, sua presença real. 4

Aliadas à vontade e aos saberes indígenas, existem diversas ações que associam a cultura desses povos à produção audiovisual própria, iniciativas como os projetos Vídeo nas aldeias, Oca Digital, Pajé Filmes, Anaí , dentre outras que contam, efetivamente, com a participação e realização dos povos indígenas.

Se ligue, galera! Os povos indígenas não são povos antigos, são povos contemporâneos e em intensa construção!

Confira mais no Ambiente Educacional Web.

Anauê!

Referência:

Gerlic, Sebastián e Zoettl, Peter Anton (orgs.), Índios na visão dos índios: Potiguara, Salvador – BA: Thydêwá, 2011;

Machado, Arlindo. Pré-cinema & pós-cinema. Ed. Papirus, São Paulo – SP, 2011;

https://www.facebook.com/OCADIGITAL.ART.BR. Acesso em 19 de março de 2015.

https://vimeo.com/11283052. Acesso em 19 de março de 2015.

https://www.youtube.com/user/VideoNasAldeias/videos. Acesso em 19 de março de 2015.

http://www.videonasaldeias.org.br/2009/. Acesso em 19 de março de 2015.

http://paje-filmes.blogspot.com.br/. Acesso em 19 de março de 2015.

https://www.youtube.com/user/Pajefilm. Acesso em 19 de março de 2015.

http://www.indiosonline.net/ Acesso em 19 de março de 2015.

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/3323

http://ambiente.educacao.ba.gov.br/tv-anisio-teixeira/programas/exibir/id/3820

Texto e fotos – Peterson Azevedo

Geógrafo, Professor e Fotógrafo documental

Professor da Rede Estadual de Ensino da Bahia

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One thought on “Vai câmera. Vai áudio. Sou índio. Ação!

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