Acessibilidade, Matemática e Tecnologia

A acessibilidade ainda é um grande problema nos grandes centros urbanos. Trafegando pelas ruas, encontramos facilmente vagas especiais ocupadas irregularmente, rampas de acesso projetadas fora das especificações técnicas, ausências de banheiros adaptados, entre outros problemas. Conversando com um aluno portador de deficiência, ele me relatou que a maior dificuldade encontrada estava relacionada às rampas de acesso. Segundo ele, muitas delas são construídas de forma inadequada. Do bate-papo, surgiram alguns questionamentos: “Será que as rampas de acesso presentes em espaços públicos, repartições e escolas estão adequadas para os portadores de deficiência? Como saber se um local é ou não acessível? De que forma a Matemática ensinada nas escolas poderia ajudar essas pessoas?”.

A Matemática está presente em quase tudo. É possível encontrá-la nos códigos de barras, nas contas de luz, água e telefone, nas complexas equações que regem o nosso Universo e também nos projetos de rampas de acesso. Atualmente, segundo o IBGE, a cidade de Salvador possui mais de 600 mil portadores de deficiência, o que representa aproximadamente 20% dos mais de 2,8 milhões de habitantes da capital baiana.  Ainda que a Lei 5.296/04, que regulamenta a legislação da acessibilidade, garanta a inclusão dos portadores de deficiência na sociedade, percebemos que muitos espaços públicos não possuem rampas de acesso ou a construção adequada delas. Isso indica que a legislação não vem sendo cumprida, prejudicando o direito de ir e vir destes cidadãos.

A construção de rampas segue normas que são regulamentadas pela NBR 9050. Existem regras a serem seguidas na hora de determinar a inclinação de uma rampa. Esse quesito é muito importante, tendo em vista que o esforço físico dispensado por um cadeirante deve ser o mínimo possível. Segundo a Mecânica newtoniana quanto maior a inclinação da rampa, maior será a força necessária para equilibrarmos e deslocarmos um corpo sobre ela. Para a NBR 9050, o valor da inclinação da rampa é a razão entre a altura e o comprimento dela, expresso em porcentagem. Ou seja:

André Soledade. IAT

André Soledade. IAT

André Soledade. IAT

André Soledade. IAT

Por exemplo: uma rampa com 8% de inclinação é aquela em que o valor da altura corresponde a 8% do valor do comprimento. Então, quando se tem um rampa de 2m de comprimento, o desnível ou altura dela será 8% de 2m. A operação fica assim: 0,08 x 2 = 0,16m de desnível.

Muito bem, mas como saber qual é a inclinação necessária para vencer o desnível entre a rua e o acesso a uma loja, por exemplo, quando conhecemos o valor do desnível? É aí que entra a norma NBR 9050. Vejamos o que ela diz acerca da inclinação:

tabela NBR

Como podemos notar, quanto maior for a altura que se quer vencer, mais suave deverá ser a inclinação da rampa para que portadores de deficiência possam acessá-la sem dificuldade. O que justifica a dificuldade que muitos deles vivenciam ao tentarem subir rampas que não obedecem as normas da NBR 9050.

Tomemos um outro exemplo, para melhorar nossa compreensão: um estabelecimento ou mesmo uma calçada, cujo desnível é 20 cm, terá, segundo a tabela acima, uma inclinação de 8,33%. Efetuando os cálculos:

cálculos

Ao concluir os cálculos, percebemos que a rampa é muito comprida, o que pode ser comprometido pela falta de espaço para que ela seja contínua.

Para resolver esse problema, podemos trabalhar a rampa de acesso em segmentos, sempre colocando patamares entre eles. Assim, cada segmento vence um desnível menor do que o desnível total a ser vencido, e por isso pode ter uma inclinação um pouco maior, ocupando menos espaço. Observe que essa solução, além de resolver a questão do espaço ocupado pela rampa, possibilita ao cadeirante repousar entre um segmento e outro dela.

A Matemática por trás do projeto de rampas de acesso nos mostra que as aplicações da geometria plana vão muito além dos problemas de sala de aula, e que podemos, através de conceitos básicos, melhorar a vida de quem precisa enfrentar diariamente ausência de rampas em calçadas, prédios, escolas, repartições públicas, cinemas e teatros. Também é necessário estar atento às normas e especificações técnicas na hora de construi-las. Foi pensando nestes problemas, que o ativista  alemão Raul Krauthausen, criou o Wheelmap, site e aplicativo para smartphones que mapeia a acessibilidade de locais para cadeirantes, classificando-os em verdes, quando os locais são acessíveis; amarelos, quando são parcialmente acessíveis; vermelhos, quando não são acessíveis e cinza, indicando que não existem informações sobre o local, deixando que as pessoas os classifiquem, em acessíveis ou não. Uma iniciativa inédita, que visa informar quais locais públicos estão preparados para receber os portadores de deficiência.

Acessando recentemente o mapa de Salvador através do aplicativo, descobrimos que muitos locais são marcados como cinza, o que significa que nós não temos informações sobre eles, mas pode-se adicioná-las facilmente. E você vai fazer a sua parte? Baixe o aplicativo no seu smartphone ou acesse o site, e contribua com informações sobre locais públicos da nossa cidade!

Um abraço e até o próximo Matemática e cotidiano!

André Luiz Santos da Soledade

Professor de Matemática da Rede Pública Estadual

 

Referências:

http://atarde.uol.com.br/noticias/5834170, acessado em 09/01/2014

http://www.arquitetonico.ufsc.br/como-projetar-rampas, acessado em 09/01/2014

http://wheelmap.org/en/, acessado em 06/08/2014

http://tvbrasil.ebc.com.br/programaespecial/episodio/programa-especial-revela-iniciativas-de-apoio-a-acessibilidade#media-youtube-1, acessado em 06/08/2014

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