A crítica e a resistência na arte do Bando de Teatro Olodum

O Bando de Teatro Olodum foi fundado em outubro de 1990; o espetáculo Cabaré da RRRRRaça esteve envolvido numa polêmica mesmo antes de estrear;  hoje em dia, não existe nenhum vínculo entre  a banda Olodum e o Bando. Essas e outras informações estão presentes na estimulante biografia O Teatro do Bando: negro, baiano e popular, escrita pelo jornalista soteropolitano Marcos Uzel. Nela, Marcos convida o leitor a fazer um passeio por toda a trajetória do grupo criado por Márcio Meirelles e Chica Carelli. “A intenção é que sirva como um documento para a memória do teatro baiano”, é o que afirma Uzel, numas das páginas da obra, lançada em 2003.

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Foto: Vitor Moreira

O Bando de Teatro Olodum nasceu de uma inquietação da conhecida banda afro, que, com o nome consolidado no âmbito musical, queria estender as suas ações na área de teatro e de dança. Para isso, no segundo semestre de 1990, convocou o diretor teatral Márcio Meirelles para comandar a audição que escolheria os atores do novo projeto. A Casa do Benin, no Pelourinho, serviu de local para os testes dos jovens baianos, negros em sua maioria, que queriam agarrar aquela oportunidade. Em 25 de janeiro de 1991, o Bando estreava o primeiro espetáculo, intitulado Essa é nossa praia.

Uma das características mais evidentes no trabalho do Bando de Teatro Olodum é a discussão crítica sobre o lugar do negro na sociedade brasileira. Isso, inclusive, motivou a escolha do nome, uma sugestão de Márcio Meirelles. Quando ele deu a ideia de batizar o grupo com o termo “bando”, boa parte do elenco não gostou, porque achava que as pessoas iam associar a algo negativo. Mas Márcio argumentou e, mesmo sem agradar a todos, o nome foi aceito. De acordo com Marcos Uzel, “ a expressão dava a ideia de reunião de pessoas e era uma referência à turma de escravos que fugia das senzalas para os quilombos”.

Na narrativa, Uzel fala sobre os desafios que o grupo teve ao longo dos anos, as premiações, a montagem de textos clássicos, como Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare, e a importância do Bando para a arte brasileira e autoestima da população negra. O autor enfatiza também as peças do grupo que foram bem-sucedidas, como Ó pai ó! e Cabaré da RRRRRaça. Cabaré, que é o maior sucesso de público do Bando, já nasceu com polêmica: Márcio Meirelles e o elenco resolveram que os ingressos dos espectadores que se assumissem como negros, durante a temporada da peça, custariam metade do preço. Isso teve repercussão nacional negativa e marcou o rompimento definitivo do pouco vínculo que existia entre a companhia teatral e a banda Olodum. Hoje, a única coisa em comum entre a banda e o Bando, é o nome.

Ao longo dos anos, o Bando revelou nomes como Leno Sacramento, Arlete Dias, Rejane Maia, Jorge Washington, Valdinéia Soriano, Cásia Valle, Lázaro Ramos, Érico Brás, Virgínia Rodrigues e Auristela Sá. O grupo segue escrevendo uma importante história nas artes cênicas do Brasil e na luta pela igualdade social.

Referência: UZEL, Marcos. O teatro do Bando: negro, baiano e popular. Salvador: P555 Edições, 2003, 294p. (Cadernos do Vila).

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