Radiola PW: Respeitem meus cabelos, brancos

 Oi, pessoal! Tudo bem? Dentro de nossa programação do Novembro Negro, vamos falar de aspectos da arte e da cultura que dialogam com nossa identidade negra. Como novidade, estamos estreando a seção Radiola PW, em que analisaremos letras de músicas que trazem temáticas e assuntos interessantes. Hoje, vamos destacar uma canção que foi composta pelo cantor paraibano Chico César. A música Respeitem meus cabelos, brancos foi lançada no álbum homônimo, em 2002. Nela, Chico entoa um grito de liberdade e de respeito aos vários povos negros. Confira a letra:

Respeitem meus cabelos, brancos

(Chico César)

Respeitem meus cabelos, brancos

Chegou a hora de falar
Vamos ser francos
Pois quando um preto fala
O branco cala ou deixa a sala
Com veludo nos tamancos

 Cabelo veio da África
Junto com meus santos

Benguelas, zulus, gêges
Rebolos, bundos, bantos
Batuques, toques, mandingas
Danças, tranças, cantos
Respeitem meus cabelos, brancos

Se eu quero pixaim, deixa
Se eu quero enrolar, deixa
Se eu quero colorir, deixa
Se eu quero assanhar, deixa
Deixa, deixa a madeixa balançar

Na primeira estrofe, o compositor traz uma mensagem direta e enfática: ele pede o respeito dos “brancos” e exige sinceridade para lidar com as questões acerca das características físicas de parte do povo negro. Nesse sentido, faz um interessante jogo de palavra com os vocábulos “brancos” e “francos”. Mas, como o termo “cabelos” atua também como metonímia, essa referência ao fenótipo negro é o que está evidente, na superfície. Na verdade, Chico chama a atenção para que o debate em torno das dificuldades que @s negr@s enfrentam no cotidiano, em pleno século XXI, não deixe de ser feito. Ninguém deve se esquivar e deixar a sala “com veludo nos tamancos”. O respeito exigido na música é em relação a todos os aspectos da negritude.

Em artigo publicado no primeiro semestre de 2012, na Revista Famecos, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), intitulado Respeitem meus cabelos, brancos: música, política e identidade negra, em que fazem uma análise da música de Chico César, Felipe Trotta e Kywza dos Santos afirmam que o discurso de Chico “dirige-se contra uma posição social. Não são exatamente pessoas concretas, mas papéis condensados em atitudes racistas e faltas de respeito” (p. 243). Ou seja, a mensagem que Chico quer passar vai muito mais além daquilo que está escrito.

Num texto publicado no seu site oficial, ao falar da canção, Chico declara: “Quando digo ‘respeitem meus cabelos, brancos’ não falo só de mim nem quero dizer só isso. Debaixo dos cabelos, o homem como metáfora. A raça. A geração. A pessoa e suas ideias. A luta para manter-se de pé e mantê-las, as ideias, flecheiras. É como se alguém dissesse ‘respeitem minha particularidade’. É o que eu digo, como artista brasileiro, nordestino, descendente de negros e índios. E brancos. Ou ainda no plural: minhas particularidades mutantes. Fala-se em tolerância. Pois não é disso que se trata. Trata-se de respeito”.

Já nas 2ª e 3ª estrofes da música, Chico César justifica o seu grito remetendo aos povos que estão na origem de tod@s @s negr@s. O autor fala de grupos étnicos oriundos da África e enfatiza que o cabelo veio desse continente. Nas entrelinhas, é como se Chico alertasse que as características dele e das etnias das quais descende devem ser respeitadas, pois são motivo de orgulho entre os seus.

Por último, Chico enumera as diversas formas de cabelo que uma pessoa pode assumir e clama pela liberdade dessa ação: “Deixa a madeixa balançar”. Na versão em áudio da música, ao pedir para que a sociedade deixe cada um se expressar à sua maneira, o intérprete acrescenta a pergunta: “Fui claro?”. Não precisa dizer mais nada, não é?

 Quem é Chico César

Francisco César Gonçalves, o Chico César, nasceu em Catolé da Rocha, interior da Paraíba. É formado em jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba e exerceu a profissão até 1991, quando decidiu se dedicar somente à música. Com 49 anos de idade e 22 de carreira, Chico César é um dos artistas mais aplaudidos da Música Popular Brasileira. Autor de canções como “Mama África”, “À primeira vista”, “Pensar em você” e “Pétala por pétala”, o cantor se reinventa a cada trabalho que faz. Além da música, passeia pela literatura também. Já escreveu dois livros: “Cantáteis (Cantos Elegíacos de Amozade”, de 2005; e “rio sou francisco” (assim mesmo, com minúsculas!), de 2012. Atualmente, é Secretário de Estado da Cultura da Paraíba.

Anúncios

4 thoughts on “Radiola PW: Respeitem meus cabelos, brancos

  1. Pingback: Radiola PW -Baculejo | Professor Web

  2. Pingback: 2014 com mais educação, tecnologia e interação | Professor Web

  3. para que preconceito se o futuro é a morte
    pois não importa se temos a cor da pele diferente pois para Deus somos todos iguais…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s