Mês da Consciência Negra – Mês da Revolta dos Búzios

Novembro, mês em que comemoramos a Consciência Negra, não podemos deixar de lembrar aqueles que são exemplo de luta, coragem e não aceitação das condições desiguais em que viviam. Estamos falando da Revolta dos Búzios, movimento também conhecido como Revolta dos Alfaiates (ou conjuração Baiana).

O movimento,  aconteceu no ano de 1798 e foi um dos primeiros na História do Brasil a ter participação popular de caráter abolicionista com a ideia de luta por um sonho de liberdade. Seu surgimento ocorreu entre um grupo de pessoas, cuja maioria era de mulatos e negros que partilhavam do mesmo ideal libertador, ganhando força com a influência da filosofia Iluminista, vinda da Europa, sobretudo com as notícias da Revolução Francesa.

Os relatos iniciais sobre o fim da monarquia e instalação da república na França, chegaram à Bahia através de livros, folhetos e jornais vindos da Europa e, mesmo com toda vigilância e as severas restrições impostas pelas autoridades, essas novas ideias resultaram no fomento de muitas discussões acerca de outras perspectivas da vida para o povo negro. Vale salientar que, além dos negros, soldados e alfaiates participaram também, membros de outras camadas da sociedade a exemplo de pequenos comerciantes, o médico Dr. Cipriano Barata e o professor Francisco Muniz Barreto que também convergiam dos pensamentos republicanos e abolicionistas.

As notícias da Revolução Francesa, serviram como inspiração para um grupo que também tinha o desejo de igualdade, liberdade, onde a cor da pele não servisse como motivação para um tratamento desumano, algo que era praticado cotidianamente naquela época. Este grupo,  formado por intelectuais, alfaiates, militares e pessoas em geral, passou a se reunir de forma clandestina para discutir questões sociais com propostas de emancipação política. Logo alguns boatos sobre uma possível conspiração começaram a surgir fazendo com que o então governador dom Fernando José de Portugal tomasse algumas providências, mandando punir (roda-de-pau) os suspeitos das reuniões. Todavia, a real motivação daqueles homens permanecia viva; e foi num momento oportuno, durante o batizado do filho de Lucas Dantas, que os insurretos conversaram de forma decisiva sobre um levante armado. Sucedendo-se reuniões em que eles faziam críticas ao governo e discutiam  formas de se estabelecer  na Bahia um governo democrático, livre e independente, no qual  pretos, pardos e brancos gozassem de diretos iguais, de acordo com o que disse Lucas Dantas: “fazer uma guerra civil entre nós para que não se distinga a cor branca da parda e preta”.

Em agosto de 1798, surgiram na cidade diversos boletins escritos à mão anunciando que era chegada a hora da revolução. Esses boletins causaram preocupação nas autoridades que logo trataram de investigar de onde havia partido o plano conspirador e cuidaram de reprimir, punindo severamente qualquer forma de manifestação contrária ao governo. Em um dos boletins, conhecidos como sediciosos, falava-se da esperança de dias melhores e da união do povo como condição para o “progresso” anunciado que viria junto à nova forma de governo.

Através das letras contidas nos boletins, autoridades chegaram a um dos suspeitos, o soldado Luís Gonzaga das Virgens, prendendo-o e descobrindo todo o plano depois de vasculharem seu quarto e outras anotações que vinham sendo feitas, em seu diário há alguns anos. Perceberam que se tratava do autor dos anúncios. Com a prisão de Luís Gonzaga, os demais marcaram uma reunião decisiva para definir as táticas do levante, porém alguns dos convidados, agindo de maneira leviana, informaram as autoridades sobre os planos para libertar além de Luís Gonzaga, a todos que sofriam com todas as formas de repressão.

Depois de invadirem a reunião, no dia seguinte tiveram início os mandados de prisões, no entanto, muitos do que eram considerados “conjurados”, mesmo recebendo ordem de prisão, não tiveram iguais punições em relação aos quatros que foram condenados à morte, evidenciado que a punição foi sobre tudo em função condição social e racial do daquele grupo. Quatro foram condenados pelo crime de lesa-majestade, o tipo de crime mais grave daquela época. Dos quatros, dois eram alfaiates: João de Deus do Nascimento e Manuel Faustino dos Santos Lira; e dois eram soldados: Lucas Dantas de Amorim Torres e Luís Gonzaga das Virgens, todos eram mulatos. Foram mortos por enforcamento seguido esquartejamento, depois distribuídos por várias partes da cidade.

A morte dos líderes da Revolta dos Búzios seria uma forma de demonstrar o peso da Coroa sob aqueles que, de alguma forma, tentassem se rebelar contra o seu poder. Porém, as ideias deixadas por eles permaneceram vivas, servindo como inspiração para muitos, até os nossos dias. Como constava em um dos boletins encaminhado ao povo: Animai-vos povo baiense…

Referência:

Tavares, LuísHenriqueDias Tavares, Bahia 1798. São Paulo: Editora Ática S.A, 1995.

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