Mês da Consciência Negra – A Festa da Resistência

Bloco Afro de Itapuã revigora os ideais de luta do povo Malê

O carnaval de Salvador é tido como a maior festa popular do mundo. Milhares de pessoas, nativos e turistas, agrupam-se para dançar e cantar ao ritmo dos trios elétricos, invenção baiana que já conquistou o planeta. Mas essa festa não é feita apenas de axé music e nem dos grandes blocos de trio. O som dos tambores da África também colabora para formar a identidade dessa manifestação cultural. Os blocos afro, além de resgatarem a cultura dos negros, também aproveitam o momento para expressarem seus protestos. O Bloco Cultural Carnavalesco Malê Debalê é um exemplo disso, uma vez que aproveita as folias de Momo para disseminar a história de seus ancestrais.

O Malê Debalê é um dos mais antigos blocos afro da Bahia. Ele foi fundado em 1979, por moradores de Itapuã, com o objetivo de representar seu bairro nos carnavais da cidade. Instalado no Parque Metropolitano do Abaeté, num espaço que foi reformado pela Prefeitura de Salvador, em novembro de 2004. A quadra, onde acontecem os ensaios, apresenta uma decoração que lembra as tribos africanas, utilizando tecidos coloridos, objetos de palha e instrumentos de percussão.

De acordo com o documento “Muito Prazer, Malê Debalê”, “o nome do bloco é uma intencional homenagem aos Malês, negros muçulmanos que lutaram contra o processo de escravidão, representando na Bahia, uma resistência ativa”. Seus 3 mil integrantes buscam demonstrar nas ruas, como eles preservam os ideais de seus antepassados. As dificuldades são muitas. Conseguir patrocínio não é fácil, até porque o horário do desfile dos blocos afro, sempre durante a madrugada, não ajuda. O professor de dança Renê Cardoso conta: “Eu lembro que, uma vez, a ala que  eu era o responsável só tinha criança. Às 8h da manhã, elas continuavam animadas, dançando sem parar, vencendo o cansaço de horas de desfile”.

Mas não é só de carnaval que vive um bloco afro. Trabalhos sociais são desenvolvidos por essas entidades. “Temos um convênio com a Secretaria Municipal de Educação. Trabalhamos com 360 crianças de seis escolas municipais de Itapuã e da redondeza, levando a história da cultura negra, através dos tempos”, conta Lucília Dias, coordenadora educacional. As atividades promovidas nas escolas consistem em momentos lúdicos, utilizando a dança, o teatro e a arte.

A comunidade de Itapuã também é beneficiada. Vera Monteiro, moradora do bairro, afirma que a Diretoria do Malê tem a preocupação de inserir os vizinhos em sua quadra: “Eles buscam favorecer as pessoas que vivem aqui, são oferecidos cursos de dança, Inglês, percussão e capoeira, melhorando nossa condição de vida”.

 

Saiba um pouco mais:

 

A Descoberta de uma Identidade

 

De acordo com o professor de Sociologia da UFBA, Milton Moura, em seu artigo “Um Mapa Político do Carnaval em Salvador”, no final dos anos sessenta, o “Pólo Petroquímico de Camaçari criou um novo tipo de operário. Negro e próspero, como o petroleiro e, além disso, sintonizado com movimentos políticos e culturais em algumas partes do mundo”.

Segundo o professor, alguns fatores externos contribuíram para o novo posicionamento dos negros baianos, como lutas políticas nos novos países africanos, a explosão dos ritmos caribenhos e o sucesso de algumas bandas de cantores negros norte-americanos. Desta forma, os afrodescendentes de Salvador passaram a assumir sua negritude e isso se refletia na forma de agir e se expressar, como usando o cabelo black power ou ratafari, ou seja, as dreadlocks.

Moura afirma que foi, nesse contexto, que se formaram os blocos afro e novos afoxés. Mas, dos criados naquela época, o único que sobreviveu foi o Ilê Ayê, de 1974. O Ilê marcou a história do carnaval como expressão cultural e forma de identificação do ser afro: “O repertório dos blocos afro e dos novos afoxés, como Badauê, era divulgado pelas praias, nos ônibus, em ocasiões menos formais, etc. A imprensa não participou deste processo no início. Na virada dos anos oitenta, formaram-se vários outros blocos afro”.

Texto: Joalva Moraes

Educadora e Jornalista

Uma resposta para “Mês da Consciência Negra – A Festa da Resistência”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s